Os grupos ocultos de pluma ou ramo parecem inteiramente distintos da voz ouvida. A percepção pensa no último verso, e a experiência considera a fala. Penso na quantidade de pronúncias e de silêncios dessa mão. Elas são inumeráveis para a corda do instrumento. Pouco variados sobre o som nulo. Demônio da analogia, não sou mais que um objeto de oração, um fragmento retomado, pensamento sem predileção! Belo instante, sacada do termo léxico, sustentas, por meio de uma sílaba anterior, o vocábulo das aparições, a parcela daquilo que existe contra o labor da linguagem. Respiro o resto regenerado, como a faculdade poética que há na sonoridade antes do ar falso.
quarta-feira, 13 de agosto de 2025
segunda-feira, 11 de agosto de 2025
Noite nanquim — 15
O demônio da analogia me assiste. Asa plena. O punho cerrado e duro contém a diversidade das palavras em tom descendente — assim me sinto e me vejo. O total da pausa fatídica é mudo. A potência do vazio de significação, em toda a sua força, é o resumo e a negação do som nulo. Num estado de concentração aquecido, mais geral que a lembrança suportada, as asas se edificam sobre as palmas das mãos. Os dedos pelo artifício do mistério repousam as intenções intelectuais nesse mundo visível e possível. Tudo solicita uma especulação diferente. A obsessão de frases de uma queda anterior.
sábado, 9 de agosto de 2025
Feliz dia dos pais a todos os que compreendem o peso e a glória desse chamado. A paternidade é o destino das revelações. Aquele que é pai, sem que o saiba, é guardião de algo que ultrapassa todas as limitações da carne, da razão e do tempo. Ser pai é, acima de tudo, ser um vigia do interminável, aquele que testemunha o momento em que o eterno se faz corpo e, no silêncio de sua responsabilidade, se torna parte do Grande Ciclo, que nunca começa e nunca termina, apenas se transforma — incessantemente.
quinta-feira, 7 de agosto de 2025
A escrita navegante (o sonho das águas) — XII
No âmago da vigília incendiada, onde os ventos do enigma sopram cinzas de outras eras, afunda-se a lâmpada das noites sem alento, nutrida pelo âmbar viscoso da dúvida. Engrenagens de trevas mastigam o lodo imóvel dos séculos, devorando vestígios de lábios que nunca disseram, de olhos que jamais se voltaram, de dedos que tatearam a ossatura do invisível e nela inscreveram, a sangue e espasmo, o epitáfio daquilo que nunca foi. Em brasa, arrasta-se o verbo desfeito, insculpido sem repouso sobre a rocha surda da escuridão, onde os astros, ainda em gestação, fermentam na paciência dos mortos. Golpe da noite, lâmina das órbitas declinadas, sulco onde o tempo afunda os punhos e se desfaz na poeira inominável. O anel das eras trinca sob a mão que escava, mas o que se ergue da ruína não é chão, não é nome, não é corpo: é fenda — espólio do que se ergueu e não se sustentou.
Quanto mais fundo se finca o ferro na carne líquida do abismo, mais o abismo regurgita em lavas cerradas, soldando sua ferida com o sangue daquele que a infligiu. O que se busca romper já se fechou antes da procura, porque aquele que desce já foi tragado antes do passo. Quem revolve o próprio escombro não cava senão a lápide da própria insurreição. A lâmpada, antes náufraga, sobe no turbilhão do próprio peso. E seu lume, exausto, derrama-se sobre o mesmo chão que nunca deixou de ser chão. No ponto onde a ausência molda seu ícone, algo se inclina sobre o vácuo e insiste, insiste, insiste — arrancando das estruturas famintas da eternidade uma fome ainda maior.
quarta-feira, 6 de agosto de 2025
Noite nanquim — 14
Na presença deste relógio porcelânico — e fora das diligências de outrora —, o espelho do mundo inteiro. A velha tinta de ouro no alto das janelas. As víboras desdouradas anunciam o velho almanaque. Todos os mortos. O antigo tapete. A veste desbotada. Os campos que não há mais. Os móveis proclamam e representam as teias aracnídeas e as grandes janelas. Tudo afirma todas essas coisas que existem neste exato momento — é outra coisa — e que existem como se não existissem. Na presença das flores, dos deuses, dos poemas, das coisas fenecidas — e fora dos objetos novos. Tudo distinto dos medos, igualmente distanciado de toda ousadia gritante e de toda ação. Somos palavras e restos malditos de uma frase absurda — tintas de caneta, traços de escrita e despejo de palavras. Não faço parte do que é iluminado pelos lábios. Minhas sensações não me pertencem.
segunda-feira, 4 de agosto de 2025
Noite nanquim — 13
Alguém observa o lobo aflorado e curvado. Espreita a gaia pantera. A cabeça fabulosa que emerge e submerge em constantes comoções, como a planície sem sendas onde o viajante do fundo do horizonte soergue e volta a afundar as palavras do poema. A vontade liberta o ser e compõe misteriosamente a necessidade invencível de andar. Há no cinza celeste a complexidade atmosférica do perfume que interroga os monstruosos animais, que acaricia e colore as costas do ser despido. Os músculos elásticos e poderosos se perdem e se fecham sem chão. O semblante resignado dos que foram condenados a esperar para sempre se enfraquece. O mármore de Baudelaire, num sonho, abre agora suas quimeras.
quinta-feira, 31 de julho de 2025
A escrita navegante (o sonho das águas) — XI
Escrever é dilacerar: verbo em torção, som que se devora e se revira, espasmo de significações que se dissipam e se inflamam, queimaduras do discurso nascidas da fricção entre sintaxe e abismo. Torvelinho semântico onde a frase se desfaz e refaz como a espuma que se dispersa sob o escaldante peso das marés. A escrita arrasta-se nesse vórtice de nomes exilados, que se desdobram na vertigem dos séculos, num balanço de forças submersas — a linguagem arfando como correnteza que erode e semeia.
Epidemia de ideias, convulsão de ideários: a palavra esparge-se pelo tempo, dissemina-se em ritmo de peste, impregna a carne e o osso da civilização, germina entre as rachaduras do esquecimento. Sempre à beira do colapso e da regeneração, a escrita não se extingue, transmuta-se como o vírus que se refaz na febre da própria dissolução. A língua insurge-se contra o cárcere da forma, revolta-se contra as margens impostas, derrama-se, labareda insaciável, incendiando a aridez das certezas.
Também o leitor, esse caçador de murmúrios, se lança ao labirinto do verbo, farejando vestígios no casco revolvido da memória, perseguindo sombras de sentidos, presságios do não pronunciado. Quem lê devora e é devorado, perde-se no emaranhado das sílabas, emerge outro, transfigurado, pois toda leitura é ritual, desnudamento, travessia iniciática pelos mares da acepção. Quem escreve fulmina inominável, acende faróis na tempestade do entendimento e desvia o curso da eternidade: arquiteto do inefável, convoca novos mundos para existir.
quarta-feira, 30 de julho de 2025
Noite nanquim — 12
O peso do poente submergido é imperceptível. O calor do imortal púbis difere do calor da sombra que eclode sobre toda a pele da meretriz. Pênis coroado de flores. Não há distinção entre o corpo vivo e o corpo informe cuja substância é substituída a cada novo estertor. Uma pessoa mistura-se à noite de horror e de escuridão que a rodeia. Alguém se dissolve. Toda sepultura é a ruína de alguma herança que o ladrão sonha. O homem se contempla e em si se vê sob a cúpula do planeta. Aquele que olha e que fala consigo mesmo maravilha-se com o gesto das víboras e das centopeias que ele domina (ou julga dominar). A cabeça pensante diverte-se com a bruxa que acaba de aparecer longínqua, obedecendo ao chamado dos gestos com magia.
segunda-feira, 28 de julho de 2025
Noite nanquim — 11
No templo de túmulos, a noite abocanha os sonhos apodrecidos da menstruação. Gostosa é a água da boca de esgoto. Perfeita esposa das gotas de lodo e rubis. O ídolo Anúbis se acomoda e se acalma, abominavelmente. Tudo flui quando as teias, desembaraçadas, são tão vivas quanto as aranhas. O focinho depõe com brutalidade seu uivo. Escorrega todo o comprimento em que se transformou sua mecha de trivialidade. Estira-se até encontrar o gás elástico. Sente o sentimento do poder distendido. Deleitosamente, ultrapassa opróbrios sustentados pelos dedos. Suas forças flutuam entre lâmpadas. Fundem-se na massa selvagem do véu. Sonham com vilas e vírus.
quinta-feira, 24 de julho de 2025
A escrita navegante (o sonho das águas) — X
Adentra-se o oceano de conceitos, não como quem navega, mas como quem é tragado pelo turbilhão das correntes que se enroscam sob o casco, amalgamadas em veias de pensamento submerso, enredado nas tramas da sintaxe abissal. O que se busca não são chaves, mas âncoras cravadas na madeira das palavras, códigos não cifrados, mas devorados, corroídos até que se liquefaçam em fonemas de espuma. O que há de ser encontrado jaz oculto na fenda, no espaço entre os signos onde o verbo afunda e se dispersa, onde a mão que escreve é o eco da mão que se desfaz na distância.
O contrafluxo das frases — a respiração oblíqua da linguagem — arrasta o leitor para dentro do labirinto que não se constrói por muros, mas por correntes marítimas. O discurso não se contém em seu próprio limite; fratura-se, estilhaça-se contra a carne pensante, abre sulcos na arquitetura do casco, onde o animal de raciocínio escava sua própria quilha. Eis aí a única chave que não abre portas, mas fendas na carcaça do sentido. A única saída é pelo corte.
O mar não é apenas metáfora, é substância: conchas vazias flamejam fonemas em um idioma que nunca foi falado; algas rasgam o fluxo em filigranas de conceito, onde a filosofia já não se distingue do vento que a impulsiona. O experimentalismo não é jogo, é fricção — combustão entre o nome e o indizível, entre a forma e a ausência, entre o sal e aquilo que ainda não secou. A voz das marés não se limita ao murmúrio; ela se desdobra em delírio acústico, espalha-se como o rumor que contamina a memória, fragmenta-se em partículas de luz negada, como se cada reflexo prenunciasse algo impossível de ser visto, mas que já assombra a retina com a promessa do inominável.
Nada há de se dizer que já não tenha sido dito, mas tudo o que foi dito ainda não encontrou a sua forma última. A chave que se busca é a própria impossibilidade de encontrá-la. E é nesse instante, nesse lapso onde a procura se torna sintoma, que a escrita encontra sua fenda: o intervalo entre duas correntes, o abismo entre dois arquipélagos, o tempo suspenso onde a linguagem se faz não pelo que diz, mas pelo que falha em dizer. A única chave que resta é a que não cabe em escotilha alguma.
quarta-feira, 23 de julho de 2025
Noite nanquim — 10
Sei que aquele diadema com rubis cinzas contempla antigos lares, semimortos, nessa nudez heroica que se dissolve — dissolução da caneta poemática na primazia da sensação poética. Olho-o como se não tivesse minha fronte coroada. O interior lânguido de outrora sentiu as nuvens que ardiam. As mãos que sempre exageram se abrem com seus dedos sonolentos. Os dedos viram a mesma voz. Vejo-me ao lado da minha tocha. Devolvo o astro ao astro, astro por astro. Elevo o que é fogo ao fogo. Há aqui algo que é igual ao enredo escorchado.
segunda-feira, 21 de julho de 2025
Noite nanquim — 09
A alma bebe na fonte solitária. Bebe um pouco do crime. Um pouco da angústia. Medra, anjo estéril, recolhido, entristecido e refugiado em forma ígnea no voo. A laranjeira provoca suas respirações ali no extremo. Subsistem na altura pontiaguda desejos que se soltam. O Ocidente é esse gelo fragmentado que se derrete.
quinta-feira, 17 de julho de 2025
A escrita navegante (o sonho das águas) — IX
O símbolo e o osso. A quilha e o vestígio. Tudo gravado no vento e esculpido no fluxo das correntes. O verbo se abre como fenda no casco antigo, respiração oceânica de madeiras que rangem sob o peso das tempestades. O sopro dos signos é náutico, umidade entranhada nas cordas dos séculos, capilaridade do enigma. A palavra avança e retrocede, refluxo de marés herméticas, espelho convexo onde se reflete a sombra do sentido antes que o próprio sentido se manifeste.
A tessitura textual se dobra sobre si, carta de marear esgarçada, inquietação metalinguística que desarranja as coordenadas pétreas do entendimento. A letra é o sismo que desloca a crosta da certeza. A frase é o delta bifurcado que nunca alcança sua foz. A escrita não se pronuncia: retarda-se, suspende-se, embaralha-se no turbilhão da própria deriva. No umbral do conceito, o murmúrio dos pergaminhos náuticos que nunca cessam de desdobrar-se.
Mas ainda persiste o branco — imenso, inominável, como o ventre da baleia que engole navios e legados. Brancura de um silêncio que precede o naufrágio, horizonte sem linha onde o sentido se dissolve — espuma fria do infinito. Pavor. Irrompe o assombro como relâmpago sobre o dorso das ondas, onde ressoam as liturgias dispersas do pensamento tornado abismo, feito eco sem origem. Adamastor alucinado, a língua percorre seu próprio labirinto, ressurgindo na curva de outra contradição.
Deter a erosão dos sentidos, a hemorragia do interpretado, o delírio dos intérpretes que se perdem na bruma da exegese. Fazer do verbo um coral raro, irrepetível, lavrado na lâmina dos séculos. O oceano das significações é amplo, e o canto que nunca se permite ser escutado por inteiro desliza por entre suas águas. As palavras são gaivotas noturnas, voam rente às ondas e desaparecem antes do olhar alcançá-las.
quarta-feira, 16 de julho de 2025
Noite nanquim — 08
Corpo calmo e noite de cores. O povo tem seus pecados empurrados à direita e à esquerda por um beijo fastioso. Penetro nos cabelos torpes do incurável. O tempo é feito de atrocidade, negrume e palidez. Eu vos saúdo, leito que se oferta a todos os devaneios de um sono, começo do remorso! Que acontecimento para o espírito é a pobreza! Na tela proposta sobre os mortos, no sudário do nada e de todas as possibilidades, dormimos e velamos. Sou pedra e cidade a oferecer, a todo tempo, o coração, o seio desmedido.
segunda-feira, 14 de julho de 2025
Noite nanquim — 07
Noite, casa na colina, grande cadeira, baía e o cabo distante. Despojo-me agora de meus veleiros. Quem dirá como, através da hora crepuscular, a janela se conserva? O que foi transportado de um tempo a outro tempo do nada? Como ousar ao cair da noite? Quanta confiança na estrutura do brigue, na calma das direções contrárias, na ordem e na constância marítimas! Esta noite tu regressarás, lobo do mar! Teu reino é o navio no mar. Terrível cabo desconhecido. Guinada essencial. Curso invencível. Sem rumo. As coordenadas da verdade. Envolvidos nas escotilhas metálicas, não voltamos. Não apanhamos em flagrante o horizonte que mostra os portos misteriosos sobre a solidão do mar.
sexta-feira, 11 de julho de 2025
Ó Senhor do princípio e da partida, escuta:
Nenhumas velas rasgaram brumas tão virgens quanto as que o meu espírito, embarcação naufragada em verbo, velejou na tormenta deste texto. Nem cordames se estenderam rumo a mares tão além do real como os que estendi com a corda bamba da minha razão ardente. As vossas embarcações venceram a matéria, mas a minha ideia dobrou o cabo das formas, afundou no vórtice do invisível e aportou num continente sem mapas, onde as palavras não se deixam nomear.
Vós abristes com aço os véus do mundo tangível;
eu, com febre e silêncio, desgarrei o selo do mundo invisível.
Sim, os vossos homens de mar enfrentaram monstros. Mas eu mergulhei nos abismos do logos, no esgoto do ser, e lá combati espectros sem nome: o terror do não sentido, a vertigem do que não pode ser pensado. Vós tivestes o mar; eu, o abismo. Vossos monstros tinham dentes; os meus, paradoxos.
No limiar onde a linguagem se esquece de si, marcham as sombras do pensamento puro, privado de corpo, pele ou tempo. Cada passo que dei nesse terreno foi contra o chão da realidade. Cada ideia que tive foi um risco de dissolução, pois não há costa mais longínqua que a de um conceito recém-nascido. Não há Atlântida mais remota que a que fundei ao me perder de mim. E não há embarcação mais intrépida que a que se lança sem leme nas marés do invisível.
E, no entanto, fui.
Dobrei o inominável.
Atravessei sem mapa,
fundei, sem chão,
um arquipélago de ideias.
Vós navegastes o Real.
Eu naufraguei no Imaginário —
e lá descobri a luz que só os cegos reconhecem.
Senhor, vós trouxestes à luz o real.
Eu —
eu iluminei a sombra que o real oculta.
quarta-feira, 9 de julho de 2025
Noite nanquim — 06
Nada e espuma encolhidos, distendidos, remexendo taças e versos. Reparte-se, afastando as massas de sereias. O inverso enfim se desfaz de sua virgindade. A virtude de ser navegante percorre o poema, que arrebata as palavras com surpresa. Popa e proa. No cais deserto, as mãos mordidas imergem com impaciência ao farol da noite distante. O despertar dos desejos em pompa! Mas na hora as vagas tomam conta dos trovões adversos. Do empenho à voragem pura, o acontecimento faz-se não temendo a arfagem. É preciso romper de pé! A grande e milagrosa realização de ficar de pé. O brinde do simples. O brinde do inexplicável nessa vela. Apresenta-se agora, experiência, junta-se aos recifes no canal. A estrela levantou voo em direção ao alvo. Penetra, com desvelo, na esfera das solicitudes e dos panos e compõe o destino, singrando escuridão adentro.
segunda-feira, 7 de julho de 2025
Noite nanquim — 05
Não é preciso renascer ainda de raios e água. Tenho medo de encontrar as árvores que se estendem com folhagens embranquecidas. Lutaremos separados para que a poeira do tempo consuma e destrua, palavra após palavra, o caminho que nos divide ainda. É por isso que o candeeiro está sobre o mundo. Ora, o pano se agita e a casa muda todas as coisas. Os rostos que ela oferece esboçam o púrpura repisado da turba infeliz. Pecado a pecado, a pronúncia. A modéstia da imortalidade. O miserável fruto. A terra podre. Aquele homem isolado no silêncio inquieto silencia-se. Sem olhos. Sem súplicas. Os desesperos da sombra e os esforços canhestros de longos anos. Vamos! Eis aqui minha loucura: o êxtase dourado sobre os tecidos. Meus lábios, minha face e minha nudez sanguínea.
domingo, 6 de julho de 2025
A escrita navegante (o sonho das águas) — VIII
Toda escrita inicia-se na selva inominada, onde os troncos do silêncio sustentam folhas de tinta, e raízes subterrâneas sustentam vocábulos sem idade. Nenhum signo nasce íntegro; antes, estremece na fímbria do inexistente, oscilando entre a pedra e o vento, entre o que foi dito e o que nunca poderia sê-lo. Quando se ergue do solo negro da incompreensão, a letra carrega consigo o peso de todas as bibliotecas esquecidas, os vestígios de pergaminhos incendiados, as cinzas de papiros dissolvidos na boca faminta dos séculos.
Mas não há chama que dome a floresta, não há fenda que aniquile a árvore sem nome. Destruir a seiva é renovar-lhe o pulso; calar a palavra é lançar-lhe o reflexo em abismos contínuos. Amalgamado ao ruído basilar do mundo, o verbo não fenece sob a lâmina do sentido; sobrevive na cicatriz da língua, na geografia da entonação, no ritmo da síncope e no salmo do lapso. Qualquer tentativa de encerrar-lhe o ciclo esbarra na sua vocação para o eterno retorno, na sua fúria de fênix incandescente, a recompor-se do fogo em novas estruturas de tempo e luz.
Se a linguagem ressoa como cântico de pedra e carne, o humano não passa de superfície onde os signos se inscrevem. Escrever é permitir que a matéria verbal pulse em seu próprio delírio, que se reconfigure em cada sílaba como oceano ressurgindo em marés noturnas. O texto, enquanto lâmina em perpétua refundição, nunca se encerra. O que se vê impresso não é senão um instante na longa travessia da fala sobre o corpo do tempo.
A escritura ergue-se como miragem da verdade que nunca se deixa tocar. No espaço onde se tentaria delimitar seu contorno, simplesmente o vazio pleno de promessas: a sombra que caminha antes da luz, o silêncio que ressoa antes do grito, a palavra que sempre se inscreve onde não se pode dizer.
quarta-feira, 2 de julho de 2025
Noite nanquim — 04
Não há mais que um murmúrio entre nós. Somos uma alegria vulgar. Regozijo a melodia da melodia – banal. A sequência de estribilho extrairá a alma da balada. Os medos. A janela. A vontade plena da carne e do leite. Aparecerei ao mundo pelo céu e pelo inferno. Expulsarei as nuvens em decrepitude. Ocuparei os farrapos até as pontas poentes. As extremidades me obedecerão. E assim entraremos no rio dos horizontes submersos, pois somos o princípio do mundo em forma de mar.
