Confundo tudo. Separo-me — não sei em qual caminho — da causa e dos efeitos do infinito. Quando pairo, Voz, certamente não sou senão o erro maior. Quando caio e giro, não sou senão vacuidade, sem passado, sem futuro — intérprete inconsciente. Voz e Não Voz, engendro uma possível, uma irrealidade transparente de sonho aberto. A vida salta de voz em voz. O ser antigo e o ser profundo não podem, no momento, suportar a íntima parte de alguma terra desconhecida. Abro os lares perdidos, o berçário frio das almas e o bom interior escuro.
segunda-feira, 13 de outubro de 2025
quarta-feira, 8 de outubro de 2025
Noite nanquim — 32
Assim, dessa maneira, a Voz se desprega da morte fugidia. Faísca. Não existe mais. Renasce na minha alma estéril. A preguiça aumenta isso! Este livro vivo, livro negro vivamente consumido, recriado, mudou. Livro de horror. És tu, Voz, a mesma Voz, a mesmíssima Voz que existia. Quem juraria por tua alma? Posso pensar que esse cansaço — essa nudez da consciência dissolvida — transmitiu a alma morta sem pudor ou cautelas. O ser humano, ínfimo certamente, consta por injúrias na incompreensão de todos os seres. Quanto a mim, aqui, confesso que confundo a Voz com qualquer voz que vier, qualquer coisa horrenda. Pensar é mesmo isto: destruir-se.
segunda-feira, 6 de outubro de 2025
Noite nanquim — 31
Fixa-me e impõe-me o esplendor na alma da improbação. Alguns instantes, bojos de terror, são focos vagos e apavorantes. A oliveira seca se protege da irradiação das luzes. Num estertor dormem quatro goles: penso vagamente na escuridão daquela face, na cruz ígnea pousada na monstruosidade dos sofrimentos. Que importa este ser? Que importa esta extensão? Que importa também tudo o que chega ao seio, tudo o que nasce e morre no seio? Sou eu a coisa de outra coisa? Sou eu o joguete do eterno erro de um grande prédio em chamas?
quarta-feira, 1 de outubro de 2025
Noite nanquim — 30
Em vão, ele me obceca com uma consciência maravilhosamente incolor e me propõe todos os cantos do real e do humano. Canto neste bosque de sangue ao grito de Agamemnon. O punhal é meu. A gota impura de sua voz suja aquele sudário sem honra. Há certamente outras expressões que não são da terra nem dos feitiços. Este tempo ornamentado sem nitidez delimita os sentimentos por razões vãs de sentimentos. O horror pleno fecha no fundo a forma que não passa de uma consciência cheia de dúvidas. Dou aqui mais um passo na imensidão profunda. Adianto-me cansado à inconsciência de tudo.
segunda-feira, 29 de setembro de 2025
Noite nanquim — 29
Rodopio os circos da sombra lunar rumo ao poente. Dou um passo na imensa profundeza. Entro em segredo no futuro. A cova fria se percebe como horror, e o oposto de este tempo quer convencê-la de que a morte a rodeia. Eis aqui todo o calhamaço entre a inteligência e a vida. O instante quer me prender. O coração defunto acredita me cercar. Mas ele, com seu céu, não é, para o fundo, senão um erro maior – um acontecimento de lume após, um demônio como um vulto supremo. Estas palavras são um demônio na alma. Orbito como a morte e os corvos acima das portas do mundo. Clamo as manchas que nascem das sombras, das mãos. Respiro-as. Não sou suficiente para o espírito e para o tempo. Embriago-me e verto forças flutuantes. Penso. Digo. Encontro as bruxas que me lisonjeiam o corpo e me mancham de palavras.
quarta-feira, 24 de setembro de 2025
Noite nanquim — 28
Pinto-me, oscilando o possível. Apago. Afirmo seguramente a acusação: plagiei. Não tenho mais ou menos culpa que os outros. De qualquer maneira, agora não importa mais. Fracassei? Não busco esconderijo para estas confusões. Minha tinta é invisível, e esta escrita do outro lado do espelho abre outras estradas. Digo sem querer que os sineiros rebatem os medos. Até suas lanças são justas em suas injustiças. A sombra alonga o homem histórico que nunca vê as silhuetas das palavras contra o recorte do sol. Mas somos as espadas desembainhadas que diferem, com sua liberdade, todas as vidas da vida. Ganhamos, perdemos, diferentemente de todos e de tudo. O ser nunca é nulo. Sonho com essa existência. Ouço a realidade invisível que silva e segue. O abismo não sei onde abisma não sei o quê.
segunda-feira, 22 de setembro de 2025
Noite nanquim — 27
Pergunto-me e já não sei. Em meio a gestos, vou ao encontro dos revoltados através da máscara, do fim da taça, das visitas intuitivas. Escorre o mal tempo assombroso, toda a hora do mistério incompreensível e tépido até a sua pequenez. A linguagem, instrumento da loucura, elimina o pensamento, rompe-o num desregramento labiríntico. Daqui espreito os segredos e as espontaneidades dos espíritos que se movimentam e relevam a ária vida longínqua como uma queda do céu.
quarta-feira, 17 de setembro de 2025
Noite nanquim — 26
Sentado entre os supremos, penso a forma definitiva. É o pêndulo oculto das sombras batendo no labirinto. Nada está mais pronto do que é e do que havia. Ao estender o pano, o osso ou a cartilagem, não consigo instalar outra língua no meio da imbecilidade. Esse frio, de forma magnética ligado pelos gritos ao infinito, é uma espécie intermediária de dúvida que faz desaparecer todo o horror da ideia surgida. A hora, enfim, cansa-se de si própria: o ponteiro, o clarão, o ruído, em sucessão, esgotaram as suas mágoas. A verdade nos oprime. Sorrimos através de nossas veias delirantes.
segunda-feira, 15 de setembro de 2025
Noite nanquim — 25
O alimento, arranjado e preparado para morrer, circula, inclina-se e vai se oferecer de cinzas numa imóvel vertigem. Não me prendo à imbecilidade espiritual. Descobri novos bichos fora do céu. Respondo à insensatez absurda. Logo os onipotentes espíritos da ideia subirão à cabeça dos precedentes. Cintilo a aparição da literatura entre os ruídos e os panos. As portas do túmulo se desdobram. Uma evasão de luz, uma forma, uma renda superabundante exalta-se nos luzentes tecidos, une-os e se consome em si, entre as sombras das noites passadas e das noites futuras.
quarta-feira, 10 de setembro de 2025
Noite nanquim — 24
Inspiro este odor de poeira. Pássaros. Há no seio da sombra alguma coisa. Estou no interior da cabeça dos espíritos. A porta que se entreabre admite um vapor de escansão e cede diante da Noite rosa. O ébano que carrega o objeto deixa tudo para morte. O Nada. O aroma soberano invade. Cuidado com a vossa lógica! Levanto meu ódio contra vossas lógicas! O milagre da noite se cumpre em todas as coisas. Imponho a parada dos espíritos. Os panos brilham. As trevas soam ao infinito. Esfrego minhas mãos diante disso. A vida se desvia. Aspiro a eternidade surreal. O ouro não tira os olhos desse horror.
segunda-feira, 8 de setembro de 2025
Noite nanquim — 23
Sobre as paredes, sobre a noite, sobre a clareza da consciência, um esvoaçar prolongado se impõe terrivelmente, um sono sombrio e violáceo se atarda, uma suspeita púrpura renasce, à minha frente, sob as patas aracnídeas. Eis que a essência da plumagem devora o que se vê. Esta espécie intermediária me acusa. Fujo dela — é fugir de mim. Abandono a caverna do ser. Vou. Respiro o espírito fora dele. Deixo minha morada. Cedo ao pensamento. Todos. Maravilho-me agora com aquilo que está posto na raiz de todos os espíritos. Desço até às poeiras, aos pequenos lugares, para debaixo das sombras. Transporto o volume dos destinos. O fantasma do inverso me afeta em cada brecha de sombra. Não limparei mais meus olhos do crime de ter vivido no lugar da certeza perfeita através deles.
quarta-feira, 3 de setembro de 2025
Noite nanquim — 22
Pano terrível! O mais alto grau da noite e do ébano na sombra suprema, na oscilação mais elevada, pêndulo escapando ao oculto, encontro, em vez do clarão, a percepção. O elevado ruído tem a forma negra mais definitiva. A sombra está ausente em todo o seu intervalo desaparecido. Aqueles que os panos não podem sustentar estão invisíveis. Ele se esconde em sua ideia e se refugia em si. Na vertiginosa imobilidade, encontrei o ruído e a noite no centro de todos os precedentes. Não acredito mais em nada que não tenha alguma ligação com o cordão sensível do pensamento — como estes meteoros sobre a folha de papel. Falta-nos, ainda aqui, a ação meteórica da construção existencial. Todas as sensibilidades humanas me afligem e decido plasticamente sobre o real que me abomina.
segunda-feira, 1 de setembro de 2025
Noite nanquim — 21
Estes fachos me assassinaram. Sou perfurado por personagens. Explodo tapeçarias, cruzando o combate dos acasos. Carrego cortinas por espaços de trevas e agonia. Que a menor página fechada seja precisamente aquela que se identifica como a maior potência do tempo. Um só pedaço de ausência. As tapeçarias rebentam de obscuridade. Não posso mais. Os móveis estão cheios de frascos. Em volta da substância do Nada, multiplico rapidamente todos os versos daquele livro de magia. Quantos sonhos ao mesmo tempo! Não me sustento mais. Sufoco-me. A sombra e o silêncio me sufocam. Ofegante, sigo… Esse movimento de asfixia existe? Algo me pressiona. A hora me consome, me incita… É a caça quimérica: ela transforma-se em mim.
quinta-feira, 28 de agosto de 2025
A escrita navegante (o sonho das águas) — XV
Foram sempre empurrados às margens, não por falta de dizer, mas por excesso de dizer outro. Nunca encontraram refúgio nos corredores da opinião nem abrigo nos abrigos da crítica. Esses poetas não compõem a partir da clareza ou da ordem, mas a partir do resto, do intervalo, da rasura. Habitam a fronteira onde a linguagem escapa ao controle, onde o corpo já não suporta a forma e começa a vibrar com aquilo que ainda não tem nome: o que não se lembra, o que não se sente, o que não se pensa — mas pulsa.
São os intérpretes do caos, não no sentido de quem traduz, mas de quem se inscreve nele. O corpo, nesse gesto, não é instrumento, mas matéria — corpo em ruína, corpo que implode, corpo onde se escrevem forças. Não há representação, há dobra. As palavras, então, não narram: escorrem. As imagens, em vez de mostrar, colapsam. Os ritmos não medem o tempo: abrem buracos nele. Todo enunciado torna-se excesso que se autodevora, toda frase arrasta a próxima para dentro de um vórtice onde forma e deformação coincidem.
Não se trata de estilo nem de invenção. Trata-se de uma escritura que emerge quando já nada mais resta a dizer — e, ainda assim, tudo grita. A lógica, aqui, é atravessada por uma loucura precisa, uma improvisação que não dispensa a geometria: rigor do abismo, cálculo do delírio. É a linguagem que se desfaz enquanto se refaz. A sintaxe treme. A gramática é suspensa. O sentido escapa, mas o impacto não.
Nesse fundo onde tudo é ruído e vibração, o gesto barroco retorna como vertigem: lampejos lançados contra o indizível, tentativa desesperada de fixar o que se desfaz ao ser tocado. O espanto aqui é origem, não efeito. E escrever, nesses termos, não é comunicar — é suportar o insuportável.
É por isso que esses poetas não são lidos: são enfrentados. Não são compreendidos: são atravessados. São abismos que escrevem com os dedos em chaga, arrastando o leitor para uma respiração que não cadencia, para um pensamento que se pensa em queda, para uma arte que só se reconhece no limite onde já não se distingue entre arte, corpo, caos e grito.
quarta-feira, 27 de agosto de 2025
Noite nanquim — 20
Retiro-me da história e me restituo ao espanto dos heróis. Nobre dia. Falo. Mudo pernas em relvas. Tudo é atraído para as geleiras, para os ingênuos pecados, para a vitória vária que palpitam raios e rubis. Calo as palavras interiores que se rendem aos gritos do ar e do fogo. O mar longínquo é um reinado bem junto da folha. Saboreio o púrpura e a vinda das carruagens. Os céus, ali adiante, vertem territórios. O fervor e o esplendor suspensos entre céu e mar são tão intensos que a hora e o livro, a visão do personagem e a perturbação de ser brilham e morrem — formam a tapeçaria e o espelho de quimeras. Persisto, mesmo sem linguagem. Insisto na palavra.
segunda-feira, 25 de agosto de 2025
Noite nanquim — 19
Silêncio de funeral, sacada dos deuses, destino, sustento por meio da solidão um universo de instintos, a piedade última daquilo que foi antes de todas as coisas — tu enxergarás o bestiário. Minhas almas são o abismo do mundo. Respiro a autoconversa existente nos hieróglifos antes da tempestade. Espero a presa que não deve nascer senão de tantos outros. Ilumino com gestos espelhados o vazio-seco de onde muita gente jorrará. Em segredo, uma voz conhecida ensaia vozes desconhecidas. Busco e desenho as figuras implícitas que preexistem na cova — sepulto na cal todas as veias da mente, todos os cabelos.
quinta-feira, 21 de agosto de 2025
A escrita navegante (o sonho das águas) — XIV
O que me constitui em escrita é um corpo atravessado por desastres de linguagem, por cortes e desmoronamentos fonéticos, por um murmúrio inacabado que se instala nas frestas de línguas outrora habitadas. São dialetos desalojados, vozes que já não reconhecem o lugar da origem, que carregam no timbre o peso do extravio, do deslocamento, do gesto interrompido. Não há linearidade no que escrevo: há apenas uma cronologia irregular, feita de suspensões e espasmos, onde o tempo se dá como respiração comprometida, como duração em estado de crise.
As frases são colapsos em processo, tentativas de arranhar o que me escapa no ato mesmo da fala. A minha voz tornou-se espaço negativo, intervalo pulsante entre o dito e o que não pode mais sê-lo. Ela se desenha como topografia instável: pedaço de mapa sem território, ferida que não se fecha, rumor que roça os contornos da sintaxe por vir. Falo a partir do entre-lugar: não pertenço à língua que me forma, tampouco àquela que me ouve. Sou ruído entre margens, fala estilhaçada que perpassa o silêncio sem jamais atravessá-lo completamente.
A escuta acolhe o sintoma, e, nesse acolhimento, o gesto da linguagem se regenera como contaminação. Escavo a palavra até encontrar nela a sombra de outra não proferida, mas que lateja no fundo do que não consigo dizer. A cada tentativa de fala, recomeço o impossível: minha boca se abre para o inominável e tropeça nos próprios limites do som, onde o acento se desfaz em matéria bruta de respiração. Há delírio lúcido nisso tudo: uma poética que busca resistir, cantar o que não se pode formular.
O que carrego como “obra” não é arquivo, é rizoma errante de restos e ressonâncias. Aquilo que me escapa é exatamente o que me escreve. Estou cercado por um campo de ruínas gramaticais, por acidentes fonológicos, por lapsos semânticos que insistem em se fazer presença. A escrita se move por entre a falha, e é ali que se dá o real: onde o sentido colapsa, algo se abre para o estremecimento.
Sim, se há algo que possa ser dito sobre a minha bibliografia, é que ela se desloca e arrasta consigo a sombra da voz que não encontrou casa, que apenas rasga o contorno do mundo sem jamais habitá-lo. Uma língua de fronteira, instável, insana, incendiada por uma lucidez que apenas o delírio do poema pode suportar.
quarta-feira, 20 de agosto de 2025
Noite nanquim — 18
De que é feito esse fragor, esse fragmento de ouro morto e de horror? Como é possível que uma mesa seja a biblioteca capaz de todas as outras mesas? Não há aborto mais elevado do que este, do que um no outro. Não sei o que se prepara, mas decifro o livro e percebo o universo. Toco-o e reduzo-o ao puramente visível entre um e outro. Esta é a obra oculta do vazio antes que ela se aplique aos corpos. Aí está a conversa essencial, o diálogo e a luta: a última confissão do espírito com o espírito.
segunda-feira, 18 de agosto de 2025
Noite nanquim — 17
Faz o que quiseres! Fúnebre silêncio! Cumpro a brilhos o ofício! Asa pura. Lance tão denso que nenhum brilho que penetre no livro necromante jamais voltará a sair. Existe no mundo parcela de memória ou de emoção afluente mais preciosa do que este momento de móveis e de fólios na unidade do átrio e sobre a estante que antecede todos os pilares? Todas as tintas em prantos sibilinos, isoladas pelo mudo e soberano clarim, são ondulantes. A noite se forma no grito da pantera.
quinta-feira, 14 de agosto de 2025
A escrita navegante (o sonho das águas) — XIII
A interrogação das bordas em que o logos se desagrega demanda a travessia de uma tessitura polifônica, capaz de desordenar coordenadas temporais e dissolver fronteiras epistemológicas, resvalando da penumbra sublunar à aparição evanescente da grafia espectral. O que ali vibra já não é voz, mas um vórtice ressonante de ausência, um colapso discursivo que articula a possibilidade do indizível sem recurso à palavra. O silêncio, em sua plasticidade informe, densifica-se como substância hermenêutica, emergindo enquanto estrato sígnico fulgurante, reminiscente do espólio de espectros e intervalos obliterados pelo excesso de significação. O que persiste quando o silêncio se torna matéria? Um arquejo de tinta, um decalque espectral sobre o papel, que se confunde com o vestígio de quem o perscruta. O poema não se encerra na ausência, mas nela se prolifera, expandindo-se no limiar do inexprimível, no vestíbulo do que jamais alcançará inscrição.
Quando o olhar se lança ao texto, despoja-se de sua materialidade fisiológica — retina, córnea e foco sucumbem a vertigem da instabilidade ontológica. A mão que tenta ancorar-se na página tateia o vazio e, mesmo assim, avança. A identidade do leitor implode: a leitura o dissolve, converte-o em ruína, torna-o excrescência residual de um ato sem sujeito. A inscrição textual transfigura-se em luto, poeira, vestígio errante. A cada fonema absorvido, a corporeidade se dissipa, enquanto o poema se reconstitui na vacância do que foi obliterado. A leitura, longe de ser um evento passivo, persiste como resistência entrópica, arrastando o sujeito para as águas do indiscernível, para o refluxo da semiose que não admite cais. O texto não se deixa conter: dissemina-se além de seus limites gráficos, infiltra-se na textura orgânica da carne, permeia os interstícios temporais e os espaçamentos ontológicos, instalando-se como colônia sígnica parasitária na tessitura da percepção.
Empreender a leitura equivale a precipitar-se na entropia do nome, a uma descida abissal pela garganta do inominável. O poema não se submete à decifração; fagocita seu leitor. A cada sintagma tragado pela voragem sígnica, algo se desliga do mundo e se rende ao exílio da página. Ler não é apreender significados: é eviscerar as camadas de materialidade até que reste apenas o sussurro residual do fôlego sem origem. E, nessa depuração, tudo o que parecia sólido se desintegra em ruína textual. O signo, outrora edificação semântica, transmuta-se em fragmento disperso, em brisa residual. A significação, que outrora se oferecia como estrutura, agora se desvela como escombro. O visível não se estabiliza, o audível não reverbera. A leitura reconfigura-se incessantemente qual fluxo oceânico que devora suas próprias margens.
O ato de navegar pelo texto consiste em um suicídio controlado, uma exumação arqueológica do inaudito. Quando as palavras cedem, emergem as fissuras, as intermitências, os rastros inarticulados. O que permanece impresso no papel não é a voz, mas o espectro de sua ausência; não é o discurso, mas o esqueleto de sua ruína. Entretanto, mesmo os ossos se partem, mesmo os vestígios se dispersam, e o que resta é a voracidade insaciável do ato de ler — o desejo que persiste na devastação do signo. O suporte textual é uma miragem; a página é um campo de cinzas onde um novo fantasma se inscreve a cada leitura. No desfecho, não há síntese cognitiva, apenas transfiguração. Ler não é simplesmente ser devorado pelo texto: é, também, devorá-lo.