terça-feira, 20 de setembro de 2022

100.

Puras sombras no alto-mar dedicando seus sais. A espuma, arremesso do vento, sustém, paladar, tais viagens fustigadas, queimadas pela água que não recolhe, ao fim, o chicote na carne. Sobre aventuras, no repasse frio, nenhum oceano. Óssea existência de vento cortante que a espuma foi haurir outros sóis no ciclone com esse único Atlântico de que o nervo se honora. Mas, junto às enxárcias, à lira vaga, uma mão agoniza talvez segundo o vento – navegação de crucifixos, gozos de espáduas à cruz. Ela, viagem da sensação numa espinha, que na passagem vasta do rasgo fixa de outras mortes o ferimento sem demora.

segunda-feira, 19 de setembro de 2022

99.

Puras sombras no alto-mar dedicando seus sais. A espuma, arremesso do vento, sustém, paladar, tais viagens fustigadas, queimadas pela água que não recolhe, ao fim, o chicote na carne. Sobre aventuras, no repasse frio, nenhum oceano. Óssea existência de vento cortante que a espuma foi haurir outros sóis no ciclone com esse único Atlântico de que o nervo se honora. Mas, junto às enxárcias, à lira vaga, uma mão agoniza talvez segundo o vento – navegação de crucifixos, gozos de espáduas à cruz. Ela, viagem da sensação numa espinha, que na passagem vasta do rasgo fixa de outras mortes o ferimento sem demora.

domingo, 18 de setembro de 2022

98.

Há silêncios que são varandas, que nos insinuam a casa circular, que são seres secretos, cheios de acesso de paixão, na fusão dos nossos lábios em beijo. Este silêncio é um dos que sinto com o coração. Parece-me, abruptamente, que é com meu amor procurado e com minha loucura alcançada que, morte triste, se vão traçando os entendimentos do coração pulsante e das mãos.


***


Quero ver as perfeições nesta linha imaginada
Onde uma recusa se ergue sem exatidão
Onde as purezas me recordam nascido
E delas me lembro sob o desvio das rodas


Das penumbras nos caminhos revoltados
Imagino o tempo da vinda das obras
E a divisão, como antes, voga através dos vãos
Admirando a busca de sua face


Lá, para sempre, as antiguidades se calaram
Como deuses, como rostos, como rostos ou como deuses
E o desfilar dos chamados não tem fim
Da perseguição do funeral à encruzilhada dos pássaros


Lá minhas mortes em mãos murmuram bem marinhas
Cantando uma serenidade espraiada – de mãos
Pureza e perfeição em tudo se irradiam
Mas o obscuro caminho das ruas fica escondido na cidade


***


Há na mais tilintante queda a chuva oblíqua pela terra. Há em cada manto d’água o céu espelhado em prado e campo. Há no regato do reino o canto de seus ramos. Estouro de ameixas somos, nos extremos da boca. A grama só acontece no amasso. Tudo de começo que há é apenas o amarelo, atravessado, cortina densa, contemplação da água, rosto de silêncio.

sábado, 17 de setembro de 2022

97.

Aspereza onde os ventos mentem lamentações, aspereza, única altura do tamanho da dor, torna-me, tristeza e canção, parte da tua tristeza, que eu me perca em ser mera canção e me torne aspereza também, com ventos que sejam bravios na escuridão, com nuvens dobradas que iluminem da noite que faz seus precursores. Depois que a brevidade dos medos embranqueceu para nada na noite amorosa, e o regresso se tornou menos esfiapado no corpo mal habitado da flutuação sobre as mãos nuas, pude, enfim, eu que não dormia, erguer com lentidão a perfeita água luzente para construir, dali onde pensava suspenso, os dias sumidos do mundo.

sexta-feira, 16 de setembro de 2022

96.

Antemão caminhada da noite de silenciar o frio cobrindo as estrelas e cortando secretos os saltos no mais perigoso. Anoiteça! A estrela julgada na verdade por este reflexo. A enfeitada solidão enquanto coroa de uma perfeição pensa de uma outra de outra fronte. Aqui, transparente quadro que lamentas no muro. Brisa muito em flor para ser cantada. Copo brilhoso quando o frio da madeira dobra o mundo ao longo da liquidez da virgindade. Águas contorcidas no poema. Rigorosa decadência de morte em ruína. Fundas agora os instantes e a real aparição. Chorai! Chorai pela surpresa deste gesto.

quinta-feira, 15 de setembro de 2022

95.

Mas não era o encontro, inexistia sobre os gorros da meia-noite qualquer imobilidade, à qual se pudessem de fato vincular as gargalhadas enrugadas do veludo: tudo era branco e sombrio; e, se alguma oposição jamais roçara por essa rigidez, somente poderiam ser as marcas do céu de um príncipe exíguo, amargo de concentrar toda a poeira num escolho irresistível, a fim de que essas razões, dos dois abismos ao branco, surgissem como inclinações irosas a carregar o desespero de suas asas e o retombado voo de sua consciência.

quarta-feira, 14 de setembro de 2022

94.

Os movimentos dos olhos de papel não tornaram a descer ainda sobre a tinta que nada mais percebeu a não ser o iridescente presságio prestes a se interromper de um destino corpóreo que começa a possuir a cintilação dos dedos. Mas cedo ela percebeu que era na terra, na qual o húmus de sua indiferença se afundava como sonolência – e ela voltava à língua. O eco, de imediato, escandiu-se soterrado. Mas, à medida que tornava a cabeça à luz, e mais esquecido, seu interior crescia numa alucinação de ânfora, que preenchia a descida lenta; e, tomada de dúvida rubra, a fera se sentia nervosa por sulina boca, como pelo procurar do lugar povoado das viagens que, embora fechados, abertos ainda na demora, girariam maritimamente sobre todos os degraus em verso para chegar à manhã, em inundado corpo. Enfim uma quebra que parecia o escapar da serena desilusão das mortes se exalou, mas dotada de uma esferográfica desconhecida, e o coração nada mais ouviu além do movimento em cima do papel que parecia permanentemente fugir como a tinta prolongada de alguma mão de ninguém desperta de seu ecoado sono.

terça-feira, 13 de setembro de 2022

93.

Na insinuação do silêncio, uma brancura. Enrolada nela, partirei, assinalando o que a ironia me deixar. Todo mistério precipitado aqui é um turbilhão de uivo com a hilaridade do horror. Todos os vórtices são um indício rumo à fuga. E agora, aqui, longe daquele embalanço, sento-me na solidão perdida e medito com minha pluma. Possuo para sempre e sempre o desencontro, enquanto aquele gorro pousa na imobilidade da meia-noite e na sombra que sobrevive à gargalhada arrebentada de todos.

segunda-feira, 12 de setembro de 2022

92.

mestre,
volta à partida, a teus nomes,
mestre, volta às ondas, ao naufrágio plástico,
ao teu cálculo, à tua antiguidade,
à tua manobra maníaca na idade
novamente
ao leme empunhado
do olvidar e do horizonte.

mostra-nos teus pés,
tuas unanimidades, tuas agitações.
não escondas mais teu punho
de destino mesclado
posto nos estreitos dos ventos.

mestre, outro,
descobridor de espíritos,
inventor de tempestades,
descobre a dividida passagem,
os segredos repregados,
descobre a cabeça na invasão.

a escoada
barba
da submissão
sobre o homem
desdobre-a, mestre,
descobridor de naus.

tu, ancestral mão da abertura,
como podes crispar o além
às inúteis testas
e ao legado com desaparições de alguém?

ambiguidade ulterior, busca
no demônio
as regiões imemoriais,
a velha indução
do mestre.

rompe, rompe
as conjunções supremas
que cobrem tua probabilidade de sombra
e então
a nós, os afagos de teus afagos,
aqueles para os quais revelaste
a polidez até então suavizada
da vaga subtraída,
mostra-nos que podes
navegar de novo
os duros ossos perdidos
e descobrir a prancha que nasceu
nos embates anciões da água.

navega, mestre, a água
chegando, levantando
tua chance ociosa
e entre as núpcias e os véus volta
a ser ilusão em ânsias.

neste instante conjuga teu fantasma
volta a ser gesto
aprenderás novamente a ser vacilante.

domingo, 11 de setembro de 2022

91.

de teu lançamento circunstancial em outra eternidade saíram naufrágios profundos no abismo do branco assim voltou mallarmé para deixar-te um estanque de ira que continuou se inclinando o desespero planou como asa de retombada antemão em teu voo stephane entre os escarcéus deixou tombar seu corte de salto íntimo que transportou o resumo em sua sombra em infusões múltiplas tua vela de alternâncias e adaptações como se de tua envergadura hiante brotassem profundos cascos derramando naus para todo o pensamento no entanto o outro te enterrou a bordo mestre inferido conflagrado na ameaça caiu em teu número de cadáver hesitante e cobriu as mãos de tuas jogadas

sábado, 10 de setembro de 2022

90.

Angústias em expiação de púbere mudez lá como cá – cingindo, avançando, consolidando, contato com a lucidez do ar, penacho. Há o invisível no milagre que se pode respirar em cintilante fronte. Estaturas sombrias de frágil tenebrosidade. Torcida sereia que em cada escama há, impacientemente. Riso a espera na vertigem ereta. A vertigem do tempo – esbofeteada bifurcação entre rochas. Sol falso. O súbito evaporado. Brumas quando se alastram e fluem. O marco da palavra chanta o infinito exitoso, estrelar, de caimento de pluma, de rítmico suspense. Vela a sepultura, mas a sepultura, esse elemento primordial, é ela mesma ante outro a violenta espuma de Afrodite a passar, esvaindo-se e separando-se na trama do tempo. Assim, o sobressalto, fenecido e delirante, entra e sai a criar mundos com o bico reverso da agulha de marfim. Neutralidade idêntica no abismo. O nada memorável, a crise exibe o evento da ausência na ausência. Resultado nulo, humano lugar.

sexta-feira, 9 de setembro de 2022

89.

Quando leio e releio a queda da pluma do acaso, tenho a nítida impressão de que ela está insistindo em sepultar-me no além de me fazer ler, evidenciando a sinistra espuma primordial das escritas em caudas. Escrita esta que se confunde com o sobressaltar delirante, cujo abismo é neutralidade idêntica de dramas figurativos.

quinta-feira, 8 de setembro de 2022

88.

Bombardearei, agora, o futuro da elevação ordinária que verte a ausência. Lançarei projéteis e mísseis de qualquer marulho inferior. Depois, balançarei as pernas no vazio para dispersar o ato vazio das palavras. Quando a minha artilharia tocar abruptamente naquela mentira, pequenas partículas ascenderão nas paragens do vago. Verei sobre a minha cabeça a realidade dissolvida do que antes era apenas o resultado nulo do temor e recitarei tulipas selvagens de memoráveis crises e de arquipélagos-sonhos em mãos de ninguém.


***


Irei, agora, lançar uma bomba em Ítaca. Lançarei rasuras e périplos de além-memória Odisseu. Depois, sentarei balançando os fogos no fim, multiardilosamente. Quando o meu avesso tocar naquela consolação, pequenos extremos espelhados ascenderão e, mortos, cobrirão o resumo com outros limites. Assim, balançando as quilhas ao toque, verei sobre meu mar a viagem desprendida do que antes era apenas guerra e recitarei ondas de mãos e de salinas aventuras.


***


Vou bombardear o além – agora! Lançarei declive de fogos e obliquidades afora o interesse. Depois, sentarei balançando uma constelação numa superfície vacante, superior. Quando o choque sucessivo tocar no cálculo total em formação do poeta, a vigia ascenderá e, rolando, cobrirá a dúvida com brilhos vagos. Assim, balançando algum ponto com o além, recitarei todo pensamento que emite um lance de dardos.

quarta-feira, 7 de setembro de 2022

87.

Palpita asa de nuvem e apenas cessa sua voz púrpura para que a devolvas à cabeça de gerânio e ao seio em diamante no chuvisco impotente de uma chuva árida.

terça-feira, 6 de setembro de 2022

86.

A vastidão da terra esbranquiçada pelo sol, castigadamente. O vento leste aviva a rapidez dos redemoinhos feitos e desaparecidos. O amarelo e a pequenez das flores nos galhos de alguns arbustos. A finura e a palidez do azul da linha traçada no lago, sob a raridade celeste da porcelana, crescem em queda atrás da claridade da nuvem molhada na água vítrea dos cornos que se aduncam junto à grandeza dos cílios esmeraldinos. Um interlúdio de sombras de torres e demônios traça um sol, sob o infortúnio do estrangeiro do monte, uma pirataria marítima atrás da lembrança do dia. Declina na tragédia do crescimento uma das sombras de ônix, junto a três geniais tristezas de unção, na evocação dos olhos.

segunda-feira, 5 de setembro de 2022

85.

O deus humanizado, de harmonias cósmicas, de mãos na testa. Pensado desapego. Lá, a emersão do amor. A praia-floresta da nostalgia. Uma festa. Um trespassar. O espantado segredo ressurgente, uma fonte e o projeto quebrado. Templos medidos e arquitetados. O eixo da construção do futuro. Do frontão, já o poeta lambe a antiguidade, reverberando a animação dos objetos. Genial nome adornado. A propriedade do bosque. Todos os lagos. As cidades, nações de cada sentido. A égide do estudo do gênio. A deidade e o sistema formados num culto – o desassossego e a derrota num tecido ancestral. O mito muda outra vez. Talvez agora? A primeira sensação no seio. Opressões da janela no girassol do castelo. O sonho se espalha pelas brumas. O sentido brota como um leão fora da jaula, faminto.

domingo, 4 de setembro de 2022

84.

As sombras caíram do ruído que batia na regularidade. Tombavam impróprias, lentamente. Não assistia à opacidade que o coração furtava das duas brechas. Divide o ruído e, com aparições correspondentes, nota infinito o clarão dos olhos. Outras sombras se largam da superfície. Quase poliu a mesma figura inferior. Ainda com aparições correspondentes, não alcança a luz das poeiras – aqui, na evasão, sombriamente.

Apenas uma sombra e uma sombra e só. Talvez um ruído entre os ruídos. Progressões em todas as coisas com certos intervalos de desaparecimento. Poucas trocas de palavras e todas as dúvidas. Nunca disseram o atrito. Talvez falassem o ruído camuflando o traço em voltas de explicação ao não dizer os nomes de lá e os outros de lá longe. Iniciaram medidas incontáveis. Acabaram sempre nas sombras de um outro traço. Sombras outras e outros ruídos entre os ruídos. Apenas uma sombra e talvez um ruído entre os ruídos. Silêncios, veladas naus. A flâmula retida, exposta no sorriso dos pés. Outras partidas talvez sejam capazes de cantar, caso houvesse errado com o mar. Eu não posso me fazer. Cantado, aprecio recursos de ideias. Desabo a angústia quando penso nessa história amarga que realiza essas memórias que me envolvem todo. Desaparecido, confirmo a leitura.

sábado, 3 de setembro de 2022

83.

Gostaria, e assim busco, e não consigo, que isso que lanço se assemelhe a isso que margeia isso. Conhecer seria notar que isso, digamos assim, não é isso. Pouco há nisso que se adapte a isso disseminado que isso é isso – antes parecer ser isso disso nisso. Como se expressaria, então, isso? Isso agiria como isso. Isso se faria atuante assim. E nisso, isso disso seria forçado por isso disso. Porém, em nada disso, o que se expressa é isso. Ali, isso é assim. Ali, isso não há e há. Ele é isso de cada isso assim.

sexta-feira, 2 de setembro de 2022

82.

Sobem ou descem as folhas de papel da infância. Antes de empurrar mais uma tristeza antiga, a mão deve obter o gesto de loucura da sombra. Há de se enterrar com os olhos quando desejar abrir o fundo do mar, escutando a obra do seu movimento por construir, antes do papel branco se transformar na sublime cena do abandono das sílabas, apagando-nos som a som.

quinta-feira, 1 de setembro de 2022

81.

Viva Odisseu no extremo limite e viaje como Hércules, erguendo suas vigilantes colunas, abrindo horizontes. Estes hão de ondular os passos e as passagens, em conformidade (ou não) com a transgressão da medida, na qual vive o sigilo da sigla e, na desmesura, há de rejuvenescer antigos nautas. A premeditada aspiração, ela mesma sem passo (e com todos eles), é o enigma de toda aspiração e a ousadia entre o além-retorno e Ítaca.