segunda-feira, 3 de novembro de 2025
Noite nanquim — 39
quarta-feira, 29 de outubro de 2025
Noite nanquim — 38
Não surpreende. A ignorância é sua mais conhecida novidade. A voz exige que o labor não tenha igual. Pois o labor é todo potência, a lembrança da potência. A força não é senão sua mão fria em busca do alto píncaro. Enquanto o próprio uno do mistério aspira àquilo que parece ser o Nada ou a Noite, reafirma cada grito bêbado da tinta, cada poro da alma. Relembra a pressão atmosférica sob a qual se comprime, se ergue, se empilha um mundo feito de imagens. Isto.
segunda-feira, 27 de outubro de 2025
Noite nanquim — 37
quarta-feira, 22 de outubro de 2025
Noite nanquim — 36
segunda-feira, 20 de outubro de 2025
Noite nanquim — 35
Alguém impõe, de súbito, o desespero daquelas sombras aos meus olhos. As palavras colorem profunda e bruscamente o mistério maior. Inspira-me de repente a sensação incognoscível. Boca beijando o abismo do universo sem paredes. Estendido, pinta-me no frio âmago um ser de agilidades e de recursos elásticos. Mostram a alma e a mente. Existência do tempo informe. Indefinição excitada sobre o desespero da razão, sob o qual o futuro do pressentimento me faz dormir ao lado das florestas de sonhos virgens. Apalpo, almas, erro, revolvo cego as instintivas inocências sombrias num ganho que me farta.
quarta-feira, 15 de outubro de 2025
Não sei por qual via do silêncio retornaste nem que passagem secreta existe entre o vazio e a lembrança. Contudo, reapareces, suspensa, no espaço onde o tempo vela a sua respiração. Tuas mãos repousam sobre os anos; teus olhos observam o crepúsculo das flores que ainda enfrentam o sopro da tarde. Há algo que te captura, um som talvez, não sei se vindo do mundo ou de tua própria ausência. Será o murmúrio vegetal da memória sem corpo, o reflexo das águas que deslizam sem destino ou o resquício de uma música interior, antiga, que insiste em não morrer dentro de ti?
Eu queria apenas romper o intervalo e dizer-te que estou aqui. Mas detenho-me, temendo que a palavra, ao nascer, extinga o tênue fio que te envolve. Há uma delicadeza terrível no sossego que te protege. Se o toco, desfaço-o; se o ignoro, perpetuo-o. Como se convoca quem já cruzou para lá da margem de nós? Que forma uma voz pode assumir para não ultrajar o repouso de quem habita o plano entre o ser e o esquecimento? Que gesto, ou lágrima, ou pensamento, alcança aquele que partiu de nós sem violar sua paz?
Fico, então, estático diante de tua distância. És o sonho, a ausência e a respiração alada. Permanece assim, hoje, com o corpo imóvel de uma ideia que não cessa, com as mãos serenas, com os olhos cheios de algo que já foi rosa, mas que agora é tão somente a lembrança da cor. Deixa que o mundo te contemple como quem olha a sombra de si. Deixa que eu te observe sem que me notes, para que a tua quietude permaneça intacta, e o silêncio não se desfaça em som.
Noite nanquim — 34
Ele, sem me ver, fixa-me rigidamente, esmagando-me. O ofuscamento de tudo devora todas as formas de pensar. Através do ferro e do fogo contínuos de uma dolorosa consciência que escorre e se precipita não sei onde, ouço o pensamento enlouquecido, apavorado. A vida espalha-se indistintamente pelas cavernas da alma, pelas vias da loucura. Esse tempo atravessa céus e corações. Enquanto o segredo encontra seu caminho na inconsciência do trajeto, sinto a mente ausente e as trevas no centro de tudo. Aproximo-me do mais alto monte.
segunda-feira, 13 de outubro de 2025
Noite nanquim — 33
Confundo tudo. Separo-me — não sei em qual caminho — da causa e dos efeitos do infinito. Quando pairo, Voz, certamente não sou senão o erro maior. Quando caio e giro, não sou senão vacuidade, sem passado, sem futuro — intérprete inconsciente. Voz e Não Voz, engendro uma possível, uma irrealidade transparente de sonho aberto. A vida salta de voz em voz. O ser antigo e o ser profundo não podem, no momento, suportar a íntima parte de alguma terra desconhecida. Abro os lares perdidos, o berçário frio das almas e o bom interior escuro.
quarta-feira, 8 de outubro de 2025
Noite nanquim — 32
Assim, dessa maneira, a Voz se desprega da morte fugidia. Faísca. Não existe mais. Renasce na minha alma estéril. A preguiça aumenta isso! Este livro vivo, livro negro vivamente consumido, recriado, mudou. Livro de horror. És tu, Voz, a mesma Voz, a mesmíssima Voz que existia. Quem juraria por tua alma? Posso pensar que esse cansaço — essa nudez da consciência dissolvida — transmitiu a alma morta sem pudor ou cautelas. O ser humano, ínfimo certamente, consta por injúrias na incompreensão de todos os seres. Quanto a mim, aqui, confesso que confundo a Voz com qualquer voz que vier, qualquer coisa horrenda. Pensar é mesmo isto: destruir-se.
segunda-feira, 6 de outubro de 2025
Noite nanquim — 31
Fixa-me e impõe-me o esplendor na alma da improbação. Alguns instantes, bojos de terror, são focos vagos e apavorantes. A oliveira seca se protege da irradiação das luzes. Num estertor dormem quatro goles: penso vagamente na escuridão daquela face, na cruz ígnea pousada na monstruosidade dos sofrimentos. Que importa este ser? Que importa esta extensão? Que importa também tudo o que chega ao seio, tudo o que nasce e morre no seio? Sou eu a coisa de outra coisa? Sou eu o joguete do eterno erro de um grande prédio em chamas?
quarta-feira, 1 de outubro de 2025
Noite nanquim — 30
Em vão, ele me obceca com uma consciência maravilhosamente incolor e me propõe todos os cantos do real e do humano. Canto neste bosque de sangue ao grito de Agamemnon. O punhal é meu. A gota impura de sua voz suja aquele sudário sem honra. Há certamente outras expressões que não são da terra nem dos feitiços. Este tempo ornamentado sem nitidez delimita os sentimentos por razões vãs de sentimentos. O horror pleno fecha no fundo a forma que não passa de uma consciência cheia de dúvidas. Dou aqui mais um passo na imensidão profunda. Adianto-me cansado à inconsciência de tudo.
segunda-feira, 29 de setembro de 2025
Noite nanquim — 29
Rodopio os circos da sombra lunar rumo ao poente. Dou um passo na imensa profundeza. Entro em segredo no futuro. A cova fria se percebe como horror, e o oposto de este tempo quer convencê-la de que a morte a rodeia. Eis aqui todo o calhamaço entre a inteligência e a vida. O instante quer me prender. O coração defunto acredita me cercar. Mas ele, com seu céu, não é, para o fundo, senão um erro maior – um acontecimento de lume após, um demônio como um vulto supremo. Estas palavras são um demônio na alma. Orbito como a morte e os corvos acima das portas do mundo. Clamo as manchas que nascem das sombras, das mãos. Respiro-as. Não sou suficiente para o espírito e para o tempo. Embriago-me e verto forças flutuantes. Penso. Digo. Encontro as bruxas que me lisonjeiam o corpo e me mancham de palavras.
quarta-feira, 24 de setembro de 2025
Noite nanquim — 28
Pinto-me, oscilando o possível. Apago. Afirmo seguramente a acusação: plagiei. Não tenho mais ou menos culpa que os outros. De qualquer maneira, agora não importa mais. Fracassei? Não busco esconderijo para estas confusões. Minha tinta é invisível, e esta escrita do outro lado do espelho abre outras estradas. Digo sem querer que os sineiros rebatem os medos. Até suas lanças são justas em suas injustiças. A sombra alonga o homem histórico que nunca vê as silhuetas das palavras contra o recorte do sol. Mas somos as espadas desembainhadas que diferem, com sua liberdade, todas as vidas da vida. Ganhamos, perdemos, diferentemente de todos e de tudo. O ser nunca é nulo. Sonho com essa existência. Ouço a realidade invisível que silva e segue. O abismo não sei onde abisma não sei o quê.
segunda-feira, 22 de setembro de 2025
Noite nanquim — 27
Pergunto-me e já não sei. Em meio a gestos, vou ao encontro dos revoltados através da máscara, do fim da taça, das visitas intuitivas. Escorre o mal tempo assombroso, toda a hora do mistério incompreensível e tépido até a sua pequenez. A linguagem, instrumento da loucura, elimina o pensamento, rompe-o num desregramento labiríntico. Daqui espreito os segredos e as espontaneidades dos espíritos que se movimentam e relevam a ária vida longínqua como uma queda do céu.
quarta-feira, 17 de setembro de 2025
Noite nanquim — 26
Sentado entre os supremos, penso a forma definitiva. É o pêndulo oculto das sombras batendo no labirinto. Nada está mais pronto do que é e do que havia. Ao estender o pano, o osso ou a cartilagem, não consigo instalar outra língua no meio da imbecilidade. Esse frio, de forma magnética ligado pelos gritos ao infinito, é uma espécie intermediária de dúvida que faz desaparecer todo o horror da ideia surgida. A hora, enfim, cansa-se de si própria: o ponteiro, o clarão, o ruído, em sucessão, esgotaram as suas mágoas. A verdade nos oprime. Sorrimos através de nossas veias delirantes.
segunda-feira, 15 de setembro de 2025
Noite nanquim — 25
O alimento, arranjado e preparado para morrer, circula, inclina-se e vai se oferecer de cinzas numa imóvel vertigem. Não me prendo à imbecilidade espiritual. Descobri novos bichos fora do céu. Respondo à insensatez absurda. Logo os onipotentes espíritos da ideia subirão à cabeça dos precedentes. Cintilo a aparição da literatura entre os ruídos e os panos. As portas do túmulo se desdobram. Uma evasão de luz, uma forma, uma renda superabundante exalta-se nos luzentes tecidos, une-os e se consome em si, entre as sombras das noites passadas e das noites futuras.
quarta-feira, 10 de setembro de 2025
Noite nanquim — 24
Inspiro este odor de poeira. Pássaros. Há no seio da sombra alguma coisa. Estou no interior da cabeça dos espíritos. A porta que se entreabre admite um vapor de escansão e cede diante da Noite rosa. O ébano que carrega o objeto deixa tudo para morte. O Nada. O aroma soberano invade. Cuidado com a vossa lógica! Levanto meu ódio contra vossas lógicas! O milagre da noite se cumpre em todas as coisas. Imponho a parada dos espíritos. Os panos brilham. As trevas soam ao infinito. Esfrego minhas mãos diante disso. A vida se desvia. Aspiro a eternidade surreal. O ouro não tira os olhos desse horror.
segunda-feira, 8 de setembro de 2025
Noite nanquim — 23
Sobre as paredes, sobre a noite, sobre a clareza da consciência, um esvoaçar prolongado se impõe terrivelmente, um sono sombrio e violáceo se atarda, uma suspeita púrpura renasce, à minha frente, sob as patas aracnídeas. Eis que a essência da plumagem devora o que se vê. Esta espécie intermediária me acusa. Fujo dela — é fugir de mim. Abandono a caverna do ser. Vou. Respiro o espírito fora dele. Deixo minha morada. Cedo ao pensamento. Todos. Maravilho-me agora com aquilo que está posto na raiz de todos os espíritos. Desço até às poeiras, aos pequenos lugares, para debaixo das sombras. Transporto o volume dos destinos. O fantasma do inverso me afeta em cada brecha de sombra. Não limparei mais meus olhos do crime de ter vivido no lugar da certeza perfeita através deles.
quarta-feira, 3 de setembro de 2025
Noite nanquim — 22
Pano terrível! O mais alto grau da noite e do ébano na sombra suprema, na oscilação mais elevada, pêndulo escapando ao oculto, encontro, em vez do clarão, a percepção. O elevado ruído tem a forma negra mais definitiva. A sombra está ausente em todo o seu intervalo desaparecido. Aqueles que os panos não podem sustentar estão invisíveis. Ele se esconde em sua ideia e se refugia em si. Na vertiginosa imobilidade, encontrei o ruído e a noite no centro de todos os precedentes. Não acredito mais em nada que não tenha alguma ligação com o cordão sensível do pensamento — como estes meteoros sobre a folha de papel. Falta-nos, ainda aqui, a ação meteórica da construção existencial. Todas as sensibilidades humanas me afligem e decido plasticamente sobre o real que me abomina.
segunda-feira, 1 de setembro de 2025
Noite nanquim — 21
Estes fachos me assassinaram. Sou perfurado por personagens. Explodo tapeçarias, cruzando o combate dos acasos. Carrego cortinas por espaços de trevas e agonia. Que a menor página fechada seja precisamente aquela que se identifica como a maior potência do tempo. Um só pedaço de ausência. As tapeçarias rebentam de obscuridade. Não posso mais. Os móveis estão cheios de frascos. Em volta da substância do Nada, multiplico rapidamente todos os versos daquele livro de magia. Quantos sonhos ao mesmo tempo! Não me sustento mais. Sufoco-me. A sombra e o silêncio me sufocam. Ofegante, sigo… Esse movimento de asfixia existe? Algo me pressiona. A hora me consome, me incita… É a caça quimérica: ela transforma-se em mim.
