quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Noite nanquim — 56

    Vibro diante da morte. Reduzo-me ao poder mágico. Mudo em meio às formas da miséria. Sei que os terrores existem devido à umidade — sem dúvida devido à introdução dela. Há a idade do mundo, a fragilidade do organismo, a proximidade das trevas lá fora… A noite chega quando uma pessoa é pequena perto dos riscos que emana. Ela existe como ideia nas minhas mãos. É por isso que dou aquilo que temo. As pálpebras se cerram e estreitam a voz: refugio-me na ação cega e violenta.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Noite nanquim — 55

    As sombras dos montes me acompanham. Chegam os mitos ao fim da tarde. Regressemos ao instrumento. Recorramos à imanência do mistério, às carnes brancas, às fezes da compreensão. Sente-se aqui. Sou a voz a te falar de quem tu amas. Tuas mãos, teus pés estendidos, úmidos, em direção à morte dos teus próprios traços: teus olhos sonham fagulhas. Diante de ti, elas dançam, invisíveis, e estalam como se fossem os sinos da igreja. Estrelas declinam sobre a terra – aqui. Sente-se. Presumo o testemunho de todas elas nas palavras.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Hoje é Natal. A casa está cheia, mas nunca me senti tão sozinho. Sacro Natal lançado à degradação da experiência humana, sem que se ouça o canto dos anjos ao pé do ouvido. Nasce para este mundo um Deus, mas não chove como chove nos versos de Caeiro ou nas montanhas de Minas Douradas. Assisto à lenda encoberta como a um cadáver da família. Enquanto alguns arremetem mundo afora, reclino o olhar entre a resplandecência das árvores e os cafés tremulando na noite. E as estrelas, as estrelas, as estrelas a cobrir de tristeza as trilhas onde uma vez vi os magos a passar. A verdade não chegou ou partiu: foi o equívoco que se transformou. Mas aquele que tem o princípio do verão batendo à porta não deveria reclamar agora de solidão, não deveria beber do cálice da barbárie ou da renúncia, pois recebe hoje outra imortalidade — ainda que a passada fosse melhor. É preciso ser humano apesar dos gados, ter coerência apesar dos sofistas, desejar a vida apesar dos retóricos — e, dos dedos enlaçados, talvez nasça uma flor desbotada.

Noite nanquim — 54

    Regressemos ao instrumento que agoniza pelo terror. Toda coisa, palavra a palavra, se escurece e se degrada na viagem eterna. O solo fumega num atordoamento. Ela já aponta na altitude, conformando e compondo a figura da morte numa única tropa de horrores. Logo existirá, ao redor de nós, as trevas da unidade. O céu se declara. Alguém se separa do pensamento. Todas as palavras nos fazem baixar a cabeça para o mistério. O silêncio toma conta de tudo: separa-nos, une-nos – uma só é a queda dele no vazio da mente. 

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

Noite nanquim — 53

    Os cimos, as nuvens e o ar da terra — absurda máquina monstruosa — estão entregues às intimidades do pensamento — ilusórias chamas: tudo é ilusão. Uma voz passa e mergulha nos lábios de uma consciência vazia, rosa, e o primeiro sonho do mistério que adormeceu na vastidão do céu — tudo são lutos, saudades, coroas. Ardentes, povoo os degraus gloriosos das glórias irreconhecíveis.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Noite nanquim — 52

    Escrevo porque o sentimento contesta. Uma coisa de deus transborda e ergue toda a vida do horror. Ele se sente com mais calor do que o que é apto de existir, mais mistério do que o que existe nos lábios, mais potência do que o que algum corpo pode descarregar nos opróbrios. Os olhos se edificam na taverna, pois no inferno o fogo que destrói os dias se revela. Os fenômenos da vida se pronunciam, se decompõem no erro dos olhares.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

Noite nanquim — 51

    Ela banha aquilo que o outro contempla. A nuance dela se torna sensível no outro. Ela parece que acaba de ser criada ali, quando o fim dos montes vem devolver a vida à morte que existe em mim. Eis que o outro acredita novamente no labirinto: a voz canta. A firmeza do pensamento é um grande horror, tão inacreditável quanto certo. Este pensamento é um livro, cuja unidade deste pensar é mais forte que as forças interiores do mundo. Mas ela compõe para si, em silêncio em si, um livro de lembranças futuras.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

Noite nanquim — 50

    Falo minha voz na voz do outro e não há como o outro impedir que isso aconteça. Muito amarga, é possível que eu, quando encher alguma medida divina, encontre o outro. É possível que esgote a substância do horror e regresse do mistério. E é possível que eu chegue perto, em segredo, por meio de feitos, de olhares de labirintos. Dédalo desregrado! Realizo o sonho de tudo. Faço a cara que corresponde à morte. Pressinto o limiar das glórias. Basta então um encontro dos olhos para que se descubra subitamente a alma. Reconheço aí a queda na mente, donos da vida e da morte. As quedas mútuas trocam sussurros e põem-se conforme a necessidade das formas. O que um é verdadeiramente no outro vê-se pelo gesto do outro.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

Noite nanquim — 49

    Ouviu e calou-se. Arrepiou-se mesmo, agora. Porta-se com uma voz carregada de pensamento, um horror esmagador de deus, uma cena de mistério supremo, um bloco disso inteiramente tomado em sua abstrata ideia, e mais branco do que gelo — em direção a nenhum ponto disso, a nenhuma preferência disso, nem disso. No mesmo passo, lado a lado, idêntico no que é natural, eles identicamente vãs, elas e eles identicamente eternos e lúcidos, eles com a mesma ausência dolorosa, eles cujas sombras se misturam na alma, avançam, e como que, não no amor, mas no amargor que deve terminar. É ela quem se desloca sobre a aridez em plena luz.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

Noite nanquim — 48

    Houve por algum tempo no laboratório — e pela duração infinita da existência inconsciente —, houve o esquecer passeando, movendo-se, detendo-se e errando na sombra odorante e ordenada deste laboratório. Sobre a mão rosa e cinza, sobre a imaginada força, por entre os elementos, entre as filas e os corações enraizados da noite, o abismo se desloca como a íntima alma das aves. A voz o avistara. Eles não enxergavam. Havia o esquecimento entre dois pensamentos. Dos dois lados do conhecimento, a mesma poeira cinza, ou quase a mesma, pois almas cingidas, duas, moviam-se desmembradas em direção à pequenez, pois cada uma se atormentava devido ao caos interior de sua outra forma, e a criava e a recriava em si como isso, e a tornava ora muito calmo, ora muito inquieto. E ora muito inquieto, ora muito calmo. Rasgava-se e formava-se isto tudo.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Noite nanquim — 47

    Aquelas águias pairam lá. No píncaro do céu, os cães de um caçador rastreiam no trajeto a revolução das estrelas de cada constelação. O mundo, no outono e na primavera, nasce e morre em ciclos infinitos. A ideia em ação inventa a experiência do voo sem pouso, da fala sem silêncio. O conhecimento e suas palavras. A ignorância e seus verbos. Não me acerco de Deus às portas da morte. Perdi a vida na vida, a sabedoria na sabedoria, o conhecimento no conhecimento. Afasto-me de Deus no ciclo dos séculos e cerco-me aqui apenas de pó.

quarta-feira, 26 de novembro de 2025

Noite nanquim — 46

    Os dois pensamentos tinham certamente isso, pois cada um me atormentava com seu sussurro ácido. Ora, o dia inteiro isso. Vê como ele surpreende! Seu laboratório é só. Alguém foi restituído às poeiras. Arrepio delimitado sem lugar. Se ele adivinhou seus momentos ocos, ele a considera como um engenho sem nexo, sem propósito, sem comércio. Conheço mais obscuramente do que esse céu todo estrelado tão alto e tão profundo. Por algum tempo, houve, neste mundo, um som. Errava-se nas veias, na alma e no sangue. Dos dois lados do palácio, falava-se a mesma coisa. Dois horrores ignorantes batiam quase igual. Agora dirijo o poema como um sonho. Habitam-me aqui labirintos e expressões de pesadelos. Já leio tudo de memória. E transformo.

segunda-feira, 24 de novembro de 2025

Noite nanquim — 45

    Não, não saberá nada. Esvaziou-se o que não se deve esvaziar. Em vão, tenta-se a surpresa. Oponho o assombro. Mandaremos queimar o livro que lhe é caro se falar mais dele. Palavras vãs: é suficiente durar apenas um pouco de angústia — a voz diz. Falando, apanhando, dando-me palavras frias. Feito o movimento, fragmenta-se o gesto derretido. Distancia-se. Silencio-me e passo seguindo o uivo brutal.

quarta-feira, 19 de novembro de 2025

Noite nanquim — 44

    Invoca. Convoca o livro de horror que existe. É o eixo de um mistério maior que se irradia pela carne e pelo sangue. Sinto aprofundar até o infinito a ideia fixa da loucura. Sustenta em toda a extensão a política e a literatura que se tornam o fundo deste mundo. Corresponde à pequenez, desenvolvendo-se e sucedendo-se na antecâmara da alma. Canto à meia voz as manchas passadas no silêncio inquieto. Livro, o livro! Pelo fluxo violento dos dedos, pela língua larga e fluida do desespero, por aquilo que arde lá no alto píncaro, sou convocado à manipulação misteriosa — atravesso os impulsos do poema, regresso ao poema, dissolvo o poema. As palavras que são a base concreta da criação não escapam do poder da loucura.

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Noite nanquim — 43

    Porque, se eu me esquecesse e não dissesse senão o meu regozijo, pressinto que irritaria isso. Que me importam todos esses vultos do meu pensamento, esses pequenos deuses no esqueleto? Não sei prezar maravilhas tão íntimas, tão falsas e tão só como hoje estou. Você ama as manchas, e eu amo os livros. Manchas são coisas, e os livros são seres. Aprecia comigo esse abismo que existe, esse grandioso livro, portador de ramos e de manchas, esse grande livro isolado e completo. Odeio-te, gostaria de odiar como tu, ser odiado como tu odeias, vibrar, crescer, perecer…

quarta-feira, 12 de novembro de 2025

Noite nanquim — 42

    Sou minhas mãos. Esvazio-me na escuridão. Encontro-me nas palavras. Ascendo como uma flor ao verão. Respiro as palavras que, clamando suas manchas (experiência madre de todas as coisas), não são suficientes para o espírito. Elas me fazem pensar e me concedem o tempo da condolência. A embriaguez verte aqui suas forças flutuantes. Encontro a bruxa que lisonjeia o corpo das palavras por suas manchas.

segunda-feira, 10 de novembro de 2025

Noite nanquim — 41

    Tudo o que é preciso está tão concentrado quanto possível. Seria preciso inventar esse grito para seguir. Vai e vem, olhando e bocejando. Quebra o pavor e golpeia a alma. Ocorrerá da mesma maneira que a própria alma desenvolve o murmúrio – que da queda se faça o nó e se solidifique o mistério eterno. O horror é a palavra que ascende do abismo. Encontro-a esvaziando a escuridão com minhas mãos.

quarta-feira, 5 de novembro de 2025

Noite nanquim — 40

    Faço-me com o que não preciso. Durmo. Ele não percebe todos esses degraus que não lhe faltam. Grito pela estrada ou pela terra (flor sem repuxo) — e ninguém nota. As variações do sonho e do real são enganadoras. Tomo a perfeição dos horrores em que vivo por um negrume no vazio. Encarno a dissonância e faço meus tempos de ruínas e meus bosques de almas. Estou entregue às chamas da ilusão que vibram nos cimos da terra.

segunda-feira, 3 de novembro de 2025

Noite nanquim — 39

    Eis-me aqui, banhando-me neste campo solitário que parece tão desabrigado e fresco. Sinto-o. Ele me faz viver e adormecer. A palavra vazia, alma, que se pronuncia aqui, invade céu e terra. Eis que não ignoro tampouco a presença da morte. Fito-a, e ela me entrega com negrumes o pavor. Ando. Deito-me sobre as cinzas dos astros. Isso é admirável. Sou rodeado pelo Nada verdadeiramente longínquo. Encanto-me com todas essas palavras nas quais nunca penso.

quarta-feira, 29 de outubro de 2025

Noite nanquim — 38

    Não surpreende. A ignorância é sua mais conhecida novidade. A voz exige que o labor não tenha igual. Pois o labor é todo potência, a lembrança da potência. A força não é senão sua mão fria em busca do alto píncaro. Enquanto o próprio uno do mistério aspira àquilo que parece ser o Nada ou a Noite, reafirma cada grito bêbado da tinta, cada poro da alma. Relembra a pressão atmosférica sob a qual se comprime, se ergue, se empilha um mundo feito de imagens. Isto.