O lugar se revê pelos mundos. A hora matutina. As presas do assalto. Horas novas! Num florescente barco, latitudes. O sofrimento seu. Irreal alma! Mude a orquestração. Livre-se, comece. Crime. Espasmos-cantos. Vendavais e orgias. As poeirentas nuvens quentes. Bicho sanguíneo. Serpentinosos gestos, o velho mastro. Os pés das velas. Quando o cordame é forte, quem se afasta? Cordame, poleame. Junte-se a César com seu esfacelado rasgo! Único pirata. Dente pilhado, fonte. Nos órfãos, o mais arrepiante poder. Maldizeres diurnos. Lunares viajantes. O lar será mormacento. Verdadeiro raio. As insanidades. A sombra dos navios. O sono da alma. Ditame avermelhado e chuva. O convés úmido. Rumores, sacudidas. O ressequido velame do esgarçamento, rompimento. Flâmula do ar. O lume no mastro! Astros dançantes. A boca se parece ao abrir. Chegado ao oceano; na ilha o peixe se recolhe e em chão a escama rola. Carregar os oceanos de músculos. Traçar com braços os verdes ídolos. A ordenação bailarina. Contorções giratórias de navios. Cavalos, lá, fileira, entre eles as esticadas travessias e crinas. O marinheiro fica longe na praia. Obscuro caminho pende às piedades. Abaixo, vislumbra-se o anão ferreiro, morto e frio. Na carne e na pele, a criatura-nau! A obliquidade das barras.
quarta-feira, 10 de julho de 2024
segunda-feira, 8 de julho de 2024
O tempo passa: vida, fica parada aqui
As noites estão agora cheias de ventania e destruição; as árvores cedem e se curvam, e suas defloradas folhas voam a torto e a direito até cobrirem todo o gramado e acabarem aos montes nas bocas de lobo, e entupirem os bueiros, e inundarem as úmidas trilhas. O mar também se agita e rebenta, e caso algum adormecido, imaginando que possa encontrar na praia uma resposta para suas dúvidas, um comparsa para sua solidão, se desfaça de suas roupas de cama e desça sozinho para caminhar na areia, nenhuma imagem, com atitude de ajuda e divina presteza, acorre prontamente para trazer a noite à ordem e fazer o mar refletir a bússola da alma. A mão encolhe-se em sua mão; a voz grita em seu ouvido. Parece quase inútil fazer à noite, nessa confusão, estas perguntas referentes ao quê, e ao porquê, e ao para quê, que tiravam o adormecido de seu leito para buscar uma resposta.
Escritora à frente de seu tempo, Virginia Woolf (1882-1941) deixou um legado literário impressionante. Ela começou a sua carreira em 1904 como crítica literária, mas foi por meio de seus romances que demonstrou sua sensibilidade e conhecimento. No princípio do século XX, Virginia Woolf defendeu a causa das mulheres, lutando contra a opressão e a ignorância. O compromisso da autora com o esclarecimento e com a inclusão é digno de nota. Ela não se encastelou nos estreitos limites do elitismo.
A leitura de Ao farol (1927) requer atenção, pois não é uma obra simples. Virginia Woolf catalisa as exigências artísticas de sua época de forma criativa. Embora a sua escrita seja comparada a de James Joyce (1882-1941), cabe ressaltar que a abordagem de Woolf é diferente: ela se vale da consciência narrativa (fluxo de consciência) para lançar o leitor no íntimo das personagens durante o desencadear da trama. Assim, o texto apresenta monólogos num fluxo contínuo de consciência e, nesse processo, é como se habitássenos a mente das personagens. Além disso, a obra usa frequentemente parênteses para indicar movimentos silenciosos e vislumbres de perspectiva. O resultado é inefável. Virginia Woolf mergulha nas profundezas do nosso ser e desvenda as complexidades do reino interior.
A história se desenrola em uma estrutura narrativa não linear. Enquanto alguns momentos acontecem no presente, outros são lembranças. A ênfase que Virginia Woolf dá à vida interior de seus personagens alinha-se com a exploração da mente consciente e inconsciente, estudada pelo médico Sigmund Freud (1856-1939). Em seu romance, Woolf desvia sua atenção dos eventos externos para adentrar no labiríntico e multifacetado mundo da psique humana. Em outras palavras, é a consciência das personagens quem dita a passagem do tempo. Por exemplo, uma simples tarde ocupa mais da metade do livro, enquanto os dez anos subsequentes são condensados em poucas páginas. O extenso desenvolvimento de pensamentos nos dá uma perspectiva da Sra. Ramsey e também sublinha o impacto que o tempo exerce sobre as coisas, as forças da natureza e o incessante esforço da humanidade para suportar as provações da vida.
Como, então, perguntou-se, conhecíamos uma coisa ou outra sobre as pessoas, fechadas como elas eram? Tão-somente como uma abelha, atraída por alguma doçura ou acritude no ar, intangível ao tato ou ao paladar, visitávamos a colmeia em forma de cúpula, percorríamos, sozinhos, as vastidões do ar por sobre os países do mundo, e então visitávamos as colmeias com seus murmúrios e fervilhamentos; essas colmeias que são as pessoas.
A narrativa está estruturada em três seções: “A Janela”, “O Tempo Passa” e “O Farol”. "A Janela" se desenrola antes do início da grande guerra, apresentando aos leitores os Ramseys e seus oito filhos enquanto recebem alguns convidados em sua casa na Ilha de Skye, na Escócia. Situado no lado oposto da ilha, ergue-se um farol. O jovem James Ramsey, de apenas seis anos, deseja visitar o farol, mas a sua mãe diz que só irão se o tempo melhorar. O Sr. Ramsey, seu pai, rejeita as aspirações de seu filho, que fica bem chateado. Virginia Woolf transforma um acontecimento aparentemente trivial em algo extraordinário. Cada palavra ressoa em nossos sentidos. A essência indescritível e melancólica que paira sobre as coisas é deixada à interpretação do leitor – é o inexplicável que tem mais significado.
Os convidados são: Charles Tansley, um indivíduo que tem grande respeito e admiração pelo trabalho filosófico do Sr. Ramsey; Lily Briscoe, uma pintora que resolve pintar um retrato da Sra. Ramsey, mas que enfrenta obstáculos devido aos comentários de Charles Tansley, que mina a sua confiança ao afirmar que as mulheres não têm habilidade para pintar ou escrever; William Bankes, um botânico conhecido por sua gentileza; Paul Rayley e Minta Doyle, que atenderam aos desejos da Sra. Ramsey e se casaram; e o enigmático poeta Augustus Carmichael, que habita as sombras de seus pensamentos, até que os seus poemas são amplamente reconhecidos durante o período de guerra.
Anfitriã notável, a Sra. Ramsey quer garantir que seus convidados tenham momentos inesquecíveis. Embora seja uma esposa dedicada e carinhosa, frequentemente enfrenta desafios para administrar as mudanças de humor e o egocentrismo do marido. A Sra. Ramsey lida com as dificuldades de seu papel como anfitriã, mãe e esposa, equilibrando as complexidades domésticas e sociais. No meio de tudo isso, ela triunfa ao transformar um simples jantar em algo extraordinário.
Tricotando sua meia peluda de um marrom avermelhado, com sua cabeça absurdamente recortada pela moldura dourada, pelo xale verde que ela tinha jogado sobre a quina do quadro e pela obra-prima autenticada de Michelangelo, a Sra. Ramsay amaciou o que tinha havido de ríspido em sua atitude um momento antes, levantou a cabeça de seu garotinho e beijou-o na testa.
Filósofo metafísico, o Sr. Ramsay nutre profundo afeto pela sua família. Ele reconhece os seus próprios limites intelectuais e entende que suas contribuições não terão qualquer significado para as gerações futuras. Naturalmente, essa constatação tem consequências, e é a sua família quem acaba suportando o fardo de sua índole egocêntrica e dura, decorrente de suas incessantes preocupações pessoais e profissionais. Embora reconheça e aprecie a dádiva de ter uma família, ele espera empatia, atenção e assistência incondicionais tanto de seus familiares quanto daqueles que visitam a sua casa.
Na segunda parte, “O Tempo Passa”, o tempo acelera. A guerra irrompe por toda a Europa, trazendo consigo uma série de acontecimentos trágicos. A morte da Sra. Ramsey, a morte de seu filho Andrew em batalha e a perda de Prue Ramsey devido a complicações no parto acontecem no espaço de dez anos. Esses momentos são apresentados entre colchetes. Um capítulo conciso cujo foco é a casa de verão abandonada e as transformações que acontecem dentro e fora de suas estruturas.
Nada parecia conseguir quebrar esta imagem, corromper esta inocência, ou perturbar o oscilante manto de silêncio que, semana após semana, na sala vazia, tecia em si mesmo os gorjeios cadentes dos pássaros, os navios apitando, o zumbido e o zunzum dos campos, o uivo de um cão, o grito de um homem, e os drapeava em volta da casa em silêncio. Apenas uma vez, uma tábua estalou no patamar; apenas uma vez, no meio da noite, com um estrondo, com um rasgão, tal como, após séculos de repouso, uma rocha se desprendeu da montanha e caiu ruidosamente no vale, uma dobra do xale se afrouxou e ficou balançando. Então a paz voltou a descer; e a sombra tremulou; a luz curvou-se em adoração à sua própria imagem sobre a parede do quarto.
No capítulo intitulado "O Farol", o Sr. Ramsey, acompanhado por seus filhos James e Cam, retorna para sua casa de verão após o fim da guerra. Apesar das tentativas do Sr. Ramsey de preencher as lacunas entre ele e os filhos, ainda há vestígios de ressentimento devido à sua natureza dominadora. Outros convidados também se juntam a eles, incluindo Lily Briscoe, que não simpatiza com o Sr. Ramsey, embora ele faça um esforço para se conectar com ela. Finalmente, começa a tão esperada viagem ao Farol. É durante a viagem que Lily decide terminar a pintura que começou há uma década. A importância desse último capítulo reside no fato de a pintura não ser apenas uma pintura e o farol não ser apenas um farol. Ambos servem como interseções simbólicas do passado, representando as perdas sofridas ao longo dos anos devido aos vários caminhos da vida, à guerra e ao tempo.
Onde começar? Essa era a questão; em que ponto fazer o primeiro traço? Uma única linha colocada na tela atrelava-a a inúmeros riscos, a frequentes e irrevogáveis decisões. Tudo que, em ideia, parecia simples, tornava-se imediatamente complexo na prática; tal como as ondas se formam simetricamente desde o alto do rochedo, mas aos olhos do nadador nelas mergulhado se dividem em profundos abismos e cristas espumantes. Mas deve-se correr o risco; dar o primeiro traço.
Durante a leitura, pode-se pensar o significado do feixe de luz do farol. Ele atravessa as várias emoções interpessoais, esclarecendo como são influenciadas pelas normas sociais e pelas pressões externas. O farol, isolado em sua solidão, é o símbolo da negligência emocional que impomos aos outros e, em última análise, do qual somos vítimas – como navios que naufragam em noite tempestuosa. Não importa o que aconteça, o tempo nos atravessará, como o feixe de luz de um farol que nos ilumina e nos chama das sombras por um breve momento e depois passa novamente para nos lançar sem forma à escuridão. O romance revela que a nossa jornada vai além do que temos pela frente, pois ela também envolve atravessar o passado múltiplas vezes, criando uma reviravolta temporal. Para avançar, é preciso navegar pelas águas do passado. Além disso, a obra também diz respeito aos vários caminhos que os indivíduos percorrem para enfrentar a sua dor.
Ler Virginia Woolf é ler um extenso poema em prosa. Enquanto cada palavra brilha na página, cada frase incendeia as cavernas do coração. Ela ressalta os seus temas por meio de imagens cuidadosamente escolhidas ou aludindo à passagem do tempo por meio de cortinas desgastadas e móveis envelhecidos. Há no romance a noção de que cada personagem é uma ilha: enquanto as ondas dão de encontro a rochedos, acompanhamos a colisão de figuras que interagem e procuram se entender. Assim como a repetição de ideias e símbolos é usada como maneira de reforçá-las, as personagens repetem suas próprias crenças, como um mantra, para se certificarem de quem são. Elas se aproximam como se fossem botes salva-vidas, precisando de algo para se agarrar e prendê-las ao presente. Cada personagem tenta à sua maneira deixar sua marca no rosto da eternidade – seja a filosofia do Sr. Ramsey, a poesia do Sr. Carmichael, as pinturas de Lily ou a mão orientadora da Sra. Ramsey. Elas estão separadas pelo fato de que as suas almas nunca poderão se fundir e se tornar uma. A verdadeira tragédia é que essas personagens, embora desejem compreender e ser compreendidas, quase sempre se machucam, muitas vezes por medo e insegurança, ao tentar alcançar a alma do outro. Elas estão obcecados em criar imagens a partir de um universo termodinâmico. Uma personagem se deleitará com a beleza e a maravilha de um único momento, apenas para vê-lo escapar e ser levado pelo mar da experiência consciente. Embora nossas mentes criem imagens estáticas a partir da constante transformação da matéria, elas saltam para o passado antes que possam ser compreendidas, tornadas totalmente inteiras.
Ao farol declina nos pensamentos caóticos de suas personagens, explorando suas memórias, hesitações, contradições e fraquezas. Nesse sentido, a trama é um complexo jogo cujo foco está mais no exercício mental das personagens do que na disposição das peças. Isso cria uma imersão intensa com um ritmo narrativo que reflete o pensamento humano. Alternando entre emoções subjetivas e acontecimentos concretos, Virginia Woolf descreve a experiência sensorial das personagens e aborda temas como a passagem da vida e a longevidade do pensamento, proporcionando reflexões sobre a natureza humana.
Ao Farol é uma obra que provoca profundos pensamentos e sensações. Enquanto aborda os medos da morte e do tempo, Virginia Woolf lida com questões emocionais e intelectuais. A narrativa, que confronta a fragilidade da existência e explora as verdades da mudança e da morte, também nos dá um vislumbre de esperança por meio da união e do amor. O livro carrega imagens impactantes, como a água representando a experiência consciente e o farol simbolizando as esperanças e os desejos das personagens. Ao longo da narrativa, o leitor navega pela prosa marítima de Virginia Woolf para buscar a recompensa prometida no fim.
Virginia Woolf se destaca ao se afastar das tradições literárias de seu tempo, priorizando os sentimentos e as percepções em vez de narrar fatos externos. Ler suas obras é uma experiência incomparável, pois ela cadencia o movimento da consciência humana com maestria, criando uma narrativa que se desdobra internamente. Enquanto a ação exterior é breve, sendo interrompida para explorar os pensamentos das personagens, a perspectiva do tempo se volta para a consciência. Por fim, a prosa de Woolf é um farol que ilumina as trevas e dá direção aos nossos passos. Sem dúvida, a sua escrita é marcante e definitiva.
Qual é o significado da vida? Isso era tudo – uma questão simples; uma questão que tendia a nos envolver mais com o passar dos anos. A grande revelação nunca chegara. A grande revelação talvez nunca chegasse. Em vez disso, havia pequenos milagres cotidianos, iluminações, fósforos inesperadamente riscados na escuridão; aqui estava um deles. Isto, aquilo, e mais aquilo; ela própria e Charles Tansley e a onda quebrando; a Sra. Ramsay reunindo os dois; a Sra. Ramsay dizendo: “Vida, fica parada aqui”; a Sra. Ramsay fazendo do momento algo permanente (tal como, numa esfera diferente, a própria Lily tentava fazer do momento algo permanente) – esta era a natureza da revelação. Em meio ao caos, havia forma; este eterno passar e fluir (olhou para as nuvens se movendo e para as folhas se mexendo) entrava em estado de estabilidade. Vida, fica parada aqui, disse a Sra. Ramsay.
quarta-feira, 3 de julho de 2024
Do mar — 7
Hoje em dia. Pirata ainda. Espírito de raiva cadavérica. Vítima nua. Sangue amado. Da bruxa, os acenos. Das voltas, invisíveis corpos. Terra dos rugidos. A vasta névoa de perfume sinistro. Num mundo de ponta-cabeça, bucaneiros amenos. Numa amurada, a história. Corpo rosado cercado por todos os vivos. Levedado barco. Lobo do mar. O assobio balouçante dos mergulhos. Sussurrar distante do mar. Espectros abraçados por escutas e olhares. Vela, piloto a suar. Luas do Oriente. Os astros suspirados de rostos. Angústia horrenda pulsa. Mão que aguardou o convidado; alma nupcial. As agonias! Viscoso ser. A maldade de altas rezas. Lá se foi o navio, cabines de mar. O vosso infinito é azul. A marinha é fervura alegre. A cada romper, velas içadas. Esse branco chispa éter. Da sílaba, fluido leve. Range. O horizonte! O mar! A canção! Desprezíveis remos escavam. Nos uivos havia algo de urso enroscado no mastro. Tigre de passagens e rastros. O roseiral das flores. Brancas praias. No regressado caminho, terras sem ninguém. O arco em curva é palavra em pranto. O agudo pensa ver a linha branca. O segredo age. As perfeitas quebras se encontraram na linha. Gira lento o guindaste e compassa, girando, a hora, a hora. Cais deserto, manhã, barra indefinida e paquete. Dia do cansaço. Vento mundano da sigilada rejeição. O ninho da árvore crespa. O vinho que aí se partilha municia terras hibernais a cada verão.
segunda-feira, 1 de julho de 2024
Tudo em silêncio absoluto: o sopro da sensação pura
“Eu nada planejo, eu dou um salto no escuro e mastigo trevas, e nessas trevas às vezes vejo o faiscar luminoso e puro de três brilhantes que não são comíveis. Então subo à tona com um brilhante em cada pupila dos olhos para transpassar o opaco do mundo e outro entre os lábios semicerrados para quando eu falar minhas palavras sejam cristalinas, duras e ofuscantes.”
Clarice Lispector iniciou a escrita de Um sopro de vida em 1974, durante um período de grave doença. A autora morreu em 1977, deixando um grande legado literário. Publicado em 1978, Um sopro de vida compreende três anos de trabalho árduo de escrita, empreendidos simultaneamente com a produção de A hora da estrela. Ambas as obras cadenciam qualidade rítmica. Nas páginas de Um sopro de vida, a musicalidade é o canal para explorar os domínios da expressão humana.
Digo que é sempre mais difícil escrever sobre um livro que nos impacta. Os bons livros guardam essa qualidade impenetrável sobre eles, uma sensação de completude que torna difícil desvendar as raízes de sua grandeza e identificar por que nos encantam. Aqui, cada comentário sobre a escrita, a forma ou o estilo soa trivial à sombra de uma grande obra, que, em última instância, sempre busca um outro. O confronto entre a linguagem e o sujeito é o confronto final da grande literatura. No entanto, a pergunta ainda permanece: como posso começar esse confronto quando sei que vou ficar aquém, que as minhas percepções são inadequadas para dar conta de uma obra de multidões?
A premissa de Um sopro de vida é direta. À medida que o narrador-escritor se aprofunda na criação de Ângela Pralini, sua personagem, desenrola-se um encontro de reflexos. Ao longo do livro, ambas mergulham em si, numa prosa impregnada de elementos poéticos. Ângela – ela mesma escritora – revela seus anseios inatingíveis, desencadeando um diálogo sobre a frágil fronteira que separa criador e criação. Esse cenário nos faz pensar sobre a existência e sobre o processo artístico. Em meio ao choque entre ser e viver, um ambiente de melancolia toma conta, suscitando questionamentos para quem busca na vida algo além da vida.
A linguagem da obra se desdobra fervorosamente, pois a escrita de Clarice não se pretende objetiva. Em vez de aderir à narrativa linear, ela concilia matéria e alma, estabelecendo reflexões entre consciências individuais. Nessa toada, navega pela profundeza humana com muita autenticidade, construindo diálogos densos, profundos e inquietantes, que incorporam aspectos de uma filosofia existencial. Essa interação entre criador e criatura dissemina com algumas palavras muita riqueza de significado, pois a voz de Clarice é precisa em seu tom de intimidade prosaica, cujo endereço flutua entre o leitor, o autor e a criação do autor em um triângulo reflexivo. Assim, catalisando a urgência da vida em frases fragmentadas, Um sopro de vida galopa num fluxo de consciência que nos remete à escrita de Virginia Woolf.
Um sopro de vida é uma obra exigente, simplesmente por causa da paixão que pulsa na voz narrativa. Durante a leitura, a beleza da intimidade é tamanha que soa como se Clarice estivesse escrevendo só para você. É raro quando a linguagem nos toca completamente e produz conexão avassaladora. Essa ressonância, que beira a tempestuosidade, experimentada quando nos deparamos com uma bela escrita, é praticamente impossível de descrever. As metáforas brilham e voam, alcançando reflexões sobre a existência e a morte antes de recuar às lembranças pessoais da vida em todas as suas belezas. A justaposição entre o universal e o particular não é confusa, pois a obra mistura os temas de seu romance tão perfeitamente que é como se o texto respirasse. Há algo no monólogo que tem intensa vulnerabilidade, expondo partes frágeis da autora em Ângela Pralini. Nessa sensibilidade de escrita, aproxima-se mais do nebuloso núcleo da vida.
“Eu e Ângela somos o meu diálogo interior: converso comigo mesmo. Ângela é do meu interior escuro: ela porém vem à luz. A tenebrosa escuridão de onde emerjo. Escuridão pululante, lava de úmido vulcão em fogo intenso. Escuridão cheia de vermes e borboletas, ratos e estrelas.
Eu penso por intermédio de hieróglifos (meus). E para viver tenho que constantemente me interpretar e cada vez a chave do hieróglifo, estou certo que o sonho – coisa (minha) (nula), não realizado – é a chave do mesmo.
Eu escrevo por intermédio de palavras que ocultam outras – as verdadeiras.”
Imersa no dilema de saber se as palavras podem ou não transmitir pensamentos e sensações com precisão, Um sopro de vida expõe a dicotomia autor-narrador, dividida entre instinto, razão, corporificação e libertação. Enquanto Ângela Pralini mergulha nas profundezas do silêncio, onde são retratadas a paixão e a angústia de escrever, Clarice oscila entre aderir a uma narrativa estruturada e lógica ou trilhar o caminho inquietante do inconsciente. Com sua prosa enigmática e fugaz, pronta para rejeitar qualquer imposição arbitrária de limites, a obra borra as distinções entre ficção e não ficção, eu e outro, humano e divino, provocando o leitor a voltar-se para dentro de si.
Parece-me que a melhor maneira de ler as obras de Clarice é simplesmente seguir a jornada literária a qual ela nos leva, observando e experienciando o poder da linguagem e das imagens que se apresentam, apreciando os seus toques delicados e as suas explosões apaixonadas para perceber que ser humano é carregar consigo infinitas contradições. Aquele que quiser ler Clarice precisa compreender que vai abrir mão completamente de si mesmo, pois, para entrar no universo dela, é preciso se deixar ir – e não há outro caminho.
Compreende-se que Clarice se baseava em profundas indagações para escrever e que essas interrogações alicerçavam todo o seu trabalho, que era desenvolvido à beira do vazio. A escrita de Clarice, nesse sentido, é a manifestação da morte do escritor dentro do próprio texto. A escritora se depara com o vazio, que a impede de permanecer em silêncio. Quando inicia o gesto, navega no reino do indizível e, em vez de escondê-lo, expõe-o, lançando palavras para liberar sensações. Nesse processo, um novo caminho é descoberto, e esse empreendimento nasce como manifestação escrita do vazio. Porém, uma vez escritas, as palavras perdem os seus traços anímicos, aguardando um próximo sopro para erguê-las – leitura.
Um sopro de vida é a jornada de um autor que se aprofunda na vida e na morte. A capacidade que Clarice tem de focar na natureza complexa e mutável da humanidade é notável. Seu foco é alcançar a existência em seu estado mais puro, reunindo o que em nós é universal. Para isso, ela submerge no núcleo do ser, lançando sua linguagem no concreto instável da existência, tornando o livro um processo contínuo de criação artística, uma exploração da escrita que foi previamente criada, manifestação de uma paisagem externa que realça a expressão léxico-sintática. Nesse processo, a obra atinge uma abstração onde reúne pensamentos e sensações capazes de serem partilhados intelectualmente por aqueles que têm a sensibilidade de sentir as emoções alheias. A palavra é a base que nos sustenta e nos conecta. O contexto se entrelaça incorporando todos os traços da vida e da humanidade, extraindo a metafísica que nele habita. A presença daquela que nos observou ao longo da vida pulsa agora na superfície do papel e nos liberta.
Ninguém melhor para expressar a urgência da vida do que alguém que está morrendo e sabe que está morrendo. De seu leito de morte, Clarice escreve, não para a sua sobrevivência, mas para conciliar ou alcançar o que buscou ao longo da vida com a sua escrita: esse impacto com a realidade, livre de restrições culturais, familiares, religiosas, filosóficas – crenças agarradas às fragilidades da existência. Um sopro de vida é a linguagem sem fôlego de uma voz consciente de sua partida – narradora e autora –, de uma voz que busca existir no presente da experiência. Esse feito torna a obra uma conquista literária significativa. Ângela sente o tempo fugindo, como sentiu Clarice, que morreu antes de concluir o livro.
A escrita de Clarice desafia o pensamento convencional, onde cada palavra escrita nasce das sombras e do silêncio que nos envolvem, do espírito que habita dentro de nós. Fonte enigmática, linguagem do risco rompendo os limites da familiaridade, questiona tudo de maneira implacável, submergindo o leitor num abismo vertiginoso de reflexões. Nesse sentido, desafiando o status quo para declinar na complexidade labiríntica da experiência humana, a linguagem de Clarice é atemporal, e as suas obras devem ser relidas constantemente, pois cada embate supõe nova iluminação.
“Eu, alquimista de mim mesmo. Sou um homem que se devora? Não, é que vivo em eterna mutação, com novas adaptações a meu renovado viver e nunca chego ao fim de cada um dos modos de existir. Vivo de esboços não acabados e vacilantes. Mas equilibro-me como posso entre mim e eu, entre mim e os homens, entre mim e o Deus.
Vivo em escuridão da alma, e o coração pulsando, sôfrego pelas futuras batidas que não podem parar.”
quarta-feira, 26 de junho de 2024
Do mar — 6
Diante da selvageria, a vida nada de engenhosa prática. Visões febris. Os círculos de ar. Ao redor da cabeça, sobre os ombros. E as veias se elevam e violam-se. As facas trespassam; as inteligências nervosas no convés, aos pés. Absurda pirataria. Ondas de podridão! A carnagem das sinfonias dos saques. As orquestradas horas do barco ondulado. Almas da posse! Corpo violado troveja em volta. Subjugado aqui, crimes rudes. Depois, a aridez dos calores e as línguas secas. Raízes expostas; falas sufocadas. O olhar de vidro, das luzes cansadas. Poentes manchados, avanços apontados na mancha. Isso não será o giro de uma dança? A garganta na insaciável boca. As enormidades martelam espaçados ganhos. Sob o arcabouço da grade, na luz de numerosos sóis, a morte de madeira. Lá, a trança desses amarelos leprosos; branco gelo da nudez de carcaça. A praia pequena. Os desvendamentos, os gestos, fachos. Corpóreo, vítima de desvendadas mãos. As maternas cisões evolaram-se. O leme da nau sob o corpo armado das mais mortais ausências. Apetite de brevidades e sonhos. Enfim, a criança, o sono, centelha de terra da ilha afortunada. O mar, o mar, o mar e as noites de reflexo. A imobilidade aquática não cansa de enverdecer, lenta e sinuosamente. A lembrança acesa da viagem, sempre à proa, pobre e confusa. Os sóis da antiguidade animaram todas as pedras ardentes. Até que se quebrou a onda, marrando-se de ornadas colunas. Balanços dos mastros antigos. Os pescadores então esquecem: barcos dormem em suas praias. O imperfeito sorriso dura ainda. Ao longe, no amplo peito. O crime expiado, o nervo plástico, e, então, o toque da morfina – transparência adormecida. A erguida lua de dentro da sina, nela e além. O navio escorre e se implanta. A aurora. De fato, a cânfora. Por fora, o sufoco fica no pescoço. Desde sempre, a relíquia sugere a oriental viagem da pena. Já é outra vida e a mesma.
segunda-feira, 24 de junho de 2024
Stephen Dedalus e a fuga do labirinto
A sua linguagem, tão familiar e tão estrangeira, será sempre para mim uma língua adquirida. Nem fiz nem aceitei as suas palavras. Minha voz segura-as entre talas. A minha alma gasta-se na sombra da sua linguagem.
Um retrato do artista quando jovem (1916), de James Joyce (1882-1941), narra a perda de uma vocação sacerdotal e o alvorecer de um chamado artístico. Considerada uma obra quase autobiográfica, o livro capta a mente de Stephen Dedalus de forma eficaz, descrevendo a jornada de um artista através de seu eu. Nela, Dedalus tenta alcançar as coisas que mais importam, enquanto busca encontrar seu lugar no mundo. O romance acompanha Stephen Dedalus em seus anos de formação e aprendizado no final do século XIX na Irlanda. A narrativa nos brinda com cenas sobre a sua família – dividida entre o catolicismo ortodoxo e o movimento nacionalista irlandês –, sua criação no internato Clongowes Wood, a educação dada pelos jesuítas em Belvedere College, os anos na University College Dublin e, finalmente, sua decisão de se tornar um literato.
Percebemos que Dedalus é nitidamente um aluno distinto, altamente dotado de atributos intelectuais, com uma predisposição inata para a poesia e uma sensibilidade artística marcante, que é complementada por sua personalidade especial e nobre. Dedalus queria deixar a vida fluir através das fendas de sua mente para peneirar sentimentos, impulsos e significados, queria encontrar o que sua alma inquieta desejava: aquele fragmento primitivo de verdade. Mas o mundo se intrometeu em seus intentos e plantou nele sementes de dúvida.
A jornada de Dedalus não é nada fácil. Seus tormentos eram muitos: as compulsões da disciplina acadêmica, os atos de selvageria dos colegas que eram despreparados para lidar com uma opinião divergente, os castigos físicos, a miséria socioeconômica cada vez mais visível, a lavagem cerebral com água benta e o medo onipresente de cometer alguma heresia a cada pensamento ou ação. Dedalus fica perplexo com seus próprios desejos sexuais. Apesar de ser sensível, articulado e inteligente, o jovem enfrenta emoções intensas e conflitantes de luxúria, incerteza e insegurança. Em alguns momentos, ele se culpa por sua vida promíscua, pecaminosa e desenfreada. Dedalus se sente acuado, acha que Deus vai castigá-lo sem qualquer compaixão e se perde em sofrimentos. Os sermões do padre Arnall sobre a morte, o julgamento e o inferno são particularmente encantadores – até mesmo Dante não conseguiria ser tão preciso e sensorial em suas descrições de escuridão, chamas e estertores intermináveis que as almas condenadas devem suportar. Ao contrário de Dante, os sermões na obra são carregados de ironia e blasfêmia. Um retrato do artista quando jovem nos lança às profundezas do coração humano narrando os sentimentos conflitantes de Dedalus por meio do fluxo de consciência – técnica que nos faz habitar os campos consciente e subconsciente, proporcionando vislumbres das realidades objetivas e subjetivas. Essas explosões narrativas acontecem de múltiplas maneiras e com bastante ênfase: são imagens, sons, memórias, aromas e sensações táteis.
A escolha do sobrenome do protagonista está associada ao mito grego de Dédalo – artesão da cidade de Atenas responsável por construir o labirinto do Minotauro e o par de asas que deu para o seu filho Ícaro. Artista habilidoso, o Dédalo mítico acabou preso no labirinto que construiu para aprisionar o Minotauro. Assim como ele, o Dedalus joyciano também se vê preso em um labirinto construído por forças externas. Ele compreende que, ao trilhar os caminhos ditados por outros, nunca encontrará de fato uma saída ou experimentará a verdadeira realização. Ao longo da narrativa, Dedalus encontra falsas saídas do labirinto, mas nenhuma delas proporciona a fuga desejada. Assim, metaforicamente, Dedalus deseja construir um par de asas para transcender as adversidades, ultrapassar as fronteiras de Dublin e alcançar uma vida dedicada à arte.
A obra mistura várias referências literárias, filosóficas e teológicas ao cotidiano da vida irlandesa, com explosões poéticas. Ainda que Dedalus perca a fé, é evidente que sua visão sobre arte e literatura está impregnada de doutrina cristã. O livro é cheio de citações latinas, com ideias filosóficas que se referem à teologia medieval e à filosofia grega, como Tomás de Aquino, Agostinho, Aristóteles etc. Sobre isso, a obra demonstra grande erudição em relação à Poética de Aristóteles e à filosofia de Aquino, sobretudo no campo da estética. Em alguns trechos, quando trava diálogo com Estêvão e seu amigo Cranly, percebemos o domínio de Dedalus ao mencionar os atributos de beleza propostos por Aquino e ao dissertar sobre as formas dramática, épica e lírica. Sob todos esses discursos filosóficos que transbordam efusivamente, irrompe outra forma de estética, que é mais musical, sensual e rítmica.
Segundo a obra, a imagem estética dramática é a vida reprojetada na imaginação humana. O artista, na condição de Deus da criação, permanece invisível em sua obra, indiferente, refinado fora da existência. Dedalus postula que o desejo deve ser direcionado para o bem, sendo o verdadeiro e o belo os objetos de desejo mais duradouros. Embora reconheça que a beleza é subjetiva, Dedalus realça o conceito de beleza universal. Além disso, destaca o instante em que o sujeito compreende e aprecia as qualidades do objeto artístico, pois essa experiência proporciona um encantamento espiritual do coração. Dedalus conclui que a responsabilidade de um artista é distanciar-se de sua obra e agir indiferente a ela, permitindo-lhe existir de forma independente. Assim, obtemos a revelação do fluxo interno dos pensamentos, e o fluxo de consciência ditado por Joyce nos encanta e nos espanta. Quando lemos expressões, pensamentos, sensações, epifanias, é como se nós estivéssemos passando por aquilo, não os personagens.
Dedalus tentara erguer um quebra-mar contra a sórdida maré da vida para represar a recorrência estrondosa das ondas dentro de si. Inútil. Tanto de fora quanto de dentro, as águas atravessaram todas as barreiras e recomeçaram a se agitar ferozmente acima das ruínas. Durante a narrativa, acompanhamos uma personagem cuja garganta dói de tanta vontade de gritar – grito de falcão ou de águia –, de tanta vontade de libertar-se ao vento. Esse é o chamado à sua alma, não a voz desumana que o chamava ao altar, não a voz enfadonha do mundo dos deveres e do desespero. É um instante de fuga selvagem. E o grito que a sua garganta retinha fende a sua mente. A sua imagem passara para sempre em sua alma, e nenhuma palavra fora capaz de quebrar o sacro silêncio de seu êxtase. Os olhos chamaram Dedalus, e a sua alma se lançou ao chamado. Recebeu ali o anjo selvagem, um enviado para lhe abrir – num instante de êxtase – as portas de todos os caminhos do erro e da glória.
E Dedalus se rebelou e triunfou contra a embriaguez da doutrinação religiosa e contra aqueles que exigiam dele um fervor patriótico. A enxurrada implacável de catecismos que desdenhava das condições humanas não o lançou à culpa. Ele encontrou a sua santidade no amor, na beleza e na entrega silenciosa ao desejo mortal. O labirinto de iscas não conseguia mais estrangular sua ambição de escapar de seus estreitos limites. Assim, enquanto todos ao seu redor se ocupavam em buscar relevância ou prestígio social na vida, Dedalus permanecia imperturbável, pois agora aspirava ao cumprimento de um objetivo maior, tendo encontrado sua fé na legitimidade da arte e em seu poder de conferir sentido ao caos perpétuo da existência. Para recriar a vida a partir da vida – errando, caindo, triunfando e vivendo.
O apreço de Umberto Eco (1932-2016) pelas obras de James Joyce é digno de nota. Ambos receberam uma rigorosa educação católica, e, assim como as obras de Joyce, Eco enxertou em seus trabalhos diversas citações latinas e referências a padres da igreja. Em síntese, James Joyce, Umberto Eco, Jorge Luis Borges (1899-1986) e J. R. R. Tolkien (1892-1973) são alguns exemplos de autores contemporâneos com almas medievais.
Também podemos mencionar que Um retrato do artista quando jovem poderia ser lido como uma obra que segue na contramão de Confissões, de Santo Agostinho. Enquanto Agostinho expressa a sua gratidão a Deus por afastá-lo de sua juventude libidinosa e libertina e convertê-lo ao ascetismo e à religião, Joyce narra a juventude de Stephen Dedalus como um tempo de tormento moral, libertinagem esporádica, encontros românticos e breves vislumbres de alegria. Diferentemente de Agostinho, Dedalus, no final, resolve emergir sob a autoridade da igreja, desviar-se da sua família e da pátria e fugir em direção ao silêncio e ao exílio.
Cabe salientar que esse é um dos livros mais compreensíveis de James Joyce, pois, em vez de usar o fluxo de consciência ou o monólogo interior de forma desenfreada, ele opta por um estilo indireto livre, por diálogos perfeitamente construídos, por uma narração clássica em terceira pessoa e por um final com algumas datas anotadas em um diário escrito por Dedalus. Com doses poéticas de alto calibre e com a assinatura inconfundível de Joyce, Um retrato do artista quando jovem é um excelente livro. Com o passar do tempo e da leitura, Joyce se torna um escritor realmente interessante. A sua maestria literária e a sua genialidade narrativa o transformam em um artista completo.
Vou te dizer o que farei e o que não farei. Não servirei aquilo em que não acredito mais, chame-se isso o meu lar, a minha pátria, ou a minha igreja: e vou tentar exprimir-me por algum modo de vida ou de arte tão livremente quanto possa, e de modo tão completo quanto possa, empregando para a minha defesa apenas as armas que eu me permito usar: silêncio, exílio e sutileza.
[...]
Fizeste que eu confessasse os pavores que tenho. Mas vou te dizer também o que não me apavora. Não tenho medo de estar sozinho, de ser desdenhado por quem quer que seja, nem de deixar seja lá o que for que eu tenha que deixar. E não tenho medo, tampouco, de cometer um erro, um erro que dure toda a vida e talvez tanto quanto a própria eternidade mesma.
quarta-feira, 19 de junho de 2024
Do mar — 5
Mãos desertas. Muitos já sonham vossos olhos. Vácuos e pouco mar. Vossas nascenças. Relâmpagos antiquíssimos. Sereias noturnas, chorosas, longínquas. As algas. Vozes desfeitas e marés crespas? Gáveas. A vaga furiosa! Piratas arrastam chicotes, caudas de cavalos. Dedos, calores, amuradas, tatuagens feitas. Corpos esfolados, submissões para amados. O cutelo canta, carnes antigas. Seus rasgos, os corcéis se movem. Pedaços se espalham. Delírio saia, civilizações nas costas das rendas. Dorme a louca febre. Um sulino vento: albatrozes das rubricas. O longo mastro da névoa. Nas alvuras de luz ligeira, demônios. A neblina, agora, das aves. Há mastros, luas e barcos de cravados sopros. Águas e águas. Tropéis aquáticos! Escrava de óleo, a bruxa dos céus verdes de azuis sonhos. Espumas de orlas brancas, a ilha continental. Os corais, arvoredos em praia, flores do longe. O sonho das formas perde-se nas distâncias. O beijado mérito dura ainda? Em chios de naus, outros fins. O leme tremido. Giro. Aqui corre a cambiante lebre. Lá fora. O arco-íris: prece – a teia e a aranha. A pedra preciosamente escondida. Gravura: da barba ao azul, os matadouros e os circos. Selo da janela. Bichos circundantes. Cristas altas. Calmo apascento, rebanho corpóreo de rio, fúrias carnívoras e o fundo das veias! Aqui chegado, é grito, o barco, todo o mundo arranha, deus a bordo! Severo mastro. Costa pontuada, paquete velado. A costa inóspita, despojada. Traição calma do horror. O ouvir da flauta aos pés de Peneu, Tempe e Pélion. A luz do dia – os Faunos, os Silvanos, os Silenos, as Ninfas – e a onda declara: singra-me tudo e todos às velas.
segunda-feira, 17 de junho de 2024
Assim como o vaso cria o vazio, a palavra cria o silêncio
Eis o paradoxo: o meu silêncio desperta em mim o silêncio, e me permite escutar o que só posso silenciar.
Aldeia do silêncio (2013), de Frei Betto (1944-), é um livro de grande ambição, onde o autor aprofunda o conceito de silêncio e seu papel na existência humana, desenvolvendo questões como a reflexão, a contemplação, a conexão com a natureza e os encontros místicos transcendentais. Elevando-se com maestria em suas palavras, o autor cria um canal para profundas investigações existenciais, filosóficas e éticas. Um silêncio profundo mora dentro de nós e é desse silêncio que surgem as nossas palavras. De dentro desse silêncio nasce algo ainda mais precioso, que é o próprio silêncio.
Frei Betto tece uma história centrada em Nemo, homem que passou toda a sua existência em uma aldeia remota e esquecida, acompanhado apenas por seu avô, sua mãe e dois animais – figuras míticas que desempenharam papéis significativos em sua vida. O rapaz aprendera com o seu avô e com a sua mãe a reverenciar o silêncio, tendo uma inclinação para conservar os seus pensamentos em si. Habitaram por muito tempo a aldeia, reino atemporal, até que foi arrancado de lá de forma violenta. Após a morte de seu avô e já sem casa, Nemo é levado à cidade, onde é torturado em uma delegacia de polícia por sua natureza introspectiva. Sem dignidade e largado como um corpo qualquer, ele busca consolo no silêncio, recusando-se a revelar-se aos seus algozes. É lançado às ruas depois de alguns meses, completamente desamparado e quebrado, e, buscando proteção, acaba sendo internado em um centro médico, onde passará o resto de seus dias. Nemo é alfabetizado durante a sua estadia no hospital e resolve escrever um diário para contar as suas experiências passadas na aldeia e o seu cotidiano como paciente. Em seu estado, o protagonista encontra refúgio na escrita.
O silêncio e a palavra abrangem uma miríade de sutilezas – são tapeçarias de inúmeras variações –, e o propósito do enredo é explorar profundamente esses reinos, criando um contraste harmonioso entre eles. A obra aprofunda a noção de que o silêncio não é apenas a ausência de fala ou de ruído externo, mas introspecção serena, mergulho indescritível no âmago do ser, meio de decifrar os aspectos enigmáticos do eu interior. Nemo relata uma experiência transformadora que envolve fixar a mente no nada, esvaziar os olhos da visão, respirar num ritmo medido e abandonar a autoconsciência. Essa prática leva ao encontro com o vazio – à sensação de existir dentro do vazio da mente. É nesse ponto que somos confrontados com uma experiência radical e profunda, onde os reinos do erótico e do sagrado se entrelaçam, momento que só pode ser descrito como místico.
O avô e a mãe também reverenciam o silêncio, mas de maneiras diferentes. O silêncio do avô o protege de suas próprias memórias, e ele o quebra apenas para ensinar algo ao neto. O da mãe, por outro lado, é diferente: enquanto os seus lábios permanecem imóveis, o seu coração e as suas memórias agitam-se por dentro. Capaz de se mover no ritmo sem precisar da música, o silêncio da mãe tem natureza dançarina. O silêncio reverencial que envolve os moradores da aldeia é praticamente tangível, e as descrições permitem-nos experimentar o seu profundo peso e a sua etérea tranquilidade. Desse estado nascem encontros que fomentam a nossa humanidade. Nesse sentido, o livro é pautado pelo poder das palavras, tanto em sua presença quanto em sua ausência. A obra se vale de alegorias para pensar a escrita como gesto de silenciar o caos que habita a mente.
Além disso, Nemo nos convida a uma aventura em outra direção, mostrando-nos os contrastes existentes entre a cidade e a sua aldeia. Enquanto na cidade as pessoas são consumidas pelo desejo insaciável de estar constantemente em movimento, de prosseguir incessantemente a ação, na aldeia o esforço consistia em simplesmente abster-se de fazer qualquer coisa, abraçar o estado de ser, entregando-se a ele completamente. Lá, experimentava-se o êxtase, libertava-se das complexidades da mente e mergulhava-se nas profundezas do vazio interior. A obra nos mostra que a realidade moldada pelo poder da linguagem sempre deixa uma marca que não pode ser apagada. As palavras pronunciadas guardam presença eterna. Embora possamos tentar retificar declarações, alterar perspectivas ou reverter afirmações, a única maneira de fazer isso é empregando outras palavras.
A obra é cheia de momentos brilhantes. Nesse instante de êxtase, há uma energia eletrizante que culmina em realizações. É frenesi iluminado por enigmática dança, estado de embriaguez deslumbrante e encantador. É como se o universo, com todas as suas convulsões, tivesse encontrado o seu lugar nas profundezas da alma. No momento da leitura, consumido por desejo insaciável, tornamo-nos um com o divino, entregando-nos à paixão que nos toma por dentro e, nessa entrega, encontramos a exuberância da existência, as pulsações rápidas do coração e a chama de um fogo que se espalha sem queimar, que tudo envolve e nada consome. Desse ponto em diante, uma infinidade de imagens expressará o inefável, dispersas pelas palavras escritas, transcendendo a chama vibrante, as melodias silenciosas, a substância do vazio, o enigma e a travessia de fronteiras.
Durante a leitura, percebemos que entre nós e o outro há uma conexão fragmentada que sempre deixa um forte contraste, incorporando tudo o que não somos, tudo o que nos falta, testemunhando a nossa natureza mais verdadeira, onde os desejos são experienciados, as inibições desmoronam, as fronteiras são ultrapassadas e o amor reina supremo. Nesse estágio, nosso espírito é tomado por prazeres, e permanecemos num estado de elevada consciência, envolto no silêncio profundo que vibra dentro de nós e que sugere a presença de algo indescritível. Assim, Aldeia do silêncio nos convida a mergulhar no abismo da linguagem para explorar a profundeza de todas as suas camadas enigmáticas.
A obra segue além. Ela é uma mosaico magistral que tece referências a renomados autores. Como resultado, acompanhamos uma narrativa potente e intensa. Inventando uma nova linguagem para descrever a beleza que existe nos detalhes, o romance mergulha na substância do silêncio e, com habilidade, observa e celebra a natureza, que serve como maneira de resgatar a humanidade que aos poucos é consumida pela urbanização. Além disso, o livro também nos convida a encontros metafísicos, dialogando com livros que acenam à solidão. De sua aldeia isolada, Nemo experimenta a potência criadora nas profundezas do silêncio e nos sussurros da natureza. Envolvido pela serenidade e pela quietude, ele pode encontrar sua essência, suas emoções e seu lado divino. Ler a Aldeia do silêncio é semelhante a redescobrir o paraíso – espécie de utopia literária. Embora não possamos habitar esses espaços serenos, eles sempre deixam uma marca nas nossas almas.
Também é preciso dizer que a obra apresenta alguns pontos obscuros. Se Nemo deseja verdadeiramente alcançar o reino do silêncio, isso parece contradizer a potência frenética de seus pensamentos por meio das palavras (ou talvez possamos pensar que aquele que muito diz, no final, nada diz e conquista, assim, uma forma de silêncio). Tendo em vista que a origem pouco sofisticada de Nemo não se alinha com suas reflexões filosóficas e que a sua narrativa é muito eloquente, a veracidade da estruturação do protagonista é bem duvidosa. De todo modo, esses possíveis pontos contraditórios não são capazes de invalidar a obra; servem, antes, como pontos de partida para fomentar e ampliar debates no âmbito da literatura e da linguagem.
Aldeia do silêncio nos leva a uma expedição reflexiva que nos obriga a pausar e a reconsiderar o palavreado excessivo que produzimos cotidianamente. O andamento da narrativa dita um ritmo vagaroso, quase nos obrigando a interromper a leitura para buscar outros caminhos. Por meio de sua prosa comovente e profunda, Aldeia do silêncio nos transporta para um reino que é ao mesmo tempo desconhecido e reminiscente. A obra nos convida a desacelerar, a recuperar a cadência de nossas almas sem a interferência da tecnologia e a habitar o presente em meio a uma era virtual. A aldeia, retratada como um refúgio caracterizado pela quietude, contrasta com a natureza movimentada, brutal e desumanizante da cidade.
Aldeia do silêncio nos mostra que é de extrema importância reexaminarmos os campos do nosso silêncio, abordando-os com outra visão e transformando-os em espaços de interação, conversa e conexão. O silêncio tem o poder de construir e de atuar como alavanca, ou seja, funciona como força transformadora. A obra nos revela que a sociedade enfatiza o desenvolvimento de competências, mas que investimos muito pouco no cultivo das competências que nascem do silêncio. Nosso analfabetismo nessa área é uma das razões pelas quais lutamos para encontrar a paz. O silêncio é uma potência unificadora que é mais fecunda do que poderíamos inicialmente supor. Ele tem a capacidade de se tornar uma sabedoria partilhada que abrange o que é verdadeiramente fundamental. Contudo, para conseguir isso, devemos passar por uma iniciação ao silêncio, que é essencialmente uma iniciação à arte de ouvir – e Aldeia do silêncio é um ótimo começo.
quarta-feira, 12 de junho de 2024
Do mar — 4
A lua antecipa esparsas pazes do rio. A gaivota. A ternura da passagem. Horas matutinas. Fosse ou não, candura. Monte azul. As velas passaram longínquas. Marulho no rio do cais! Águas. A encomenda, outras emoções. Sonhos velhos. Canções pobres. Rejuvenescer de remorso? A vítima não murmura. As excitações. Frescores. O oceano escala soturnamente. Noite enorme. As lágrimas ressurgentes. O grito e o aroma varreram a voz chamada. A partida passa. Vermelho normal. Pontões, navios. Tempestade fria. A mão escarnada, a barba caída. Escutas e olhares. Estás ainda no porto? Promontórios de pouco cuidado. Faróis de sol adiante. O mar e o levante. Ao redor do mastro. Rubores rosas. Menestréis. Peitos forçados. A borrasca tirânica. A surpresa violenta. Perigo! Mastros mergulhados nas sombras. Os inimigos curvados na cabeça das proas evadidas. O mastro alto. Penhas de espectros. Rangem, rosnam, rugem. Albatrozes da cerração às imensidades das paredes d’água. Marinheiros mortos. A porta de janela, as tardes das atenções, as sensações, os nexos. Corpo. Ergue-se rota: escrita, ritmo. Ao lado da nau frondosa, quantas formas da árvore não desenha. Palácios distantes, escadas, jardins, ilhas, pórticos, candeias, encostas, umidades, tanques, rangentes rãs, punhal fechado, deslocamento de cabeças e mundos. Negrumes errantes pousados. Mentores de eras supostas. O guarda do fundo. A areia acaba achando a concha. A mudez é a cor. Pelos cantos, a morte. A arte, o engenho, o saque. O som do rio aflora alto. Terras achadas! Horizonte. Lá se foi a riqueza. Chuvas de cetim.
segunda-feira, 10 de junho de 2024
Ante a lanterna de Diógenes: a busca pela verdade em um mar de mentiras
Supõe tu um campo de batatas e duas tribos famintas. As batatas apenas chegam para alimentar uma das tribos, que assim adquire forças para transpor a montanha e ir à outra vertente, onde há batatas em abundância; mas, se as duas tribos dividirem em paz as batatas do campo, não chegam a nutrir-se suficientemente e morrem de inanição. A paz, nesse caso, é a destruição; a guerra é a conservação. Uma das tribos extermina a outra e recolhe os despojos. Daí a alegria da vitória, os hinos, aclamações, recompensas públicas e todos os demais efeitos das ações bélicas. Se a guerra não fosse isso, tais demonstrações não chegariam a dar-se, pelo motivo real de que o homem só comemora e ama o que lhe é aprazível ou vantajoso, e pelo motivo racional de que nenhuma pessoa canoniza uma ação que virtualmente a destrói. Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas.
Diógenes de Sinope foi um filósofo grego conhecido por empunhar, em plena luz do dia, uma lanterna acesa diante do rosto dos cidadãos atenienses, alegando que estava à procura de algum homem honesto. Vivendo de acordo com os seus princípios e comprometido com a honestidade, Diógenes rejeitou as convenções e defendeu a verdade a todo momento e sob qualquer circunstância. Atualmente, o filósofo grego ainda é lembrado pelo seu compromisso com a verdade e por viver de acordo com suas crenças.
Quincas Borba (1891), de Machado de Assis (1839-1908), narra a história de Rubião, um morador de Barbacena, cidade situada em Minas Gerais. A jornada de Rubião o leva de uma vida de dificuldades como docente ao patamar de amigo e confidente de Joaquim Borba dos Santos, também conhecido como Quincas Borba. O raciocínio por trás do título do livro é bastante complexo, visto que a obra contempla não apenas um, mas dois Quincas Borba: o humano e o cachorro. Curiosamente, é o cachorro quem persiste durante toda a narrativa, já que o humano morre logo no início da trama.
O livro, porém, é dedicado a desenvolver a teoria Humanitas, formulada pelo filósofo Quincas Borba ainda em vida e resumida no lema “Ao vencedor, as batatas!”. Essa teoria se assemelha à defendida por Charles Darwin (1809-1882), que postula que a natureza sempre favorece os mais fortes. Na obra, por exemplo, notamos isso nas batalhas que os indivíduos enfrentam nas cidades grandes, repletas de armadilhas e adversidades.
O narrador machadiano dialoga com o leitor, convidando-o a mergulhar na narrativa que se desenrola na segunda metade do século XIX, período marcado por significativas mudanças sociais. A narrativa começa quando Quincas Borba adoece e acaba morrendo. Em seu testamento, o filósofo lega todo o seu patrimônio a Rubião, com a condição de que o amigo cuide de seu cachorro, que, inclusive, tem o mesmo nome do filósofo. Com a nova riqueza, Rubião abandona a docência e se muda para o Rio de Janeiro. É nesse momento que a trama começa a ganhar seus contornos.
Rubião conhece o casal Palha, formado por Cristiano e Sofia, durante a viagem de trem de Minas para o Rio de Janeiro. O casal se torna o guia de Rubião na cidade, já que o ex-professor desconhecia a movimentada metrópole carioca. Nesse ponto, Cristiano percebe a inocência de Rubião e vê nela uma chance de acumular riqueza. Rubião, por sua vez, apaixona-se por Sofia, fato que acaba originando um triângulo amoroso (que não se concretiza).
Em seguida, Rubião fixa residência em Botafogo e recebe um convite para jantar na residência do casal Palha. Depois do jantar, Sofia convida Rubião para um passeio pelo jardim. Nesse momento, Rubião expressa o seu amor por Sofia, propondo que ambos olhem todas as noites para as estrelas como prova do seu amor. Apesar dos avanços e das declarações, Sofia rejeita Rubião, pois se diz totalmente comprometida com o casamento e respeitosa com o marido. Porém, quando Sofia conversa com Cristiano sobre o encontro, ele a incentiva a continuar amarrando Rubião, explorando sua paixão para ganhos pessoais. Relutante, Sofia sucumbe à persuasão do marido, sentindo-se compelida a submeter-se aos seus desejos de esposa zelosa e obediente. A maneira como Cristiano joga para extrair quantias cada vez maiores de Rubião é objeto de constante crítica. Personagens como esses – que encarnam a mesma crueldade que persiste na sociedade contemporânea – atraem a atenção por manipularem a todo momento a ingenuidade das pessoas. Nesse sentido, a obra também nos apresenta um tema universal centrado na presença de enganadores.
O romance Quincas Borba apresenta uma crítica à conduta humana. À medida que nos aprofundamos na narrativa, acompanhamos o declínio de Rubião devido à má gestão de sua riqueza por parte de Cristiano Palha e aos seus próprios gastos extravagantes, muitas vezes à custa de indivíduos oportunistas. Enquanto a condição financeira de Cristiano melhora, pouco a pouco, Rubião, consumido pelo amor, enlouquece. Ele sustenta um suposto adultério entre Sofia e Carlos Maria, que não acontece. A condição psicológica de Rubião piora ainda mais, fazendo-o ter alucinações; delirante, simula o penteado de Luís Napoleão. O seu estado de miséria o leva a ser internado em uma casa de repouso, mas ele reaparece em Minas Gerais ao lado de seu fiel cão. Apesar de receber o apoio de Angélica, Rubião morre tragicamente. O seu fiel companheiro, Quincas Borba, morre três dias depois. A vida de Rubião, que parecia estar em uma trajetória ascendente com uma casa no Rio de Janeiro, compromissos sociais e convivência com a classe alta, é tragada pelas implacáveis estruturas da cidade e seus habitantes. Quando os indivíduos agem apenas em benefício de seus próprios desejos, revelam a sua natureza animalesca. Em contrapartida, o cão é exemplo de lealdade, devoção, amor e gratidão. Se a sobrevivência cabe ao mais forte, este não foi Rubião.
O Humanitismo serve como uma resposta satírica a vários movimentos filosóficos do século XIX, oferecendo um exame tangível da realidade. Curiosamente, pode ser interpretado como um desdém pela natureza humana imperfeita. A obra reimagina e reconstrói esta realidade, destacando os aspectos mais sombrios da humanidade e expondo o seu egoísmo. Nesse sentido, ela fornece uma representação do comportamento humano, revelando um desejo universal de ganho pessoal, propriedade e controle. Além disso, aqueles que se opõem a estes desejos são frequentemente vistos como alvos de aniquilação.
De natureza intrusiva – conversando por vezes com o leitor –, o narrador machadiano cadencia o desenvolvimento da trama de forma fabulosa, suspendendo a conclusão dos capítulos e nos deixando ansiosos por novas revelações. O leitor mais perspicaz perceberá que a sucessão dos acontecimentos revela a perspectiva de Machado sobre as questões do mundo, ainda que por vezes persista a sensação de que o narrador está apenas contando a história sem fazer julgamentos. Diversos momentos da trama estabelecem paralelos entre as experiências das personagens e os dias atuais, incluindo e trabalhando temas como a exibição ostensiva de riqueza apesar da insolvência financeira, a corrupção, o racismo, o papel das mulheres, a instituição do casamento como pilar do patriarcado, o processo de envelhecimento etc. Assim, com sutileza ou firmeza, a obra aborda diversos assuntos do macrocosmo e microcosmo do Brasil, explorando suas interconexões. Nota-se que a escolha por esse tipo de narrador, portanto, é adequada, pois fornece um retrato abrangente da nossa sociedade.
Tudo o que vive busca a eternidade. Satirizando a noção de um mundo ideal e investigando a ideia de que o universo é uma vontade irracional e incompreensível que impulsiona a vida, percebe-se como a filosofia de Arthur Schopenhauer (1788-1860) está presente na obra. A manifestação da vontade não é racional, mas impulsiva, cujo objetivo é garantir a continuação da espécie em um mundo onde suas estruturas são apenas representações. Neste quadro, existem dois aspectos que não podem ser separados: o objeto – que existe dentro dos limites do tempo e do espaço – e o sujeito – que se forma através da consciência do mundo. Contudo, tendo em vista que a vontade nunca pode ser plenamente satisfeita, o mundo torna-se sofrimento, e o prazer acontece quando a dor cessa, mas isso é sempre temporário. Para Schopenhauer, os indivíduos autoconscientes percebem que são moldados e definidos pela sua própria vontade, que por sua vez é influenciada pela arquitetura de suas paixões e interesses. Abraçar os próprios desejos é inerente ao ser humano, mas Schopenhauer sugere que rejeitar a vontade seria um gesto de santidade, pois vai contra as nossas inclinações naturais. Sua filosofia investiga a oscilação entre a dor e o tédio que todos experimentamos. Sob a superfície da obra, percebe-se o descontentamento com a sociedade e seu pessimismo.
Sem dúvida, Machado de Assis é um escritor que merece múltiplas leituras. Embora a conclusão de Quincas Borba seja profundamente triste, sem qualquer vislumbre de esperança, o autor tem o poder de nos encantar, e isso não se deve apenas à natureza duradoura de suas histórias, mas também ao fato de ele nos ligar a acontecimentos que parecem totalmente afastados de nossas vidas, criticando, de forma contundente e irônica, as ideologias otimistas predominantes em sua época. Assim como na era de Diógenes, a sociedade também busca, em meio a um mar de corrupção e de enganadores, alguém que incorpore a integridade moral. Porém, após a leitura, parece-nos evidente que uma única lanterna não será suficiente para descobrir indivíduos honestos no meio dessa escuridão que encobre a ética e a moralidade.
Quando Rubião voltava do delírio, toda aquela fantasmagoria palavrosa tornava-se, por instantes, uma tristeza calada. A consciência, onde ficavam rastos do estado anterior, forcejava por despegá-los de si. Era como a ascensão dolorosa que um homem fizesse do abismo, trepando pelas paredes, arrancando a pele, deixando as unhas, para chegar acima, para não tombar outra vez e perder-se.



