segunda-feira, 17 de junho de 2024

Assim como o vaso cria o vazio, a palavra cria o silêncio




Eis o paradoxo: o meu silêncio desperta em mim o silêncio, e me permite escutar o que só posso silenciar.


Aldeia do silêncio (2013), de Frei Betto (1944-), é um livro de grande ambição, onde o autor aprofunda o conceito de silêncio e seu papel na existência humana, desenvolvendo questões como a reflexão, a contemplação, a conexão com a natureza e os encontros místicos transcendentais. Elevando-se com maestria em suas palavras, o autor cria um canal para profundas investigações existenciais, filosóficas e éticas. Um silêncio profundo mora dentro de nós e é desse silêncio que surgem as nossas palavras. De dentro desse silêncio nasce algo ainda mais precioso, que é o próprio silêncio.

Frei Betto tece uma história centrada em Nemo, homem que passou toda a sua existência em uma aldeia remota e esquecida, acompanhado apenas por seu avô, sua mãe e dois animais – figuras míticas que desempenharam papéis significativos em sua vida. O rapaz aprendera com o seu avô e com a sua mãe a reverenciar o silêncio, tendo uma inclinação para conservar os seus pensamentos em si. Habitaram por muito tempo a aldeia, reino atemporal, até que foi arrancado de lá de forma violenta. Após a morte de seu avô e já sem casa, Nemo é levado à cidade, onde é torturado em uma delegacia de polícia por sua natureza introspectiva. Sem dignidade e largado como um corpo qualquer, ele busca consolo no silêncio, recusando-se a revelar-se aos seus algozes. É lançado às ruas depois de alguns meses, completamente desamparado e quebrado, e, buscando proteção, acaba sendo internado em um centro médico, onde passará o resto de seus dias. Nemo é alfabetizado durante a sua estadia no hospital e resolve escrever um diário para contar as suas experiências passadas na aldeia e o seu cotidiano como paciente. Em seu estado, o protagonista encontra refúgio na escrita.

O silêncio e a palavra abrangem uma miríade de sutilezas – são tapeçarias de inúmeras variações –, e o propósito do enredo é explorar profundamente esses reinos, criando um contraste harmonioso entre eles. A obra aprofunda a noção de que o silêncio não é apenas a ausência de fala ou de ruído externo, mas introspecção serena, mergulho indescritível no âmago do ser, meio de decifrar os aspectos enigmáticos do eu interior. Nemo relata uma experiência transformadora que envolve fixar a mente no nada, esvaziar os olhos da visão, respirar num ritmo medido e abandonar a autoconsciência. Essa prática leva ao encontro com o vazio – à sensação de existir dentro do vazio da mente. É nesse ponto que somos confrontados com uma experiência radical e profunda, onde os reinos do erótico e do sagrado se entrelaçam, momento que só pode ser descrito como místico.

O avô e a mãe também reverenciam o silêncio, mas de maneiras diferentes. O silêncio do avô o protege de suas próprias memórias, e ele o quebra apenas para ensinar algo ao neto. O da mãe, por outro lado, é diferente: enquanto os seus lábios permanecem imóveis, o seu coração e as suas memórias agitam-se por dentro. Capaz de se mover no ritmo sem precisar da música, o silêncio da mãe tem natureza dançarina. O silêncio reverencial que envolve os moradores da aldeia é praticamente tangível, e as descrições permitem-nos experimentar o seu profundo peso e a sua etérea tranquilidade. Desse estado nascem encontros que fomentam a nossa humanidade. Nesse sentido, o livro é pautado pelo poder das palavras, tanto em sua presença quanto em sua ausência. A obra se vale de alegorias para pensar a escrita como gesto de silenciar o caos que habita a mente.

Além disso, Nemo nos convida a uma aventura em outra direção, mostrando-nos os contrastes existentes entre a cidade e a sua aldeia. Enquanto na cidade as pessoas são consumidas pelo desejo insaciável de estar constantemente em movimento, de prosseguir incessantemente a ação, na aldeia o esforço consistia em simplesmente abster-se de fazer qualquer coisa, abraçar o estado de ser, entregando-se a ele completamente. Lá, experimentava-se o êxtase, libertava-se das complexidades da mente e mergulhava-se nas profundezas do vazio interior. A obra nos mostra que a realidade moldada pelo poder da linguagem sempre deixa uma marca que não pode ser apagada. As palavras pronunciadas guardam presença eterna. Embora possamos tentar retificar declarações, alterar perspectivas ou reverter afirmações, a única maneira de fazer isso é empregando outras palavras.

A obra é cheia de momentos brilhantes. Nesse instante de êxtase, há uma energia eletrizante que culmina em realizações. É frenesi iluminado por enigmática dança, estado de embriaguez deslumbrante e encantador. É como se o universo, com todas as suas convulsões, tivesse encontrado o seu lugar nas profundezas da alma. No momento da leitura, consumido por desejo insaciável, tornamo-nos um com o divino, entregando-nos à paixão que nos toma por dentro e, nessa entrega, encontramos a exuberância da existência, as pulsações rápidas do coração e a chama de um fogo que se espalha sem queimar, que tudo envolve e nada consome. Desse ponto em diante, uma infinidade de imagens expressará o inefável, dispersas pelas palavras escritas, transcendendo a chama vibrante, as melodias silenciosas, a substância do vazio, o enigma e a travessia de fronteiras.

Durante a leitura, percebemos que entre nós e o outro há uma conexão fragmentada que sempre deixa um forte contraste, incorporando tudo o que não somos, tudo o que nos falta, testemunhando a nossa natureza mais verdadeira, onde os desejos são experienciados, as inibições desmoronam, as fronteiras são ultrapassadas e o amor reina supremo. Nesse estágio, nosso espírito é tomado por prazeres, e permanecemos num estado de elevada consciência, envolto no silêncio profundo que vibra dentro de nós e que sugere a presença de algo indescritível. Assim, Aldeia do silêncio nos convida a mergulhar no abismo da linguagem para explorar a profundeza de todas as suas camadas enigmáticas.

A obra segue além. Ela é uma mosaico magistral que tece referências a renomados autores. Como resultado, acompanhamos uma narrativa potente e intensa. Inventando uma nova linguagem para descrever a beleza que existe nos detalhes, o romance mergulha na substância do silêncio e, com habilidade, observa e celebra a natureza, que serve como maneira de resgatar a humanidade que aos poucos é consumida pela urbanização. Além disso, o livro também nos convida a encontros metafísicos, dialogando com livros que acenam à solidão. De sua aldeia isolada, Nemo experimenta a potência criadora nas profundezas do silêncio e nos sussurros da natureza. Envolvido pela serenidade e pela quietude, ele pode encontrar sua essência, suas emoções e seu lado divino. Ler a Aldeia do silêncio é semelhante a redescobrir o paraíso – espécie de utopia literária. Embora não possamos habitar esses espaços serenos, eles sempre deixam uma marca nas nossas almas.

Também é preciso dizer que a obra apresenta alguns pontos obscuros. Se Nemo deseja verdadeiramente alcançar o reino do silêncio, isso parece contradizer a potência frenética de seus pensamentos por meio das palavras (ou talvez possamos pensar que aquele que muito diz, no final, nada diz e conquista, assim, uma forma de silêncio). Tendo em vista que a origem pouco sofisticada de Nemo não se alinha com suas reflexões filosóficas e que a sua narrativa é muito eloquente, a veracidade da estruturação do protagonista é bem duvidosa. De todo modo, esses possíveis pontos contraditórios não são capazes de invalidar a obra; servem, antes, como pontos de partida para fomentar e ampliar debates no âmbito da literatura e da linguagem.

Aldeia do silêncio nos leva a uma expedição reflexiva que nos obriga a pausar e a reconsiderar o palavreado excessivo que produzimos cotidianamente. O andamento da narrativa dita um ritmo vagaroso, quase nos obrigando a interromper a leitura para buscar outros caminhos. Por meio de sua prosa comovente e profunda, Aldeia do silêncio nos transporta para um reino que é ao mesmo tempo desconhecido e reminiscente. A obra nos convida a desacelerar, a recuperar a cadência de nossas almas sem a interferência da tecnologia e a habitar o presente em meio a uma era virtual. A aldeia, retratada como um refúgio caracterizado pela quietude, contrasta com a natureza movimentada, brutal e desumanizante da cidade.

Aldeia do silêncio nos mostra que é de extrema importância reexaminarmos os campos do nosso silêncio, abordando-os com outra visão e transformando-os em espaços de interação, conversa e conexão. O silêncio tem o poder de construir e de atuar como alavanca, ou seja, funciona como força transformadora. A obra nos revela que a sociedade enfatiza o desenvolvimento de competências, mas que investimos muito pouco no cultivo das competências que nascem do silêncio. Nosso analfabetismo nessa área é uma das razões pelas quais lutamos para encontrar a paz. O silêncio é uma potência unificadora que é mais fecunda do que poderíamos inicialmente supor. Ele tem a capacidade de se tornar uma sabedoria partilhada que abrange o que é verdadeiramente fundamental. Contudo, para conseguir isso, devemos passar por uma iniciação ao silêncio, que é essencialmente uma iniciação à arte de ouvir – e Aldeia do silêncio é um ótimo começo.

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