quinta-feira, 28 de agosto de 2025

A escrita navegante (o sonho das águas) — XV

Foram sempre empurrados às margens, não por falta de dizer, mas por excesso de dizer outro. Nunca encontraram refúgio nos corredores da opinião nem abrigo nos abrigos da crítica. Esses poetas não compõem a partir da clareza ou da ordem, mas a partir do resto, do intervalo, da rasura. Habitam a fronteira onde a linguagem escapa ao controle, onde o corpo já não suporta a forma e começa a vibrar com aquilo que ainda não tem nome: o que não se lembra, o que não se sente, o que não se pensa — mas pulsa.

São os intérpretes do caos, não no sentido de quem traduz, mas de quem se inscreve nele. O corpo, nesse gesto, não é instrumento, mas matéria — corpo em ruína, corpo que implode, corpo onde se escrevem forças. Não há representação, há dobra. As palavras, então, não narram: escorrem. As imagens, em vez de mostrar, colapsam. Os ritmos não medem o tempo: abrem buracos nele. Todo enunciado torna-se excesso que se autodevora, toda frase arrasta a próxima para dentro de um vórtice onde forma e deformação coincidem.

Não se trata de estilo nem de invenção. Trata-se de uma escritura que emerge quando já nada mais resta a dizer — e, ainda assim, tudo grita. A lógica, aqui, é atravessada por uma loucura precisa, uma improvisação que não dispensa a geometria: rigor do abismo, cálculo do delírio. É a linguagem que se desfaz enquanto se refaz. A sintaxe treme. A gramática é suspensa. O sentido escapa, mas o impacto não.

Nesse fundo onde tudo é ruído e vibração, o gesto barroco retorna como vertigem: lampejos lançados contra o indizível, tentativa desesperada de fixar o que se desfaz ao ser tocado. O espanto aqui é origem, não efeito. E escrever, nesses termos, não é comunicar — é suportar o insuportável.

É por isso que esses poetas não são lidos: são enfrentados. Não são compreendidos: são atravessados. São abismos que escrevem com os dedos em chaga, arrastando o leitor para uma respiração que não cadencia, para um pensamento que se pensa em queda, para uma arte que só se reconhece no limite onde já não se distingue entre arte, corpo, caos e grito.

quarta-feira, 27 de agosto de 2025

Noite nanquim — 20

     Retiro-me da história e me restituo ao espanto dos heróis. Nobre dia. Falo. Mudo pernas em relvas. Tudo é atraído para as geleiras, para os ingênuos pecados, para a vitória vária que palpitam raios e rubis. Calo as palavras interiores que se rendem aos gritos do ar e do fogo. O mar longínquo é um reinado bem junto da folha. Saboreio o púrpura e a vinda das carruagens. Os céus, ali adiante, vertem territórios. O fervor e o esplendor suspensos entre céu e mar são tão intensos que a hora e o livro, a visão do personagem e a perturbação de ser brilham e morrem — formam a tapeçaria e o espelho de quimeras. Persisto, mesmo sem linguagem. Insisto na palavra.

segunda-feira, 25 de agosto de 2025

Noite nanquim — 19

    Silêncio de funeral, sacada dos deuses, destino, sustento por meio da solidão um universo de instintos, a piedade última daquilo que foi antes de todas as coisas — tu enxergarás o bestiário. Minhas almas são o abismo do mundo. Respiro a autoconversa existente nos hieróglifos antes da tempestade. Espero a presa que não deve nascer senão de tantos outros. Ilumino com gestos espelhados o vazio-seco de onde muita gente jorrará. Em segredo, uma voz conhecida ensaia vozes desconhecidas. Busco e desenho as figuras implícitas que preexistem na cova — sepulto na cal todas as veias da mente, todos os cabelos.

quinta-feira, 21 de agosto de 2025

A escrita navegante (o sonho das águas) — XIV

O que me constitui em escrita é um corpo atravessado por desastres de linguagem, por cortes e desmoronamentos fonéticos, por um murmúrio inacabado que se instala nas frestas de línguas outrora habitadas. São dialetos desalojados, vozes que já não reconhecem o lugar da origem, que carregam no timbre o peso do extravio, do deslocamento, do gesto interrompido. Não há linearidade no que escrevo: há apenas uma cronologia irregular, feita de suspensões e espasmos, onde o tempo se dá como respiração comprometida, como duração em estado de crise.

As frases são colapsos em processo, tentativas de arranhar o que me escapa no ato mesmo da fala. A minha voz tornou-se espaço negativo, intervalo pulsante entre o dito e o que não pode mais sê-lo. Ela se desenha como topografia instável: pedaço de mapa sem território, ferida que não se fecha, rumor que roça os contornos da sintaxe por vir. Falo a partir do entre-lugar: não pertenço à língua que me forma, tampouco àquela que me ouve. Sou ruído entre margens, fala estilhaçada que perpassa o silêncio sem jamais atravessá-lo completamente.

A escuta acolhe o sintoma, e, nesse acolhimento, o gesto da linguagem se regenera como contaminação. Escavo a palavra até encontrar nela a sombra de outra não proferida, mas que lateja no fundo do que não consigo dizer. A cada tentativa de fala, recomeço o impossível: minha boca se abre para o inominável e tropeça nos próprios limites do som, onde o acento se desfaz em matéria bruta de respiração. Há delírio lúcido nisso tudo: uma poética que busca resistir, cantar o que não se pode formular.

O que carrego como “obra” não é arquivo, é rizoma errante de restos e ressonâncias. Aquilo que me escapa é exatamente o que me escreve. Estou cercado por um campo de ruínas gramaticais, por acidentes fonológicos, por lapsos semânticos que insistem em se fazer presença. A escrita se move por entre a falha, e é ali que se dá o real: onde o sentido colapsa, algo se abre para o estremecimento.

Sim, se há algo que possa ser dito sobre a minha bibliografia, é que ela se desloca e arrasta consigo a sombra da voz que não encontrou casa, que apenas rasga o contorno do mundo sem jamais habitá-lo. Uma língua de fronteira, instável, insana, incendiada por uma lucidez que apenas o delírio do poema pode suportar.

quarta-feira, 20 de agosto de 2025

Noite nanquim — 18

     De que é feito esse fragor, esse fragmento de ouro morto e de horror? Como é possível que uma mesa seja a biblioteca capaz de todas as outras mesas? Não há aborto mais elevado do que este, do que um no outro. Não sei o que se prepara, mas decifro o livro e percebo o universo. Toco-o e reduzo-o ao puramente visível entre um e outro. Esta é a obra oculta do vazio antes que ela se aplique aos corpos. Aí está a conversa essencial, o diálogo e a luta: a última confissão do espírito com o espírito.

segunda-feira, 18 de agosto de 2025

Noite nanquim — 17

     Faz o que quiseres! Fúnebre silêncio! Cumpro a brilhos o ofício! Asa pura. Lance tão denso que nenhum brilho que penetre no livro necromante jamais voltará a sair. Existe no mundo parcela de memória ou de emoção afluente mais preciosa do que este momento de móveis e de fólios na unidade do átrio e sobre a estante que antecede todos os pilares? Todas as tintas em prantos sibilinos, isoladas pelo mudo e soberano clarim, são ondulantes. A noite se forma no grito da pantera.

quinta-feira, 14 de agosto de 2025

A escrita navegante (o sonho das águas) — XIII

A interrogação das bordas em que o logos se desagrega demanda a travessia de uma tessitura polifônica, capaz de desordenar coordenadas temporais e dissolver fronteiras epistemológicas, resvalando da penumbra sublunar à aparição evanescente da grafia espectral. O que ali vibra já não é voz, mas um vórtice ressonante de ausência, um colapso discursivo que articula a possibilidade do indizível sem recurso à palavra. O silêncio, em sua plasticidade informe, densifica-se como substância hermenêutica, emergindo enquanto estrato sígnico fulgurante, reminiscente do espólio de espectros e intervalos obliterados pelo excesso de significação. O que persiste quando o silêncio se torna matéria? Um arquejo de tinta, um decalque espectral sobre o papel, que se confunde com o vestígio de quem o perscruta. O poema não se encerra na ausência, mas nela se prolifera, expandindo-se no limiar do inexprimível, no vestíbulo do que jamais alcançará inscrição.

Quando o olhar se lança ao texto, despoja-se de sua materialidade fisiológica — retina, córnea e foco sucumbem a vertigem da instabilidade ontológica. A mão que tenta ancorar-se na página tateia o vazio e, mesmo assim, avança. A identidade do leitor implode: a leitura o dissolve, converte-o em ruína, torna-o excrescência residual de um ato sem sujeito. A inscrição textual transfigura-se em luto, poeira, vestígio errante. A cada fonema absorvido, a corporeidade se dissipa, enquanto o poema se reconstitui na vacância do que foi obliterado. A leitura, longe de ser um evento passivo, persiste como resistência entrópica, arrastando o sujeito para as águas do indiscernível, para o refluxo da semiose que não admite cais. O texto não se deixa conter: dissemina-se além de seus limites gráficos, infiltra-se na textura orgânica da carne, permeia os interstícios temporais e os espaçamentos ontológicos, instalando-se como colônia sígnica parasitária na tessitura da percepção.

Empreender a leitura equivale a precipitar-se na entropia do nome, a uma descida abissal pela garganta do inominável. O poema não se submete à decifração; fagocita seu leitor. A cada sintagma tragado pela voragem sígnica, algo se desliga do mundo e se rende ao exílio da página. Ler não é apreender significados: é eviscerar as camadas de materialidade até que reste apenas o sussurro residual do fôlego sem origem. E, nessa depuração, tudo o que parecia sólido se desintegra em ruína textual. O signo, outrora edificação semântica, transmuta-se em fragmento disperso, em brisa residual. A significação, que outrora se oferecia como estrutura, agora se desvela como escombro. O visível não se estabiliza, o audível não reverbera. A leitura reconfigura-se incessantemente qual fluxo oceânico que devora suas próprias margens.

O ato de navegar pelo texto consiste em um suicídio controlado, uma exumação arqueológica do inaudito. Quando as palavras cedem, emergem as fissuras, as intermitências, os rastros inarticulados. O que permanece impresso no papel não é a voz, mas o espectro de sua ausência; não é o discurso, mas o esqueleto de sua ruína. Entretanto, mesmo os ossos se partem, mesmo os vestígios se dispersam, e o que resta é a voracidade insaciável do ato de ler — o desejo que persiste na devastação do signo. O suporte textual é uma miragem; a página é um campo de cinzas onde um novo fantasma se inscreve a cada leitura. No desfecho, não há síntese cognitiva, apenas transfiguração. Ler não é simplesmente ser devorado pelo texto: é, também, devorá-lo.

quarta-feira, 13 de agosto de 2025

Noite nanquim — 16

    Os grupos ocultos de pluma ou ramo parecem inteiramente distintos da voz ouvida. A percepção pensa no último verso, e a experiência considera a fala. Penso na quantidade de pronúncias e de silêncios dessa mão. Elas são inumeráveis para a corda do instrumento. Pouco variados sobre o som nulo. Demônio da analogia, não sou mais que um objeto de oração, um fragmento retomado, pensamento sem predileção! Belo instante, sacada do termo léxico, sustentas, por meio de uma sílaba anterior, o vocábulo das aparições, a parcela daquilo que existe contra o labor da linguagem. Respiro o resto regenerado, como a faculdade poética que há na sonoridade antes do ar falso.

segunda-feira, 11 de agosto de 2025

Noite nanquim — 15

    O demônio da analogia me assiste. Asa plena. O punho cerrado e duro contém a diversidade das palavras em tom descendente — assim me sinto e me vejo. O total da pausa fatídica é mudo. A potência do vazio de significação, em toda a sua força, é o resumo e a negação do som nulo. Num estado de concentração aquecido, mais geral que a lembrança suportada, as asas se edificam sobre as palmas das mãos. Os dedos pelo artifício do mistério repousam as intenções intelectuais nesse mundo visível e possível. Tudo solicita uma especulação diferente. A obsessão de frases de uma queda anterior.

sábado, 9 de agosto de 2025

Feliz dia dos pais a todos os que compreendem o peso e a glória desse chamado. A paternidade é o destino das revelações. Aquele que é pai, sem que o saiba, é guardião de algo que ultrapassa todas as limitações da carne, da razão e do tempo. Ser pai é, acima de tudo, ser um vigia do interminável, aquele que testemunha o momento em que o eterno se faz corpo e, no silêncio de sua responsabilidade, se torna parte do Grande Ciclo, que nunca começa e nunca termina, apenas se transforma — incessantemente.

quinta-feira, 7 de agosto de 2025

A escrita navegante (o sonho das águas) — XII

No âmago da vigília incendiada, onde os ventos do enigma sopram cinzas de outras eras, afunda-se a lâmpada das noites sem alento, nutrida pelo âmbar viscoso da dúvida. Engrenagens de trevas mastigam o lodo imóvel dos séculos, devorando vestígios de lábios que nunca disseram, de olhos que jamais se voltaram, de dedos que tatearam a ossatura do invisível e nela inscreveram, a sangue e espasmo, o epitáfio daquilo que nunca foi. Em brasa, arrasta-se o verbo desfeito, insculpido sem repouso sobre a rocha surda da escuridão, onde os astros, ainda em gestação, fermentam na paciência dos mortos. Golpe da noite, lâmina das órbitas declinadas, sulco onde o tempo afunda os punhos e se desfaz na poeira inominável. O anel das eras trinca sob a mão que escava, mas o que se ergue da ruína não é chão, não é nome, não é corpo: é fenda — espólio do que se ergueu e não se sustentou.

Quanto mais fundo se finca o ferro na carne líquida do abismo, mais o abismo regurgita em lavas cerradas, soldando sua ferida com o sangue daquele que a infligiu. O que se busca romper já se fechou antes da procura, porque aquele que desce já foi tragado antes do passo. Quem revolve o próprio escombro não cava senão a lápide da própria insurreição. A lâmpada, antes náufraga, sobe no turbilhão do próprio peso. E seu lume, exausto, derrama-se sobre o mesmo chão que nunca deixou de ser chão. No ponto onde a ausência molda seu ícone, algo se inclina sobre o vácuo e insiste, insiste, insiste — arrancando das estruturas famintas da eternidade uma fome ainda maior.

quarta-feira, 6 de agosto de 2025

Noite nanquim — 14

     Na presença deste relógio porcelânico — e fora das diligências de outrora —, o espelho do mundo inteiro. A velha tinta de ouro no alto das janelas. As víboras desdouradas anunciam o velho almanaque. Todos os mortos. O antigo tapete. A veste desbotada. Os campos que não há mais. Os móveis proclamam e representam as teias aracnídeas e as grandes janelas. Tudo afirma todas essas coisas que existem neste exato momento — é outra coisa — e que existem como se não existissem. Na presença das flores, dos deuses, dos poemas, das coisas fenecidas — e fora dos objetos novos. Tudo distinto dos medos, igualmente distanciado de toda ousadia gritante e de toda ação. Somos palavras e restos malditos de uma frase absurda — tintas de caneta, traços de escrita e despejo de palavras. Não faço parte do que é iluminado pelos lábios. Minhas sensações não me pertencem.

segunda-feira, 4 de agosto de 2025

Noite nanquim — 13

    Alguém observa o lobo aflorado e curvado. Espreita a gaia pantera. A cabeça fabulosa que emerge e submerge em constantes comoções, como a planície sem sendas onde o viajante do fundo do horizonte soergue e volta a afundar as palavras do poema. A vontade liberta o ser e compõe misteriosamente a necessidade invencível de andar. Há no cinza celeste a complexidade atmosférica do perfume que interroga os monstruosos animais, que acaricia e colore as costas do ser despido. Os músculos elásticos e poderosos se perdem e se fecham sem chão. O semblante resignado dos que foram condenados a esperar para sempre se enfraquece. O mármore de Baudelaire, num sonho, abre agora suas quimeras.