segunda-feira, 29 de setembro de 2025

Noite nanquim — 29

    Rodopio os circos da sombra lunar rumo ao poente. Dou um passo na imensa profundeza. Entro em segredo no futuro. A cova fria se percebe como horror, e o oposto de este tempo quer convencê-la de que a morte a rodeia. Eis aqui todo o calhamaço entre a inteligência e a vida. O instante quer me prender. O coração defunto acredita me cercar. Mas ele, com seu céu, não é, para o fundo, senão um erro maior – um acontecimento de lume após, um demônio como um vulto supremo. Estas palavras são um demônio na alma. Orbito como a morte e os corvos acima das portas do mundo. Clamo as manchas que nascem das sombras, das mãos. Respiro-as. Não sou suficiente para o espírito e para o tempo. Embriago-me e verto forças flutuantes. Penso. Digo. Encontro as bruxas que me lisonjeiam o corpo e me mancham de palavras.

quarta-feira, 24 de setembro de 2025

Noite nanquim — 28

     Pinto-me, oscilando o possível. Apago. Afirmo seguramente a acusação: plagiei. Não tenho mais ou menos culpa que os outros. De qualquer maneira, agora não importa mais. Fracassei? Não busco esconderijo para estas confusões. Minha tinta é invisível, e esta escrita do outro lado do espelho abre outras estradas. Digo sem querer que os sineiros rebatem os medos. Até suas lanças são justas em suas injustiças. A sombra alonga o homem histórico que nunca vê as silhuetas das palavras contra o recorte do sol. Mas somos as espadas desembainhadas que diferem, com sua liberdade, todas as vidas da vida. Ganhamos, perdemos, diferentemente de todos e de tudo. O ser nunca é nulo. Sonho com essa existência. Ouço a realidade invisível que silva e segue. O abismo não sei onde abisma não sei o quê.

segunda-feira, 22 de setembro de 2025

Noite nanquim — 27

     Pergunto-me e já não sei. Em meio a gestos, vou ao encontro dos revoltados através da máscara, do fim da taça, das visitas intuitivas. Escorre o mal tempo assombroso, toda a hora do mistério incompreensível e tépido até a sua pequenez. A linguagem, instrumento da loucura, elimina o pensamento, rompe-o num desregramento labiríntico. Daqui espreito os segredos e as espontaneidades dos espíritos que se movimentam e relevam a ária vida longínqua como uma queda do céu.

quarta-feira, 17 de setembro de 2025

Noite nanquim — 26

    Sentado entre os supremos, penso a forma definitiva. É o pêndulo oculto das sombras batendo no labirinto. Nada está mais pronto do que é e do que havia. Ao estender o pano, o osso ou a cartilagem, não consigo instalar outra língua no meio da imbecilidade. Esse frio, de forma magnética ligado pelos gritos ao infinito, é uma espécie intermediária de dúvida que faz desaparecer todo o horror da ideia surgida. A hora, enfim, cansa-se de si própria: o ponteiro, o clarão, o ruído, em sucessão, esgotaram as suas mágoas. A verdade nos oprime. Sorrimos através de nossas veias delirantes.

segunda-feira, 15 de setembro de 2025

Noite nanquim — 25

     O alimento, arranjado e preparado para morrer, circula, inclina-se e vai se oferecer de cinzas numa imóvel vertigem. Não me prendo à imbecilidade espiritual. Descobri novos bichos fora do céu. Respondo à insensatez absurda. Logo os onipotentes espíritos da ideia subirão à cabeça dos precedentes. Cintilo a aparição da literatura entre os ruídos e os panos. As portas do túmulo se desdobram. Uma evasão de luz, uma forma, uma renda superabundante exalta-se nos luzentes tecidos, une-os e se consome em si, entre as sombras das noites passadas e das noites futuras.

quarta-feira, 10 de setembro de 2025

Noite nanquim — 24

     Inspiro este odor de poeira. Pássaros. Há no seio da sombra alguma coisa. Estou no interior da cabeça dos espíritos. A porta que se entreabre admite um vapor de escansão e cede diante da Noite rosa. O ébano que carrega o objeto deixa tudo para morte. O Nada. O aroma soberano invade. Cuidado com a vossa lógica! Levanto meu ódio contra vossas lógicas! O milagre da noite se cumpre em todas as coisas. Imponho a parada dos espíritos. Os panos brilham. As trevas soam ao infinito. Esfrego minhas mãos diante disso. A vida se desvia. Aspiro a eternidade surreal. O ouro não tira os olhos desse horror.

segunda-feira, 8 de setembro de 2025

Noite nanquim — 23

     Sobre as paredes, sobre a noite, sobre a clareza da consciência, um esvoaçar prolongado se impõe terrivelmente, um sono sombrio e violáceo se atarda, uma suspeita púrpura renasce, à minha frente, sob as patas aracnídeas. Eis que a essência da plumagem devora o que se vê. Esta espécie intermediária me acusa. Fujo dela — é fugir de mim. Abandono a caverna do ser. Vou. Respiro o espírito fora dele. Deixo minha morada. Cedo ao pensamento. Todos. Maravilho-me agora com aquilo que está posto na raiz de todos os espíritos. Desço até às poeiras, aos pequenos lugares, para debaixo das sombras. Transporto o volume dos destinos. O fantasma do inverso me afeta em cada brecha de sombra. Não limparei mais meus olhos do crime de ter vivido no lugar da certeza perfeita através deles.

quarta-feira, 3 de setembro de 2025

Noite nanquim — 22

     Pano terrível! O mais alto grau da noite e do ébano na sombra suprema, na oscilação mais elevada, pêndulo escapando ao oculto, encontro, em vez do clarão, a percepção. O elevado ruído tem a forma negra mais definitiva. A sombra está ausente em todo o seu intervalo desaparecido. Aqueles que os panos não podem sustentar estão invisíveis. Ele se esconde em sua ideia e se refugia em si. Na vertiginosa imobilidade, encontrei o ruído e a noite no centro de todos os precedentes. Não acredito mais em nada que não tenha alguma ligação com o cordão sensível do pensamento — como estes meteoros sobre a folha de papel. Falta-nos, ainda aqui, a ação meteórica da construção existencial. Todas as sensibilidades humanas me afligem e decido plasticamente sobre o real que me abomina.

segunda-feira, 1 de setembro de 2025

Noite nanquim — 21

    Estes fachos me assassinaram. Sou perfurado por personagens. Explodo tapeçarias, cruzando o combate dos acasos. Carrego cortinas por espaços de trevas e agonia. Que a menor página fechada seja precisamente aquela que se identifica como a maior potência do tempo. Um só pedaço de ausência. As tapeçarias rebentam de obscuridade. Não posso mais. Os móveis estão cheios de frascos. Em volta da substância do Nada, multiplico rapidamente todos os versos daquele livro de magia. Quantos sonhos ao mesmo tempo! Não me sustento mais. Sufoco-me. A sombra e o silêncio me sufocam. Ofegante, sigo… Esse movimento de asfixia existe? Algo me pressiona. A hora me consome, me incita… É a caça quimérica: ela transforma-se em mim.