segunda-feira, 22 de julho de 2024

Estas areias são linguagens que maré e vento inscreveram aqui

 



“Inelutável modalidade do visível: pelo menos isso, se não mais, pensando através dos meus olhos. Assinaturas de todas as coisas estou aqui para ler, marissêmen e maribodelha, a maré montante, estas botinas carcomidas. Verdemuco, azulargênteo, carcoma: signos coloridos. Limites do diáfano. Mas ele acrescenta: nos corpos. Então ele se compenetrava deles corpos antes deles coloridos. Como? Batendo com sua cachola contra eles, com os diabos. Devagar. Calvo ele era e milionário, maestro di color che sanno. Limite do diáfano em. Por que em? Diáfano, adiáfano. Se se pode pôr os cinco dedos através, é porque é uma grade, se não uma porta. Fecha os olhos e vê.”


O que é o livro? O livro me puxa para um abismo que é um espaço de ausências seguidas, e esse abismo guarda em si o deserto onde nos movemos infinitamente; o livro é o deserto mais árido que há. Encontrar-se e perder-se nele é fantástico. É coisa de outro mundo. Aquele que detém uma parte do livro, qualquer que seja, fragmento, pedaço rasgado, já consegue sonhar outros sonhos, pois um livro pode ecoar o eco do outro que o incorporou numa vibração sutil; assim, alcança-se um diálogo silencioso e penoso, incansável, solidez que pode ser atravessada com a mão para buscar palavras além desse abismo. E sei que também voltaria abismado do abismo, sombrio e diáfano, com a mesma ausência oscilante de um livro. 

Ulisses (1920), a obra-prima de James Joyce (1882-1941), é um monumento ao brilho literário e à redefinição dos limites da narrativa. Reconhecido como um dos maiores romances do século XX, Ulisses não apenas reimagina o épico de Homero, a Odisseia, mas o transpõe para o cenário pulsante das ruas e tavernas de Dublin. Em uma proeza de estilo e perspectiva, Joyce retrata as diversas facetas da vida em um único dia, o 16 de junho de 1904, conhecido hoje como Bloomsday. É uma celebração que cresce em popularidade, testemunhando a perene grandiosidade do romance e o desejo humano por alegria e comunhão.

Em vez de elevar a vida cotidiana às alturas da mitologia, Joyce inverte o processo, transformando um dia comum em um épico moderno. Cada personagem e ação são imbuídos de sentido heroico, onde até mesmo a simples tarefa de enfrentar um nacionalista embriagado em um bar se torna uma conquista lendária. Ulisses é mais do que um romance; é um mergulho profundo na alma de Dublin, vista através dos olhos visionários de Joyce.

Neste épico literário, Joyce ergue a fasquia da narrativa para além da estratosfera, levando-nos a uma jornada através da amada Dublin suja, onde cada página é um testemunho do poder transformador da escrita e da imaginação. Navegar no complexo labirinto da literatura requer uma mente afiada e uma dose generosa de paciência, mas os tesouros descobertos ao final da jornada são certamente gratificantes. Não é de surpreender que muitos desistam deste romance pelo caminho ou que simplesmente não o apreciem; afinal, esta obra é genuinamente desafiadora. Joyce, com maestria peculiar, entrelaça alusões enigmáticas e datadas, narrativas que nos envolvem em névoa densa e vocabulário invejável, criando uma odisseia literária destinada a desafiar e a intrigar. Ele mesmo admitiu ter adornado seu texto com tantos enigmas e charadas que garantiria séculos de debate entre os acadêmicos sobre seu verdadeiro significado, assegurando assim sua imortalidade.

Os leitores devem ser advertidos: este não é um romance para os fracos de coração. Há momentos em que a frustração parece prestes a nos consumir, tentando-nos a abandonar o livro. No entanto, é na segunda metade que começamos a desvendar os segredos que ele guarda, e é então que percebemos que o romance conquistou um lugar especial em nós. Ao terminar a jornada, somos surpreendidos ao perceber que estamos diante de uma das mais grandiosas obras já concebidas, e o amor por ela floresce em nossos peitos. Talvez essa sensação seja similar à experiência de quem se aventura em maratonas ou escala montanhas: uma jornada árdua, repleta de desafios, mas cuja conclusão traz consigo um orgulho e uma euforia indescritíveis. Há recompensas inúmeras a serem colhidas ao longo da leitura.

Ulisses não só exibe um talento literário incomparável, mas também oferece uma variedade de estilos que cativam e surpreendem. Muitos se esquecem de mencionar que este romance também é dotado de humor sutil. É um livro que exige que nos ensinemos a nós mesmos, que nos desafia a ir além da simples leitura. Não é à toa que estudiosos dedicam anos de suas vidas a desvendá-lo, mantendo-o ainda hoje como objeto de debate e admiração. Até o grande Ulisses precisou de auxílio em sua jornada épica.


“Arrojo esta sombra términa de mim, hominiforma inelutável, chamo-a de volta. Intérmina, seria ela minha, forma de minha forma? Quem me percebe aqui? Quem em lugar algum jamais lerá estas escritas palavras? Signos em campo branco. Em algum lugar a alguém na tua voz mais maviosa.”


A obra é uma tapeçaria literária, tecida com uma vasta gama de estilos e técnicas narrativas. A habilidade de Joyce em transitar entre diferentes formas de escrita – desde a sátira de publicações populares até a reverência aos mitos ancestrais e a aplicação de conceitos científicos à prosa – cria uma experiência de leitura multifacetada. Cada linha do romance é uma porta para um universo distinto, onde o leitor é convidado a explorar e se aventurar com a riqueza da expressão literária.

O famoso fluxo de consciência, ousadas alucinações disfarçadas de jogos, e a profusão vertiginosa de prosa, que varia de ornada a singela, demonstram o amor de Joyce pela experimentação estilística. A linguagem é frequentemente brincalhona, lírica e repleta de trocadilhos, demonstrando o talento excepcional de Joyce para a manipulação linguística. Ele até usa a estrutura das frases para transmitir movimento. Somente pela sua maestria linguística, Ulisses se destaca como uma das obras mais espetaculares já escritas, desafiando até mesmo os limites do nosso vocabulário.

Uma das características mais debatidas de Ulisses é a técnica inovadora de Joyce de imergir o leitor nos pensamentos das personagens. Não se trata de uma narração em primeira pessoa convencional; em vez disso, os personagens parecem estar inconscientes da presença de um observador em seus pensamentos. As informações emergem em rajadas desconexas e aleatórias, sem que Joyce se preocupe em fornecer clareza ao leitor. Assim como William Faulkner (1897-1962), Joyce deixa o leitor sozinho para montar o complexo quebra-cabeça narrativo.

A técnica narrativa empregada por Joyce permite uma fluidez de consciência entre as personagens, onde o leitor é frequentemente confrontado com transições abruptas de pensamento. O solilóquio de Molly exemplifica essa técnica, com os pensamentos de Boylan e Bloom se sobrepondo de maneira indistinta. A narrativa exige uma leitura atenta e reflexiva, pois a identidade do falante pode não ser imediatamente aparente, requerendo que o leitor dedique tempo para discernir a fonte dos pensamentos apresentados. A estrutura do romance é tal que acompanha os movimentos diários de Stephen e Bloom, mas não de forma linear ou contínua. Em vez disso, Joyce constrói uma narrativa polifônica que entrelaça diferentes perspectivas, permitindo que a história capture a essência de um dia inteiro. Esta abordagem oferece uma visão holística e multifacetada dos eventos, refletindo a complexidade da experiência humana e a interconexão das vidas individuais.

A noção de paralaxe, emprestada da astronomia, é transposta para a narrativa de Ulisses, servindo como metáfora para a multiplicidade de perspectivas que Joyce apresenta. Bloom reflete sobre esse conceito, que se torna um leitmotiv ao longo do romance, sugerindo que a realidade pode variar significativamente dependendo do ponto de vista do observador. Joyce utiliza essa ideia para enfatizar a subjetividade da experiência humana e a complexidade inerente à interpretação dos eventos e das relações interpessoais. Nesse sentido, os leitores são convidados a adotar uma postura ativa na construção do significado do texto, navegando por um oceano de pensamentos e imagens que, muitas vezes, parecem contraditórios ou incompatíveis. Por meio dessa técnica, Joyce desafia os leitores a reconhecer e apreciar a diversidade de interpretações possíveis, incentivando uma leitura mais profunda e engajada que vai além da superfície do texto. Ulisses não apenas conta uma história, mas também convida à reflexão sobre como as histórias são contadas e percebidas, destacando a riqueza que emerge da confluência de diferentes pontos de vista.


“Nutridos e nutrientes cérebros ao meu redor: sob lâmpadas incandescentes, pingentes com filamentos pulsando desmaiados: e na escuridão de minha mente uma preguiça do inframundo, relutando, avessa à claridade, remexendo suas dobras escamosas de dragão. Pensamento é o pensamento de pensamento. Claridade tranquila. A alma é de certo modo tudo que é: a alma é a forma das formas. Tranquilidade súbita, vasta, candescente: forma das formas.”


A diversidade de narradores é um testemunho da habilidade literária de Joyce. Cada personagem é dotado de uma voz distinta, caracterizada por um estilo, vocabulário e estrutura gramatical próprios, sendo Molly Bloom exemplo notável dessa variedade. A complexidade das vozes narrativas pode levar o leitor a questionar as perspectivas de Joyce sobre questões sociais, como sua visão sobre judeus e mulheres. No entanto, Joyce subverte frequentemente as expectativas ao apresentar pontos de vista contrastantes. 

A representação das mulheres e da sexualidade é central na narrativa, o que provocou debates sobre a possibilidade de Joyce ser misógino. A descrição de personagens femininas, muitas vezes focada em sua sexualidade, e a presença de figuras como prostitutas podem ser interpretadas como reforço dessa perspectiva. Contudo, é importante considerar que Joyce pode estar explorando a complexidade da condição feminina e as normas sociais da época, em vez de simplesmente perpetuar estereótipos. A ambiguidade e a multiplicidade de interpretações são características essenciais de uma grande obra literária, convidando o leitor a uma análise mais aprofundada das intenções do autor e das dinâmicas sociais retratadas no romance.

Pelos olhos de Bloom, somos confrontados com uma visão objetificada e desprovida de remorso das mulheres como objetos sexuais, bem como uma perspectiva masculina sobre a sexualidade feminina. No entanto, com Molly, Joyce nos apresenta uma visão altamente contrastante das mulheres e de sua própria sexualidade, explorando como elas percebem não apenas sua própria sexualidade, mas também como enxergam a sexualidade masculina e até mesmo como imaginam ser vista pelos homens. Molly vislumbra a possibilidade de ter um pênis e reflete sobre a experiência de manter relações íntimas com outra mulher. Tais pensamentos, embora possam ser considerados polêmicos ou mesmo ofensivos por parte do público, devem ser examinados sob uma perspectiva ampla e enquadrados na narrativa e na construção das personagens. É crucial que a análise literária reconheça e explore a complexidade dos temas abordados, sem preconceitos ou julgamentos precipitados.

É pertinente reconhecer que James Joyce estava ciente da rigorosa censura imposta aos romances na Inglaterra e nos Estados Unidos. Frequentemente, ele incorporava trechos que desafiavam tais restrições. Não é inesperado que Ulisses tenha sido proibido nos Estados Unidos até 1934, ano em que a Suprema Corte Americana anulou a proibição, em um veredito emblemático sobre a legislação de obscenidade. Essas facetas, embora possam ser consideradas polêmicas, enriquecem e intensificam a representação da condição humana delineada por Joyce na obra.

A influência de Hamlet, de Shakespeare (1564-1616), é tão preponderante quanto a da própria Odisseia. Essa intertextualidade ressalta a natureza multifacetada das perspectivas e a intenção de Joyce em ancorar suas personagens à realidade, evitando definições ou alinhamentos claros. A obra shakespeariana é um tópico recorrente entre os intelectuais de Dublin, e um momento decisivo do romance é marcado pela análise de Stephen Dedalus sobre Hamlet, desvendando, assim, camadas dos temas centrais da obra. Desde as ideias do papel de Stephen como Telêmaco em busca de um pai substituto em Bloom, até os pensamentos contínuos sobre o adultério, tudo se desenrola durante a palestra de Stephen sobre Hamlet. No entanto, essa cena também demonstra que Stephen é uma figura de Hamlet, assim como Bloom é uma figura do falecido Rei, e que Molly pode se encaixar no papel da Rainha traidora, assim como Penélope. 


“A arte tem de revelar-nos ideias, essências espirituais sem forma. A suprema questão sobre uma obra de arte está em quão profunda é uma vida que ela gera. A pintura de Gustave Moreau é a pintura das ideias. A mais profunda poesia de Shelley, as palavras de Hamlet, põem nosso espírito em contacto com a sabedoria eterna, o mundo das ideias de Platão. Tudo o mais é especulação de estudantezinhos para estudantezinhos.”


É interessante observar que muitos dos personagens, especialmente Mulligan, são baseados em pessoas reais com quem Joyce interagiu. Stephen explora como os personagens de Hamlet correspondem à própria família de Shakespeare, assim como esses personagens se assemelham aos que cercam Bloom e aos que cercavam Joyce. Stephen também é altamente representativo do próprio Joyce. Ele foi o protagonista do romance semi-autobiográfico de Joyce, Um retrato do artista quando Jovem, e neste romance o vemos continuar sua busca pela arte. Em um cenário de discussão, ele se posiciona ao lado de um recém-nascido, debatendo a relevância entre a vida da mãe e a do filho no momento do nascimento. Essa postura revela suas ideias sobre a arte como uma criação de valor inestimável – como se cada pincelada, cada nota musical, fosse um gesto de dar à luz à própria essência da vida. Essa delicada metaficção é apenas uma das inúmeras estratégias pelas quais Ulisses cativa os leitores. Artesão habilidoso, Joyce tece palavras e conceitos, criando um mosaico que transcende o tempo e nos envolve em sua magia.

James Joyce escapa dos clichês com maestria, desenvolvendo uma trama de personagens complexos. Leopold Bloom, por exemplo, é uma contradição ambulante, um verdadeiro enigma: judeu e batizado, oscila entre a figura paterna e os desejos maternos, desafiando as normas de gênero. Seu coração gentil às vezes se contradiz com críticas aos outros por sua própria gentileza. Longe de ser isento de falhas, Leopold Bloom é um sedutor desavergonhado. Pelas ruas de Dublin, suas intenções lascivas em relação às mulheres não passam despercebidas. Ele é um dançarino da vida, sempre em movimento, como se buscasse escapar das sombras do passado. A tristeza o persegue, e os pensamentos sobre as transgressões de sua esposa pesam sobre seus ombros, como se a fuga fosse seu destino inevitável. Assim, Bloom, com sua humanidade multifacetada, é um dos personagens mais encantadores da literatura.

No emaranhado das palavras, a “união” entre Bloom e Stephen é fio invisível, laço sutil a transcender o óbvio. Como pássaros em voo, cruzam-se, divergem e se entrelaçam: casamento de almas, não de convenções. Stephen, o artista atormentado, e Bloom, o observador silencioso, movem-se na penumbra da linguagem. Desencontros e desafios marcam sua jornada, mas cada novo choque reinaugura suas essências. Mapa de encontros e despedidas, Ulisses fia destinos com laços de mistério e significado. Como observou Jung, o encontro de duas personalidades é como o contato entre duas substâncias químicas. Se houver alguma reação, ambos se transformam. Essa toada ressoa na interação entre Bloom, Stephen e outros personagens, destacando a transformação mútua que ocorre quando personalidades tão distintas se encontram e se envolvem em um diálogo interno e externo no romance.

Ulisses não é um romance fácil à primeira vista, mas vale o esforço investido. A sua prosa é intimidadora, mas, com paciência e orientação, o romance se revela uma verdadeira obra-prima, permitindo que o leitor mergulhe na linguagem de Joyce. Há uma riqueza de técnicas e enigmas a serem desvendados, tornando a leitura gratificante. Além disso, Ulisses é hilário em muitos momentos, acrescentando uma camada de humor à complexidade da narrativa. Joyce deixou um legado na literatura com Ulisses, que hoje é merecidamente reconhecido como um dos maiores romances do século XX. Esse livro, portanto, merece ser lido, pois nele cada palavra ganha vida na mente do leitor. 


“Stephen fechou os olhos para ouvir as botinas triturar bodelha e conchas tagarelas. Estás andando por sobre isso algoqualcerto. Estou, uma pernada por vez. Um muito curto espaço de tempo através de muito curtos tempos de espaço. Cinco, seis: o nacheinander. Exactamente: e isso é a inelutável modalidade do invisível. Abre os olhos. Não. Jesus! Se eu cair de uma escarpa que se salta das suas bases, caio através do nebeneinander inelutavelmente. Até que estou deslocando-me bem neste escuro. Minha espada de freixo pende a meu lado. Tacteia com ela: é assim que se faz. Meus dois pés nas botinas dele estão no final de suas pernas dele, nebeneinander. Soa maciço: feito pelo malho de Los Demiurgos. Estou eu andando para a eternidade ao longo do areal de Sandymount? Tritura, tagarela, trila, trila. Dinheiro do mar selvagem. Dômine Deasy sabe tudinho.”


quarta-feira, 17 de julho de 2024

Do mar — 9

Estendidas quilhas de navios, partidas. Sangues de fundo a fundo, correntes de mar de convés a convés. Lá em cima um corpo se decepa sobre amuradas. Que cabeça vai subir do dedo infante? Que olhos uivarão? Leão de garras famintas; avivando a voz irreal no estouro do ar. Fado deixado pelo mar. A outra quilha. A horrível quantidade de gemas. Sua vela, sua vela! Sua corda! A borda de todos, uma partida mais alta. Sua nuvem! O relâmpago exato; as linhas fundas. Rios! Largo barco de rumorosos ventos. Ó timoneiros, ó marujos, ó trabalhadores, a ninguém foi confiada a aragem! Os cadáveres por derrubar. A santidade das legiões. O velame trouxe o murmurante embalo da noite. Esta quilha prova o movimento! O espírito que se esgueirou com tão leves botes canta. Veleja a canto com todos os mastros. As névoas esfolam pássaros. Às antiguidades do choro, o naufrágio medra e bem nega o ataque feroz dos pés. Da folha, a árida observação. Só para cadáveres, as bolhas nos lábios, mortos entre o limo e a cor. Arenosa é a ruína. Calmo negrume do vagalhão. Ali, jovem, espraia-se a tristeza. Aparência está atrás da criação. Medusas do crepúsculo. Pupilas escuras e transparentes. A fronte branca da baleia. Os tatuís e os caracóis solares. O peixe ascendeu a escama. A grande ponte num incompleto arco. Luzente aço das espadas. Fumegante goela e assalto dos elmos. Dos escudos e das couraças – equinas patas ressoam na natureza. A sensação de costas. Doentes cais de grandes vácuos. Hão de perecer!

segunda-feira, 15 de julho de 2024

Como uma frouxa lamparina no meio das trevas



Creiam-me, o menos mau é recordar; ninguém se fie da felicidade presente; há nela uma gota da baba de Caim. Corrido o tempo e cessado o espasmo, então sim, então talvez se pode gozar deveras, porque entre uma e outra dessas duas ilusões, melhor é a que se gosta sem doer.


Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis (1839-1908), foi lançado como romance em 1881, introduzindo inovações na literatura brasileira do século XIX. O Rio de Janeiro passou por um período de modernização após a chegada da Família Real em 1808 e a independência do país em 1822. Com uma população crescente, a cidade tornou-se um centro de comerciantes, burocratas, funcionários públicos e vários outros grupos sociais, todos encontrando seu lugar no mundo criado por Machado de Assis.

O nascimento da literatura realista está ligado a uma série de discussões que abrangem cultura, ciência, política, sociedade e economia. Esse gênero se caracteriza por suas narrativas complexas, que mergulham no imo da psique humana, contextualizando e problematizando o mundo vivenciado por seus personagens. Em Memórias Póstumas de Brás Cubas, vemos o Brasil emergente do século XIX, uma nação em transição de uma era colonial, cuja hierarquia social é estruturada em torno de três classes: os proprietários de terras, os escravizados e um grupo intermediário composto por indivíduos livres e burocratas.

Na obra, Brás Cubas surge como personagem distinto, um herdeiro que nunca sentiu a necessidade de trabalhar para se sustentar e, em muitos aspectos, um precursor da mentalidade niilista predominante no Brasil. Machado de Assis faz algo sublime na obra: transforma o sujeito de sua crítica em um personagem cativante, sem remorso em suas falhas e cheio de ironia e irreverência. O leitor torna-se um confidente de Brás Cubas (defunto autor), que nada esconde, pois acredita que as coisas foram como realmente foram. Em meio a uma existência aparentemente sem propósito, Cubas encontra consolo no fato de não ter repassado a ninguém o fardo da nossa miséria. 

Ao contar a história de sua vida a partir da perspectiva de um defunto, Brás Cubas transcende as limitações da existência terrena, colocando-se fora do alcance das críticas e dos julgamentos dos vivos. Ao revisitar o seu passado, assume o papel de narrador-observador, o que lhe dá liberdade para navegar em sua própria narrativa sem ser restringido por regras ou formalidades. À medida que a trama se desenrola, a estrutura narrativa assume diversos aspectos, inclusive capítulos em branco, mostrando a irreverência característica do romance moderno. A digressão é o traço que define o estilo de Machado de Assis. O fluxo de sua narrativa é interrompido por observações metalinguísticas, referências intertextuais, narrativas paralelas e, acima de tudo, exames filosóficos do sujeito e da sociedade. Como resultado, os enredos de suas obras são fragmentados e desorientadores. No entanto, essa complexidade é contrabalançada pela inteligência e pela estrutura vibrante e contemporânea das suas criações literárias.

O tempo do romance é fragmentado, contemplando a vida do narrador de 1805 a 1869. Nesse sentido, o livro explora dois períodos distintos: o cronológico, que enfoca os acontecimentos da vida de Brás Cubas, e o psicológico, que investiga as lembranças e as reflexões do autor. Nos capítulos iniciais, conhecemos o motivo da morte de Brás Cubas, os acontecimentos que a desencadearam, as pessoas que estiveram presentes nos instantes finais, a história familiar do protagonista e os delírios que vivenciou. Contrariando a crença popular, o protagonista não é um herói. Na verdade, a sua família tentou mascarar a sua origem humilde com uma história de realizações impressionantes. A sua linhagem remonta a Damião Cubas, tanoeiro e agricultor, que não se envolveu em nenhuma guerra heroica contra os mouros, apesar do relato embelezado da história por parte de seu avô Luís Cubas.


Tu tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar; tu amas a narração direita e nutrida, o estilo regular e fluente, e este livro e o meu estilo são como os ébrios, guinam à direita e à esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem…


Tendo desfrutado de uma infância sem limites, acompanhamos as influências sociais que contribuíram para a formação de Brás Cubas. Livre de quaisquer inibições, Cubas ganhou o apelido de “menino diabo” quando criança. Oriundo de família rica, que tinha escravizados e vastas extensões de terra, foi criado em um ambiente onde a indulgência não tinha limites. Crescendo no contexto histórico e cultural de uma sociedade colonial dependente do trabalho de escravizados, Cubas mimetizou os comportamentos agressivos que testemunhou.

Nos tempos de escola, Brás Cubas guardou lembranças de Quincas Borba, companheiro encantador. Entre seus familiares, destacaram-se os seus tios, o cônego Ildefonso e o bacharel João. Enquanto o primeiro imaginava um futuro religioso para o rapaz, o segundo previa uma vida de prosperidade. Foi tio João quem acompanhou Brás Cubas a um jantar na casa de Marcela quando ele tinha apenas dezesseis anos. Marcela foi o seu primeiro grande amor. Com ela, Cubas descobriu que o amor e o dinheiro andam lado a lado e que o caminho para o coração de uma mulher muitas vezes passa por uma joalheria. O caso chegou ao fim quando o pai de Brás Cubas enviou o filho para estudar na Europa.

A desilusão e a ideia de acabar com a própria vida acompanham Brás Cubas em sua partida para a Europa. A sua passagem pela Universidade de Coimbra revelou-se medíocre, sendo os estudos uma mera reflexão tardia. Em vez disso, mergulha em uma vida de superficialidades e aventuras românticas. Contra todas as probabilidades, consegue obter o seu diploma. Ao retornar ao Brasil após anos em Portugal, chega a tempo de se despedir de sua mãe, que falece logo em seguida. É nessa época que conhece Virgília, uma jovem de dezesseis anos e filha do Conselheiro Dutra, destacado político. O pai de Cubas sugere que ele considere um noivado com Virgília, pois a união melhoraria muito as suas perspectivas políticas na Câmara dos Deputados. Tudo caminhava bem até a chegada de Lobo Neves.

Em perspectiva comparativa, Virgília pesou as qualidades da águia com as do pavão e escolheu a águia, “deixando o pavão com o seu espanto, o seu despeito, e três ou quatro beijos que lhe dera”. Torna-se evidente que o pavão não é outro senão o próprio Brás Cubas. Embora o relacionamento deles não tenha culminado em casamento, continuam se envolvendo amorosamente. Durante a sua jornada, Cubas reencontra Quincas Borba, amigo de infância que passou por momentos difíceis e que agora vive pelas ruas como mendigo. Apesar da pobreza do amigo ter causado medo e compaixão no protagonista – o que o levou a oferecer ajuda –, fica claro que Quincas Borba estava apenas interessado em obter lucro, o que o levou a furtar o relógio de Brás Cubas.

Mesmo casada, Virgília mantém um caso de amor com Brás Cubas, até que Lobo Neves é nomeado presidente de uma província. Nesse tempo, notícias sobre o caso extraconjugal começam a circular publicamente, e a irmã de Cubas, na tentativa de evitar um escândalo, se encarrega de encontrar uma esposa para o irmão. Uma carta anônima é enviada a Lobo Neves acusando Virgília de adultério, que nega as acusações. Lobo Neves assume o cargo de presidente da província, encerrando de vez o caso de Virgília e Brás Cubas.

Sozinho, Brás Cubas decide se casar com Eulália, mas ela acaba morrendo de febre amarela. Ele embarca na carreira política e reencontra Virgília. Lobo Neves chega perto de alcançar o cargo de ministro, mas morre poucos dias antes da sua nomeação. O estado mental de Quincas Borba começa a deteriorar-se, enquanto Cubas assume uma função na Ordem Terceira por um período de três anos. Durante esse tempo, testemunha o fim de seu primeiro amor em um hospital de caridade. Quincas Borba, oprimido pela instabilidade financeira, enlouquece.


O pior é o despropósito. Lá continua o homem inclinado sobre a página, com uma lente no olho direito, todo entregue à nobre e áspera função de decifrar o despropósito. Já prometeu a si mesmo escrever uma breve memória, na qual relate o achado do livro e a descoberta da sublimidade, se a houver por baixo daquela frase obscura. Ao cabo, não descobre nada e contenta-se com a posse. Fecha o livro, mira-o, remira-o, chega-se à janela e mostra-o ao sol. Um exemplar único!


Desde criança até a morte, Brás Cubas viveu para idealizar novos empreendimentos. Hipocondríaco, nutriu planos para desenvolver um remédio que aliviasse a melancolia da humanidade. Seria equivocado, no entanto, presumir que esse seria um ato de redenção, pois ele também considerou os benefícios econômicos que a sua criação lhe traria. Mesmo hoje, encontramos indivíduos semelhantes a ele, guiados pelo interesse e pela busca de fama, com pouca empatia pelo sofrimento dos outros. Apesar de todos os esforços, o emplastro se tornou mais um acréscimo à sua coleção de fracassos. Solitário, Brás Cubas morreu de pneumonia em 1869, aos 64 anos, no bairro do Catumbi, no Rio de Janeiro. Apenas onze pessoas compareceram ao seu enterro.

Em síntese: Brás Cubas foi um homem que, com o temperamento de uma criança indulgente, se envolveu em paixões passageiras e se aventurou em diversas ocupações, perdendo rapidamente o interesse nelas. Teve ideias que nunca se concretizariam, pois pensava apenas nas recompensas que poderia ter ao atingir o objetivo. Sem autorreflexão e cético em relação aos esforços necessários para estabelecer uma carreira de sucesso e relacionamentos estáveis, viveu à sombra de seus privilégios, tendo apenas uma casa confortável, acesso à cultura e à alta sociedade. Nas raras ocasiões em que teve a oportunidade de fazer a diferença, como ajudar alguém necessitado, a sua mesquinhez prevaleceu e fez o mínimo. Egoisticamente, acreditava que merecia mais do que dava. Exagerou a importância dos seus pequenos gestos, usando-os como um estímulo para o seu ego e um bálsamo para a sua consciência, mesmo que apenas para momentos fugazes de autoavaliação.

A sensação de vazio existencial vive em cada página, tornando-se a característica mais proeminente da obra. Machado de Assis explora a importância de encontrar um propósito na vida. Sem ações significativas, enfrentamos o esquecimento após a morte. Por meio de sua perspectiva pessoal e subjetiva, Brás Cubas compartilha sua história, apresentando os fatos e demais personagens de uma forma que permite ao leitor sentir-se conectado tanto ao narrador quanto à trama. Além disso, a experiência de leitura é potente devido ao uso da ironia e do eufemismo. São recursos que ajudam a compreender o significado por trás das descrições e das passagens da história. Ao longo da obra, Machado de Assis oferece uma análise negativa do comportamento social e das lutas psicológicas das personagens. No entanto, esta visão pessimista é muitas vezes disfarçada ou escondida sob a superfície da narrativa, com o humor e a ironia a servirem como ferramentas poderosas.

Assim, a história serve como um retrato da burguesia carioca e de suas lutas pessoais. Por meio das reflexões pessimistas de Brás Cubas, os leitores são expostos às suas desilusões e as experiências em relação à riqueza, à condição social e à busca pela felicidade. É fundamental abordar este livro com atenção, pois é possível desenvolver uma percepção positiva do narrador. Brás Cubas, membro de uma elite improdutiva e arrogante, usa a sua posição privilegiada para satirizar a sociedade e os seus constituintes com uma ironia mordaz que não poupa ninguém. Obra-prima atemporal e universal, Memórias Póstumas de Brás Cubas oferece uma visão histórica essencial da nossa sociedade. Leitura indispensável.


Ah! indiscreta! Ah! ignorantona! Mas é isso mesmo que nos faz senhores da terra, é esse poder de restaurar o passado, para tocar a instabilidade das nossas impressões e a vaidade dos nossos afetos. Deixa lá dizer Pascal que o homem é um caniço pensante. Não; é uma errata pensante, isso sim. Cada estação da vida é uma edição, que corrige a anterior, e que será corrigida também, até a edição definitiva, que o editor dá de graça aos vermes.


quarta-feira, 10 de julho de 2024

Do mar — 8

O lugar se revê pelos mundos. A hora matutina. As presas do assalto. Horas novas! Num florescente barco, latitudes. O sofrimento seu. Irreal alma! Mude a orquestração. Livre-se, comece. Crime. Espasmos-cantos. Vendavais e orgias. As poeirentas nuvens quentes. Bicho sanguíneo. Serpentinosos gestos, o velho mastro. Os pés das velas. Quando o cordame é forte, quem se afasta? Cordame, poleame. Junte-se a César com seu esfacelado rasgo! Único pirata. Dente pilhado, fonte. Nos órfãos, o mais arrepiante poder. Maldizeres diurnos. Lunares viajantes. O lar será mormacento. Verdadeiro raio. As insanidades. A sombra dos navios. O sono da alma. Ditame avermelhado e chuva. O convés úmido. Rumores, sacudidas. O ressequido velame do esgarçamento, rompimento. Flâmula do ar. O lume no mastro! Astros dançantes. A boca se parece ao abrir. Chegado ao oceano; na ilha o peixe se recolhe e em chão a escama rola. Carregar os oceanos de músculos. Traçar com braços os verdes ídolos. A ordenação bailarina. Contorções giratórias de navios. Cavalos, lá, fileira, entre eles as esticadas travessias e crinas. O marinheiro fica longe na praia. Obscuro caminho pende às piedades. Abaixo, vislumbra-se o anão ferreiro, morto e frio. Na carne e na pele, a criatura-nau! A obliquidade das barras.

segunda-feira, 8 de julho de 2024

O tempo passa: vida, fica parada aqui



As noites estão agora cheias de ventania e destruição; as árvores cedem e se curvam, e suas defloradas folhas voam a torto e a direito até cobrirem todo o gramado e acabarem aos montes nas bocas de lobo, e entupirem os bueiros, e inundarem as úmidas trilhas. O mar também se agita e rebenta, e caso algum adormecido, imaginando que possa encontrar na praia uma resposta para suas dúvidas, um comparsa para sua solidão, se desfaça de suas roupas de cama e desça sozinho para caminhar na areia, nenhuma imagem, com atitude de ajuda e divina presteza, acorre prontamente para trazer a noite à ordem e fazer o mar refletir a bússola da alma. A mão encolhe-se em sua mão; a voz grita em seu ouvido. Parece quase inútil fazer à noite, nessa confusão, estas perguntas referentes ao quê, e ao porquê, e ao para quê, que tiravam o adormecido de seu leito para buscar uma resposta.


Escritora à frente de seu tempo, Virginia Woolf (1882-1941) deixou um legado literário impressionante. Ela começou a sua carreira em 1904 como crítica literária, mas foi por meio de seus romances que demonstrou sua sensibilidade e conhecimento. No princípio do século XX, Virginia Woolf defendeu a causa das mulheres, lutando contra a opressão e a ignorância. O compromisso da autora com o esclarecimento e com a inclusão é digno de nota. Ela não se encastelou nos estreitos limites do elitismo.

A leitura de Ao farol (1927) requer atenção, pois não é uma obra simples. Virginia Woolf catalisa as exigências artísticas de sua época de forma criativa. Embora a sua escrita seja comparada a de James Joyce (1882-1941), cabe ressaltar que a abordagem de Woolf é diferente: ela se vale da consciência narrativa (fluxo de consciência) para lançar o leitor no íntimo das personagens durante o desencadear da trama. Assim, o texto apresenta monólogos num fluxo contínuo de consciência e, nesse processo, é como se habitássenos a mente das personagens. Além disso, a obra usa frequentemente parênteses para indicar movimentos silenciosos e vislumbres de perspectiva. O resultado é inefável. Virginia Woolf mergulha nas profundezas do nosso ser e desvenda as complexidades do reino interior.

A história se desenrola em uma estrutura narrativa não linear. Enquanto alguns momentos acontecem no presente, outros são lembranças. A ênfase que Virginia Woolf dá à vida interior de seus personagens alinha-se com a exploração da mente consciente e inconsciente, estudada pelo médico Sigmund Freud (1856-1939). Em seu romance, Woolf desvia sua atenção dos eventos externos para adentrar no labiríntico e multifacetado mundo da psique humana. Em outras palavras, é a consciência das personagens quem dita a passagem do tempo. Por exemplo, uma simples tarde ocupa mais da metade do livro, enquanto os dez anos subsequentes são condensados ​​em poucas páginas. O extenso desenvolvimento de pensamentos nos dá uma perspectiva da Sra. Ramsey e também sublinha o impacto que o tempo exerce sobre as coisas, as forças da natureza e o incessante esforço da humanidade para suportar as provações da vida.


Como, então, perguntou-se, conhecíamos uma coisa ou outra sobre as pessoas, fechadas como elas eram? Tão-somente como uma abelha, atraída por alguma doçura ou acritude no ar, intangível ao tato ou ao paladar, visitávamos a colmeia em forma de cúpula, percorríamos, sozinhos, as vastidões do ar por sobre os países do mundo, e então visitávamos as colmeias com seus murmúrios e fervilhamentos; essas colmeias que são as pessoas.


A narrativa está estruturada em três seções: “A Janela”, “O Tempo Passa” e “O Farol”. "A Janela" se desenrola antes do início da grande guerra, apresentando aos leitores os Ramseys e seus oito filhos enquanto recebem alguns convidados em sua casa na Ilha de Skye, na Escócia. Situado no lado oposto da ilha, ergue-se um farol. O jovem James Ramsey, de apenas seis anos, deseja visitar o farol, mas a sua mãe diz que só irão se o tempo melhorar. O Sr. Ramsey, seu pai, rejeita as aspirações de seu filho, que fica bem chateado. Virginia Woolf transforma um acontecimento aparentemente trivial em algo extraordinário. Cada palavra ressoa em nossos sentidos. A essência indescritível e melancólica que paira sobre as coisas é deixada à interpretação do leitor – é o inexplicável que tem mais significado.

Os convidados são: Charles Tansley, um indivíduo que tem grande respeito e admiração pelo trabalho filosófico do Sr. Ramsey; Lily Briscoe, uma pintora que resolve pintar um retrato da Sra. Ramsey, mas que enfrenta obstáculos devido aos comentários de Charles Tansley, que mina a sua confiança ao afirmar que as mulheres não têm habilidade para pintar ou escrever; William Bankes, um botânico conhecido por sua gentileza; Paul Rayley e Minta Doyle, que atenderam aos desejos da Sra. Ramsey e se casaram; e o enigmático poeta Augustus Carmichael, que habita as sombras de seus pensamentos, até que os seus poemas são amplamente reconhecidos durante o período de guerra.

Anfitriã notável, a Sra. Ramsey quer garantir que seus convidados tenham momentos inesquecíveis. Embora seja uma esposa dedicada e carinhosa, frequentemente enfrenta desafios para administrar as mudanças de humor e o egocentrismo do marido. A Sra. Ramsey lida com as dificuldades de seu papel como anfitriã, mãe e esposa, equilibrando as complexidades domésticas e sociais. No meio de tudo isso, ela triunfa ao transformar um simples jantar em algo extraordinário.


Tricotando sua meia peluda de um marrom avermelhado, com sua cabeça absurdamente recortada pela moldura dourada, pelo xale verde que ela tinha jogado sobre a quina do quadro e pela obra-prima autenticada de Michelangelo, a Sra. Ramsay amaciou o que tinha havido de ríspido em sua atitude um momento antes, levantou a cabeça de seu garotinho e beijou-o na testa.


Filósofo metafísico, o Sr. Ramsay nutre profundo afeto pela sua família. Ele reconhece os seus próprios limites intelectuais e entende que suas contribuições não terão qualquer significado para as gerações futuras. Naturalmente, essa constatação tem consequências, e é a sua família quem acaba suportando o fardo de sua índole egocêntrica e dura, decorrente de suas incessantes preocupações pessoais e profissionais. Embora reconheça e aprecie a dádiva de ter uma família, ele espera empatia, atenção e assistência incondicionais ​​tanto de seus familiares quanto daqueles que visitam a sua casa.

Na segunda parte, “O Tempo Passa”, o tempo acelera. A guerra irrompe por toda a Europa, trazendo consigo uma série de acontecimentos trágicos. A morte da Sra. Ramsey, a morte de seu filho Andrew em batalha e a perda de Prue Ramsey devido a complicações no parto acontecem no espaço de dez anos. Esses momentos são apresentados entre colchetes. Um capítulo conciso cujo foco é a casa de verão abandonada e as transformações que acontecem dentro e fora de suas estruturas.


Nada parecia conseguir quebrar esta imagem, corromper esta inocência, ou perturbar o oscilante manto de silêncio que, semana após semana, na sala vazia, tecia em si mesmo os gorjeios cadentes dos pássaros, os navios apitando, o zumbido e o zunzum dos campos, o uivo de um cão, o grito de um homem, e os drapeava em volta da casa em silêncio. Apenas uma vez, uma tábua estalou no patamar; apenas uma vez, no meio da noite, com um estrondo, com um rasgão, tal como, após séculos de repouso, uma rocha se desprendeu da montanha e caiu ruidosamente no vale, uma dobra do xale se afrouxou e ficou balançando. Então a paz voltou a descer; e a sombra tremulou; a luz curvou-se em adoração à sua própria imagem sobre a parede do quarto.


No capítulo intitulado "O Farol", o Sr. Ramsey, acompanhado por seus filhos James e Cam, retorna para sua casa de verão após o fim da guerra. Apesar das tentativas do Sr. Ramsey de preencher as lacunas entre ele e os filhos, ainda há vestígios de ressentimento devido à sua natureza dominadora. Outros convidados também se juntam a eles, incluindo Lily Briscoe, que não simpatiza com o Sr. Ramsey, embora ele faça um esforço para se conectar com ela. Finalmente, começa a tão esperada viagem ao Farol. É durante a viagem que Lily decide terminar a pintura que começou há uma década. A importância desse último capítulo reside no fato de a pintura não ser apenas uma pintura e o farol não ser apenas um farol. Ambos servem como interseções simbólicas do passado, representando as perdas sofridas ao longo dos anos devido aos vários caminhos da vida, à guerra e ao tempo.


Onde começar? Essa era a questão; em que ponto fazer o primeiro traço? Uma única linha colocada na tela atrelava-a a inúmeros riscos, a frequentes e irrevogáveis decisões. Tudo que, em ideia, parecia simples, tornava-se imediatamente complexo na prática; tal como as ondas se formam simetricamente desde o alto do rochedo, mas aos olhos do nadador nelas mergulhado se dividem em profundos abismos e cristas espumantes. Mas deve-se correr o risco; dar o primeiro traço.


Durante a leitura, pode-se pensar o significado do feixe de luz do farol. Ele atravessa as várias emoções interpessoais, esclarecendo como são influenciadas pelas normas sociais e pelas pressões externas. O farol, isolado em sua solidão, é o símbolo da negligência emocional que impomos aos outros e, em última análise, do qual somos vítimas – como navios que naufragam em noite tempestuosa. Não importa o que aconteça, o tempo nos atravessará, como o feixe de luz de um farol que nos ilumina e nos chama das sombras por um breve momento e depois passa novamente para nos lançar sem forma à escuridão. O romance revela que a nossa jornada vai além do que temos pela frente, pois ela também envolve atravessar o passado múltiplas vezes, criando uma reviravolta temporal. Para avançar, é preciso navegar pelas águas do passado. Além disso, a obra também diz respeito aos vários caminhos que os indivíduos percorrem para enfrentar a sua dor.

Ler Virginia Woolf é ler um extenso poema em prosa. Enquanto cada palavra brilha na página, cada frase incendeia as cavernas do coração. Ela ressalta os seus temas por meio de imagens cuidadosamente escolhidas ou aludindo à passagem do tempo por meio de cortinas desgastadas e móveis envelhecidos. Há no romance a noção de que cada personagem é uma ilha: enquanto as ondas dão de encontro a rochedos, acompanhamos a colisão de figuras que interagem e procuram se entender. Assim como a repetição de ideias e símbolos é usada como maneira de reforçá-las, as personagens repetem suas próprias crenças, como um mantra, para se certificarem de quem são. Elas se aproximam como se fossem botes salva-vidas, precisando de algo para se agarrar e prendê-las ao presente. Cada personagem tenta à sua maneira deixar sua marca no rosto da eternidade –  seja a filosofia do Sr. Ramsey, a poesia do Sr. Carmichael, as pinturas de Lily ou a mão orientadora da Sra. Ramsey. Elas estão separadas pelo fato de que as suas almas nunca poderão se fundir e se tornar uma. A verdadeira tragédia é que essas personagens, embora desejem compreender e ser compreendidas, quase sempre se machucam, muitas vezes por medo e insegurança, ao tentar alcançar a alma do outro. Elas estão obcecados em criar imagens a partir de um universo termodinâmico. Uma personagem se deleitará com a beleza e a maravilha de um único momento, apenas para vê-lo escapar e ser levado pelo mar da experiência consciente. Embora nossas mentes criem imagens estáticas a partir da constante transformação da matéria, elas saltam para o passado antes que possam ser compreendidas, tornadas totalmente inteiras.

Ao farol declina nos pensamentos caóticos de suas personagens, explorando suas memórias, hesitações, contradições e fraquezas. Nesse sentido, a trama é um complexo jogo cujo foco está mais no exercício mental das personagens do que na disposição das peças. Isso cria uma imersão intensa com um ritmo narrativo que reflete o pensamento humano. Alternando entre emoções subjetivas e acontecimentos concretos, Virginia Woolf descreve a experiência sensorial das personagens e aborda temas como a passagem da vida e a longevidade do pensamento, proporcionando reflexões sobre a natureza humana.

Ao Farol é uma obra que provoca profundos pensamentos e sensações. Enquanto aborda os medos da morte e do tempo, Virginia Woolf lida com questões emocionais e intelectuais. A narrativa, que confronta a fragilidade da existência e explora as verdades da mudança e da morte, também nos dá um vislumbre de esperança por meio da união e do amor. O livro carrega imagens impactantes, como a água representando a experiência consciente e o farol simbolizando as esperanças e os desejos das personagens. Ao longo da narrativa, o leitor navega pela prosa marítima de Virginia Woolf para buscar a recompensa prometida no fim.

Virginia Woolf se destaca ao se afastar das tradições literárias de seu tempo, priorizando os sentimentos e as percepções em vez de narrar fatos externos. Ler suas obras é uma experiência incomparável, pois ela cadencia o movimento da consciência humana com maestria, criando uma narrativa que se desdobra internamente. Enquanto a ação exterior é breve, sendo interrompida para explorar os pensamentos das personagens, a perspectiva do tempo se volta para a consciência. Por fim, a prosa de Woolf é um farol que ilumina as trevas e dá direção aos nossos passos. Sem dúvida, a sua escrita é marcante e definitiva.


Qual é o significado da vida? Isso era tudo – uma questão simples; uma questão que tendia a nos envolver mais com o passar dos anos. A grande revelação nunca chegara. A grande revelação talvez nunca chegasse. Em vez disso, havia pequenos milagres cotidianos, iluminações, fósforos inesperadamente riscados na escuridão; aqui estava um deles. Isto, aquilo, e mais aquilo; ela própria e Charles Tansley e a onda quebrando; a Sra. Ramsay reunindo os dois; a Sra. Ramsay dizendo: “Vida, fica parada aqui”; a Sra. Ramsay fazendo do momento algo permanente (tal como, numa esfera diferente, a própria Lily tentava fazer do momento algo permanente) – esta era a natureza da revelação. Em meio ao caos, havia forma; este eterno passar e fluir (olhou para as nuvens se movendo e para as folhas se mexendo) entrava em estado de estabilidade. Vida, fica parada aqui, disse a Sra. Ramsay.


quarta-feira, 3 de julho de 2024

Do mar — 7

Hoje em dia. Pirata ainda. Espírito de raiva cadavérica. Vítima nua. Sangue amado. Da bruxa, os acenos. Das voltas, invisíveis corpos. Terra dos rugidos. A vasta névoa de perfume sinistro. Num mundo de ponta-cabeça, bucaneiros amenos. Numa amurada, a história. Corpo rosado cercado por todos os vivos. Levedado barco. Lobo do mar. O assobio balouçante dos mergulhos. Sussurrar distante do mar. Espectros abraçados por escutas e olhares. Vela, piloto a suar. Luas do Oriente. Os astros suspirados de rostos. Angústia horrenda pulsa. Mão que aguardou o convidado; alma nupcial. As agonias! Viscoso ser. A maldade de altas rezas. Lá se foi o navio, cabines de mar. O vosso infinito é azul. A marinha é fervura alegre. A cada romper, velas içadas. Esse branco chispa éter. Da sílaba, fluido leve. Range. O horizonte! O mar! A canção! Desprezíveis remos escavam. Nos uivos havia algo de urso enroscado no mastro. Tigre de passagens e rastros. O roseiral das flores. Brancas praias. No regressado caminho, terras sem ninguém. O arco em curva é palavra em pranto. O agudo pensa ver a linha branca. O segredo age. As perfeitas quebras se encontraram na linha. Gira lento o guindaste e compassa, girando, a hora, a hora. Cais deserto, manhã, barra indefinida e paquete. Dia do cansaço. Vento mundano da sigilada rejeição. O ninho da árvore crespa. O vinho que aí se partilha municia terras hibernais a cada verão.

segunda-feira, 1 de julho de 2024

Tudo em silêncio absoluto: o sopro da sensação pura



“Eu nada planejo, eu dou um salto no escuro e mastigo trevas, e nessas trevas às vezes vejo o faiscar luminoso e puro de três brilhantes que não são comíveis. Então subo à tona com um brilhante em cada pupila dos olhos para transpassar o opaco do mundo e outro entre os lábios semicerrados para quando eu falar minhas palavras sejam cristalinas, duras e ofuscantes.”


Clarice Lispector iniciou a escrita de Um sopro de vida em 1974, durante um período de grave doença. A autora morreu em 1977, deixando um grande legado literário. Publicado em 1978, Um sopro de vida compreende três anos de trabalho árduo de escrita, empreendidos simultaneamente com a produção de A hora da estrela. Ambas as obras cadenciam qualidade rítmica. Nas páginas de Um sopro de vida, a musicalidade é o canal para explorar os domínios da expressão humana.

Digo que é sempre mais difícil escrever sobre um livro que nos impacta. Os bons livros guardam essa qualidade impenetrável sobre eles, uma sensação de completude que torna difícil desvendar as raízes de sua grandeza e identificar por que nos encantam. Aqui, cada comentário sobre a escrita, a forma ou o estilo soa trivial à sombra de uma grande obra, que, em última instância, sempre busca um outro. O confronto entre a linguagem e o sujeito é o confronto final da grande literatura. No entanto, a pergunta ainda permanece: como posso começar esse confronto quando sei que vou ficar aquém, que as minhas percepções são inadequadas para dar conta de uma obra de multidões?

A premissa de Um sopro de vida é direta. À medida que o narrador-escritor se aprofunda na criação de Ângela Pralini, sua personagem, desenrola-se um encontro de reflexos. Ao longo do livro, ambas mergulham em si, numa prosa impregnada de elementos poéticos. Ângela – ela mesma escritora – revela seus anseios inatingíveis, desencadeando um diálogo sobre a frágil fronteira que separa criador e criação. Esse cenário nos faz pensar sobre a existência e sobre o processo artístico. Em meio ao choque entre ser e viver, um ambiente de melancolia toma conta, suscitando questionamentos para quem busca na vida algo além da vida.

A linguagem da obra se desdobra fervorosamente, pois a escrita de Clarice não se pretende objetiva. Em vez de aderir à narrativa linear, ela concilia matéria e alma, estabelecendo reflexões entre consciências individuais. Nessa toada, navega pela profundeza humana com muita autenticidade, construindo diálogos densos, profundos e inquietantes, que incorporam aspectos de uma filosofia existencial. Essa interação entre criador e criatura dissemina com algumas palavras muita riqueza de significado, pois a voz de Clarice é precisa em seu tom de intimidade prosaica, cujo endereço flutua entre o leitor, o autor e a criação do autor em um triângulo reflexivo. Assim, catalisando a urgência da vida em frases fragmentadas, Um sopro de vida galopa num fluxo de consciência que nos remete à escrita de Virginia Woolf.

Um sopro de vida é uma obra exigente, simplesmente por causa da paixão que pulsa na voz narrativa. Durante a leitura, a beleza da intimidade é tamanha que soa como se Clarice estivesse escrevendo só para você. É raro quando a linguagem nos toca completamente e produz conexão avassaladora. Essa ressonância, que beira a tempestuosidade, experimentada quando nos deparamos com uma bela escrita, é praticamente impossível de descrever. As metáforas brilham e voam, alcançando reflexões sobre a existência e a morte antes de recuar às lembranças pessoais da vida em todas as suas belezas. A justaposição entre o universal e o particular não é confusa, pois a obra mistura os temas de seu romance tão perfeitamente que é como se o texto respirasse. Há algo no monólogo que tem intensa vulnerabilidade, expondo partes frágeis da autora em Ângela Pralini. Nessa sensibilidade de escrita, aproxima-se mais do nebuloso núcleo da vida.


“Eu e Ângela somos o meu diálogo interior: converso comigo mesmo. Ângela é do meu interior escuro: ela porém vem à luz. A tenebrosa escuridão de onde emerjo. Escuridão pululante, lava de úmido vulcão em fogo intenso. Escuridão cheia de vermes e borboletas, ratos e estrelas.

Eu penso por intermédio de hieróglifos (meus). E para viver tenho que constantemente me interpretar e cada vez a chave do hieróglifo, estou certo que o sonho – coisa (minha) (nula), não realizado – é a chave do mesmo.

Eu escrevo por intermédio de palavras que ocultam outras – as verdadeiras.”


Imersa no dilema de saber se as palavras podem ou não transmitir pensamentos e sensações com precisão, Um sopro de vida expõe a dicotomia autor-narrador, dividida entre instinto, razão, corporificação e libertação. Enquanto Ângela Pralini mergulha nas profundezas do silêncio, onde são retratadas a paixão e a angústia de escrever, Clarice oscila entre aderir a uma narrativa estruturada e lógica ou trilhar o caminho inquietante do inconsciente. Com sua prosa enigmática e fugaz, pronta para rejeitar qualquer imposição arbitrária de limites, a obra borra as distinções entre ficção e não ficção, eu e outro, humano e divino, provocando o leitor a voltar-se para dentro de si.

Parece-me que a melhor maneira de ler as obras de Clarice é simplesmente seguir a jornada literária a qual ela nos leva, observando e experienciando o poder da linguagem e das imagens que se apresentam, apreciando os seus toques delicados e as suas explosões apaixonadas para perceber que ser humano é carregar consigo infinitas contradições. Aquele que quiser ler Clarice precisa compreender que vai abrir mão completamente de si mesmo, pois, para entrar no universo dela, é preciso se deixar ir – e não há outro caminho.

Compreende-se que Clarice se baseava em profundas indagações para escrever e que essas interrogações alicerçavam todo o seu trabalho, que era desenvolvido à beira do vazio. A escrita de Clarice, nesse sentido, é a manifestação da morte do escritor dentro do próprio texto. A escritora se depara com o vazio, que a impede de permanecer em silêncio. Quando inicia o gesto, navega no reino do indizível e, em vez de escondê-lo, expõe-o, lançando palavras para liberar sensações. Nesse processo, um novo caminho é descoberto, e esse empreendimento nasce como manifestação escrita do vazio. Porém, uma vez escritas, as palavras perdem os seus traços anímicos, aguardando um próximo sopro para erguê-las – leitura.

Um sopro de vida é a jornada de um autor que se aprofunda na vida e na morte. A capacidade que Clarice tem de focar na natureza complexa e mutável da humanidade é notável. Seu foco é alcançar a existência em seu estado mais puro, reunindo o que em nós é universal. Para isso, ela submerge no núcleo do ser, lançando sua linguagem no concreto instável da existência, tornando o livro um processo contínuo de criação artística, uma exploração da escrita que foi previamente criada, manifestação de uma paisagem externa que realça a expressão léxico-sintática. Nesse processo, a obra atinge uma abstração onde reúne pensamentos e sensações capazes de serem partilhados intelectualmente por aqueles que têm a sensibilidade de sentir as emoções alheias. A palavra é a base que nos sustenta e nos conecta. O contexto se entrelaça incorporando todos os traços da vida e da humanidade, extraindo a metafísica que nele habita. A presença daquela que nos observou ao longo da vida pulsa agora na superfície do papel e nos liberta.

Ninguém melhor para expressar a urgência da vida do que alguém que está morrendo e sabe que está morrendo. De seu leito de morte, Clarice escreve, não para a sua sobrevivência, mas para conciliar ou alcançar o que buscou ao longo da vida com a sua escrita: esse impacto com a realidade, livre de restrições culturais, familiares, religiosas, filosóficas – crenças agarradas às fragilidades da existência. Um sopro de vida é a linguagem sem fôlego de uma voz consciente de sua partida – narradora e autora –, de uma voz que busca existir no presente da experiência. Esse feito torna a obra uma conquista literária significativa. Ângela sente o tempo fugindo, como sentiu Clarice, que morreu antes de concluir o livro.

A escrita de Clarice desafia o pensamento convencional, onde cada palavra escrita nasce das sombras e do silêncio que nos envolvem, do espírito que habita dentro de nós. Fonte enigmática, linguagem do risco rompendo os limites da familiaridade, questiona tudo de maneira implacável, submergindo o leitor num abismo vertiginoso de reflexões. Nesse sentido, desafiando o status quo para declinar na complexidade labiríntica da experiência humana, a linguagem de Clarice é atemporal, e as suas obras devem ser relidas constantemente, pois cada embate supõe nova iluminação. 


“Eu, alquimista de mim mesmo. Sou um homem que se devora? Não, é que vivo em eterna mutação, com novas adaptações a meu renovado viver e nunca chego ao fim de cada um dos modos de existir. Vivo de esboços não acabados e vacilantes. Mas equilibro-me como posso entre mim e eu, entre mim e os homens, entre mim e o Deus.

Vivo em escuridão da alma, e o coração pulsando, sôfrego pelas futuras batidas que não podem parar.”