segunda-feira, 10 de junho de 2024

Ante a lanterna de Diógenes: a busca pela verdade em um mar de mentiras


Supõe tu um campo de batatas e duas tribos famintas. As batatas apenas chegam para alimentar uma das tribos, que assim adquire forças para transpor a montanha e ir à outra vertente, onde há batatas em abundância; mas, se as duas tribos dividirem em paz as batatas do campo, não chegam a nutrir-se suficientemente e morrem de inanição. A paz, nesse caso, é a destruição; a guerra é a conservação. Uma das tribos extermina a outra e recolhe os despojos. Daí a alegria da vitória, os hinos, aclamações, recompensas públicas e todos os demais efeitos das ações bélicas. Se a guerra não fosse isso, tais demonstrações não chegariam a dar-se, pelo motivo real de que o homem só comemora e ama o que lhe é aprazível ou vantajoso, e pelo motivo racional de que nenhuma pessoa canoniza uma ação que virtualmente a destrói. Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas.


Diógenes de Sinope foi um filósofo grego conhecido por empunhar, em plena luz do dia, uma lanterna acesa diante do rosto dos cidadãos atenienses, alegando que estava à procura de algum homem honesto. Vivendo de acordo com os seus princípios e comprometido com a honestidade, Diógenes rejeitou as convenções e defendeu a verdade a todo momento e sob qualquer circunstância. Atualmente, o filósofo grego ainda é lembrado pelo seu compromisso com a verdade e por viver de acordo com suas crenças. 

Quincas Borba (1891), de Machado de Assis (1839-1908), narra a história de Rubião, um morador de Barbacena, cidade situada em Minas Gerais. A jornada de Rubião o leva de uma vida de dificuldades como docente ao patamar de amigo e confidente de Joaquim Borba dos Santos, também conhecido como Quincas Borba. O raciocínio por trás do título do livro é bastante complexo, visto que a obra contempla não apenas um, mas dois Quincas Borba: o humano e o cachorro. Curiosamente, é o cachorro quem persiste durante toda a narrativa, já que o humano morre logo no início da trama. 

O livro, porém, é dedicado a desenvolver a teoria Humanitas, formulada pelo filósofo Quincas Borba ainda em vida e resumida no lema “Ao vencedor, as batatas!”. Essa teoria se assemelha à defendida por Charles Darwin (1809-1882), que postula que a natureza sempre favorece os mais fortes. Na obra, por exemplo, notamos isso nas batalhas que os indivíduos enfrentam nas cidades grandes, repletas de armadilhas e adversidades.

O narrador machadiano dialoga com o leitor, convidando-o a mergulhar na narrativa que se desenrola na segunda metade do século XIX, período marcado por significativas mudanças sociais. A narrativa começa quando Quincas Borba adoece e acaba morrendo. Em seu testamento, o filósofo lega todo o seu patrimônio a Rubião, com a condição de que o amigo cuide de seu cachorro, que, inclusive, tem o mesmo nome do filósofo. Com a nova riqueza, Rubião abandona a docência e se muda para o Rio de Janeiro. É nesse momento que a trama começa a ganhar seus contornos.

Rubião conhece o casal Palha, formado por Cristiano e Sofia, durante a viagem de trem de Minas para o Rio de Janeiro. O casal se torna o guia de Rubião na cidade, já que o ex-professor desconhecia a movimentada metrópole carioca. Nesse ponto, Cristiano percebe a inocência de Rubião e vê nela uma chance de acumular riqueza. Rubião, por sua vez, apaixona-se por Sofia, fato que acaba originando um triângulo amoroso (que não se concretiza). 

Em seguida, Rubião fixa residência em Botafogo e recebe um convite para jantar na residência do casal Palha. Depois do jantar, Sofia convida Rubião para um passeio pelo jardim. Nesse momento, Rubião expressa o seu amor por Sofia, propondo que ambos olhem todas as noites para as estrelas como prova do seu amor. Apesar dos avanços e das declarações, Sofia rejeita Rubião, pois se diz totalmente comprometida com o casamento e respeitosa com o marido. Porém, quando Sofia conversa com Cristiano sobre o encontro, ele a incentiva a continuar amarrando Rubião, explorando sua paixão para ganhos pessoais. Relutante, Sofia sucumbe à persuasão do marido, sentindo-se compelida a submeter-se aos seus desejos de esposa zelosa e obediente. A maneira como Cristiano joga para extrair quantias cada vez maiores de Rubião é objeto de constante crítica. Personagens como esses – que encarnam a mesma crueldade que persiste na sociedade contemporânea – atraem a atenção por manipularem a todo momento a ingenuidade das pessoas. Nesse sentido, a obra também nos apresenta um tema universal centrado na presença de enganadores. 

O romance Quincas Borba apresenta uma crítica à conduta humana. À medida que nos aprofundamos na narrativa, acompanhamos o declínio de Rubião devido à má gestão de sua riqueza por parte de Cristiano Palha e aos seus próprios gastos extravagantes, muitas vezes à custa de indivíduos oportunistas. Enquanto a condição financeira de Cristiano melhora, pouco a pouco, Rubião, consumido pelo amor, enlouquece. Ele sustenta um suposto adultério entre Sofia e Carlos Maria, que não acontece. A condição psicológica de Rubião piora ainda mais, fazendo-o ter alucinações; delirante, simula o penteado de Luís Napoleão. O seu estado de miséria o leva a ser internado em uma casa de repouso, mas ele reaparece em Minas Gerais ao lado de seu fiel cão. Apesar de receber o apoio de Angélica, Rubião morre tragicamente. O seu fiel companheiro, Quincas Borba, morre três dias depois. A vida de Rubião, que parecia estar em uma trajetória ascendente com uma casa no Rio de Janeiro, compromissos sociais e convivência com a classe alta, é tragada pelas implacáveis estruturas da cidade e seus habitantes. Quando os indivíduos agem apenas em benefício de seus próprios desejos, revelam a sua natureza animalesca. Em contrapartida, o cão é exemplo de lealdade, devoção, amor e gratidão. Se a sobrevivência cabe ao mais forte, este não foi Rubião.

O Humanitismo serve como uma resposta satírica a vários movimentos filosóficos do século XIX, oferecendo um exame tangível da realidade. Curiosamente, pode ser interpretado como um desdém pela natureza humana imperfeita. A obra reimagina e reconstrói esta realidade, destacando os aspectos mais sombrios da humanidade e expondo o seu egoísmo. Nesse sentido, ela fornece uma representação do comportamento humano, revelando um desejo universal de ganho pessoal, propriedade e controle. Além disso, aqueles que se opõem a estes desejos são frequentemente vistos como alvos de aniquilação.

De natureza intrusiva – conversando por vezes com o leitor –, o narrador machadiano cadencia o desenvolvimento da trama de forma fabulosa, suspendendo a conclusão dos capítulos e nos deixando ansiosos por novas revelações. O leitor mais perspicaz perceberá que a sucessão dos acontecimentos revela a perspectiva de Machado sobre as questões do mundo, ainda que por vezes persista a sensação de que o narrador está apenas contando a história sem fazer julgamentos. Diversos momentos da trama estabelecem paralelos entre as experiências das personagens e os dias atuais, incluindo e trabalhando temas como a exibição ostensiva de riqueza apesar da insolvência financeira, a corrupção, o racismo, o papel das mulheres, a instituição do casamento como pilar do patriarcado, o processo de envelhecimento etc. Assim, com sutileza ou firmeza, a obra aborda diversos assuntos do macrocosmo e microcosmo do Brasil, explorando suas interconexões. Nota-se que a escolha por esse tipo de narrador, portanto, é adequada, pois fornece um retrato abrangente da nossa sociedade.

Tudo o que vive busca a eternidade. Satirizando a noção de um mundo ideal e investigando a ideia de que o universo é uma vontade irracional e incompreensível que impulsiona a vida, percebe-se como a filosofia de Arthur Schopenhauer (1788-1860) está presente na obra. A manifestação da vontade não é racional, mas impulsiva, cujo objetivo é garantir a continuação da espécie em um mundo onde suas estruturas são apenas representações. Neste quadro, existem dois aspectos que não podem ser separados: o objeto – que existe dentro dos limites do tempo e do espaço – e o sujeito – que se forma através da consciência do mundo. Contudo, tendo em vista que a vontade nunca pode ser plenamente satisfeita, o mundo torna-se sofrimento, e o prazer acontece quando a dor cessa, mas isso é sempre temporário. Para Schopenhauer, os indivíduos autoconscientes percebem que são moldados e definidos pela sua própria vontade, que por sua vez é influenciada pela arquitetura de suas paixões e interesses. Abraçar os próprios desejos é inerente ao ser humano, mas Schopenhauer sugere que rejeitar a vontade seria um gesto de santidade, pois vai contra as nossas inclinações naturais. Sua filosofia investiga a oscilação entre a dor e o tédio que todos experimentamos. Sob a superfície da obra, percebe-se o descontentamento com a sociedade e seu pessimismo.

Sem dúvida, Machado de Assis é um escritor que merece múltiplas leituras. Embora a conclusão de Quincas Borba seja profundamente triste, sem qualquer vislumbre de esperança, o autor tem o poder de nos encantar, e isso não se deve apenas à natureza duradoura de suas histórias, mas também ao fato de ele nos ligar a acontecimentos que parecem totalmente afastados de nossas vidas, criticando, de forma contundente e irônica, as ideologias otimistas predominantes em sua época. Assim como na era de Diógenes, a sociedade também busca, em meio a um mar de corrupção e de enganadores, alguém que incorpore a integridade moral. Porém, após a leitura, parece-nos evidente que uma única lanterna não será suficiente para descobrir indivíduos honestos no meio dessa escuridão que encobre a ética e a moralidade.


Quando Rubião voltava do delírio, toda aquela fantasmagoria palavrosa tornava-se, por instantes, uma tristeza calada. A consciência, onde ficavam rastos do estado anterior, forcejava por despegá-los de si. Era como a ascensão dolorosa que um homem fizesse do abismo, trepando pelas paredes, arrancando a pele, deixando as unhas, para chegar acima, para não tombar outra vez e perder-se.

quarta-feira, 5 de junho de 2024

Do mar — 3

Nas portas, há frio. Abre-se o mistério. Tem pavor que não se arrepia. Recusas fundas. A loucura sobe em um ponto que desce. Dor abandonada do gosto. O crime janta na mesa. Sou o tempo, passando no frio. Razões furiosas junto às ânsias do crime. Sou a maldade na inquisição marítima. A respiração dos medos na nuca. Fútil tortura da passageira pobre. Chacina em alto-mar, roçando. Olhos que se enchem. A canção alinhada. Que mal os traços e as retas! A face ilumina o reler inútil. A um desabamento enorme acima da imaginação. Turbilhão lento. Sensação sem batidas! Dos lados, o frio. As lanternas de esquina. Um olho é janela de jardim. Fraturadas lunares. Uma carícia desbotaria o sonho. Certas pranchas aguçam a loucura: todas as escoltas sombreiam. Hoje, o hipocampo ultramarino das marretadas e o funil dos tremores. Sonha o tecelão, azul firmamento antigo. Uma ave dispara na ilha áurea. Aurora dolente. Chore depois. Torpores lentos. A fria luz erguida das tardes. Pendões orgulhosos! O menino – a tristeza oscila! O barquinho continha borboletas violetas em olhos e algodões. Nenhum entretom de espuma ou sequer de mato. As folhas das algas. Agora, a maré momentaneamente percorre em sonora milha, quebra perfilada. Se navegasses por aqui, palmilhando a similitude que antigamente palmilharias, desde a ilha de que sem dúvida partirias, se navegasses por aqui nos caminhos, encontrarias os avisos elétricos que é a tipográfica busca. O mesmo ocorreria ao fim do lamento. Punhado arenoso. E aquilo porque supunhas morrer ao cumprir-se areia. Um homem construiu um cais nas pedras. O mundo foi exteriorizado na porta da alteração. Revelação diversa. Guindastes, chegadas, comboios, mercadoria por cima desses negrumes. Ocasiões fundas e chaminés, fábrica e sombra. Esquinas mundanas. Uma vez extasiado, o vento justo manteve o curso através. Há primaveras sem árvores. E, sobre as plantas, animais... O mundo deixou-se em afetuoso silêncio. Abre-se a concha. Balançante cavalo-marinho. Agora, o redondo polvo no desalinho dançante. Arenoso, o tempo ressurge. A dor é o monstro pousado: as imagens são as despedidas de movimentos embalados. A ave é a estrangeira. O frio é o nó que surge. Sonorizada fúria, ébrias flautas, a cor do gesto. Os horrores. Ali, o cavaleiro e o santo. Erro das cores, artes de ventos, salões de almas, caverna e marés. Sonha a caravana de histriões, a chuva, o ouro, a hora, o assombro, o escombro. O choro da viúva. Céu pesado, acessível, de alguma chegada. De início, foi apenas chuva. Os silêncios! As cegueiras! Ela velará por desprezo. Sim! Este leque: perdição e desprezo! Os leques! As horas! As catedrais! O ar uiva sob a grande porta, cuspindo os belos sorrisos da tecedeira. Um toque tão vermelho, tão azul na pedra. Prometeu.

segunda-feira, 3 de junho de 2024

Quando as portas da percepção se abrirem, tudo surgirá como é, infinito


O caminho do excesso leva ao palácio da sabedoria.


William Blake (1757-1827) foi criado por um pai que seguia as ideias do visionário Emanuel Swedenborg (1688-1772) e que optou por não lhe proporcionar uma educação convencional. Em vez disso, o poeta embarcou em um caminho de aprendizado místico, mergulhando no estudo de ocultistas. Romântico convicto, Blake foi um homem dotado de perspectiva singular. Em um cenário cuja paisagem literária prosperava com base na influência dos clássicos “augustanos” – que proporcionavam uma utopia àqueles que aderissem às normas sociais –, Blake atentou aos que viviam na miséria, em uma sociedade marcada sobretudo pela injustiça, sob a influência opressiva que a igreja e o estado exerciam nas pessoas.

O casamento do céu e do inferno (1970) é uma obra basilar de Blake  que compreende uma série de aforismos escritos por meio de paradoxos. Neles, Blake examina a moralidade convencional e afirma que a humanidade não se limita à dicotomia alma/céu e corpo/inferno. Em vez disso, segundo o poeta, o corpo humano não é separado da alma, pois as energias, que são a essência que sustenta a vida, emanam de todas as estruturas corporais. Visionário à Swedenborg, o poeta teve vislumbres do reino dos espíritos. Em vez de confiar em doutrinas ou regulamentos pautados pela religião, o seu conhecimento foi adquirido com base na análise. Sendo assim, valendo-se de sua iniciação druida, Blake critica a falácia dos conceitos religiosos contemporâneos que insistem em colocar o céu contra o inferno dentro de uma estrutura binária simplista.

Originalmente impressa em vinte e sete placas de cobre, O casamento do céu e do inferno prova o método de impressão de Blake, que uniu textos e desenhos nas placas antes de imprimi-las e pintá-las à mão. Incorporando vários gêneros e estilos (prosa, provérbios, poesia em verso livre e ilustrações), a obra celebra o alvorecer de uma nova era de libertação política e de emancipação espiritual após a Revolução Francesa. 

Ao mesmo tempo em que desafia as noções tradicionais de bem e mal, Blake critica as crenças teológicas de seu antigo mentor, Emanuel Swedenborg. Abrindo mão da razão e da moderação, que são defendidas pelos anjos ortodoxos, o poeta condena as moralidades impostas pela Igreja e pelo Estado e enaltece a energia e o desejo. Com isso, a intenção de Blake é reparar injustiças, encorajar a autoexpressão e revelar a essência ilimitada da existência.

A obra inicia com um poema em verso livre cujo título é “O Argumento”. Nele, o poeta apresenta Rintrah, símbolo da fúria justa e arauto da revolução, e prossegue desvendando o seu tema, desafiando as perspectivas religiosas tradicionais. Ele enfatiza a necessidade de opostos na estrutura da existência, especificamente nos campos da energia e da razão. Os virtuosos, que são os Anjos, proclamam a virtude da razão, alinhando-a com o céu e com a alma, enquanto denunciam o vício da energia, alinhando-o com o inferno e com o corpo físico.

O trecho "A Voz do Demônio" desafia o equívoco que cerca os anjos tradicionais, atestando que a felicidade genuína deriva das forças de afirmação da vida que surgem do desejo natural e imaginativo. Além disso, enfatiza a ligação inseparável que há entre o corpo e a alma e defende que o desejo não deve ser represado pela racionalidade.

A partir desse ponto, Blake estende a sua ideia, dividindo-a em cinco seções, todas escritas em prosa, sob o título de "Uma Visão Memorável”. Na primeira parte, mergulha nas profundezas da paixão criativa e compila setenta "Provérbios do Inferno". Esses aforismos celebram a vitalidade da vida e a supremacia do instinto sobre a racionalidade. Na segunda parte, Blake inicia uma conversa com os antigos profetas Isaías e Ezequiel. Durante este encontro, ambos os profetas validam a perspectiva de que a essência ilimitada da existência só pode ser verdadeiramente compreendida por meio do aprimoramento dos sentidos humanos. Na terceira parte, vimos como a transmissão do conhecimento é retratada, geração após geração, por meio da arte da criação. Blake diferencia os Devoradores, representados pela razão, dos Prolíficos, representados pelos artistas. Na quarta parte, Blake embarca em uma expedição com um representante da fé tradicional. Ambos atravessam os reinos da imaginação e, nessa odisseia, cada um revela ao outro o seu verdadeiro destino. Aqui, é a perspectiva visionária de Blake quem vence. Ele tece críticas à racionalidade e aqueles que negligenciam o reconhecimento das forças opostas. Na quinta e última parte, o Diabo e o Anjo se envolvem em mais uma batalha de perspectivas. O Anjo sucumbe ao ponto de vista do Diabo, e ambos criam uma amizade inesperada. Juntos, mergulham nas páginas da Bíblia, desvendando os seus conhecimentos.

Por fim, “Uma Canção de Liberdade" é uma coleção de vinte versos que anunciam a iluminação espiritual do mundo provocada por medidas políticas revolucionárias. A obra termina com um Coro que declara a sacralidade de todos os seres vivos.

O casamento do céu e do inferno é um labirinto de insanidade, uma dança entre extremos levada ao limite como uma forma poética de expressar visões transcendentes para o mundo humano, rompendo com as amarras das teorias áridas da era iluminista. Nessa toada, Blake celebra a liberdade, e isso significa romper com os grilhões das crenças religiosas e das amarras materialistas impostas pelos filósofos. Para o poeta, a poesia é a união de luz e sombra, de loucura e sabedoria, de suavidade e vigor, de racionalidade e energia, uma mescla destinada a desafiar o eu interior, culminando em uma fusão de opostos que revela o absoluto. Assim, os versos de Blake são a encarnação dessa união mística, uma ruptura dos valores obsoletos ou superficialmente modernos. Por meio de suas palavras, o autor desafia as normas, clamando para que a sociedade persiga o desejo sem amarras, mesmo que isso signifique mergulhar no inferno. De fato, Blake, para dar vida às suas ideias, não hesita em recorrer a uma infinidade de aforismos, demonstrando assim que o inferno é o ponto de partida para a virtude.

Segundo Jorge Luis Borges (1899-1986), William Blake ocupa uma posição peculiar na literatura, visto que ele é um poeta verdadeiramente único e indescritível, profundamente religioso, mas com uma cosmogonia própria e distinta que às vezes se volta para o paganismo. Por meio da linguagem, Blake acreditava na potência imagética da humanidade, enfatizando a sua natureza sensorial. Sucessor poético de John Milton (1608-1674), a influência do poeta se estende a figuras ​​como Rimbaud (1854-1891), Artaud (1896-1948) e Huxley (1894-1963).


Que os Sacerdotes do Corvo da aurora, não mais em negro mortal, maldigam com sua rouca voz os filhos da alegria. Nem que seus aceitos irmãos – a quem, enquanto tirano, denomina livres – fixem parâmetros ou construam telhados. Ou que a pálida luxúria religiosa chame aquela virgindade que deseja mas não age! Pois tudo que vive é Sagrado!


quarta-feira, 29 de maio de 2024

Do mar — 2

O desejo se inquieta, torturante e elementar. Nem as ideias, nem as gravitações, ondas verdes. Os movimentos chiam. Em movimento vagaroso. Rasgo sem espaço na natureza do dia. Foram tempos que a alma pôs. Fluxo e refluxo, as noites encostadas da colina. Num sonho esquecido, insondável na campina. Agitados os peregrinos. Prostrada estupidez. Abre-se a praia. O mar mais antigo. Cesário Verde, de escritas alinhadas, independência amorosa, sem ódios nem paixões, mais criminoso do que o crime. A vida marítima: destinos vaporosos. Belas assinaturas modernas na fantasmal cidade. Nos confins do navio, rigores de comandantes. Cartas de escritórios endereçadas, cruzando as épocas na operação branca dos carimbos. Da hora vestida de ar. Respira. A bordo passageiros e vapores. Ulisses de ancoramentos e separações homéricas. Tédio: a cor do porto e do navio. A forte alma já imaginada desce a sacada. O navio de carga grita sobre os passageiros. A alegria de corpos dourados rodeia. Eles estão na hora. O espaço está ao lado, os tempos estão caindo. O grito deve ter levado. Vozes zumbem. Marinheiros circulam sobre, com velhas correntes. Bem depois, Marias oceânicas. Longe das folhadas abrigadas. Flóridas? Os pauis chovendo em rajadas de lameiros. Leviatã! As podridões nos juncais de fúrias. Gelos e sóis. Céus argênteos. Piolhos, serpentes, corcundas! E lá os gigantes, os tombamentos, as galhadas e os perfumes. Ondas! O azul cantante. Relíquias do marinheiro morto. Pelo vento conspiraram os instantes exaustos. Peixes áureos. Fuga soluçante. A sombra das flores foi confiada a faustos joelhos. Pedido de uma mulher sombria. As ilhas de gritos mortos de bordas tênues. O estrume do sono das aves, a corda dos afogados, as tranças de barco, o ermo dos tufões e o éter. Pelo casco, veleiros e águas. Arrepios. Violetas e perfurações. Desusados poetas. Quando a breve onda mais sibila, com coragem e choro, uma mãe antiga naufraga. Ao Sul, sem vento. Entre joio e palha. Uma nau cedeu entre símbolos e se fez ameaça à metafísica. Perturbação de pedras. As saudades largadas. Cidades crescidas. E o velho olhar tem boa parte. Às horas feitas, um mármore, um negrume. Dores. Os caminhos, as beiras. Um pendão de vitória, relíquia saqueada. In-fólios nas pedras da barricada! Velha, erva de acabrunhante hora, o cabo dos mortos, os restos, a vela ao longe. Brilha a faca de degolados precursores. Todos os olhos têm o rastro da veste. A alameda é um ocaso d’alma. Esse frescor é uma frieza de secas. Aqui e ali, a sorte cigana. Por aqui, ou por lá, o dia em escândalo. Para cá, ou para lá, a linha de escrita. A vida das quinas é a morte e vice-versa. A leitura do livro, a esteira oriental. A força honesta do ópio vivo. 

segunda-feira, 27 de maio de 2024

A mão que sulca a terra é a mesma que escreve o poema

 

O outono. Nossa barca elevada nas brumas imóveis navega em direção ao porto da miséria, a cidade enorme de céu sujo de fogo e lodo. Ah! Os farrapos podres, o pão ensopado de chuva, a embriaguez, os mil amores que me trazem crucificado! Não acabará um dia este vampiro, tirano de milhões de almas e de corpos mortos que serão julgados! Revejo-me de pele corroída pelo lodo e pela peste, cabelos e axilas cheios de piolhos, e piolhos mais gordos ainda no coração, estendido entre desconhecidos sem idade, sem sentimento... Bem poderia acabar aí... A horrenda evocação!


Arthur Rimbaud (1854-1891) fez uma entrada surpreendente em Paris, transformando completamente a percepção da poesia e erradicando o parnasianismo predominante da época. Reconhecido como o maior poeta rebelde, Rimbaud revolucionou a literatura, conseguindo tudo isso antes dos vinte anos. Dizemos, portanto, que Rimbaud simboliza a própria juventude, uma vez que os seus poemas funcionam como expressões inaugurais e finais da arte.

A obra Uma temporada no inferno (1873) é o único livro lançado pelo poeta, que, após uma passagem tumultuada pelo mundo literário, abandonou a poesia em busca de riqueza. Posteriormente, uma seleção de suas obras foi impressa, e ele apareceu em uma compilação com curadoria do poeta Paul Verlaine (1844-1896), com foco no grupo conhecido como "poetas malditos". Essa classificação não era injustificada, já que Rimbaud era considerado um gênio e um encrenqueiro. Com espírito visionário e pouco convencional, rejeitou veementemente qualquer forma de trabalho burocrático, afirmando que a única vocação do poeta deveria ser a poesia.

O impacto de Rimbaud no mundo literário foi ofuscado pelo fascínio que rodeava a sua vida pessoal, particularmente o seu caso com o renomado poeta francês Paul Verlaine, que era mais velho que Rimbaud. O jovem poeta possuía uma força tão revolucionária que influenciou profundamente Verlaine, fazendo com que este abandonasse a esposa para embarcar numa viagem com Rimbaud, chocando a sociedade francesa. Alimentado por haxixe e absinto, o relacionamento deles tomou um rumo tumultuado em 1872, quando Verlaine, consumido pela melancolia, feriu Rimbaud com um tiro no pulso durante uma discussão. Desesperado, Rimbaud procurou consolo no nordeste da França, onde escreveu sua famosa obra: Uma temporada no inferno.

Tudo se iniciou em um pequeno vilarejo nas Ardenas, em 1873. Residindo com sua família numa casa em ruínas herdada por seu avô, Rimbaud acabara de voltar de Londres e estava viciado em haxixe, tabaco e álcool, o que o levava a ter febres e alucinações. Este é o cenário em que escreveu o seu último livro, considerado um verdadeiro testemunho de uma batalha entre um homem e sua consciência. Mas ele continuou seguindo: partindo em direção às suas próprias sombras, também questionou o mundo e suas convenções. Uma temporada no inferno é um clássico da poesia simbolista que mistura ideias e conceitos associados à morte, à paixão, ao inferno, ao cristianismo e à história francesa no final do século XIX. Tendo a ira da juventude em si e a revolta contra a hipocrisia derivada da figura de sua mãe, Rimbaud aprendeu a condensar a raiva em versos, tornando-se o maior entre os “poetas malditos”. Nesse sentido, nenhum título poderia ser mais apropriado para um poeta que tinha uma reputação tão destrutiva.


Vou desvendar todos os mistérios: mistérios religiosos ou naturais, morte, nascimento, futuro, passado, cosmogonia, o nada. Sou mestre em fantasmagorias. Escutai! Possuo todos os talentos. Aqui não há nada e há alguém. [...] Estou escondido e ao mesmo tempo não o estou.


Em Uma temporada no inferno, ele apresenta o território de sua luta, revela a sua narrativa e fala que o "sangue ruim" que corre em suas veias, proveniente de sua herança gaulesa, definirá a dramaticidade da sua vida, pois ele limita a sua mente, o seu corpo e o seu espírito. No entanto, o poeta sofre com dois passados: os valores gauleses e os valores burgueses derivados do pai. Desse ponto em diante, Rimbaud profetiza como um místico os aspectos que ordenam e racionalizam uma sociedade governada majoritariamente pelos valores do catolicismo. Além disso, expõe a sua falta de esperança na felicidade. Ainda que as experiências vividas pelo poeta durante esse percurso infernal o façam ultrapassar diversos limites, no fim, Rimbaud regressa à vida campestre e rústica. E o que sobra desse conflito travado por Rimbaud é apenas a desesperança. 

Pouco importa se somos avessos ou favoráveis ao que nos diz Rimbaud. O que realmente importa durante a leitura é atentar àquilo que funda as estruturas humanas, buscando a compreensão da linguagem que supera e enriquece todo o livro. Nesse sentido, a escrita de Rimbaud é o vazio, alcança o limite da existência, troveja, relampeja e naufraga nas lacunas da loucura. De nada adianta buscar sentido para o que não tem sentido, pois os poemas são seres orgânicos em constante respiração, seres que ultrapassam os limites do certo e do errado, chamando para junto de si uma pluralidade de vozes – e a verdade da obra está alinhada com tudo isso. São os golpes intuitivos e sensíveis que compassam os traços verdadeiros da obra. O real significado disso nos diz que Rimbaud abriu mão de tudo, radicalmente, e o que escreve não é matéria de seu interesse, pois é a escrita quem o move. Expondo os contrários que lutam na arena da axiologia e que fundam os pilares humanos, o poeta nos deixa aqui uma estrutura da existência e caminhos possíveis para a existência. Assim, entranha-se em si e vive-se enquanto linguagem. 

Nesse caso, é crucial reconhecer uma abordagem de compreensão para Uma temporada no inferno que não pretenda ser um método definitivo de leitura ou uma quantidade de informação que atribua proficiência artística às críticas produzidas sob a obra. Ao expressar isso, destaca-se a necessidade de lembrar que ler poesia exige correr riscos para compreender e diferenciar os princípios que governam o domínio independente da compreensão poética. Durante a leitura, o leitor mergulha na artisticidade da linguagem de Rimbaud, servindo como testemunho da objetividade integral da arte. Assim, Uma temporada no inferno desafia as expectativas da crítica ao perdurar e exigir uma abordagem única para a compreensão da sua verdadeira essência. 

A obra rejeita qualquer tentativa de reduzi-la a um mero fato, afirmando antes a sua dignidade artística e ordenando uma leitura que procura a verdade que ele encarna enquanto risco de linguagem. A própria natureza da obra faz com que os leitores se envolvam com a sua verdade contundente, uma vez que adere às leis do rigor artístico, que se apresentam constantemente em novas formas. É precisamente porque a literatura de Rimbaud carrega consigo uma verdade inerente e duradoura que resiste aos golpes do tempo. Ao interagir com essas obras, os leitores são confrontados com elementos reais que ressoam no mundo, exigindo serem reconhecidos por meio de uma compreensão independente.

Uma temporada no inferno coloca o leitor como um devedor moderno, consumido pelo mistério da vida dentro da palavra escrita, linguagem. Como resultado, é preciso mergulhar na verdade – aquela produzida na obra enquanto obra de risco e rasura –, acendendo-a no vasto vazio que existe além da literatura. Esta revelação permite compreender que a independência do conhecimento poético se manifesta nas páginas da obra como uma experiência em si, encarnando a essência da vitalidade. Serve como a personificação da experiência estética, um arquétipo incorporado. O autor levanta questões metafísicas fundamentais em relação à expressão artística, afirmando que a sua consciência é o aspecto definidor da sua humanidade. 

 Aqueles que leem Rimbaud pela primeira vez talvez sejam assaltados pelo inteligível. Para alcançar a compreensão, ou uma fração dela, deve-se tornar parte de seu mundo, incorporando as suas visões e as suas sensações. Rimbaud escreve o desespero, a dor e a pobreza com genialidade e lucidez. Registra-se que o poeta era visionário. Teria ele enlouquecido ou seria apenas consequência de uma mente fértil? Não há resposta. O certo é que, em Uma temporada no inferno, Rimbaud fundou uma nova linguagem. Com a desconstrução da métrica alexandrina, levou a prosa poética ao panteão das grandes poesias, causando uma significativa mudança no mundo literário.


A vida floresce pelo trabalho, velha verdade: quanto a mim, minha vida não é suficientemente pesada, voa e flutua distante, por cima da ação, esse adorado eixo do mundo.

quarta-feira, 22 de maio de 2024

Do mar — 1

Assim que o silêncio da alma serenou, um semicírculo se deteve entre emoções e giros lentos. Fez-se compasso na hora de navios. Arco-íris. Os cais solares se abrigaram. As tristezas já vagam. No horizonte sujo, moscas de sombra se abrem. Angústias nas barras do caminho. Lá no alto, a telha. O navio escorreu no rio, nas cidades, nos brilhos. O ouro e o destino andaram. Brumas armadas. No lento volante de vapores ainda ligeiros, a afeição ainda admira aberturas matutinas. A viagem golpeou. A febre contornou sonhos. Prumo natural das tristezas e das saídas dos portos. A vida celebrada nas passagens da nau. Lugar erguido. Desde então, ouvia-se a pobreza no chorar. Depois, no traje cosmopolita, transatlântico, o infinito se disse eterno. Liberte-se até pregar. Do ranger de marés à surdez, um outro se banha em marinhos despertares. Nada de atóis. A cortiça! Gira e ilumina, feito boca: vinhos, lemes, arpões, lenhos. O mar! O mar! O mar! Sonhos de purpurinas sob o azul absorto. Afogamento frio. Golpes de luzes azul-safira, no dia do ritmo. Delírios arrastados na embriaguez das liras. Ah! Amores amargos de martírios e céus. Trombas correntes. Monções na boca da noite e exultações de pombos. Criatura: manchas, horrores; iluminação das urnas. As ondas na distância mais próxima. O cantar áureo do poema marítimo. E as espumas. A taça brinda as sereias em tropa. Já não era popa nem proa, nem empenho, nem voragem. Na solicitude estalar do recife, os pés se inquietam, e a vela alva se desvela. Um jovem! Um jovem! Um jovem! Está gasta a solidão. Orla, fumo! Na vida de mar, o avanço se fez pequeno. Manes da distância. A náusea ao longe. Paquete livre. Afastado momento! Criatura livre, entre oceanos de espelhos, dorso agitado, cristais duros e contemplações de retratos. O outono e o mar atraem as janelas do jardim. Rodopiantes e velhas. A folha afasta desconfortos amarelos. Pelos mares, apoiando a morte inabitada, as velas acenam. Portos abandonados. Canto aquático desmanchado. Flanco de riso de espuma. Mar alçado. As vozes e as rouquidões e os ventos e os voos pensados e as buscas. Os lamentos das saídas. Cala o sonho: os palácios (arruinados), os parques (abandonados), as dores repuxadas. A manuscrita paisagem em tuas frases cortadas. As rasgadas cartas! Oxidadas ânsias. Aziagos de aflições fortuitas. O enfermo deitado no luar das ninfas, atraído. Enfim, o silêncio. Soa a voz de lira. Apolo fingido. Cauda negra dos rastros. Na pedra, durante dias raros. O sino além. Os nortes, delicados ao sul. A inveja nervosa, a morte náutica. Pregamento de cabos. Lebre artística, o tocar de corneta. A veste ornada de saídas. Como o desassossego? O Maelstrom implementado. Mostra-se agora! Desprezo outro.

segunda-feira, 20 de maio de 2024

A morte que nos faz manusear a vida por baixo dos panos

 

Este livro é como um livro qualquer. Mas eu ficaria contente se fosse lido apenas por pessoas de alma já formada. Aquelas que sabem que a aproximação, do que quer que seja, se faz gradualmente e penosamente – atravessando inclusive o oposto daquilo que se vai aproximar. Aquelas pessoas que, só elas, entenderão bem devagar que este livro nada tira de ninguém. A mim, por exemplo, o personagem G.H. foi dando pouco a pouco uma alegria difícil; mas chama-se alegria.


Considerada figura de destaque na literatura brasileira, as obras de Clarice Lispector (1920-1977) têm significativa importância, e o livro A paixão segundo G.H. (1964) é considerado um dos trabalhos mais importantes da autora. Muitas vezes vista como uma escritora movida pela paixão, ela atribui à sua voz uma força que cadencia o ritmo das suas frases e que origina diversas ideias filosóficas. Clarice, inclusive, chega a sugerir que o conceito de infinito é arquitetado a partir de elementos finitos, entrelaçando, assim, os domínios mental e físico.

A sua escrita é movida pela diferenciação entre uma noção de eu e uma avassaladora torrente de sensações, que quase sempre nos deixa tontos. Ao captar as diversas vozes que sussurram ao pé de seu ouvido e manifestá-las na linguagem, compreendendo os seus mistérios, podemos dizer que Clarice Lispector tem essência de poeta, pois o que ela faz é uma espécie de alquimia com as palavras, transformando-as em algo encantador, atestando que “um mundo todo vivo tem a força de um Inferno”.

Por meio da dedicatória do livro, Clarice Lispector nos indica que embarcará em uma jornada com o leitor, assumindo a perspectiva de outro indivíduo, outra voz (ou vozes). Ao longo da narrativa, esse indivíduo a acompanha na busca pela transcendência, e o leitor se torna o pilar de apoio e consolo para G.H., que se vê isolada e desanimada, sem qualquer assistência.

A obra narra a vida mundana de uma mulher abastada de classe média alta que, em meio à sua rotina doméstica, se surpreende com a presença de uma barata dentro do quarto de Janair, sua ex-empregada. No entanto, ao percorrer o caminho até o cômodo, G.H. passa por um profundo conflito interior, suficiente para desconstruir a sua própria identidade. A partir desse ponto, ela embarca em uma viagem íntima, refazendo os passos de sua educação passada e investigando os aspectos de sua história presente. Nesse giro vertiginoso, desvenda ruínas de civilizações esquecidas, revelando o intrincado mosaico de vida que dela floresceu. É imperativo que G.H. confie em alguém. Para que ela cumpra o seu objetivo de dar movimento à sua existência, é urgente que ela encontre alguém que possa ajudá-la a compreender e a racionalizar a experiência que viveu e que ainda vive em si. Apesar de todas as tentativas, ela acha impossível guardar esse encontro com o seu eu mais íntimo. 

O livro se desenrola no interior de um apartamento que funciona como um espécie de metáfora para a jornada interna da personagem G.H.. Nesse sentido, a presença de múltiplos significados fica evidente na obra, sobretudo as referências ao tempo e ao espaço, que assumem diversas interpretações, pois aqui “tudo olha para tudo, tudo vive o outro; neste deserto as coisas sabem as coisas”. Enquanto caminha em direção ao aposento de sua ex-empregada, a área de serviço transborda energias insólitas por todos os cantos do condomínio, e G.H. percebe que o ambiente é uma paisagem sem vida. Funcionando como uma espécie de rito de passagem, G.H. percorre toda a extensão do corredor para chegar ao aposento da ex-empregada. O corredor, nesse sentido, funciona como o caminho que conduzirá a protagonista para o interior de si mesma.

Quando chega ao aposento, G.H. experimenta uma profunda sensação de desapego e abandono. A atmosfera torna-se inquietante, levando G.H. a buscar a ordem em meio ao ambiente já organizado. Ela examina cada canto do pequeno aposento, que, apesar de também ser parte de sua casa, soa-lhe estranho. É durante esta exploração que G.H. descobre três esboços a carvão adornando as paredes, cada um representando um homem, uma mulher e um cachorro. Ao abrir o guarda-roupa, a barata surge na narrativa. O inseto olha para G.H., que a esmaga contra a porta da mobília. A partir desse momento, elas se veem presas. A barata perturba o psicológico da narradora, fazendo com que as suas emoções e os seus pensamentos desmoronem diante do inseto que não se cansa de perscrutá-la.


Era uma cara sem contorno. As antenas saíam em bigodes dos lados da boca. A boca marrom era bem delineada. Os finos e longos bigodes mexiam-se lentos e secos. Seus olhos pretos facetados olhavam. Era uma barata tão velha como um peixe fossilizado. Era uma barata tão velha como salamandras e quimeras e grifos e leviatãs. Ela era antiga como uma lenda.


Ao ultrapassar os limites da compreensão, G.H. desafia a própria essência da linguagem, chegando a um ponto em que as palavras não conseguem mais alcançá-la. No encontro entre G.H. e a barata, a sedução surge como força dominante. A natureza repulsiva do inseto se transforma em algo sagrado, criando uma linguagem que nos permite experienciar todas as nuances em seu mais profundo absurdo. Porém, como menciona a dedicatória, só quem tem a “alma formada” é capaz de decifrar o furacão dessa linguagem, indicando-nos que a vida deve ser sentida pelo poder que as palavras emanam. Libertando-se das fronteiras das normas, ela embarca numa busca aterrorizante, sem retorno. A substância que escorre da barata traz profundas revelações e expõe o seu lado mais oculto. Aquilo que se esvai do inseto é o que se esvai da narradora: a sua humanidade em uma explanação vívida que envolve todos os sentidos. 

Quando G.H. descobre o oposto da linguagem como canal para outros significados, o seu próprio nome já não é capaz de defini-la. Ela percebe que as iniciais G.H. marcadas nas malas estão desbotadas. Não há como voltar mais ao seu estado anterior, quando o seu nome era suficiente. A urgência de compartimentar as experiências do mundo a faz perder a verdadeira compreensão das coisas, e a substância branca que vibra dentro da barata intervém nos instantes mais comuns para resgatá-la desse abismo.

Estabelecer um diálogo entre A metamorfose (1915), de Franz Kafka (1883-1924), e A paixão segundo G.H. é inevitável. Apesar das diferenças, ambas exploram o tema da metamorfose, embora a natureza das transformações vividas pelos personagens seja muito diferente. Gregor Samsa sofre uma transformação física que foge ao seu controle, enquanto G.H. sofre uma transformação interna voluntária. Os estilos de escrita empregados nessas obras também divergem significativamente. Narrada na terceira pessoa, a obra de Kafka é concisa e objetiva. Por outro lado, A paixão segundo G.H é introspectivo e subjetivo, escrito na primeira pessoa. As conexões livres e o fluxo de consciência da obra criam uma sensação de angústia e deslocamento. Em síntese, ambas as obras apresentam baratas, mas com propósitos contrastantes: a de Kafka simboliza a desumanização de Gregor Samsa, enquanto a de Clarice simboliza a humanização de G.H.

A Paixão Segundo G.H. é uma obra que explora os aspectos da condição humana, buscando a espiritualidade e a autenticidade. Embora o livro aborde temas profundos, Clarice Lispector entrelaça as trivialidades da vida cotidiana com muita habilidade, usando detalhes aparentemente mundanos como catalisadores para as profundas revelações que se desenrolam ao longo da narrativa. Segundo Clarice, inclusive, a maioria das pessoas permanece alheia à verdadeira essência da existência, contentando-se em viver num estado de confortável ignorância, evitando a terrível revelação que as espera. 

A potência que existe na linguagem surge como uma ferramenta para explorar esses temas profundos e complexos. A paixão segundo G.H. desvenda as nossas verdades mais secretas ao desvendar as diferentes facetas que compõem a nossa existência. É uma obra que embarca o leitor numa viagem turbulenta em direção às nossas regiões mais densas. Com o apoio dele, ela descobre que abraçar a alteridade é uma jornada emocionante. O texto literário é crucial para refletir a autopercepção, servindo como canal para que o autor rascunhe a imagem daquilo que é ou finge ser. É por meio da linguagem que o leitor e o autor convergem e constroem os seus próprios mundos.


Mas, se eu não forçar a palavra, a mudez me engolfará para sempre em ondas. A palavra e a forma serão a tábua onde boiarei sobre vagalhões de mudez.


quarta-feira, 15 de maio de 2024

Uma odisseia de loucura e mitologia

 


Há diversos caminhos para mergulhar o público em uma experiência profunda e envolvente, e um dos mais eficazes reside na fusão entre forma e conteúdo. Nesse sentido, o diretor norte-americano Robert Neil Eggers tem demonstrado imensa habilidade criativa. O filme O Farol (2019) é uma porta de entrada para uma época passada de inúmeros espaços. Em vez de depender de truques cansativos, ele prioriza encantar o público por meio de uma narrativa envolvente, atuações excepcionais e design diferenciado. Transporta-nos não só para a década de 1890, cenário da história, mas também para os primeiros anos do próprio cinema, quando serviu como canal para a experiência partilhada de imaginação e sonhos. 

A essência do filme é envolta em um fascínio enigmático. Inicialmente, o espectador só tem conhecimento de que dois marinheiros, o experiente Thomas Wake, interpretado por Willem Dafoe, e o jovem enigmático Ephraim Winslow, encarnado por Robert Pattinson, são despachados para uma ilha deserta para cuidar da manutenção de um farol. A partir desse ponto, o filme cria um sentimento de claustrofobia, preparando o terreno para o surgimento dos instintos primordiais dos personagens. Não demora muito para que o forte contraste entre suas posições, a solidão avassaladora e a natureza monótona de seus deveres se infiltrem em sua psique. Assim, fica evidente que o local serve como terreno fértil para o florescimento das facetas mais sombrias do comportamento humano. A maior parte do filme desenrola-se na complexa interação entre esses dois indivíduos. Winslow se vê sobrecarregado com uma enorme quantidade de responsabilidades, enquanto seu mentor dorme durante o dia e se retira para os limites da torre do farol durante a noite.

A dupla está isolada e fadada a lidar com seus demônios interiores. Escapar dessa situação é inútil, pois ambos estão cercados por mares tempestuosos, clima severo e rochas traiçoeiras. Ephraim, que permanece calado sobre seu passado e todos os outros assuntos, se esforça para manter uma postura neutra, mas gradualmente se vê envolvido no conflito crescente. Thomas, o guardião experiente, estabelece seu domínio atacando os sentidos: ele contamina o penico aninhado entre suas camas estreitas, contamina a residência com sua flatulência nociva, prepara comidas nojentas, coage seu subordinado a consumir álcool e tagarela incessantemente. Apesar de serem completamente estranhos, as sementes de uma luta por poder são plantadas entre os dois homens. 

Em sua busca incessante, o diretor Robert Eggers não poupa esforços na criação de um filme que é sórdido, horripilante e cacofônico, capturando a atenção ao traçar o caminho desses dois homens solitários em um espaço que gradualmente os leva à loucura. Esse ambiente nostálgico é elaborado por meio da cinematografia em preto e branco, alternando entre uma clareza nítida e uma nebulosidade perturbadora. No entanto, a sua verdadeira potência repousa na capacidade de Robert Eggers de conjurar atmosferas enigmáticas e desestabilizadoras a partir de elementos intangíveis. Nesse sentido, a escolha da lente e o processo de desenvolvimento contribuem para a experiência imersiva do filme, onde o público é envolvido por uma sensação de perigo iminente e pela presença avassaladora do mal na ilha isolada. Aliás, Eggers leva tempo para desenrolar a história, permitindo que o espectador experimente a mesma sensação de frustração que o jovem Ephraim Winslow. As tarefas, as condições desafiadoras, a rotina monótona e as idiossincrasias do veterano contribuem. À medida que o conflito se intensifica, segredos começam a ser escondidos entre os dois.

Muito material é fornecido para os atores desenvolverem. Inspirados em documentos históricos, os diálogos são escritos em inglês antigo, capturando a linguagem dos marinheiros e acrescentando um toque encantador à produção, enquanto alusões literárias ao cenário da ilha e à relação do indivíduo com o farol e a vida isolada — derivadas das obras de Herman Melville e Robert Louis Stevenson — enriquecem ainda mais o filme. O texto serve como força orientadora, abrangendo uma ampla gama de tons ao longo da obra, sejam os monólogos ameaçadores de Wake, a rebelião de Winslow ou a mistura peculiar de humor que permeia muitas conversas. O Farol se destaca por retratar os aspectos desagradáveis ​​das relações humanas quando confrontados com circunstâncias extraordinárias. No entanto, isso não nega a existência de um elemento sobrenatural.

Para mergulhar no simbolismo e nas alusões mitológicas presentes no filme, é crucial compreender que a obra explora a solidão e seus efeitos. Esse estado na narrativa significa uma desconexão de si que leva ao desenvolvimento de uma mentalidade perturbada e primitiva. A verdadeira natureza das visões de Thomas e Ephraim permanece incerta, pois pode ser mera alucinação. No entanto, o isolamento amplifica os conflitos e a desintegração do domínio da realidade.

O Farol tem uma qualidade extraordinária que está longe de ser comum. Evocando uma sensação intemporal de ameaça, a mitologia entrelaça-se às ações práticas, como exemplificado pela árdua subida e descida da imponente escadaria do farol, pela natureza enigmática da luz e pela ligação simbólica entre gaivotas e divindades antigas. Além disso, explora mudanças inexplicáveis ​​no tempo e na perspectiva, confundindo as fronteiras entre a realidade e o sobrenatural. Aqui, a tempestade ocupa o centro do palco, mostrando a jornada de uma normalidade sombria até o declínio físico e mental dos faroleiros. Curiosamente, o ambiente também manipula a percepção dos eventos pelo espectador. Em meio a conflitos internos, há uma presença constante que macula o frágil cotidiano. Essa força assombrosa permeia a ilha, infiltrando-se principalmente nos sonhos de Winslow. 

A obra é recheada de referências artísticas. Eggers desenvolve a malevolência por meio de imagens enigmáticas, restos mortais em decomposição e alusões artísticas, como a pintura Hipnose, de Sascha Schneider. Ainda que esses elementos contribuam para a estética surreal do filme, o que realmente diferencia O Farol é a sua essência como narrativa de terror cósmico. Este gênero literário, popularizado por H. P. Lovecraft e Robert W. Chambers, é caracterizado por intenso suspense e ameaças inimagináveis ​​que levam qualquer um às profundezas da insanidade. Aliás, o autor H.P. Lovecraft justapôs a insignificância do homem à grandeza das incontroláveis ​​forças celestes, terrestres e aquáticas, levando a humanidade à loucura quando essas forças são encontradas. Essa ideia serve de catalisadora para o desenvolvimento do enredo e dos personagens, apoiado visual e tematicamente pelas obras do escritor americano. É através dessa lente que fica nítida a transformação dos indivíduos isolados — um sendo humilhado enquanto o outro desempenha o papel de humilhador. Dia a dia, a câmera explora meticulosamente até as atividades mais mundanas, transformando-as em atos de martírio.

Tanto os personagens quanto o público ficam imersos neste complexo jogo, vivenciando uma jornada guiada pela loucura. O Farol regressa ao primitivismo, e suas razões são de natureza mística, não sociológicas. Poder-se-ia interpretar isso como a libertação da nossa essência supostamente domesticada, já não vinculada às construções sociais, mas antes impulsionada pela sua ausência. Nesse sentido, ao longo desse processo, fluidos humanos, gases, gritos e agressões físicas ocupam o centro das atenções, substituindo a fachada da civilização por manifestações primitivas. Enquanto a trilha sonora assustadora de Mark Korven atua como presença etérea, intensificando as cenas, os sons do vento, das gaivotas e do mar cada vez mais turbulento se misturam à buzina estridente e a maquinaria do farol, criando um forte contraste entre a luz intensa e a escuridão envolvente. 

Na cena culminante, Thomas direciona sua raiva para Winslow, desencadeando uma maldição que traz à tona o poder dos sete mares e até convoca o próprio Poseidon. Isso se torna realidade quando os dois faroleiros se encontram num conflito feroz. Thomas passa por transformações, e muitos o percebem como Proteus, filho de Poseidon, conhecido na mitologia por sua natureza violenta e imprevisível. Essa representação captura a essência do filme, enquanto Thomas e Ephraim enlouquecem. Com o passar do tempo, suas ações tornam-se cada vez mais inesperadas e mortais. Assim, não é exagero pensar O Farol como uma alegoria profunda que explora a perda de controle e a deterioração da humanidade pelas lentes da mitologia grega.

Outro aspecto a ser explorado na narrativa é o significado do farol, que estará para sempre associado a algo parcialmente abstrato, enredado numa relação tumultuada repleta de conflitos, paranoia, desejos e violência, tudo em uma atmosfera que acena à loucura. Para muitos, serve como origem da vida na ilha, pois é onde Thomas mantém o controle sobre todas as criaturas. Isso explica por que Winslow é constantemente proibido de se aproximar do farol. Por outro lado, podemos pensar uma interpretação psicanalítica, vendo o farol como representação da consciência absoluta. Dadas as evidências que sugerem que Thomas e Winslow são a mesma pessoa, o farol poderia simbolizar a destruição das ilusões. Quando Winslow finalmente consegue acesso ao farol, ele é consumido por sua luz ofuscante. O estado mental que o farol oferece é avassalador para o protagonista, que declina numa profunda perda de si.

Os momentos mais encantadores do filme ocorrem durante as trocas dinâmicas entre os dois atores, tornando as interpretações um verdadeiro deleite. Pattinson e Dafoe mergulham totalmente em seus papéis, abraçando a montanha-russa emocional da história. Seja em um jantar à luz de velas, onde Wake revela o declínio do protagonista à loucura, ou em uma conversa sobre como sair de uma situação difícil, suas atuações oscilam entre momentos de intensidade silenciosa e talento dramático, resultando em visões sublimes. Pattinson transmite tons sutis de malevolência por meio de seu olhar, explosões emocionais em suas interações com seu companheiro mais velho. Percebe-se que ele tem um personagem mais desafiador, que o exige que permaneça tímido e silencioso diante da loucura invasora. Willem Dafoe, por outro lado, age como se estivesse revivendo algo, incorporando uma persona que oscila entre a submissão tranquila e a carranca de alguém sobrecarregado com conhecimentos proibidos, sem vontade de divulgar qualquer informação. Sua transformação se desenrola pontuada por comportamentos explosivos. Ele tem uma infinidade de histórias encantadoras, mas suas atitudes em relação ao novo zelador estão longe de ser amigável. Neste lugar desolado, Dafoe assume o papel de guia, um homem mais velho que parece exercer controle sobre todos os aspectos do ambiente, evitando e provocando o seu companheiro mais jovem. 

Estas referências refinadas contribuem, sem dúvida, para a qualidade geral do filme, que leva o espectador a uma jornada complexa e desafiadora, repleta de símbolos e metáforas que podem ser difíceis de compreender à primeira vista. No entanto, à medida que nos aprofundamos na trama e tentamos desvendar alguns enigmas, a obra nos encanta.

Os irmãos Eggers fazem com que a narrativa do filme assuma gradualmente uma perspectiva mais surreal e fantástica. Não é de hoje que ignoramos que a malevolência também pode residir na iluminação. Nesse sentido, encontrar respostas é tarefa difícil, pois elas são escassas e fornecidas por narradores sem credibilidade. Aqui é revelado, num outro estrato de intenções, que até mesmo os iluminados, quer desejem ou não, podem evocar uma série de horrores. É por isso que a noção de proteção e orientação que simbolicamente conferimos a um farol está abalada na obra.

No final, não conseguimos concretizar a elipse que o filme nos enreda, pois permanece intacta a sensação de horror de alguém que ousou zombar de uma força maior do que ele mesmo. O mito de Prometeu e o castigo sofrido por Winslow nos dão boas perspectivas de leitura, já que ambos enfrentaram consequências por mergulharem em reinos proibidos. Winslow sofre uma queda escadaria abaixo, e seu corpo se torna alvo de gaivotas. Apesar das várias interpretações, o verdadeiro significado do filme permanece indefinido — e essa é a sua maior força. 

Sem dúvida, Robert Eggers criou uma obra-prima que sempre nos convida a novas interpretações. Cada vez que assistimos, surge algum detalhe que se soma a essa riqueza audiovisual raramente vista no reino do terror. Adaptar esse gênero não é tarefa fácil, e é por isso que a equipe de produção merece elogios por elaborar uma história cheia de enigma e suspense, com uma cadência singular que culmina em uma conclusão inexplicável.