quarta-feira, 29 de maio de 2024

Do mar — 2

O desejo se inquieta, torturante e elementar. Nem as ideias, nem as gravitações, ondas verdes. Os movimentos chiam. Em movimento vagaroso. Rasgo sem espaço na natureza do dia. Foram tempos que a alma pôs. Fluxo e refluxo, as noites encostadas da colina. Num sonho esquecido, insondável na campina. Agitados os peregrinos. Prostrada estupidez. Abre-se a praia. O mar mais antigo. Cesário Verde, de escritas alinhadas, independência amorosa, sem ódios nem paixões, mais criminoso do que o crime. A vida marítima: destinos vaporosos. Belas assinaturas modernas na fantasmal cidade. Nos confins do navio, rigores de comandantes. Cartas de escritórios endereçadas, cruzando as épocas na operação branca dos carimbos. Da hora vestida de ar. Respira. A bordo passageiros e vapores. Ulisses de ancoramentos e separações homéricas. Tédio: a cor do porto e do navio. A forte alma já imaginada desce a sacada. O navio de carga grita sobre os passageiros. A alegria de corpos dourados rodeia. Eles estão na hora. O espaço está ao lado, os tempos estão caindo. O grito deve ter levado. Vozes zumbem. Marinheiros circulam sobre, com velhas correntes. Bem depois, Marias oceânicas. Longe das folhadas abrigadas. Flóridas? Os pauis chovendo em rajadas de lameiros. Leviatã! As podridões nos juncais de fúrias. Gelos e sóis. Céus argênteos. Piolhos, serpentes, corcundas! E lá os gigantes, os tombamentos, as galhadas e os perfumes. Ondas! O azul cantante. Relíquias do marinheiro morto. Pelo vento conspiraram os instantes exaustos. Peixes áureos. Fuga soluçante. A sombra das flores foi confiada a faustos joelhos. Pedido de uma mulher sombria. As ilhas de gritos mortos de bordas tênues. O estrume do sono das aves, a corda dos afogados, as tranças de barco, o ermo dos tufões e o éter. Pelo casco, veleiros e águas. Arrepios. Violetas e perfurações. Desusados poetas. Quando a breve onda mais sibila, com coragem e choro, uma mãe antiga naufraga. Ao Sul, sem vento. Entre joio e palha. Uma nau cedeu entre símbolos e se fez ameaça à metafísica. Perturbação de pedras. As saudades largadas. Cidades crescidas. E o velho olhar tem boa parte. Às horas feitas, um mármore, um negrume. Dores. Os caminhos, as beiras. Um pendão de vitória, relíquia saqueada. In-fólios nas pedras da barricada! Velha, erva de acabrunhante hora, o cabo dos mortos, os restos, a vela ao longe. Brilha a faca de degolados precursores. Todos os olhos têm o rastro da veste. A alameda é um ocaso d’alma. Esse frescor é uma frieza de secas. Aqui e ali, a sorte cigana. Por aqui, ou por lá, o dia em escândalo. Para cá, ou para lá, a linha de escrita. A vida das quinas é a morte e vice-versa. A leitura do livro, a esteira oriental. A força honesta do ópio vivo. 

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