quarta-feira, 31 de julho de 2024

Do mar — 11

À direita, a costa de terra desperta os olhares e os sertões e os artigos desta colônia, e os destinos, à esquerda, retêm o mar atual em mil homens passados da aventura. Desfile de indefinições. De fato: absolutos carregados de quimeras, de combatentes e bordas, na nova terra de padronizados cabos de nomes atônitos e as missangas sobre as mais incríveis costas, vinte setas, ouros, madeiras e explosões verdes ou saques, cheios de terra. Até canhões sob prêmios misteriosos, ostentando novidades de mortificações, no roubo das entrecruzadas misturas. Que temor! Montadas saudações e marinheiros de tinta e gajeiros deslizam em mastros. Tripulantes ancestrais circundados de lemes e tombadilhos de papel rugem rudemente dentro dos porões. Os pilotos do perigo badalam nas vigias suspensos atrás dos cabos. Navegadores de mortes gritam nas escotilhas. Mareantes de beliches, sujos, chegam em guindastes e cargas metálicas como a imensidade das pontes. Sobre as camisolas, em meio a cruzadas, os marujos buzinam audácia. Os olhos da amurada e os tetos dos pombos, aventureiros do convés hasteiam bandeiras. Retorna o serafim luminoso! As mãos estão próximas. O aceno não ajuda. A dor! A dor! Bando perfeito do silêncio. Os lançamentos dos olhos afogar-se-ão. Ouvidos dos mortos, arruinado o ermitão e as vozes piedosas: possuirei bosques: serei ocioso e brutal! De pé! Regressa dos bosques anosos. Novamente as vidas daqui – os anos ao lado. A marinha voz. Está dito o toco de carvalho. Está dito. Não entregar ao bote as escutas. A luz, o sinal, o eremita e a única resposta. A tabica empenada, o esgarçado velame, a vida ressequida, o espectro da folha. O regato não é leito. Quatro cavalos no fundo do vento, as crinas, os espíritos. A lisa areia, de acabrunhante podridão, cobiça o poente das conchas. As estátuas de corais, norte e sul. Se restar um transparente país, os vidros. As pausas dos brancos poemas. Navega os azuis enchendo os espaços da rua. A branca mão na brisa das despedidas. Dissolve-se a noite de maio. Feito sangue, primeiro numa metafísica, depois na saudade. Eolo orgulha-se de que tudo que venta é cativo. Aponta o cume dos rochedos e desmascara os promontórios. As cidades da flutuação dos crepúsculos, o pano das velas. Que as espiadas longitudes fixem gaivotas. Que o cegante sol alastrado chame aquela noite quando os mares difamaram o fundo, delegando-lhe o silencioso súbito e emergente.

segunda-feira, 29 de julho de 2024

Os paradoxos da razão e da loucura em O Alienista


Trata-se, pois, de uma experiência, mas uma experiência que vai mudar a face da terra. A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente.


Publicado em onze exemplares no periódico A Estação (1881), O Alienista é uma obra central no cânone literário de Machado de Assis (1839-1908). Servindo de obra introdutória em Papéis avulsos (1882), é um texto enigmático que desafia qualquer categorização. Embora inegavelmente humorístico, com episódios memoráveis, personagens cômicos ​​e frases espirituosas, a obra é tão complexa de definir quanto o seu protagonista, o alienista Simão Bacamarte. O texto marca o início da fase realista de Machado e introduz diversos elementos que se tornaram característicos em obras posteriores, como a crítica social e a análise psicológica. Usando-se de um narrador onisciente, Machado expõe o egoísmo e a vaidade que estão sob a superfície do comportamento humano.

Basicamente, O Alienista narra a história de Simão Bacamarte, um devotado  médico cujo foco é o estudo e o tratamento de doenças mentais. Após concluir sua formação na Europa e se tornar um renomado especialista, Bacamarte opta por residir na pequena cidade de Itaguaí, situada no Rio de Janeiro. Na esperança de constituir família, casa-se com D. Evarista, mas não conseguem ter filhos. Bacamarte funda na cidade a Casa Verde — hospital dedicado ao atendimento de doentes mentais —, e a instituição logo se torna um elemento de destaque na comunidade. Com ideias pouco convencionais em mãos, o médico desafia as dinâmicas de poder estabelecidas na cidade, as quais são dominadas pelo padre, pelo prefeito, pelos vereadores e pelo juiz. Bacamarte inicia uma série de experiências, detendo e libertando pacientes do seu hospital, tudo na tentativa de descobrir a real distinção entre loucura e razão. Suas ações resultam na prisão de inúmeras pessoas, acabando por desencadear uma revolta popular comandada pelo barbeiro Porfírio. Apesar de todos os esforços, a Casa Verde mantém-se de pé. Enfim, tomando-se como louco, Bacamarte é internado em seu próprio manicômio até morrer.


***


O principal nesta minha obra da Casa Verde é estudar profundamente a loucura, os seus diversos graus, classificar-lhe os casos, descobrir enfim a causa do fenômeno e o remédio universal. Este é o mistério do meu coração. Creio que com isto presto um bom serviço à humanidade.


Num mundo que avança rapidamente, O Alienista dá um passo atrás, transportando os leitores para o crepúsculo da era colonial do Brasil. O mesmo acontece com Memórias póstumas de Brás Cubas (1881), que retrocede para uma época anterior a 1850, mergulhando os leitores num mundo onde o comércio transatlântico de escravizados estava no seu ápice. Contudo, em 1880, o movimento abolicionista, que ganhara força no ano anterior, já se tornara uma influência importante. Nesse sentido, indaga-se: buscar o passado com seus “tempos remotos” seria uma manobra estratégica para impulsionar-se para frente?

Do ponto de vista geográfico, talvez Machado pretendesse insuflar em suas histórias um toque de fascínio mítico ou de parábola bíblica. Em Papéis avulsos, vários contos têm cenários abstratos e remotos. Nesse sentido, ao mergulhar na provinciana cidade de Itaguaí, O Alienista não apenas nos transporta no tempo, mas também no espaço. Durante a leitura, não podemos deixar de traçar paralelos com o mito de Prometeu, a torre de Babel ou a história de Fausto, pois Bacamarte anseia por alcançar um conhecimento que ultrapasse os limites humanos. Além dos aspectos míticos, também podemos pensar que Itaguaí atendesse aos interesses do médico, pois, localizada a aproximadamente setenta quilômetros do Rio de Janeiro, minimizaria os riscos enfrentados pelo protagonista na prossecução desenfreada de seus experimentos. A responsabilidade de Bacamarte seria, portanto, introduzir, com a sua pesquisa inovadora, o ineditismo à nada notável Itaguaí. No entanto, como sabemos, a prática criou pouco a pouco um sentimento de horror nos moradores, à medida que as prisões foram acontecendo.

A narrativa tem uma poderosa energia dramática. Nesse reino de Bacamarte, Machado, conhecido por arquitetar narrativas cheias de ironia, desdobra um elenco de personagens complexos. Aqui, empregando técnicas de exagero, distorção, semelhança e excentricidade para provocar sensações de estranheza e diversão, a trama desperta a curiosidade e nos convida a entrar em suas profundezas. 

Entre a diversidade de arquétipos sociais, somos apresentados a Crispim Soares, o estimado botânico da vila. Ele reverencia e segue obedientemente cada palavra proferida por Bacamarte, ainda que movido apenas pelo interesse próprio, visando colher vantagens pessoais por meio de sua associação com o médico. Por outro lado, encontramos D. Evarista, uma esposa dedicada que tem muito respeito pelo marido. Apesar da sua profunda admiração pelo intelecto e pela experiência do companheiro, ela opta por não aderir aos seus conselhos médicos, nutrindo inveja pelo seu compromisso com os estudos, que ela considera prejudiciais ao seu próprio bem-estar. Além deles, encontramos Porfírio, o barbeiro local, que personifica o político oportunista, exclusivamente focado em obter ganhos pessoais. Nesse aspecto, a obra não apenas critica o médico arrogante que coloca a ciência acima de tudo, como também satiriza o revolucionário que se torna conservador; o indivíduo apático que só entra em ação quando enfrenta perigo pessoal; o oportunista que desconsidera o coletivo etc. Com uma escrita travessa e mordaz, a seriedade das discussões é retratada de forma cômica e exagerada; não busca o típico humor jovial e alegre, mas a ironia e os gestos sutis e enigmáticos que puxam leves sorrisos, deixando rastros de mistérios.

Que tipo de conceito científico está em jogo aqui? Por meio de um médico dedicado a desvendar os enigmas dos distúrbios psicológicos da sociedade, Machado desafia as noções convencionais de normalidade e anormalidade, trabalhando a ideia de loucura para além de estruturas conhecidas. Embora a sua definição passe por múltiplas transformações ao longo da narrativa, o princípio fundamental no centro desses parâmetros permanece inalterado: a lógica científica é o único meio pelo qual a insanidade humana pode ser compreendida nos limites da sanidade — conhecimento aprisionado exclusivamente pelo alienista. Nesse sentido, a narrativa se desenrola de maneira complexa, desprovida de uma estrutura tradicional e resistente à fácil classificação em gêneros específicos, pois ainda que o princípio permaneça inalterado, o método de validação do comportamento humano muda constantemente. Essa evasão deliberada reflete o tema da narrativa, que orbita em torno da natureza da loucura, e é essa natureza flutuante, apresentada como característica inerente ao processo científico, que perturba os indivíduos e incita-os à rebelião.


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E partiu a comitiva. Crispim Soares, ao tornar a casa, trazia os olhos entre as duas orelhas da besta ruana em que vinha montado; Simão Bacamarte alongava os seus pelo horizonte adiante, deixando ao cavalo a responsabilidade do regresso. Imagem vivaz do gênio e do vulgo! Um fita o presente, com todas as suas lágrimas e saudades, outro devassa o futuro com todas as suas auroras.


A cena faz inteligentemente uma referência a Dom Quixote (1605) de Miguel de Cervantes (1547-1616), traçando paralelos entre o farmacêutico e o alienista, colocando Crispim Soares como Sancho Pança e Simão Bacamarte como Dom Quixote. Nesse sentido, é possível pensar uma chave de leitura para a obra machadiana onde esta seja uma inversão dos princípios que sustentam o Magnum Opus de Cervantes. Dom Quixote e O Alienista, embora abordem o tema da loucura de ângulos distintos, fornecem perspectivas valiosas sobre a dinâmica da sanidade e da insanidade, bem como sobre a complexa interação entre os indivíduos e a sociedade. Neste quadro, as obras propõem que a linguagem assume um papel central no declínio dos personagens ao reino da loucura, uma vez que as suas interpretações da realidade são moldadas pelas palavras que leem e pelas narrativas que incorporam. A linguagem, consequentemente, surge como um instrumento potente que molda as percepções e os comportamentos das pessoas.

Em Dom Quixote, Alonso Quijano transforma-se após ler vários livros de cavalaria. Inspirado por essas histórias, ele embarca em uma série de aventuras extraordinárias como cavaleiro errante. Sua percepção distorcida da realidade —  onde moinhos de vento viram gigantes e pousadas viram castelos —  é vista por outros como uma manifestação de loucura. Dom Quixote, no entanto, permanece firme em sua perspectiva, desafiando as normas e convenções sociais. Em contrapartida, O Alienista apresenta Bacamarte como um médico racional que se esforça por classificar e tratar os doentes mentais da cidade. Porém, à medida que sua sede por conhecimento aumenta, ele começa a diagnosticar cada vez mais indivíduos como loucos, incluindo até mesmo sua própria esposa. Movido por uma obsessão por controlar e categorizar a loucura, ele estabelece um sistema opressivo que subjuga os habitantes da cidade. Tal como Quixote, Bacamarte é ao mesmo tempo desajeitado e iludido, e a sua perseguição acabará por levá-lo à morte. Enquanto o século mergulhava na loucura, Machado contentava-se em construir a sua narrativa.

O gesto de enlouquecer pela linguagem não pode ser plenamente expresso ou apreendido por meios externos, pois está enraizado numa força transcendente que não pode ser percebida pelo simples intelecto. Nesse aspecto, o gesto não requer a negação dos desejos, pois opera de forma independente e está acima das influências que fazem com que os indivíduos comuns sucumbam às suas sensibilidades. Em essência, transforma o que nos é apresentado em representação, levando-nos a questionar o que está dentro dessa representação. Introduz um quadro ético que existe em nós e tem o potencial de nos levar à presença inegável do outro no reino do sublime. Portanto, o gesto de enlouquecer pela linguagem pode ser compreendido como uma libertação contínua da ilusão do outro, significando que o outro está para sempre situado entre a aflição da alma e o seu bem-estar. Isto nos permite pensar que, por meio de uma rotação contínua, a linguagem é o tumulto causado pelo outro em cada revolução. Em essência, enlouquecer pela linguagem é a representação simbólica da nossa humanidade, que normalmente responde ao desconhecimento, destacando a manifestação do intelecto humano e da autonomia moral.

Tanto Dom Quixote quanto Bacamarte desafiam as convenções sociais, embora suas abordagens sejam diferentes. Dom Quixote segue seu próprio princípio, enquanto Bacamarte tenta impor sua versão da realidade aos outros. Em ambas as obras, a loucura é retratada como meio de resistência às normas sociais estabelecidas. Além disso, a natureza da sanidade e da insanidade é questionada, destacando a linha subjetiva e muitas vezes confusa que existe entre ambas. Dom Quixote é considerado louco por sua visão de mundo idealista, enquanto Bacamarte enfrenta escrutínio por sua fixação em controlar e categorizar a loucura.

A loucura, tema frequentemente explorado na literatura, é uma porta de entrada para a verdade. Tal ideia, enraizada na percepção trágica da loucura descrita por Michel Foucault (1926-1984), reconhece a ligação entre a loucura e a verdade. Assim, quando os caminhos convencionais para a verdade são obstruídos, a loucura torna-se o último recurso. Ao abraçá-la, libertamo-nos das restrições impostas pelas normas sociais e desencadeamos um discurso que desafia a hipocrisia e o medo. Assim como Quixote teve de perder a sanidade, Bacamarte se viu em semelhante situação. No final, ambas as obras mergulham na essência da loucura e nas conexões humanas e sociais, obrigando-nos a desafiar as nossas próprias interpretações da sanidade e da loucura e o significado dessas ideias na nossa compreensão do mundo.


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Nas narrativas machadianas, a intenção é despertar o leitor para a percepção de que a realidade é retratada de forma fragmentada e incompleta. Nesse sentido, as palavras  lançam luz sobre as complexidades do jogo discursivo e revelam alguns dos seus princípios subjacentes. Em O Alienista, o foco reside na instabilidade dos conceitos, na crítica do determinismo científico como o único caminho para a verdade e no exame de como os critérios de valor são moldados e disseminados em vários contextos. Em certo sentido, sinaliza uma abordagem diferente à interpretação que envolve um delicado equilíbrio entre crença e ceticismo, existência e inexistência, traição e lealdade, negação e afirmação. Ao abordar o texto com cautela e com atenção às potenciais armadilhas do seu discurso, abrimo-nos a oportunidade de compreender tanto as intenções e as ações de Bacamarte quanto o poderoso impacto da escrita de Machado na construção da obra. Entre as diversas estratégias discursivas empregadas no diálogo com as tradições literárias, que abrangem a incorporação do púlpito e das práticas retóricas da tribuna para expor as hipocrisias sociais do período machadiano, acompanhamos um narrador que expõe falsos movimentos, ao mesmo tempo que nos permite descobrir fragmentos de verdade.   

Esses exames do comportamento humano e da dinâmica social não apenas se confundem, como também traçam paralelos entre Bacamarte e Machado, que compartilha semelhante fascínio em mergulhar nas complexidades das ações humanas e em suas interconexões na sociedade. Além disso, eles introduzem lacunas temporais e interpretativas que podem ou não ser exploradas em encarceramentos subsequentes, desafiando assim as certezas previamente estabelecidas aos critérios definidores da loucura. Lembrando por vezes o Humanitismo de Quincas Borba (1892), Machado desafia a estabilidade dos critérios ​​utilizados para definir a loucura, expondo a imposição contundente dessas normas e as justificativas inventadas para a sua perpetuação. Tal crítica se estende à elevação da ciência como único árbitro da verdade.

O conflito principal do texto reside num domínio completamente diferente: a autoridade latente da ciência que o discurso científico tenta ocultar. No âmbito do positivismo, Machado percebe uma insânia escondida sob o disfarce do humanitarismo, uma busca incansável para desvendar os mistérios do universo e da existência humana. Nesse sentido, Machado transcende a sua época não apenas desafiando a compreensão racionalista e positivista da ciência, mas também questionando a autoridade de qualquer conhecimento que afirma ser estritamente objetivo e universalmente aplicável. Essa insânia decorre do exercício do poder entrelaçado à própria estrutura do conhecimento e aos seus fundamentos, exaltados pelos ideais positivistas da razão e da ciência. Se o foco de Machado é o próprio poder, essa entidade evasiva que se envolve em inúmeros disfarces, consequentemente, não há base para nutrir otimismo em relação à razão e à ciência.


Nem rogos nem sugestões nem lágrimas o detiveram um só instante.

— A questão é científica, dizia ele; trata-se de uma doutrina nova, cujo primeiro exemplo sou eu. Reúno em mim mesmo a teoria e a prática.


Equipado com as ferramentas da ciência contemporânea, especificamente a descrição da classificação predominante dos transtornos mentais, Bacamarte embarca numa busca irreversível para descobrir um critério definitivo que possa delinear com precisão os limites que separam a sanidade da loucura. Essa busca representa a verdade inabalável do alienista, o seu fervor inexorável. Ao nos aprofundarmos no texto, deparamo-nos com um médico que tem a convicção inabalável de que somente a ciência consegue desvendar os mistérios da loucura humana, delinear seus meandros e, finalmente, encontrar uma cura. 

O Bruxo do Cosme Velho, no entanto, manifestou a sua insatisfação com o determinismo científico. Com um estilo de escrita cáustico, criticou a crença filosófica enraizada no positivismo que coloca a ciência acima de todos os outros meios de compreensão da realidade. Essa crítica também nos lembra o remédio de Brás Cubas, que sugere a substituição do lema de inspiração positivista da bandeira brasileira por um medicamento anti-hipocondríaco. Por fim, no domínio das parábolas, a conclusão é perfeita, precisa e completa: Simão Bacamarte “morreu dali a dezessete meses, no mesmo estado em que entrou, sem ter podido alcançar nada”. O desejo pela elucidação final e abrangente caminha em direção à morte. A busca incansável pela investigação racional resulta em reclusão. Nada resta.


Um amplo chambre de damasco, preso à cintura por um cordão de seda, com borlas de ouro (presente de uma Universidade) envolvia o corpo majestoso e austero do ilustre alienista. A cabeleira cobria-lhe uma extensa e nobre calva adquirida nas cogitações quotidianas da ciência. Os pés, não delgados e femininos, não graúdos e mariolas, mas proporcionados ao vulto, eram resguardados por um par de sapatos cujas fivelas não passavam de simples e modesto latão. Vede a diferença: — só se lhe notava luxo naquilo que era de origem científica; o que propriamente vinha dele trazia a cor da moderação e da singeleza, virtudes tão ajustadas à pessoa de um sábio.


sábado, 27 de julho de 2024

O voo do Anjo



Vô, à medida que a tarde vai passando, envolvendo a nossa casa e a terra, o sopro sereno do céu toca os nossos rostos. Lentamente, a noite desce. A lua surge, lançando um brilho suave e translúcido que embala seus olhos em sono tranquilo. Vô, o senhor mergulhou totalmente em tudo ao seu redor e, sempre que a vida foi dura e violenta, você vibrou e foi fibra, respondeu com amor — nasceu vaticinado a ser Anjo mesmo. Em meio à apatia e à continuidade fingida deste mundo, seus movimentos, como eclipses, brilharam. Você se tornou o rio, as margens e a fonte; você é a natureza do dia, a tarde dentro do dia e o sol dentro da tarde.

Vô, o senhor, que jamais envelheceu, combateu o bom combate, sempre com decência, e circunscreveu o mundo inteiro porque ele se tornou a sua própria natureza. Daqui, eu me oriento e permaneço firme: existo porque você existe — e dia a dia vou aprendendo a enxergar um pouco mais com as mãos, como o senhor me ensinou. Sou atravessado por sua voz; sua voz, agora silenciada. Suas palavras farão muita falta, mas essas memórias de vida serão suficientes para mantê-lo por perto, pois sei que o seu carinho, a sua bondade e o seu altruísmo tocaram a vida de muitos. Ainda que as consequências da sua partida me assaltem, sei que teria um desgosto profundo se faltasse o senhor no mundo, na nossa maloca, na minha vida. 

Hoje, a noite cobre a terra que te abraçou e protegeu com ondas de luz. E, como alma adormecida, sinto suas pálpebras descendo suavemente sobre os olhos; seus olhos físicos, para sempre selados. Nunca deixarei as memórias desaparecerem. Nunca deixarei Carolina esquecer o seu nome. São essas as nossas verdadeiras heranças. Vô, agora nenhuma matéria pode limitar a visão. Abra os olhos do espírito e veja: papai está aí para abraçá-lo. O grande dia chegou. Obrigado por cuidar de nós.

quarta-feira, 24 de julho de 2024

Do mar — 10

Tombadilhos de sangue! Crucificada navegação de espádua, os gozos, aqueles em cruz, outros descendo, e os postes se renovam nas espinhas vastas. Os conveses, cheios de sons, afundam e encolhem. Algumas dessas vagas ainda estão cheias, outras almas, ébrios mares. Quedas marítimas se cruzam e somem. Os marujos escalam os cabos. Distingue-se uma âncora longínqua, talvez outras costas. São ventos estranhos, os trechos de naufrágios dolorosos, restos de cais. A espuma salgada larga como a sanguessuga monstruosa. Estes lábios de sal. A faina da partilha tão igual ao beijo da tormenta. As centrais civilizações no traje da brandura. Todos os mares: tumultuoso brilho, silenciosa imensidão, sem lua e caminho. Não há mortos no convés que não se conheça. A baía clara cobriu a face, o luar, o reflexo e a lisura. O penhasco! As variações das ostentadas cores e os coroamentos carmins apropriados. E as imobilidades dos plenilúnios e os cataventos que eles interditam! O corpo marcha. A cruz erra nomes, escuridão de ruas, vidro adiáfano, luzes de peixes, alucinações e navios. A lisa praia tem boa parte no rumo da distância. Correr sucessivas vezes novas cores. Era vão o fumo. A orla descendo espremida entre os rios e barrancos, derramando-se na vela avançada através do rebocador poroso de barco pequeno, reverberando intensamente naqueles portos vagos. A tristeza caída. Linhos! Lento, o oceano. Dizei nomes de riscos fundos e não temeis revelar as escritas cartas de mar. Tardia, a pérola irrompe! Crepúsculo sobre a cidade! Que barco teria escalado esta porta, este pano que inclina os séculos? Ele dividiu os peitos e mensurou água por água os dias: surgiram as mãos qual marinheiros obscuramente dominados pelos agudos avanços da faca, pois tinham navegado em negra proa, braços do nascimento: luz e morte, coluna, cais, pirraça e repúdio.

segunda-feira, 22 de julho de 2024

Estas areias são linguagens que maré e vento inscreveram aqui

 



“Inelutável modalidade do visível: pelo menos isso, se não mais, pensando através dos meus olhos. Assinaturas de todas as coisas estou aqui para ler, marissêmen e maribodelha, a maré montante, estas botinas carcomidas. Verdemuco, azulargênteo, carcoma: signos coloridos. Limites do diáfano. Mas ele acrescenta: nos corpos. Então ele se compenetrava deles corpos antes deles coloridos. Como? Batendo com sua cachola contra eles, com os diabos. Devagar. Calvo ele era e milionário, maestro di color che sanno. Limite do diáfano em. Por que em? Diáfano, adiáfano. Se se pode pôr os cinco dedos através, é porque é uma grade, se não uma porta. Fecha os olhos e vê.”


O que é o livro? O livro me puxa para um abismo que é um espaço de ausências seguidas, e esse abismo guarda em si o deserto onde nos movemos infinitamente; o livro é o deserto mais árido que há. Encontrar-se e perder-se nele é fantástico. É coisa de outro mundo. Aquele que detém uma parte do livro, qualquer que seja, fragmento, pedaço rasgado, já consegue sonhar outros sonhos, pois um livro pode ecoar o eco do outro que o incorporou numa vibração sutil; assim, alcança-se um diálogo silencioso e penoso, incansável, solidez que pode ser atravessada com a mão para buscar palavras além desse abismo. E sei que também voltaria abismado do abismo, sombrio e diáfano, com a mesma ausência oscilante de um livro. 

Ulisses (1920), a obra-prima de James Joyce (1882-1941), é um monumento ao brilho literário e à redefinição dos limites da narrativa. Reconhecido como um dos maiores romances do século XX, Ulisses não apenas reimagina o épico de Homero, a Odisseia, mas o transpõe para o cenário pulsante das ruas e tavernas de Dublin. Em uma proeza de estilo e perspectiva, Joyce retrata as diversas facetas da vida em um único dia, o 16 de junho de 1904, conhecido hoje como Bloomsday. É uma celebração que cresce em popularidade, testemunhando a perene grandiosidade do romance e o desejo humano por alegria e comunhão.

Em vez de elevar a vida cotidiana às alturas da mitologia, Joyce inverte o processo, transformando um dia comum em um épico moderno. Cada personagem e ação são imbuídos de sentido heroico, onde até mesmo a simples tarefa de enfrentar um nacionalista embriagado em um bar se torna uma conquista lendária. Ulisses é mais do que um romance; é um mergulho profundo na alma de Dublin, vista através dos olhos visionários de Joyce.

Neste épico literário, Joyce ergue a fasquia da narrativa para além da estratosfera, levando-nos a uma jornada através da amada Dublin suja, onde cada página é um testemunho do poder transformador da escrita e da imaginação. Navegar no complexo labirinto da literatura requer uma mente afiada e uma dose generosa de paciência, mas os tesouros descobertos ao final da jornada são certamente gratificantes. Não é de surpreender que muitos desistam deste romance pelo caminho ou que simplesmente não o apreciem; afinal, esta obra é genuinamente desafiadora. Joyce, com maestria peculiar, entrelaça alusões enigmáticas e datadas, narrativas que nos envolvem em névoa densa e vocabulário invejável, criando uma odisseia literária destinada a desafiar e a intrigar. Ele mesmo admitiu ter adornado seu texto com tantos enigmas e charadas que garantiria séculos de debate entre os acadêmicos sobre seu verdadeiro significado, assegurando assim sua imortalidade.

Os leitores devem ser advertidos: este não é um romance para os fracos de coração. Há momentos em que a frustração parece prestes a nos consumir, tentando-nos a abandonar o livro. No entanto, é na segunda metade que começamos a desvendar os segredos que ele guarda, e é então que percebemos que o romance conquistou um lugar especial em nós. Ao terminar a jornada, somos surpreendidos ao perceber que estamos diante de uma das mais grandiosas obras já concebidas, e o amor por ela floresce em nossos peitos. Talvez essa sensação seja similar à experiência de quem se aventura em maratonas ou escala montanhas: uma jornada árdua, repleta de desafios, mas cuja conclusão traz consigo um orgulho e uma euforia indescritíveis. Há recompensas inúmeras a serem colhidas ao longo da leitura.

Ulisses não só exibe um talento literário incomparável, mas também oferece uma variedade de estilos que cativam e surpreendem. Muitos se esquecem de mencionar que este romance também é dotado de humor sutil. É um livro que exige que nos ensinemos a nós mesmos, que nos desafia a ir além da simples leitura. Não é à toa que estudiosos dedicam anos de suas vidas a desvendá-lo, mantendo-o ainda hoje como objeto de debate e admiração. Até o grande Ulisses precisou de auxílio em sua jornada épica.


“Arrojo esta sombra términa de mim, hominiforma inelutável, chamo-a de volta. Intérmina, seria ela minha, forma de minha forma? Quem me percebe aqui? Quem em lugar algum jamais lerá estas escritas palavras? Signos em campo branco. Em algum lugar a alguém na tua voz mais maviosa.”


A obra é uma tapeçaria literária, tecida com uma vasta gama de estilos e técnicas narrativas. A habilidade de Joyce em transitar entre diferentes formas de escrita – desde a sátira de publicações populares até a reverência aos mitos ancestrais e a aplicação de conceitos científicos à prosa – cria uma experiência de leitura multifacetada. Cada linha do romance é uma porta para um universo distinto, onde o leitor é convidado a explorar e se aventurar com a riqueza da expressão literária.

O famoso fluxo de consciência, ousadas alucinações disfarçadas de jogos, e a profusão vertiginosa de prosa, que varia de ornada a singela, demonstram o amor de Joyce pela experimentação estilística. A linguagem é frequentemente brincalhona, lírica e repleta de trocadilhos, demonstrando o talento excepcional de Joyce para a manipulação linguística. Ele até usa a estrutura das frases para transmitir movimento. Somente pela sua maestria linguística, Ulisses se destaca como uma das obras mais espetaculares já escritas, desafiando até mesmo os limites do nosso vocabulário.

Uma das características mais debatidas de Ulisses é a técnica inovadora de Joyce de imergir o leitor nos pensamentos das personagens. Não se trata de uma narração em primeira pessoa convencional; em vez disso, os personagens parecem estar inconscientes da presença de um observador em seus pensamentos. As informações emergem em rajadas desconexas e aleatórias, sem que Joyce se preocupe em fornecer clareza ao leitor. Assim como William Faulkner (1897-1962), Joyce deixa o leitor sozinho para montar o complexo quebra-cabeça narrativo.

A técnica narrativa empregada por Joyce permite uma fluidez de consciência entre as personagens, onde o leitor é frequentemente confrontado com transições abruptas de pensamento. O solilóquio de Molly exemplifica essa técnica, com os pensamentos de Boylan e Bloom se sobrepondo de maneira indistinta. A narrativa exige uma leitura atenta e reflexiva, pois a identidade do falante pode não ser imediatamente aparente, requerendo que o leitor dedique tempo para discernir a fonte dos pensamentos apresentados. A estrutura do romance é tal que acompanha os movimentos diários de Stephen e Bloom, mas não de forma linear ou contínua. Em vez disso, Joyce constrói uma narrativa polifônica que entrelaça diferentes perspectivas, permitindo que a história capture a essência de um dia inteiro. Esta abordagem oferece uma visão holística e multifacetada dos eventos, refletindo a complexidade da experiência humana e a interconexão das vidas individuais.

A noção de paralaxe, emprestada da astronomia, é transposta para a narrativa de Ulisses, servindo como metáfora para a multiplicidade de perspectivas que Joyce apresenta. Bloom reflete sobre esse conceito, que se torna um leitmotiv ao longo do romance, sugerindo que a realidade pode variar significativamente dependendo do ponto de vista do observador. Joyce utiliza essa ideia para enfatizar a subjetividade da experiência humana e a complexidade inerente à interpretação dos eventos e das relações interpessoais. Nesse sentido, os leitores são convidados a adotar uma postura ativa na construção do significado do texto, navegando por um oceano de pensamentos e imagens que, muitas vezes, parecem contraditórios ou incompatíveis. Por meio dessa técnica, Joyce desafia os leitores a reconhecer e apreciar a diversidade de interpretações possíveis, incentivando uma leitura mais profunda e engajada que vai além da superfície do texto. Ulisses não apenas conta uma história, mas também convida à reflexão sobre como as histórias são contadas e percebidas, destacando a riqueza que emerge da confluência de diferentes pontos de vista.


“Nutridos e nutrientes cérebros ao meu redor: sob lâmpadas incandescentes, pingentes com filamentos pulsando desmaiados: e na escuridão de minha mente uma preguiça do inframundo, relutando, avessa à claridade, remexendo suas dobras escamosas de dragão. Pensamento é o pensamento de pensamento. Claridade tranquila. A alma é de certo modo tudo que é: a alma é a forma das formas. Tranquilidade súbita, vasta, candescente: forma das formas.”


A diversidade de narradores é um testemunho da habilidade literária de Joyce. Cada personagem é dotado de uma voz distinta, caracterizada por um estilo, vocabulário e estrutura gramatical próprios, sendo Molly Bloom exemplo notável dessa variedade. A complexidade das vozes narrativas pode levar o leitor a questionar as perspectivas de Joyce sobre questões sociais, como sua visão sobre judeus e mulheres. No entanto, Joyce subverte frequentemente as expectativas ao apresentar pontos de vista contrastantes. 

A representação das mulheres e da sexualidade é central na narrativa, o que provocou debates sobre a possibilidade de Joyce ser misógino. A descrição de personagens femininas, muitas vezes focada em sua sexualidade, e a presença de figuras como prostitutas podem ser interpretadas como reforço dessa perspectiva. Contudo, é importante considerar que Joyce pode estar explorando a complexidade da condição feminina e as normas sociais da época, em vez de simplesmente perpetuar estereótipos. A ambiguidade e a multiplicidade de interpretações são características essenciais de uma grande obra literária, convidando o leitor a uma análise mais aprofundada das intenções do autor e das dinâmicas sociais retratadas no romance.

Pelos olhos de Bloom, somos confrontados com uma visão objetificada e desprovida de remorso das mulheres como objetos sexuais, bem como uma perspectiva masculina sobre a sexualidade feminina. No entanto, com Molly, Joyce nos apresenta uma visão altamente contrastante das mulheres e de sua própria sexualidade, explorando como elas percebem não apenas sua própria sexualidade, mas também como enxergam a sexualidade masculina e até mesmo como imaginam ser vista pelos homens. Molly vislumbra a possibilidade de ter um pênis e reflete sobre a experiência de manter relações íntimas com outra mulher. Tais pensamentos, embora possam ser considerados polêmicos ou mesmo ofensivos por parte do público, devem ser examinados sob uma perspectiva ampla e enquadrados na narrativa e na construção das personagens. É crucial que a análise literária reconheça e explore a complexidade dos temas abordados, sem preconceitos ou julgamentos precipitados.

É pertinente reconhecer que James Joyce estava ciente da rigorosa censura imposta aos romances na Inglaterra e nos Estados Unidos. Frequentemente, ele incorporava trechos que desafiavam tais restrições. Não é inesperado que Ulisses tenha sido proibido nos Estados Unidos até 1934, ano em que a Suprema Corte Americana anulou a proibição, em um veredito emblemático sobre a legislação de obscenidade. Essas facetas, embora possam ser consideradas polêmicas, enriquecem e intensificam a representação da condição humana delineada por Joyce na obra.

A influência de Hamlet, de Shakespeare (1564-1616), é tão preponderante quanto a da própria Odisseia. Essa intertextualidade ressalta a natureza multifacetada das perspectivas e a intenção de Joyce em ancorar suas personagens à realidade, evitando definições ou alinhamentos claros. A obra shakespeariana é um tópico recorrente entre os intelectuais de Dublin, e um momento decisivo do romance é marcado pela análise de Stephen Dedalus sobre Hamlet, desvendando, assim, camadas dos temas centrais da obra. Desde as ideias do papel de Stephen como Telêmaco em busca de um pai substituto em Bloom, até os pensamentos contínuos sobre o adultério, tudo se desenrola durante a palestra de Stephen sobre Hamlet. No entanto, essa cena também demonstra que Stephen é uma figura de Hamlet, assim como Bloom é uma figura do falecido Rei, e que Molly pode se encaixar no papel da Rainha traidora, assim como Penélope. 


“A arte tem de revelar-nos ideias, essências espirituais sem forma. A suprema questão sobre uma obra de arte está em quão profunda é uma vida que ela gera. A pintura de Gustave Moreau é a pintura das ideias. A mais profunda poesia de Shelley, as palavras de Hamlet, põem nosso espírito em contacto com a sabedoria eterna, o mundo das ideias de Platão. Tudo o mais é especulação de estudantezinhos para estudantezinhos.”


É interessante observar que muitos dos personagens, especialmente Mulligan, são baseados em pessoas reais com quem Joyce interagiu. Stephen explora como os personagens de Hamlet correspondem à própria família de Shakespeare, assim como esses personagens se assemelham aos que cercam Bloom e aos que cercavam Joyce. Stephen também é altamente representativo do próprio Joyce. Ele foi o protagonista do romance semi-autobiográfico de Joyce, Um retrato do artista quando Jovem, e neste romance o vemos continuar sua busca pela arte. Em um cenário de discussão, ele se posiciona ao lado de um recém-nascido, debatendo a relevância entre a vida da mãe e a do filho no momento do nascimento. Essa postura revela suas ideias sobre a arte como uma criação de valor inestimável – como se cada pincelada, cada nota musical, fosse um gesto de dar à luz à própria essência da vida. Essa delicada metaficção é apenas uma das inúmeras estratégias pelas quais Ulisses cativa os leitores. Artesão habilidoso, Joyce tece palavras e conceitos, criando um mosaico que transcende o tempo e nos envolve em sua magia.

James Joyce escapa dos clichês com maestria, desenvolvendo uma trama de personagens complexos. Leopold Bloom, por exemplo, é uma contradição ambulante, um verdadeiro enigma: judeu e batizado, oscila entre a figura paterna e os desejos maternos, desafiando as normas de gênero. Seu coração gentil às vezes se contradiz com críticas aos outros por sua própria gentileza. Longe de ser isento de falhas, Leopold Bloom é um sedutor desavergonhado. Pelas ruas de Dublin, suas intenções lascivas em relação às mulheres não passam despercebidas. Ele é um dançarino da vida, sempre em movimento, como se buscasse escapar das sombras do passado. A tristeza o persegue, e os pensamentos sobre as transgressões de sua esposa pesam sobre seus ombros, como se a fuga fosse seu destino inevitável. Assim, Bloom, com sua humanidade multifacetada, é um dos personagens mais encantadores da literatura.

No emaranhado das palavras, a “união” entre Bloom e Stephen é fio invisível, laço sutil a transcender o óbvio. Como pássaros em voo, cruzam-se, divergem e se entrelaçam: casamento de almas, não de convenções. Stephen, o artista atormentado, e Bloom, o observador silencioso, movem-se na penumbra da linguagem. Desencontros e desafios marcam sua jornada, mas cada novo choque reinaugura suas essências. Mapa de encontros e despedidas, Ulisses fia destinos com laços de mistério e significado. Como observou Jung, o encontro de duas personalidades é como o contato entre duas substâncias químicas. Se houver alguma reação, ambos se transformam. Essa toada ressoa na interação entre Bloom, Stephen e outros personagens, destacando a transformação mútua que ocorre quando personalidades tão distintas se encontram e se envolvem em um diálogo interno e externo no romance.

Ulisses não é um romance fácil à primeira vista, mas vale o esforço investido. A sua prosa é intimidadora, mas, com paciência e orientação, o romance se revela uma verdadeira obra-prima, permitindo que o leitor mergulhe na linguagem de Joyce. Há uma riqueza de técnicas e enigmas a serem desvendados, tornando a leitura gratificante. Além disso, Ulisses é hilário em muitos momentos, acrescentando uma camada de humor à complexidade da narrativa. Joyce deixou um legado na literatura com Ulisses, que hoje é merecidamente reconhecido como um dos maiores romances do século XX. Esse livro, portanto, merece ser lido, pois nele cada palavra ganha vida na mente do leitor. 


“Stephen fechou os olhos para ouvir as botinas triturar bodelha e conchas tagarelas. Estás andando por sobre isso algoqualcerto. Estou, uma pernada por vez. Um muito curto espaço de tempo através de muito curtos tempos de espaço. Cinco, seis: o nacheinander. Exactamente: e isso é a inelutável modalidade do invisível. Abre os olhos. Não. Jesus! Se eu cair de uma escarpa que se salta das suas bases, caio através do nebeneinander inelutavelmente. Até que estou deslocando-me bem neste escuro. Minha espada de freixo pende a meu lado. Tacteia com ela: é assim que se faz. Meus dois pés nas botinas dele estão no final de suas pernas dele, nebeneinander. Soa maciço: feito pelo malho de Los Demiurgos. Estou eu andando para a eternidade ao longo do areal de Sandymount? Tritura, tagarela, trila, trila. Dinheiro do mar selvagem. Dômine Deasy sabe tudinho.”


quarta-feira, 17 de julho de 2024

Do mar — 9

Estendidas quilhas de navios, partidas. Sangues de fundo a fundo, correntes de mar de convés a convés. Lá em cima um corpo se decepa sobre amuradas. Que cabeça vai subir do dedo infante? Que olhos uivarão? Leão de garras famintas; avivando a voz irreal no estouro do ar. Fado deixado pelo mar. A outra quilha. A horrível quantidade de gemas. Sua vela, sua vela! Sua corda! A borda de todos, uma partida mais alta. Sua nuvem! O relâmpago exato; as linhas fundas. Rios! Largo barco de rumorosos ventos. Ó timoneiros, ó marujos, ó trabalhadores, a ninguém foi confiada a aragem! Os cadáveres por derrubar. A santidade das legiões. O velame trouxe o murmurante embalo da noite. Esta quilha prova o movimento! O espírito que se esgueirou com tão leves botes canta. Veleja a canto com todos os mastros. As névoas esfolam pássaros. Às antiguidades do choro, o naufrágio medra e bem nega o ataque feroz dos pés. Da folha, a árida observação. Só para cadáveres, as bolhas nos lábios, mortos entre o limo e a cor. Arenosa é a ruína. Calmo negrume do vagalhão. Ali, jovem, espraia-se a tristeza. Aparência está atrás da criação. Medusas do crepúsculo. Pupilas escuras e transparentes. A fronte branca da baleia. Os tatuís e os caracóis solares. O peixe ascendeu a escama. A grande ponte num incompleto arco. Luzente aço das espadas. Fumegante goela e assalto dos elmos. Dos escudos e das couraças – equinas patas ressoam na natureza. A sensação de costas. Doentes cais de grandes vácuos. Hão de perecer!

segunda-feira, 15 de julho de 2024

Como uma frouxa lamparina no meio das trevas



Creiam-me, o menos mau é recordar; ninguém se fie da felicidade presente; há nela uma gota da baba de Caim. Corrido o tempo e cessado o espasmo, então sim, então talvez se pode gozar deveras, porque entre uma e outra dessas duas ilusões, melhor é a que se gosta sem doer.


Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis (1839-1908), foi lançado como romance em 1881, introduzindo inovações na literatura brasileira do século XIX. O Rio de Janeiro passou por um período de modernização após a chegada da Família Real em 1808 e a independência do país em 1822. Com uma população crescente, a cidade tornou-se um centro de comerciantes, burocratas, funcionários públicos e vários outros grupos sociais, todos encontrando seu lugar no mundo criado por Machado de Assis.

O nascimento da literatura realista está ligado a uma série de discussões que abrangem cultura, ciência, política, sociedade e economia. Esse gênero se caracteriza por suas narrativas complexas, que mergulham no imo da psique humana, contextualizando e problematizando o mundo vivenciado por seus personagens. Em Memórias Póstumas de Brás Cubas, vemos o Brasil emergente do século XIX, uma nação em transição de uma era colonial, cuja hierarquia social é estruturada em torno de três classes: os proprietários de terras, os escravizados e um grupo intermediário composto por indivíduos livres e burocratas.

Na obra, Brás Cubas surge como personagem distinto, um herdeiro que nunca sentiu a necessidade de trabalhar para se sustentar e, em muitos aspectos, um precursor da mentalidade niilista predominante no Brasil. Machado de Assis faz algo sublime na obra: transforma o sujeito de sua crítica em um personagem cativante, sem remorso em suas falhas e cheio de ironia e irreverência. O leitor torna-se um confidente de Brás Cubas (defunto autor), que nada esconde, pois acredita que as coisas foram como realmente foram. Em meio a uma existência aparentemente sem propósito, Cubas encontra consolo no fato de não ter repassado a ninguém o fardo da nossa miséria. 

Ao contar a história de sua vida a partir da perspectiva de um defunto, Brás Cubas transcende as limitações da existência terrena, colocando-se fora do alcance das críticas e dos julgamentos dos vivos. Ao revisitar o seu passado, assume o papel de narrador-observador, o que lhe dá liberdade para navegar em sua própria narrativa sem ser restringido por regras ou formalidades. À medida que a trama se desenrola, a estrutura narrativa assume diversos aspectos, inclusive capítulos em branco, mostrando a irreverência característica do romance moderno. A digressão é o traço que define o estilo de Machado de Assis. O fluxo de sua narrativa é interrompido por observações metalinguísticas, referências intertextuais, narrativas paralelas e, acima de tudo, exames filosóficos do sujeito e da sociedade. Como resultado, os enredos de suas obras são fragmentados e desorientadores. No entanto, essa complexidade é contrabalançada pela inteligência e pela estrutura vibrante e contemporânea das suas criações literárias.

O tempo do romance é fragmentado, contemplando a vida do narrador de 1805 a 1869. Nesse sentido, o livro explora dois períodos distintos: o cronológico, que enfoca os acontecimentos da vida de Brás Cubas, e o psicológico, que investiga as lembranças e as reflexões do autor. Nos capítulos iniciais, conhecemos o motivo da morte de Brás Cubas, os acontecimentos que a desencadearam, as pessoas que estiveram presentes nos instantes finais, a história familiar do protagonista e os delírios que vivenciou. Contrariando a crença popular, o protagonista não é um herói. Na verdade, a sua família tentou mascarar a sua origem humilde com uma história de realizações impressionantes. A sua linhagem remonta a Damião Cubas, tanoeiro e agricultor, que não se envolveu em nenhuma guerra heroica contra os mouros, apesar do relato embelezado da história por parte de seu avô Luís Cubas.


Tu tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar; tu amas a narração direita e nutrida, o estilo regular e fluente, e este livro e o meu estilo são como os ébrios, guinam à direita e à esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem…


Tendo desfrutado de uma infância sem limites, acompanhamos as influências sociais que contribuíram para a formação de Brás Cubas. Livre de quaisquer inibições, Cubas ganhou o apelido de “menino diabo” quando criança. Oriundo de família rica, que tinha escravizados e vastas extensões de terra, foi criado em um ambiente onde a indulgência não tinha limites. Crescendo no contexto histórico e cultural de uma sociedade colonial dependente do trabalho de escravizados, Cubas mimetizou os comportamentos agressivos que testemunhou.

Nos tempos de escola, Brás Cubas guardou lembranças de Quincas Borba, companheiro encantador. Entre seus familiares, destacaram-se os seus tios, o cônego Ildefonso e o bacharel João. Enquanto o primeiro imaginava um futuro religioso para o rapaz, o segundo previa uma vida de prosperidade. Foi tio João quem acompanhou Brás Cubas a um jantar na casa de Marcela quando ele tinha apenas dezesseis anos. Marcela foi o seu primeiro grande amor. Com ela, Cubas descobriu que o amor e o dinheiro andam lado a lado e que o caminho para o coração de uma mulher muitas vezes passa por uma joalheria. O caso chegou ao fim quando o pai de Brás Cubas enviou o filho para estudar na Europa.

A desilusão e a ideia de acabar com a própria vida acompanham Brás Cubas em sua partida para a Europa. A sua passagem pela Universidade de Coimbra revelou-se medíocre, sendo os estudos uma mera reflexão tardia. Em vez disso, mergulha em uma vida de superficialidades e aventuras românticas. Contra todas as probabilidades, consegue obter o seu diploma. Ao retornar ao Brasil após anos em Portugal, chega a tempo de se despedir de sua mãe, que falece logo em seguida. É nessa época que conhece Virgília, uma jovem de dezesseis anos e filha do Conselheiro Dutra, destacado político. O pai de Cubas sugere que ele considere um noivado com Virgília, pois a união melhoraria muito as suas perspectivas políticas na Câmara dos Deputados. Tudo caminhava bem até a chegada de Lobo Neves.

Em perspectiva comparativa, Virgília pesou as qualidades da águia com as do pavão e escolheu a águia, “deixando o pavão com o seu espanto, o seu despeito, e três ou quatro beijos que lhe dera”. Torna-se evidente que o pavão não é outro senão o próprio Brás Cubas. Embora o relacionamento deles não tenha culminado em casamento, continuam se envolvendo amorosamente. Durante a sua jornada, Cubas reencontra Quincas Borba, amigo de infância que passou por momentos difíceis e que agora vive pelas ruas como mendigo. Apesar da pobreza do amigo ter causado medo e compaixão no protagonista – o que o levou a oferecer ajuda –, fica claro que Quincas Borba estava apenas interessado em obter lucro, o que o levou a furtar o relógio de Brás Cubas.

Mesmo casada, Virgília mantém um caso de amor com Brás Cubas, até que Lobo Neves é nomeado presidente de uma província. Nesse tempo, notícias sobre o caso extraconjugal começam a circular publicamente, e a irmã de Cubas, na tentativa de evitar um escândalo, se encarrega de encontrar uma esposa para o irmão. Uma carta anônima é enviada a Lobo Neves acusando Virgília de adultério, que nega as acusações. Lobo Neves assume o cargo de presidente da província, encerrando de vez o caso de Virgília e Brás Cubas.

Sozinho, Brás Cubas decide se casar com Eulália, mas ela acaba morrendo de febre amarela. Ele embarca na carreira política e reencontra Virgília. Lobo Neves chega perto de alcançar o cargo de ministro, mas morre poucos dias antes da sua nomeação. O estado mental de Quincas Borba começa a deteriorar-se, enquanto Cubas assume uma função na Ordem Terceira por um período de três anos. Durante esse tempo, testemunha o fim de seu primeiro amor em um hospital de caridade. Quincas Borba, oprimido pela instabilidade financeira, enlouquece.


O pior é o despropósito. Lá continua o homem inclinado sobre a página, com uma lente no olho direito, todo entregue à nobre e áspera função de decifrar o despropósito. Já prometeu a si mesmo escrever uma breve memória, na qual relate o achado do livro e a descoberta da sublimidade, se a houver por baixo daquela frase obscura. Ao cabo, não descobre nada e contenta-se com a posse. Fecha o livro, mira-o, remira-o, chega-se à janela e mostra-o ao sol. Um exemplar único!


Desde criança até a morte, Brás Cubas viveu para idealizar novos empreendimentos. Hipocondríaco, nutriu planos para desenvolver um remédio que aliviasse a melancolia da humanidade. Seria equivocado, no entanto, presumir que esse seria um ato de redenção, pois ele também considerou os benefícios econômicos que a sua criação lhe traria. Mesmo hoje, encontramos indivíduos semelhantes a ele, guiados pelo interesse e pela busca de fama, com pouca empatia pelo sofrimento dos outros. Apesar de todos os esforços, o emplastro se tornou mais um acréscimo à sua coleção de fracassos. Solitário, Brás Cubas morreu de pneumonia em 1869, aos 64 anos, no bairro do Catumbi, no Rio de Janeiro. Apenas onze pessoas compareceram ao seu enterro.

Em síntese: Brás Cubas foi um homem que, com o temperamento de uma criança indulgente, se envolveu em paixões passageiras e se aventurou em diversas ocupações, perdendo rapidamente o interesse nelas. Teve ideias que nunca se concretizariam, pois pensava apenas nas recompensas que poderia ter ao atingir o objetivo. Sem autorreflexão e cético em relação aos esforços necessários para estabelecer uma carreira de sucesso e relacionamentos estáveis, viveu à sombra de seus privilégios, tendo apenas uma casa confortável, acesso à cultura e à alta sociedade. Nas raras ocasiões em que teve a oportunidade de fazer a diferença, como ajudar alguém necessitado, a sua mesquinhez prevaleceu e fez o mínimo. Egoisticamente, acreditava que merecia mais do que dava. Exagerou a importância dos seus pequenos gestos, usando-os como um estímulo para o seu ego e um bálsamo para a sua consciência, mesmo que apenas para momentos fugazes de autoavaliação.

A sensação de vazio existencial vive em cada página, tornando-se a característica mais proeminente da obra. Machado de Assis explora a importância de encontrar um propósito na vida. Sem ações significativas, enfrentamos o esquecimento após a morte. Por meio de sua perspectiva pessoal e subjetiva, Brás Cubas compartilha sua história, apresentando os fatos e demais personagens de uma forma que permite ao leitor sentir-se conectado tanto ao narrador quanto à trama. Além disso, a experiência de leitura é potente devido ao uso da ironia e do eufemismo. São recursos que ajudam a compreender o significado por trás das descrições e das passagens da história. Ao longo da obra, Machado de Assis oferece uma análise negativa do comportamento social e das lutas psicológicas das personagens. No entanto, esta visão pessimista é muitas vezes disfarçada ou escondida sob a superfície da narrativa, com o humor e a ironia a servirem como ferramentas poderosas.

Assim, a história serve como um retrato da burguesia carioca e de suas lutas pessoais. Por meio das reflexões pessimistas de Brás Cubas, os leitores são expostos às suas desilusões e as experiências em relação à riqueza, à condição social e à busca pela felicidade. É fundamental abordar este livro com atenção, pois é possível desenvolver uma percepção positiva do narrador. Brás Cubas, membro de uma elite improdutiva e arrogante, usa a sua posição privilegiada para satirizar a sociedade e os seus constituintes com uma ironia mordaz que não poupa ninguém. Obra-prima atemporal e universal, Memórias Póstumas de Brás Cubas oferece uma visão histórica essencial da nossa sociedade. Leitura indispensável.


Ah! indiscreta! Ah! ignorantona! Mas é isso mesmo que nos faz senhores da terra, é esse poder de restaurar o passado, para tocar a instabilidade das nossas impressões e a vaidade dos nossos afetos. Deixa lá dizer Pascal que o homem é um caniço pensante. Não; é uma errata pensante, isso sim. Cada estação da vida é uma edição, que corrige a anterior, e que será corrigida também, até a edição definitiva, que o editor dá de graça aos vermes.