segunda-feira, 30 de junho de 2025

Noite nanquim — 03

    Raio de cobre perdido nos muros cinzas. Desconhecido pela própria literatura. Munição de espíritos estrangeiros que acorrentam a voluptuosidade, estorvados por Roma e Bárbaros, que entram agora movimentando membros. Não aproximas as primeiras prosas e perdes o latim infante. Os poemas acomodam as manchas e mancham. Mancham-se. Retribuem o animal com o animal. A mão contempla a mão. Cedo à janela. Conformo-me com o peso do instrumento. Piano disposto com ingenuidade. Apresento o violino de menor fibra dilacerada. Sou o crepúsculo-acaso, a recordação-ruptura, o realejo-signo. Sono e desespero — sou.

domingo, 29 de junho de 2025

A escrita navegante (o sonho das águas) — VII

Ramos em desordem erguidos no centro da tempestade: as sílabas se cruzam como serpentes na vigília do bosque. O sopro dos ventos fende os troncos, arranca confissões oscilantes das folhagens, ressoando os murmúrios da gramática mineral. A palavra se ergue onde a terra sangra raízes, e o céu derrama sua geometria de ausência. Inscreve-se em pedra e cesura a escritura que não é lenitivo, é lâmina; não é porto, é naufrágio. O verbo não pertence ao escriba, mas ao precipício que o imagina; toda fala é a ressonância da combustão primeira, um braseiro que ressoa dos séculos, um clarão inscrito no osso do tempo.

Frase a frase, a chama; sílaba a sílaba, o estilhaço do incêndio ancestral. Nenhuma página intacta: sob os movimentos da escrita, a floresta acende suas fagulhas, e a tinta que desenha os mapas também é a seiva do extravio. Ninguém escreve senão com o fogo que lhe consome os dedos; ninguém lê senão com os olhos em ruína. Leviatã de espelhos, a linguagem se move pelos corredores do mundo como a Hidra feita de tempo. O códice das sombras enreda-se entre os vazios da consciência, e todo discurso é resquício carbonizado de antigas cinzas. Entre escombros e cinzéis, a pena escava a matéria oculta da existência, rasga véus, atravessa a noite onde dormem os arquétipos do verbo.

Aqui, o sentido não se guarda, estilhaça-se; não se ordena, multiplica-se. Exige-se o sacrifício da linearidade, o martírio da clareza, a dança das mutações. Pensamento em vertigem, labirinto sem centro, cartografia onde toda estrada conduz ao mesmo Maelstrom. Escrever é tocar a fronteira do indizível, escalar os muros da razão, esculpir a noite em pedra. E, na rocha onde o silêncio ergueu muralhas, o verbo inscreve sua lâmina, palavra de corte e cicatriz, relâmpago e abismo.

O alfabeto trai o silêncio primordial. Mas é nessa traição que se instala o monumento da linguagem, a resistência feroz contra o esquecimento. Rimbaud viu na letra a substância do delírio; Nietzsche incendiou os alicerces do dizer; João Cabral lavrou com faca as sílabas duras da terra. Não há escritura sem conjuração, não há verso sem corte: toda página guarda o pacto secreto, todo fonema esplende a arquitetura do sacrifício. As sombras de Mallarmé pairam sobre as sílabas em combustão, alargam-se em espiral, erguendo-se sobre as ruínas da própria clausura.

O que se escreve, ao fim, não se guarda: desfaz-se, dissolve-se, retorna à labareda de onde veio. A palavra declina no instante de sua fundação. Escrever é incendiar os próprios rastros, obliterar os limites do visível, pois toda palavra é a insubordinação contra o inferno do real, o clarão que fende a treva e nela se extingue.


quarta-feira, 25 de junho de 2025

Noite nanquim — 02

    O corpo estranho e piedoso. Os olhos próximos. O luto é inexplicável. Debruço-me sobre a estrela solitária e não há troca entre Orion, Altair e tu (eu sou tu!). A espera nos dias longos e os longos dias do desejo. Que mal fazes com o espírito do companheiro místico — Dédalo desregrado no canal da contradição do espírito! Sinto-me o autor da decadência latina de todas as quedas. Atravessando o branco dessa criatura, exalo dias lânguidos. Ouço a hora. Passeio à frente. Arrasto-me. Animal adormecido — profundamente.

segunda-feira, 23 de junho de 2025

Noite nanquim — 01


    Principia a palavra. Espécie adormecida na profundeza. Boca suscetível à condolência. Inquietude de secreta esperança. Transportam-se e amplificam-se a magia e o assombro. Ignora-me. Conserva-me (como?). Acaricia-me. Gesto de mãos. Voz da voz! Angústia da angústia! Espírito poderoso, deixo todos os olhos para contemplar a rua dos antiquários. Faço aqui a ilha de pássaros antigos — pássaro desprendido do Pássaro. As asas subsistem e se eternizam na sombra. É preciso desvirginar a lances o proibido. Partir os véus: lances a estourar lacres numa voraginosa missão da linguagem.

domingo, 22 de junho de 2025

A escrita navegante (o sonho das águas) — VI

Proferir palavra é trincar a praga que alastra, forjar o declínio no próprio palato, disseminar a maldição entre os dentes que sulcam a carne do silêncio. Edifica-se, na trama da voz, o mundo enredado onde o ser que se pensa sapiens devasta clareiras, abre veios na sombra densa da língua, tenta domesticar o inominável.

Mas as frestas verbais não se deixam subjugar: entre os ramos da fala, pulsa a alucinação do mundo, avança a fuligem da história, sangram-se os limites das nações que nunca se fincam, pois se erguem sobre a terra infértil e o vento revolto. A gramática fendida é estuário onde as eras fermentam raízes subterrâneas; na podridão do tempo que se esfarela, a memória sonha seus simulacros. A linguagem não é solo firme: é abismo de signos, cosmogonia de espelhos onde se perdem as figuras do absoluto. E, se as multidões erguem catedrais de eco, é porque a verdade, sempre clandestina, desliza por frestas de metáfora.

Não há inocência na letra. Forjar texto é talhar bordas que resvalam, compor o códice da margem, inscrever errâncias no papiro da certeza. A sílaba arrasta consigo a fulguração da dúvida, o labirinto onde a ideia se esconde para melhor reluzir. Contra as sebes da ordem, contra a ditadura do uníssono, cresce a selva-linguagem, ninho de animais que falam em ruínas, em murmúrios cifrados, em tempestades de verbo. E, sobre o solo úmido da voz, onde a luz só entra fragmentada, gira a palavra febril, incendiando-se na própria peste que espalha.

segunda-feira, 16 de junho de 2025

Noite nanquim — Advertência

Anoitece. A ardência e a ternura da lua declinam na sombra a imensidão das palavras. A escrita assimila e canta a luta dos gladiadores contra a morte que vive a vida do espírito. Aqui ela faz doer o útero da mãe que carrega no colo a morte do filho. Doendo, abre as fissuras da prisão. Aquele que escreve marca o encontro do corpo na página branca, sem rosto. Pavor. Agora pulsa a exigência das palavras que desaparecem numa elaboração do esquecimento — num ressurgimento animalesco. A escrita liberta a vida e vive fora de qualquer aprisionamento. Sai a cada respiração, a cada encontro que possibilita outros delírios, que potencializa outras existências. Impulsão corrente de outras sensações aqui. Branco e branco — ausência que se ausenta sempre branca no branco sempre. Ela dança em giros e faz renascer o pensado, compactuando a escrita com a construção das vidas. Aquele que escreve habita o silêncio primeiro. Aceito a noite.

domingo, 15 de junho de 2025

A escrita navegante (o sonho das águas) — V

Cravar incisivamente a lâmina da linguagem no próprio nervo, dilacerando-se no desvario dos fonemas descompostos, devorando o território das sílabas ainda não cartografadas, triturando as margens vocálicas na geologia da carne. A palavra é uma unidade explosiva. A sintaxe é uma garganta que ruge no abismo. Esse animal estranho e sempre estrangeiro, o poema se estilhaça na voracidade da própria miragem, multiplicando-se nas superfícies nunca tocadas, mas já ancestrais, pois surge da combustão dos ritos verbais onde a boca é a lâmpada, e a caverna é a cicatriz e o êxtase.

Nervuras do pensamento, grafias que se erguem em negrume de ângulos desfeitos, rompendo a ordem dos sulcos e as fendas da razão. Letras em ruína, encostas de silêncio roído, campo de extermínio e reinvenção — a página. Sob o corte das frases que se dissolvem e reaparecem como espectros sobre a cidade incendiada da memória, a escrita desassossega. Nenhuma linha se mantém inteira. Nenhuma estrutura se perpetua. Só o ímpeto da devoração se sustenta: devorar os signos, devorar a própria fome.

Caminho de oscilações e quedas, de arabescos que se desarticulam na sombra da escrita insubmissa, onde as vozes se multiplicam e se traem, onde a palavra encontra sua ruína e sua vertigem. Escombros. Levantes. No turbilhão onde a linguagem se destrói, onde a revolução do sonho se converte em torvelinho, insurreição.

sexta-feira, 13 de junho de 2025

A sombra assinada: Pessoa em estado de Soares

Crio como quem sorri com os lábios cerrados. Há leveza no gesto, mas o peito range, ameaçando partir-se em lascas, como porcelana que cai sem aviso. Cito, de memória errante, Bernardo Soares, essa sombra delicada que Fernando Pessoa deixou inacabada no canto da alma. Não é um outro inteiro nem um mesmo disfarçado. É um pedaço arrancado, uma parte que lateja fora do corpo original. Pessoa chamou-lhe semi-heterônimo — nome preciso para o que pulsa sem se completar, para o que lembra, mas não se confunde. Fragmentado, Soares é esse sopro que quer ser inteiro e ao mesmo tempo foge disso. Um reflexo trêmulo, uma ausência presente que denuncia, no avesso, o próprio autor.

À semelhança de seu criador, Bernardo Soares vivia sozinho em uma morada alugada, próxima do ofício cotidiano, em Lisboa. Mas essa proximidade com o mundo terminava aí. Pessoa não era um homem entre outros. Era um campo de vozes. O poeta não via o absurdo como algo externo: ele se reconhecia nele, como se fosse feito da própria matéria do desajuste. Se houve unidade em sua figura, foi apenas a de um enigma que se ergue sobre si mesmo.

Seus heterônimos não nasceram do acaso, mas de uma inclinação íntima à metamorfose, à arte de parecer outro sendo ainda ele. Para Pessoa, fingir era menos disfarce do que desdobramento, um modo de explorar a vastidão interior que jamais se reduz a um só nome. Ao multiplicar-se em personas, não escapava de si, apenas redesenhava seus contornos, tocando e recusando sua essência ao mesmo tempo.

Quando abandona o verso e adentra o território da prosa, Fernando Pessoa se vê diante de um embate mais sutil e exigente. Na poesia, o desdobramento em vozes alheias ocorre com certa naturalidade. Os heterônimos emergem quase como máscaras que se moldam ao rosto do poeta, permitindo-lhe desaparecer enquanto fala por outros. Álvaro de Campos, Ricardo Reis, Alberto Caeiro são desdobramentos do mesmo centro, mas com traços tão definidos que parecem existir por conta própria, alheios ao poeta que os concebeu.

Na prosa, porém, o jogo se complica. Ali, a linguagem não oferece o mesmo véu simbólico; exige continuidade, corpo, estrutura, e isso obriga Pessoa a confrontar-se mais diretamente com sua própria presença. Sem o ritmo do poema para camuflar a origem, cada palavra retorna ao autor, que já não consegue ocultar-se com a mesma leveza. O espaço da prosa revela não apenas os personagens, mas as fissuras internas de quem os escreve.

A narrativa, para Pessoa, é uma forma de claustro; nela, a linguagem não o protege, mas o expõe. Ao contrário do verso, que lhe oferece fuga e transfiguração, a prosa exige permanência, revelando traços seus que talvez preferisse manter à sombra. Tanto ele quanto Bernardo Soares carregam a mesma inadequação profunda diante da vida concreta, um desalinho com a verdade sensível do mundo, que retorna como peso e não como experiência.

Nas cartas, esse mal-estar se deixa entrever com frequência. A Casais Monteiro, Pessoa descreve o modo como distribuiu suas possibilidades por entre os heterônimos: entregou a Caeiro a sua vocação para o despojamento instintivo e a encenação natural; a Reis, a disciplina do pensamento, temperada com a cadência que lhe era própria; e a Campos, o excesso de sentir que jamais ousou atribuir a si ou ao real. O fingimento, confessava, era mais fácil em verso, talvez por ser mais íntimo da invenção que da memória.

A incorporação de Bernardo Soares não se deu de forma abrupta, mas foi se insinuando gradualmente, como uma estratégia sutil de apagamento. O Livro do Desassossego, em suas primeiras aparições, ainda levava o nome de Fernando Pessoa. Eram textos fragmentários, de tom ensaístico, voltados à contemplação estética e à especulação abstrata. Contudo, à medida que o diário começava a infiltrar-se nas páginas, o autor recuava silenciosamente, cedendo espaço ao que viria a ser o seu semi-heterônimo.

Não foi uma decisão deliberada, mas uma consequência inevitável. Pessoa se deu conta de que a obra escapava ao controle inicial. Não era mais um exercício intelectual, mas um corpo em mutação, atravessado por inquietações que exigiam mais do que análise: pediam entrega. O que começou como um projeto estético tornou-se um espelho torto da existência, convocando um tipo de sinceridade que ele, como Pessoa, talvez não pudesse ou não quisesse sustentar. Assim nasceu Soares. Não como criação, mas como necessidade.

Em carta a Armando Côrtes-Rodrigues, Pessoa descreve o avanço da obra como uma enfermidade lenta, que se movia por dentro dele com ramificações densas e tortuosas. O Livro do Desassossego parecia crescer à revelia, como se tivesse vontade própria, uma matéria viva, inacabável. Incapaz de dar forma definitiva ao que acumulava, o autor adiava sistematicamente qualquer tentativa de organização. As tarefas se empilhavam no tempo futuro, onde jamais seriam cumpridas.

As páginas, mais do que textos, tornaram-se território de hesitações, anotações à margem, interrogações espalhadas, ideias partidas. Em vez de respostas, multiplicavam-se os fragmentos. Ainda assim, Pessoa seguia acrescentando trechos, num gesto insistente e incerto, como quem adia o fim na esperança de um dia ordenar o caos — ou pelo menos compreendê-lo.

O fracasso em concluir a empreitada acabou gerando uma obra sem forma fixa, irregular, mas justamente por isso singular, múltipla em tons, vozes e intenções. O Livro do Desassossego não se fecha nem se define, permanece aberto, cambiante, feito de sobras e lampejos. Bernardo Soares o nomeia com precisão: uma “autobiografia sem fatos”, escrita não para narrar eventos, mas para expor o ruído interior de quem escreve.

Na tentativa vã de impor ordem ao caos que compunha o manuscrito, Pessoa acabava por reconhecer que aquela desarticulação não era um defeito, mas um reflexo, a própria imagem do autor que oscilava entre delírio e lucidez. Em carta a Casais Monteiro, admite essa propensão constante a mudar de rosto, a forjar versões de si como quem veste disfarces. Fingir, para ele, era menos artifício do que instinto, um modo de existir por meio da multiplicação. O livro, assim, não falha: apenas se confunde com aquele que o escreveu.

Ao se transfigurar, ele se desfazia; ao fingir, por paradoxal que fosse, tentava reunir os cacos. Ricardo Reis, em sua serenidade composta, observava que se pode falsear sem engano, que o ato de fingir, longe de enganar, é um modo de distinguir-se, de se delimitar. A descontinuidade, então, não seria um erro ou desvio, mas a própria expressão do ser que Pessoa encarnava? Sua obra, estilhaçada e contraditória, não seria o espelho mais fiel de uma identidade feita de fendas?

Bernardo Soares lamentava, com certa inveja, os que sofrem de maneira contínua, pois esses, dizia ele, permanecem inteiros, mesmo quando dilacerados. Sofrem com uma só dor, acreditam sem fé firme, vivem sem se deixar prender pelo labirinto das ideias. Em Pessoa, ao contrário, o sofrimento se dividia em mil vozes, e nenhuma bastava. Seu sistema de criação — a proliferação dos heterônimos, a recusa de uma só forma — não foi apenas um artifício literário, mas um modo de existir em ruína. Criar, para ele, era tanto abrigo quanto abismo.

Na arquitetura precisa com que moldou seus heterônimos, Pessoa operava quase como um engenheiro da alma, traçando biografias, inclinando preferências, modelando estilos com rigor quase matemático. Álvaro de Campos, Ricardo Reis, Alberto Caeiro: cada qual carregava uma existência inteira, autônoma, cerrada em contornos firmes. Mas esse método se desfaz por completo diante de Bernardo Soares.

Soares não surge da estrutura, mas da falha; não nasce de uma figura plena, mas de uma ausência difusa. Não há grandeza em sua forma, há esvaziamento. Enquanto os outros habitam mundos próprios, ele se arrasta dentro de um só, onde tudo é incerto e instável. É no vacilo, na fragmentação, no descompasso interno que se ergue. E é justamente essa falta de definição que dá ao Livro do Desassossego sua força: uma obra onde a coerência é recusada, não por incapacidade, mas por convicção. A criação, aqui, nasce do informe.

Trata-se de uma obra em que o poeta se transforma em campo de observação, exceto quando tenta alcançar o núcleo da própria identidade, onde tudo escapa. Ali, o gesto é o de dissecar a experiência humana como quem extrai o que é comum da matéria íntima, com a precisão de uma lâmina que aparasse o excesso sem hesitação. E isso causa espanto. É uma forma de criação que mergulha justamente naquilo que mais escorrega entre os dedos — o eu.

Ao invés de construir um retrato fixo, o autor lança sua atenção sobre os desvios, sobre os estados interiores que ondulam. Arrisca pescar, do emaranhado da sua própria vida, impressões que talvez ressoem em outros, não como verdade compartilhada, mas como hipótese sensível. O que oferece ao leitor não é certeza, mas uma abertura, um convite àqueles que conseguem, por instantes, habitar o que não lhes pertence e sentir por dentro o que nasce da dor pensada.

A obra se oferece, muitas vezes, como um exercício de criação sobre a própria criação, um espelho inclinado que reflete tanto o que já foi feito quanto o gesto de fazer. É como se projetasse um cenário alheio, uma paisagem que não lhe pertence, apenas para que o autor possa habitar outras formas, experimentar outras vozes, multiplicar-se sem amarras. Às vezes, esse artifício de estrangeiridade é apenas um disfarce, um modo de se ocultar para aparecer mais livremente.

Cada fragmento que a compõe assume o lugar de um ensaio de sentido, onde o cotidiano — essa matéria crua, desatenta — é submetido a um trabalho de extração, de lapidação interior. O que parece insignificante se revela, aos poucos, alicerce de algo maior, como se o que sustenta a existência estivesse escondido na superfície mais simples. Há, em tudo, a presença daquele que passou a vida a examinar-se com minúcia. E é esse olhar atento, paciente, quase clínico, que continua pulsando, pronto para emergir, de novo, toda vez que uma página se abre diante do silêncio.

Embora partilhe com o autor a rotina solitária e o ofício silencioso de tradutor e escrevente, Bernardo Soares não se distingue apenas por esses paralelos de superfície. O que realmente o torna uma figura singular dentro do universo pessoano é a maneira como se dissolve e se recompõe em sua escrita, um sujeito que, como o próprio Pessoa, parece existir em estado de fluidez contínua, sem contornos fixos.

Sua voz não se firma: escapa, desdobra-se, contradiz-se. Há nele uma pessoalidade rarefeita, quase impessoal, como se a identidade fosse mais um ponto de vista provisório do que uma essência. Nesse campo movediço, Soares não apenas se aproxima de Pessoa, talvez o dissolva. Ambos compartilham uma forma de ser em que a própria experiência é colocada sob suspeita. Não se reconhecem como donos do que vivem, mas como produtos instáveis de percepções transitórias. Para Soares, ser é estar à mercê do que se sente, e nem mesmo isso lhe garante qualquer convicção duradoura. A única estabilidade possível é a dúvida sobre o próprio existir.

Jorge de Sena jamais encontrou Fernando Pessoa em vida, mas, após sua morte, dirigiu-lhe uma carta. Nessa escrita póstuma, não lamenta com pesar absoluto a ausência de um encontro real. Pelo contrário, reconhece que, se tivesse conhecido o homem por trás dos nomes, talvez restasse apenas a curiosidade satisfeita, e, em troca, perderia algo maior: a potência das figuras que Pessoa criara, dotadas de uma presença tão vívida quanto ilusória. Se tivesse visto de perto o autor, talvez não mais visse, com tanta nitidez, Alberto Caeiro ou Álvaro de Campos como seres carregados daquela intensidade quase concreta que o espírito do poeta, justamente por não ter forma definida, fora capaz de lhes atribuir.

A verdade que Sena captou é esta: a incessante capacidade de Pessoa para se reinventar, criando múltiplos poetas e escritores fictícios, era uma resposta inquieta à solidão e ao vazio que sentia tanto dentro de si quanto no mundo que o cercava. Mais do que uma simples pluralidade de personagens, havia ali um esforço contínuo de edificar e explorar sua própria consciência fragmentada. Sena percebeu que, mesmo quando assinava seus escritos com seu próprio nome, Pessoa não deixava de assumir um papel heterônomo. A persona que se apresentava era apenas mais uma das muitas facetas que compunham seu ser complexo e multifacetado.

domingo, 8 de junho de 2025

A escrita navegante (o sonho das águas) — IV

Cunhar a montanha. Rasgar-lhe as vértebras de pedra, fraturar-lhe os veios fósseis, deslizar as falanges pela estrutura milenar e, na torção mineral, fazer do verbo o estilhaço e da boca o canino de basalto. As falésias esmagam-se contra o céu calcinado. O animal que habita o verbo ferra-se ao mundo: escrever é rasgar, articular é incendiar a matemática dos séculos. Pestilência das vozes em convulsão, febre do que nunca se diz, incêndio das sílabas que tentam escalar a pele da montanha sem decifrar sua cifra.

Porque a escrita é a peste propagada pelos interstícios do tempo, como o vento que sibila nos sulcos das civilizações devoradas. A boca que nomeia fabrica distâncias, instala precipícios entre o que se vê e o que se sabe, torna fantasmático o que era carne. Na erosão da palavra, a demência das eras: o cume nunca foi fixo, a pedra nunca foi pedra. Em seu declínio, a matéria ultrapassa os calendários, transfigura-se em gestações de sombra, sobrepõe as camadas do delírio que, ao se decompor, esculpe de novo a falésia.

O pânico se acumula nos desníveis do tempo. Sob a derme dos dias, as fraturas. O mundo mastiga-se em lapsos convulsos, desagregações das vontades primordiais, cataclismos do idioma esfacelado. Realidade é cisma que se dispersa pelos subterrâneos da escritura, intervalo entre o corpo e seu reflexo, engano na qual a carne se engolfa ao tentar vestir-se de certeza. Entre os rochedos, a afasia das origens: o murmúrio das marés sobre a pedra, o fonema ininteligível do alfabeto que se desfaz no próprio eco.

quinta-feira, 5 de junho de 2025

Do mar — 50

Era uma vez o mar.

A praia, morte-cor

Cercado, o canto

Vaga estranha.

Andas chuvoso, tuas terras.

Afunda,

Mastro de ombros caídos

Ossos!

Liras cá nautas

Hemática estirpe.

A nau

Pó de horas.

domingo, 1 de junho de 2025

A escrita navegante (o sonho das águas) — III

Ser de pedra e vértice, de queda e vértigo: ergue-se contra o abismo que o devora. Fere a montanha ao golpeá-la, mas é por ela tragado. Plasma-se em ruína enquanto ascende, cava-se em vazio enquanto desce. Força a matéria ao delírio do sentido, arrasta-se por entre falésias de um logos trincado, em que a sintaxe é naufrágio e o pensamento é osso dissolvido no sal do tempo. A ofensa ao mundo é sua natureza: rasga os tecidos do real, profana o silêncio com fonemas estilhaçados, destila sintaxe espectral, verbo que morde a própria sombra.

Ser de labirinto, engenheiro da tontura: constrói corredores de aflição, força o nada à arquitetura, equilibra-se na equação do pavor. Rói o nervo da dúvida, perfura o subterrâneo do símbolo, raspa a crosta das certezas até que o mundo se torne só carne de enigma. Decifra-se para não ser tragado, interpreta-se para não ser poeira. Mas o sentido é ferida, o verbo é faca, a resposta é outra descida ao escuro.

Escrever: engendrar o impossível, esculpir silêncio até que ele fale. Rasgar o verbo para que o silêncio possa respirar.