Nesta tessitura noturna onde os astros soluçam sua vigília,
sou a boca do silêncio que sangra palavras sem nome.
Náufragas do tempo que se perdeu no abismo da sensação,
as horas vagam, lentas, em marés de ausência.
Como flameja o eco do que não fui,
o que se esvaiu entre os dedos da memória como areia astral.
Permito-me, neste instante de voragem e vela acesa,
tecer os cânticos mais lúgubres que o peito trêmulo pode conter.
Escrevo com a pena molhada no lodo dos sonhos extintos.
Ó, noite, madrasta dos amantes desfeitos,
tua língua é um oráculo de trevas,
teus olhos são pélagos cheios de estrelas mortas.
E eu, escriba da dor, acendo meus versos
com a chama inversa do que outrora foi luz.
Ela não está aqui.
Mas seu nome ainda gira
nos corredores ocultos da linguagem.
E a língua tropeça no gosto amargo de sua ausência,
num ritual de necromancia lírica,
invocando espectros de um amor desfeito
com o verbo vacilante de saudade.
Esta não é apenas uma noite —
é um templo negro onde a alma oferece
sacrifícios de lembranças ao altar do impossível.
E o verso é um grito engasgado,
uma serpente enroscada no próprio eco,
um espelho que se parte ao refletir o que não há.
Posso, sim, escrever os versos mais tristes esta noite —
mas prefiro libertar as constelações do peito
e deixá-las cair como lágrimas siderais
sobre o papel do destino.
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