sexta-feira, 11 de abril de 2025

 



Nesta tessitura noturna onde os astros soluçam sua vigília,

sou a boca do silêncio que sangra palavras sem nome.

Náufragas do tempo que se perdeu no abismo da sensação,

as horas vagam, lentas, em marés de ausência.

Como flameja o eco do que não fui,

o que se esvaiu entre os dedos da memória como areia astral.


Permito-me, neste instante de voragem e vela acesa,

tecer os cânticos mais lúgubres que o peito trêmulo pode conter.

Escrevo com a pena molhada no lodo dos sonhos extintos.


Ó, noite, madrasta dos amantes desfeitos,

tua língua é um oráculo de trevas,

teus olhos são pélagos cheios de estrelas mortas.

E eu, escriba da dor, acendo meus versos

com a chama inversa do que outrora foi luz.


Ela não está aqui.

Mas seu nome ainda gira

nos corredores ocultos da linguagem.

E a língua tropeça no gosto amargo de sua ausência,

num ritual de necromancia lírica,

invocando espectros de um amor desfeito

com o verbo vacilante de saudade.


Esta não é apenas uma noite —

é um templo negro onde a alma oferece

sacrifícios de lembranças ao altar do impossível.

E o verso é um grito engasgado,

uma serpente enroscada no próprio eco,

um espelho que se parte ao refletir o que não há.


Posso, sim, escrever os versos mais tristes esta noite —

mas prefiro libertar as constelações do peito

e deixá-las cair como lágrimas siderais

sobre o papel do destino.

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