Revolve-se dentro de mim o peso do escuro. Em turbilhão, mistura-se ao sangue e faz do punho o calendário onde a noite estende seus ciclos. A pulsação arde na boca, onde a lua vigia sua cegueira. É o orbe esmaecido que se suspende na saliva do tempo. O céu desenha-se em dedos trêmulos que tateiam a solidão como o cego às paredes do labirinto. Mas logo o perfume ascende como a lâmpada que derrama suas cores sobre as mãos cerradas do espírito. O cheiro da linguagem sobe em espirais até as pálpebras. Então, ouço. As coisas despertam em surdina. Toda alvorada verdadeira é clandestina. Sobre o ventre escuro da terra, a sinfonia da ressurreição começa: o som do vento, o som das árvores e o som das águas.
E dentro de mim a noite insiste. Estrela negra a se animar na carne. Como um pássaro, o sonho abre asas no centro da sombra. Há o rumor dos crisântemos que desmoronam sem que ninguém os veja, o turbilhão das nuvens que passam sem deixar pegadas no ar, e a minha voz esplende na planura deserta como o monge diante do horizonte. Sinto, em lento refluxo, a noite recuando, o animal que se dilui em sua fuga. A noite que se despe dos homens, que despe os homens de si. E o sol surge sobre as águas em sua carroça de fogo. Tomado de arcos vivos, o céu galopa na grandeza. O tempo é um grande rebanho de cavalos violáceos lançados contra o infinito antes de serem tragados pela escuridão que, no fim, apenas espera.
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