terça-feira, 29 de abril de 2025

Alvorada


Revolve-se dentro de mim o peso do escuro. Em turbilhão, mistura-se ao sangue e faz do punho o calendário onde a noite estende seus ciclos. A pulsação arde na boca, onde a lua vigia sua cegueira. É o orbe esmaecido que se suspende na saliva do tempo. O céu desenha-se em dedos trêmulos que tateiam a solidão como o cego às paredes do labirinto. Mas logo o perfume ascende como a lâmpada que derrama suas cores sobre as mãos cerradas do espírito. O cheiro da linguagem sobe em espirais até as pálpebras. Então, ouço. As coisas despertam em surdina. Toda alvorada verdadeira é clandestina. Sobre o ventre escuro da terra, a sinfonia da ressurreição começa: o som do vento, o som das árvores e o som das águas.

E dentro de mim a noite insiste. Estrela negra a se animar na carne. Como um pássaro, o sonho abre asas no centro da sombra. Há o rumor dos crisântemos que desmoronam sem que ninguém os veja, o turbilhão das nuvens que passam sem deixar pegadas no ar, e a minha voz esplende na planura deserta como o monge diante do horizonte. Sinto, em lento refluxo, a noite recuando, o animal que se dilui em sua fuga. A noite que se despe dos homens, que despe os homens de si. E o sol surge sobre as águas em sua carroça de fogo. Tomado de arcos vivos, o céu galopa na grandeza. O tempo é um grande rebanho de cavalos violáceos lançados contra o infinito antes de serem tragados pela escuridão que, no fim, apenas espera.


quinta-feira, 24 de abril de 2025

Do mar — 44

Perdido, ligeiro, Orpheu se desprega do mar. As celestes terras próximas! O mundo amanhecido. És tu, Orpheu, o mesmo Orpheu, o mesmíssimo Orpheu? Quem procurara por teu rosto? O dia salta de Orpheu em Orpheu. O liso branco. As águas ao mar. A pintura sem pintor. Mexe-se a ausência. Ofensa nenhuma e insulto crível. A cruz da tortura. O brilho da prata. A luz no vidro. Na passagem atropelada, o encosto da gaivota na imagem infante. Emerge-te ante o lugar que não estás!

quinta-feira, 17 de abril de 2025

Do mar — 43

Empilhados nas fornalhas, os homens das inclinações. Espalhados os exageros. Estás pousado, marítimas viagens, a errância por descobrir, a ambiguidade por decolar, as imanências figurativas. Aquelas pedras roladas, muito longe. As nuvens clamam pousos. Tu não podes sozinho. Pesadas pedras. Velho bardo, vem de lá. Dissiparam-se as poeiras. Embaraçam-se os cantos. O capitão da branca nau amarga as conchas. Os olhos. O teto. A nudez. O quarto. Morres nas extensões. Noutras distâncias-mundos, as substituições. Dedos na linguagem. Relatado sermão. O Quinto Império. A ambiguidade da vontade. Tempos fornecidos. Flutue no caminho. Seria melhor considerá-las linhas. A olhar e olhar acenos abandonados.

domingo, 13 de abril de 2025

Antes, eu não compreendia como alguém ausente de rosto, de voz, de história podia ocupar tanto espaço dentro de mim. Não entendia que o amor podia anteceder o encontro. Que a ternura podia nascer do invisível. Mas, há dois anos, tudo mudou. Carolina chegou, e, com ela, uma nova gramática do afeto. Desde então, cada gesto seu me reensina, pacientemente, que o amor não começa quando se chega, mas quando se sente.


sexta-feira, 11 de abril de 2025

 



Nesta tessitura noturna onde os astros soluçam sua vigília,

sou a boca do silêncio que sangra palavras sem nome.

Náufragas do tempo que se perdeu no abismo da sensação,

as horas vagam, lentas, em marés de ausência.

Como flameja o eco do que não fui,

o que se esvaiu entre os dedos da memória como areia astral.


Permito-me, neste instante de voragem e vela acesa,

tecer os cânticos mais lúgubres que o peito trêmulo pode conter.

Escrevo com a pena molhada no lodo dos sonhos extintos.


Ó, noite, madrasta dos amantes desfeitos,

tua língua é um oráculo de trevas,

teus olhos são pélagos cheios de estrelas mortas.

E eu, escriba da dor, acendo meus versos

com a chama inversa do que outrora foi luz.


Ela não está aqui.

Mas seu nome ainda gira

nos corredores ocultos da linguagem.

E a língua tropeça no gosto amargo de sua ausência,

num ritual de necromancia lírica,

invocando espectros de um amor desfeito

com o verbo vacilante de saudade.


Esta não é apenas uma noite —

é um templo negro onde a alma oferece

sacrifícios de lembranças ao altar do impossível.

E o verso é um grito engasgado,

uma serpente enroscada no próprio eco,

um espelho que se parte ao refletir o que não há.


Posso, sim, escrever os versos mais tristes esta noite —

mas prefiro libertar as constelações do peito

e deixá-las cair como lágrimas siderais

sobre o papel do destino.

quinta-feira, 10 de abril de 2025

Do mar — 42

Ele quer concluir. Das encenações, os trajetos repetidos. O erro da viagem e a malícia de papéis. Toca-te com força e encanto. O traço modesto eriçou um semicírculo. Na volta dos membros. Nesse caminho. Tumultos de boas danças. O canto que nos cabe.

quinta-feira, 3 de abril de 2025

Do mar — 41

O aquático cabo da ilha. Os balanços dos coqueirais longos. As lagunas. O azul. A safira. Animais rápidos. A nudez. As danças. As falas e os fundos. As setas. O ferro. A lança. Os ouros. A flor. Bem fina. As diversidades. O metal. As pérolas. O deserto e o temor da fonte. O rosto da campina. A neblina. A ordem. O cumprimento. As contas. Os erros. As visões descobertas. O barro do homem. A esquiva. As cores. A tutela e o regresso. Os mapas. Os conluios. As conversas. O inavegável. Criado barco que chega com todas as peles. Afilados mastros. No umbral da primavera, os sussurros desnudos de todos. Dias mortos, aqui gastos. As proximidades recomeçadas. O vazio branco da página. O poente secamente. Semente das vizinhanças ocas. Os rasgos do pássaro cheio de leitura.