quarta-feira, 26 de junho de 2024

Do mar — 6

Diante da selvageria, a vida nada de engenhosa prática. Visões febris. Os círculos de ar. Ao redor da cabeça, sobre os ombros. E as veias se elevam e violam-se. As facas trespassam; as inteligências nervosas no convés, aos pés. Absurda pirataria. Ondas de podridão! A carnagem das sinfonias dos saques. As orquestradas horas do barco ondulado. Almas da posse! Corpo violado troveja em volta. Subjugado aqui, crimes rudes. Depois, a aridez dos calores e as línguas secas. Raízes expostas; falas sufocadas. O olhar de vidro, das luzes cansadas. Poentes manchados, avanços apontados na mancha. Isso não será o giro de uma dança? A garganta na insaciável boca. As enormidades martelam espaçados ganhos. Sob o arcabouço da grade, na luz de numerosos sóis, a morte de madeira. Lá, a trança desses amarelos leprosos; branco gelo da nudez de carcaça. A praia pequena. Os desvendamentos, os gestos, fachos. Corpóreo, vítima de desvendadas mãos. As maternas cisões evolaram-se. O leme da nau sob o corpo armado das mais mortais ausências. Apetite de brevidades e sonhos. Enfim, a criança, o sono, centelha de terra da ilha afortunada. O mar, o mar, o mar e as noites de reflexo. A imobilidade aquática não cansa de enverdecer, lenta e sinuosamente. A lembrança acesa da viagem, sempre à proa, pobre e confusa. Os sóis da antiguidade animaram todas as pedras ardentes. Até que se quebrou a onda, marrando-se de ornadas colunas. Balanços dos mastros antigos. Os pescadores então esquecem: barcos dormem em suas praias. O imperfeito sorriso dura ainda. Ao longe, no amplo peito. O crime expiado, o nervo plástico, e, então, o toque da morfina – transparência adormecida. A erguida lua de dentro da sina, nela e além. O navio escorre e se implanta. A aurora. De fato, a cânfora. Por fora, o sufoco fica no pescoço. Desde sempre, a relíquia sugere a oriental viagem da pena. Já é outra vida e a mesma.

segunda-feira, 24 de junho de 2024

Stephen Dedalus e a fuga do labirinto

 


A sua linguagem, tão familiar e tão estrangeira, será sempre para mim uma língua adquirida. Nem fiz nem aceitei as suas palavras. Minha voz segura-as entre talas. A minha alma gasta-se na sombra da sua linguagem.


Um retrato do artista quando jovem (1916), de James Joyce (1882-1941), narra a perda de uma vocação sacerdotal e o alvorecer de um chamado artístico. Considerada uma obra quase autobiográfica, o livro capta a mente de Stephen Dedalus de forma eficaz, descrevendo a jornada de um artista através de seu eu. Nela, Dedalus tenta alcançar as coisas que mais importam, enquanto busca encontrar seu lugar no mundo. O romance acompanha Stephen Dedalus em seus anos de formação e aprendizado no final do século XIX na Irlanda. A narrativa nos brinda com cenas sobre a sua família – dividida entre o catolicismo ortodoxo e o movimento nacionalista irlandês –, sua criação no internato Clongowes Wood, a educação dada pelos jesuítas em Belvedere College, os anos na University College Dublin e, finalmente, sua decisão de se tornar um literato. 

Percebemos que Dedalus é nitidamente um aluno distinto, altamente dotado de atributos intelectuais, com uma predisposição inata para a poesia e uma sensibilidade artística marcante, que é complementada por sua personalidade especial e nobre. Dedalus queria deixar a vida fluir através das fendas de sua mente para peneirar sentimentos, impulsos e significados, queria encontrar o que sua alma inquieta desejava: aquele fragmento primitivo de verdade. Mas o mundo se intrometeu em seus intentos e plantou nele sementes de dúvida.

A jornada de Dedalus não é nada fácil. Seus tormentos eram muitos: as compulsões da disciplina acadêmica, os atos de selvageria dos colegas que eram despreparados para lidar com uma opinião divergente, os castigos físicos, a miséria socioeconômica cada vez mais visível, a lavagem cerebral com água benta e o medo onipresente de cometer alguma heresia a cada pensamento ou ação. Dedalus fica perplexo com seus próprios desejos sexuais. Apesar de ser sensível, articulado e inteligente, o jovem enfrenta emoções intensas e conflitantes de luxúria, incerteza e insegurança. Em alguns momentos, ele se culpa por sua vida promíscua, pecaminosa e desenfreada. Dedalus se sente acuado, acha que Deus vai castigá-lo sem qualquer compaixão e se perde em sofrimentos. Os sermões do padre Arnall sobre a morte, o julgamento e o inferno são particularmente encantadores – até mesmo Dante não conseguiria ser tão preciso e sensorial em suas descrições de escuridão, chamas e estertores intermináveis que as almas condenadas devem suportar. Ao contrário de Dante, os sermões na obra são carregados de ironia e blasfêmia. Um retrato do artista quando jovem nos lança às profundezas do coração humano narrando os sentimentos conflitantes de Dedalus por meio do fluxo de consciência – técnica que nos faz habitar os campos consciente e subconsciente, proporcionando vislumbres das realidades objetivas e subjetivas. Essas explosões narrativas acontecem de múltiplas maneiras e com bastante ênfase: são imagens, sons, memórias, aromas e sensações táteis. 

A escolha do sobrenome do protagonista está associada ao mito grego de Dédalo – artesão da cidade de Atenas responsável por construir o labirinto do Minotauro e o par de asas que deu para o seu filho Ícaro. Artista habilidoso, o Dédalo mítico acabou preso no labirinto que construiu para aprisionar o Minotauro. Assim como ele, o Dedalus joyciano também se vê preso em um labirinto construído por forças externas. Ele compreende que, ao trilhar os caminhos ditados por outros, nunca encontrará de fato uma saída ou experimentará a verdadeira realização. Ao longo da narrativa, Dedalus encontra falsas saídas do labirinto, mas nenhuma delas proporciona a fuga desejada. Assim, metaforicamente, Dedalus deseja construir um par de asas para transcender as adversidades, ultrapassar as fronteiras de Dublin e alcançar uma vida dedicada à arte.

A obra mistura várias referências literárias, filosóficas e teológicas ao cotidiano da vida irlandesa, com explosões poéticas. Ainda que Dedalus perca a fé, é evidente que sua visão sobre arte e literatura está impregnada de doutrina cristã. O livro é cheio de citações latinas, com ideias filosóficas que se referem à teologia medieval e à filosofia grega, como Tomás de Aquino, Agostinho, Aristóteles etc. Sobre isso, a obra demonstra grande erudição em relação à Poética de Aristóteles e à filosofia de Aquino, sobretudo no campo da estética. Em alguns trechos, quando trava diálogo com Estêvão e seu amigo Cranly, percebemos o domínio de Dedalus ao mencionar os atributos de beleza propostos por Aquino e ao dissertar sobre as formas dramática, épica e lírica. Sob todos esses discursos filosóficos que transbordam efusivamente, irrompe outra forma de estética, que é mais musical, sensual e rítmica.

Segundo a obra, a imagem estética dramática é a vida reprojetada na imaginação humana. O artista, na condição de Deus da criação, permanece invisível em sua obra, indiferente, refinado fora da existência. Dedalus postula que o desejo deve ser direcionado para o bem, sendo o verdadeiro e o belo os objetos de desejo mais duradouros. Embora reconheça que a beleza é subjetiva, Dedalus realça o conceito de beleza universal. Além disso, destaca o instante em que o sujeito compreende e aprecia as qualidades do objeto artístico, pois essa experiência proporciona um encantamento espiritual do coração. Dedalus conclui que a responsabilidade de um artista é distanciar-se de sua obra e agir indiferente a ela, permitindo-lhe existir de forma independente. Assim, obtemos a revelação do fluxo interno dos pensamentos, e o fluxo de consciência ditado por Joyce nos encanta e nos espanta. Quando lemos expressões, pensamentos, sensações, epifanias, é como se nós estivéssemos passando por aquilo, não os personagens.

Dedalus tentara erguer um quebra-mar contra a sórdida maré da vida para represar a recorrência estrondosa das ondas dentro de si. Inútil. Tanto de fora quanto de dentro, as águas atravessaram todas as barreiras e recomeçaram a se agitar ferozmente acima das ruínas. Durante a narrativa, acompanhamos uma personagem cuja garganta dói de tanta vontade de gritar – grito de falcão ou de águia –, de tanta vontade de libertar-se ao vento. Esse é o chamado à sua alma, não a voz desumana que o chamava ao altar, não a voz enfadonha do mundo dos deveres e do desespero. É um instante de fuga selvagem. E o grito que a sua garganta retinha fende a sua mente. A sua imagem passara para sempre em sua alma, e nenhuma palavra fora capaz de quebrar o sacro silêncio de seu êxtase. Os olhos chamaram Dedalus, e a sua alma se lançou ao chamado. Recebeu ali o anjo selvagem, um enviado para lhe abrir – num instante de êxtase – as portas de todos os caminhos do erro e da glória.

E Dedalus se rebelou e triunfou contra a embriaguez da doutrinação religiosa e contra aqueles que exigiam dele um fervor patriótico. A enxurrada implacável de catecismos que desdenhava das condições humanas não o lançou à culpa. Ele encontrou a sua santidade no amor, na beleza e na entrega silenciosa ao desejo mortal. O labirinto de iscas não conseguia mais estrangular sua ambição de escapar de seus estreitos limites. Assim, enquanto todos ao seu redor se ocupavam em buscar relevância ou prestígio social na vida, Dedalus permanecia imperturbável, pois agora aspirava ao cumprimento de um objetivo maior, tendo encontrado sua fé na legitimidade da arte e em seu poder de conferir sentido ao caos perpétuo da existência. Para recriar a vida a partir da vida – errando, caindo, triunfando e vivendo.

O apreço de Umberto Eco (1932-2016) pelas obras de James Joyce é digno de nota. Ambos receberam uma rigorosa educação católica, e, assim como as obras de Joyce, Eco enxertou em seus trabalhos diversas citações latinas e referências a padres da igreja. Em síntese, James Joyce, Umberto Eco, Jorge Luis Borges (1899-1986) e J. R. R. Tolkien (1892-1973) são alguns exemplos de autores contemporâneos com almas medievais.

Também podemos mencionar que Um retrato do artista quando jovem poderia ser lido como uma obra que segue na contramão de Confissões, de Santo Agostinho. Enquanto Agostinho expressa a sua gratidão a Deus por afastá-lo de sua juventude libidinosa e libertina e convertê-lo ao ascetismo e à religião, Joyce narra a juventude de Stephen Dedalus como um tempo de tormento moral, libertinagem esporádica, encontros românticos e breves vislumbres de alegria. Diferentemente de Agostinho, Dedalus, no final, resolve emergir sob a autoridade da igreja, desviar-se da sua família e da pátria e fugir em direção ao silêncio e ao exílio.

Cabe salientar que esse é um dos livros mais compreensíveis de James Joyce, pois, em vez de usar o fluxo de consciência ou o monólogo interior de forma desenfreada, ele opta por um estilo indireto livre, por diálogos perfeitamente construídos, por uma narração clássica em terceira pessoa e por um final com algumas datas anotadas em um diário escrito por Dedalus. Com doses poéticas de alto calibre e com a assinatura inconfundível de Joyce, Um retrato do artista quando jovem é um excelente livro. Com o passar do tempo e da leitura, Joyce se torna um escritor realmente interessante. A sua maestria literária e a sua genialidade narrativa o transformam em um artista completo.


Vou te dizer o que farei e o que não farei. Não servirei aquilo em que não acredito mais, chame-se isso o meu lar, a minha pátria, ou a minha igreja: e vou tentar exprimir-me por algum modo de vida ou de arte tão livremente quanto possa, e de modo tão completo quanto possa, empregando para a minha defesa apenas as armas que eu me permito usar: silêncio, exílio e sutileza.


[...]


Fizeste que eu confessasse os pavores que tenho. Mas vou te dizer também o que não me apavora. Não tenho medo de estar sozinho, de ser desdenhado por quem quer que seja, nem de deixar seja lá o que for que eu tenha que deixar. E não tenho medo, tampouco, de cometer um erro, um erro que dure toda a vida e talvez tanto quanto a própria eternidade mesma.

quarta-feira, 19 de junho de 2024

Do mar — 5

Mãos desertas. Muitos já sonham vossos olhos. Vácuos e pouco mar. Vossas nascenças. Relâmpagos antiquíssimos. Sereias noturnas, chorosas, longínquas. As algas. Vozes desfeitas e marés crespas? Gáveas. A vaga furiosa! Piratas arrastam chicotes, caudas de cavalos. Dedos, calores, amuradas, tatuagens feitas. Corpos esfolados, submissões para amados. O cutelo canta, carnes antigas. Seus rasgos, os corcéis se movem. Pedaços se espalham. Delírio saia, civilizações nas costas das rendas. Dorme a louca febre. Um sulino vento: albatrozes das rubricas. O longo mastro da névoa. Nas alvuras de luz ligeira, demônios. A neblina, agora, das aves. Há mastros, luas e barcos de cravados sopros. Águas e águas. Tropéis aquáticos! Escrava de óleo, a bruxa dos céus verdes de azuis sonhos. Espumas de orlas brancas, a ilha continental. Os corais, arvoredos em praia, flores do longe. O sonho das formas perde-se nas distâncias. O beijado mérito dura ainda? Em chios de naus, outros fins. O leme tremido. Giro. Aqui corre a cambiante lebre. Lá fora. O arco-íris: prece – a teia e a aranha. A pedra preciosamente escondida. Gravura: da barba ao azul, os matadouros e os circos. Selo da janela. Bichos circundantes. Cristas altas. Calmo apascento, rebanho corpóreo de rio, fúrias carnívoras e o fundo das veias! Aqui chegado, é grito, o barco, todo o mundo arranha, deus a bordo! Severo mastro. Costa pontuada, paquete velado. A costa inóspita, despojada. Traição calma do horror. O ouvir da flauta aos pés de Peneu, Tempe e Pélion. A luz do dia – os Faunos, os Silvanos, os Silenos, as Ninfas – e a onda declara: singra-me tudo e todos às velas.

segunda-feira, 17 de junho de 2024

Assim como o vaso cria o vazio, a palavra cria o silêncio




Eis o paradoxo: o meu silêncio desperta em mim o silêncio, e me permite escutar o que só posso silenciar.


Aldeia do silêncio (2013), de Frei Betto (1944-), é um livro de grande ambição, onde o autor aprofunda o conceito de silêncio e seu papel na existência humana, desenvolvendo questões como a reflexão, a contemplação, a conexão com a natureza e os encontros místicos transcendentais. Elevando-se com maestria em suas palavras, o autor cria um canal para profundas investigações existenciais, filosóficas e éticas. Um silêncio profundo mora dentro de nós e é desse silêncio que surgem as nossas palavras. De dentro desse silêncio nasce algo ainda mais precioso, que é o próprio silêncio.

Frei Betto tece uma história centrada em Nemo, homem que passou toda a sua existência em uma aldeia remota e esquecida, acompanhado apenas por seu avô, sua mãe e dois animais – figuras míticas que desempenharam papéis significativos em sua vida. O rapaz aprendera com o seu avô e com a sua mãe a reverenciar o silêncio, tendo uma inclinação para conservar os seus pensamentos em si. Habitaram por muito tempo a aldeia, reino atemporal, até que foi arrancado de lá de forma violenta. Após a morte de seu avô e já sem casa, Nemo é levado à cidade, onde é torturado em uma delegacia de polícia por sua natureza introspectiva. Sem dignidade e largado como um corpo qualquer, ele busca consolo no silêncio, recusando-se a revelar-se aos seus algozes. É lançado às ruas depois de alguns meses, completamente desamparado e quebrado, e, buscando proteção, acaba sendo internado em um centro médico, onde passará o resto de seus dias. Nemo é alfabetizado durante a sua estadia no hospital e resolve escrever um diário para contar as suas experiências passadas na aldeia e o seu cotidiano como paciente. Em seu estado, o protagonista encontra refúgio na escrita.

O silêncio e a palavra abrangem uma miríade de sutilezas – são tapeçarias de inúmeras variações –, e o propósito do enredo é explorar profundamente esses reinos, criando um contraste harmonioso entre eles. A obra aprofunda a noção de que o silêncio não é apenas a ausência de fala ou de ruído externo, mas introspecção serena, mergulho indescritível no âmago do ser, meio de decifrar os aspectos enigmáticos do eu interior. Nemo relata uma experiência transformadora que envolve fixar a mente no nada, esvaziar os olhos da visão, respirar num ritmo medido e abandonar a autoconsciência. Essa prática leva ao encontro com o vazio – à sensação de existir dentro do vazio da mente. É nesse ponto que somos confrontados com uma experiência radical e profunda, onde os reinos do erótico e do sagrado se entrelaçam, momento que só pode ser descrito como místico.

O avô e a mãe também reverenciam o silêncio, mas de maneiras diferentes. O silêncio do avô o protege de suas próprias memórias, e ele o quebra apenas para ensinar algo ao neto. O da mãe, por outro lado, é diferente: enquanto os seus lábios permanecem imóveis, o seu coração e as suas memórias agitam-se por dentro. Capaz de se mover no ritmo sem precisar da música, o silêncio da mãe tem natureza dançarina. O silêncio reverencial que envolve os moradores da aldeia é praticamente tangível, e as descrições permitem-nos experimentar o seu profundo peso e a sua etérea tranquilidade. Desse estado nascem encontros que fomentam a nossa humanidade. Nesse sentido, o livro é pautado pelo poder das palavras, tanto em sua presença quanto em sua ausência. A obra se vale de alegorias para pensar a escrita como gesto de silenciar o caos que habita a mente.

Além disso, Nemo nos convida a uma aventura em outra direção, mostrando-nos os contrastes existentes entre a cidade e a sua aldeia. Enquanto na cidade as pessoas são consumidas pelo desejo insaciável de estar constantemente em movimento, de prosseguir incessantemente a ação, na aldeia o esforço consistia em simplesmente abster-se de fazer qualquer coisa, abraçar o estado de ser, entregando-se a ele completamente. Lá, experimentava-se o êxtase, libertava-se das complexidades da mente e mergulhava-se nas profundezas do vazio interior. A obra nos mostra que a realidade moldada pelo poder da linguagem sempre deixa uma marca que não pode ser apagada. As palavras pronunciadas guardam presença eterna. Embora possamos tentar retificar declarações, alterar perspectivas ou reverter afirmações, a única maneira de fazer isso é empregando outras palavras.

A obra é cheia de momentos brilhantes. Nesse instante de êxtase, há uma energia eletrizante que culmina em realizações. É frenesi iluminado por enigmática dança, estado de embriaguez deslumbrante e encantador. É como se o universo, com todas as suas convulsões, tivesse encontrado o seu lugar nas profundezas da alma. No momento da leitura, consumido por desejo insaciável, tornamo-nos um com o divino, entregando-nos à paixão que nos toma por dentro e, nessa entrega, encontramos a exuberância da existência, as pulsações rápidas do coração e a chama de um fogo que se espalha sem queimar, que tudo envolve e nada consome. Desse ponto em diante, uma infinidade de imagens expressará o inefável, dispersas pelas palavras escritas, transcendendo a chama vibrante, as melodias silenciosas, a substância do vazio, o enigma e a travessia de fronteiras.

Durante a leitura, percebemos que entre nós e o outro há uma conexão fragmentada que sempre deixa um forte contraste, incorporando tudo o que não somos, tudo o que nos falta, testemunhando a nossa natureza mais verdadeira, onde os desejos são experienciados, as inibições desmoronam, as fronteiras são ultrapassadas e o amor reina supremo. Nesse estágio, nosso espírito é tomado por prazeres, e permanecemos num estado de elevada consciência, envolto no silêncio profundo que vibra dentro de nós e que sugere a presença de algo indescritível. Assim, Aldeia do silêncio nos convida a mergulhar no abismo da linguagem para explorar a profundeza de todas as suas camadas enigmáticas.

A obra segue além. Ela é uma mosaico magistral que tece referências a renomados autores. Como resultado, acompanhamos uma narrativa potente e intensa. Inventando uma nova linguagem para descrever a beleza que existe nos detalhes, o romance mergulha na substância do silêncio e, com habilidade, observa e celebra a natureza, que serve como maneira de resgatar a humanidade que aos poucos é consumida pela urbanização. Além disso, o livro também nos convida a encontros metafísicos, dialogando com livros que acenam à solidão. De sua aldeia isolada, Nemo experimenta a potência criadora nas profundezas do silêncio e nos sussurros da natureza. Envolvido pela serenidade e pela quietude, ele pode encontrar sua essência, suas emoções e seu lado divino. Ler a Aldeia do silêncio é semelhante a redescobrir o paraíso – espécie de utopia literária. Embora não possamos habitar esses espaços serenos, eles sempre deixam uma marca nas nossas almas.

Também é preciso dizer que a obra apresenta alguns pontos obscuros. Se Nemo deseja verdadeiramente alcançar o reino do silêncio, isso parece contradizer a potência frenética de seus pensamentos por meio das palavras (ou talvez possamos pensar que aquele que muito diz, no final, nada diz e conquista, assim, uma forma de silêncio). Tendo em vista que a origem pouco sofisticada de Nemo não se alinha com suas reflexões filosóficas e que a sua narrativa é muito eloquente, a veracidade da estruturação do protagonista é bem duvidosa. De todo modo, esses possíveis pontos contraditórios não são capazes de invalidar a obra; servem, antes, como pontos de partida para fomentar e ampliar debates no âmbito da literatura e da linguagem.

Aldeia do silêncio nos leva a uma expedição reflexiva que nos obriga a pausar e a reconsiderar o palavreado excessivo que produzimos cotidianamente. O andamento da narrativa dita um ritmo vagaroso, quase nos obrigando a interromper a leitura para buscar outros caminhos. Por meio de sua prosa comovente e profunda, Aldeia do silêncio nos transporta para um reino que é ao mesmo tempo desconhecido e reminiscente. A obra nos convida a desacelerar, a recuperar a cadência de nossas almas sem a interferência da tecnologia e a habitar o presente em meio a uma era virtual. A aldeia, retratada como um refúgio caracterizado pela quietude, contrasta com a natureza movimentada, brutal e desumanizante da cidade.

Aldeia do silêncio nos mostra que é de extrema importância reexaminarmos os campos do nosso silêncio, abordando-os com outra visão e transformando-os em espaços de interação, conversa e conexão. O silêncio tem o poder de construir e de atuar como alavanca, ou seja, funciona como força transformadora. A obra nos revela que a sociedade enfatiza o desenvolvimento de competências, mas que investimos muito pouco no cultivo das competências que nascem do silêncio. Nosso analfabetismo nessa área é uma das razões pelas quais lutamos para encontrar a paz. O silêncio é uma potência unificadora que é mais fecunda do que poderíamos inicialmente supor. Ele tem a capacidade de se tornar uma sabedoria partilhada que abrange o que é verdadeiramente fundamental. Contudo, para conseguir isso, devemos passar por uma iniciação ao silêncio, que é essencialmente uma iniciação à arte de ouvir – e Aldeia do silêncio é um ótimo começo.

quarta-feira, 12 de junho de 2024

Do mar — 4

A lua antecipa esparsas pazes do rio. A gaivota. A ternura da passagem. Horas matutinas. Fosse ou não, candura. Monte azul. As velas passaram longínquas. Marulho no rio do cais! Águas. A encomenda, outras emoções. Sonhos velhos. Canções pobres. Rejuvenescer de remorso? A vítima não murmura. As excitações. Frescores. O oceano escala soturnamente. Noite enorme. As lágrimas ressurgentes. O grito e o aroma varreram a voz chamada. A partida passa. Vermelho normal. Pontões, navios. Tempestade fria. A mão escarnada, a barba caída. Escutas e olhares. Estás ainda no porto? Promontórios de pouco cuidado. Faróis de sol adiante. O mar e o levante. Ao redor do mastro. Rubores rosas. Menestréis. Peitos forçados. A borrasca tirânica. A surpresa violenta. Perigo! Mastros mergulhados nas sombras. Os inimigos curvados na cabeça das proas evadidas. O mastro alto. Penhas de espectros. Rangem, rosnam, rugem. Albatrozes da cerração às imensidades das paredes d’água. Marinheiros mortos. A porta de janela, as tardes das atenções, as sensações, os nexos. Corpo. Ergue-se rota: escrita, ritmo. Ao lado da nau frondosa, quantas formas da árvore não desenha. Palácios distantes, escadas, jardins, ilhas, pórticos, candeias, encostas, umidades, tanques, rangentes rãs, punhal fechado, deslocamento de cabeças e mundos. Negrumes errantes pousados. Mentores de eras supostas. O guarda do fundo. A areia acaba achando a concha. A mudez é a cor. Pelos cantos, a morte. A arte, o engenho, o saque. O som do rio aflora alto. Terras achadas! Horizonte. Lá se foi a riqueza. Chuvas de cetim.

segunda-feira, 10 de junho de 2024

Ante a lanterna de Diógenes: a busca pela verdade em um mar de mentiras


Supõe tu um campo de batatas e duas tribos famintas. As batatas apenas chegam para alimentar uma das tribos, que assim adquire forças para transpor a montanha e ir à outra vertente, onde há batatas em abundância; mas, se as duas tribos dividirem em paz as batatas do campo, não chegam a nutrir-se suficientemente e morrem de inanição. A paz, nesse caso, é a destruição; a guerra é a conservação. Uma das tribos extermina a outra e recolhe os despojos. Daí a alegria da vitória, os hinos, aclamações, recompensas públicas e todos os demais efeitos das ações bélicas. Se a guerra não fosse isso, tais demonstrações não chegariam a dar-se, pelo motivo real de que o homem só comemora e ama o que lhe é aprazível ou vantajoso, e pelo motivo racional de que nenhuma pessoa canoniza uma ação que virtualmente a destrói. Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas.


Diógenes de Sinope foi um filósofo grego conhecido por empunhar, em plena luz do dia, uma lanterna acesa diante do rosto dos cidadãos atenienses, alegando que estava à procura de algum homem honesto. Vivendo de acordo com os seus princípios e comprometido com a honestidade, Diógenes rejeitou as convenções e defendeu a verdade a todo momento e sob qualquer circunstância. Atualmente, o filósofo grego ainda é lembrado pelo seu compromisso com a verdade e por viver de acordo com suas crenças. 

Quincas Borba (1891), de Machado de Assis (1839-1908), narra a história de Rubião, um morador de Barbacena, cidade situada em Minas Gerais. A jornada de Rubião o leva de uma vida de dificuldades como docente ao patamar de amigo e confidente de Joaquim Borba dos Santos, também conhecido como Quincas Borba. O raciocínio por trás do título do livro é bastante complexo, visto que a obra contempla não apenas um, mas dois Quincas Borba: o humano e o cachorro. Curiosamente, é o cachorro quem persiste durante toda a narrativa, já que o humano morre logo no início da trama. 

O livro, porém, é dedicado a desenvolver a teoria Humanitas, formulada pelo filósofo Quincas Borba ainda em vida e resumida no lema “Ao vencedor, as batatas!”. Essa teoria se assemelha à defendida por Charles Darwin (1809-1882), que postula que a natureza sempre favorece os mais fortes. Na obra, por exemplo, notamos isso nas batalhas que os indivíduos enfrentam nas cidades grandes, repletas de armadilhas e adversidades.

O narrador machadiano dialoga com o leitor, convidando-o a mergulhar na narrativa que se desenrola na segunda metade do século XIX, período marcado por significativas mudanças sociais. A narrativa começa quando Quincas Borba adoece e acaba morrendo. Em seu testamento, o filósofo lega todo o seu patrimônio a Rubião, com a condição de que o amigo cuide de seu cachorro, que, inclusive, tem o mesmo nome do filósofo. Com a nova riqueza, Rubião abandona a docência e se muda para o Rio de Janeiro. É nesse momento que a trama começa a ganhar seus contornos.

Rubião conhece o casal Palha, formado por Cristiano e Sofia, durante a viagem de trem de Minas para o Rio de Janeiro. O casal se torna o guia de Rubião na cidade, já que o ex-professor desconhecia a movimentada metrópole carioca. Nesse ponto, Cristiano percebe a inocência de Rubião e vê nela uma chance de acumular riqueza. Rubião, por sua vez, apaixona-se por Sofia, fato que acaba originando um triângulo amoroso (que não se concretiza). 

Em seguida, Rubião fixa residência em Botafogo e recebe um convite para jantar na residência do casal Palha. Depois do jantar, Sofia convida Rubião para um passeio pelo jardim. Nesse momento, Rubião expressa o seu amor por Sofia, propondo que ambos olhem todas as noites para as estrelas como prova do seu amor. Apesar dos avanços e das declarações, Sofia rejeita Rubião, pois se diz totalmente comprometida com o casamento e respeitosa com o marido. Porém, quando Sofia conversa com Cristiano sobre o encontro, ele a incentiva a continuar amarrando Rubião, explorando sua paixão para ganhos pessoais. Relutante, Sofia sucumbe à persuasão do marido, sentindo-se compelida a submeter-se aos seus desejos de esposa zelosa e obediente. A maneira como Cristiano joga para extrair quantias cada vez maiores de Rubião é objeto de constante crítica. Personagens como esses – que encarnam a mesma crueldade que persiste na sociedade contemporânea – atraem a atenção por manipularem a todo momento a ingenuidade das pessoas. Nesse sentido, a obra também nos apresenta um tema universal centrado na presença de enganadores. 

O romance Quincas Borba apresenta uma crítica à conduta humana. À medida que nos aprofundamos na narrativa, acompanhamos o declínio de Rubião devido à má gestão de sua riqueza por parte de Cristiano Palha e aos seus próprios gastos extravagantes, muitas vezes à custa de indivíduos oportunistas. Enquanto a condição financeira de Cristiano melhora, pouco a pouco, Rubião, consumido pelo amor, enlouquece. Ele sustenta um suposto adultério entre Sofia e Carlos Maria, que não acontece. A condição psicológica de Rubião piora ainda mais, fazendo-o ter alucinações; delirante, simula o penteado de Luís Napoleão. O seu estado de miséria o leva a ser internado em uma casa de repouso, mas ele reaparece em Minas Gerais ao lado de seu fiel cão. Apesar de receber o apoio de Angélica, Rubião morre tragicamente. O seu fiel companheiro, Quincas Borba, morre três dias depois. A vida de Rubião, que parecia estar em uma trajetória ascendente com uma casa no Rio de Janeiro, compromissos sociais e convivência com a classe alta, é tragada pelas implacáveis estruturas da cidade e seus habitantes. Quando os indivíduos agem apenas em benefício de seus próprios desejos, revelam a sua natureza animalesca. Em contrapartida, o cão é exemplo de lealdade, devoção, amor e gratidão. Se a sobrevivência cabe ao mais forte, este não foi Rubião.

O Humanitismo serve como uma resposta satírica a vários movimentos filosóficos do século XIX, oferecendo um exame tangível da realidade. Curiosamente, pode ser interpretado como um desdém pela natureza humana imperfeita. A obra reimagina e reconstrói esta realidade, destacando os aspectos mais sombrios da humanidade e expondo o seu egoísmo. Nesse sentido, ela fornece uma representação do comportamento humano, revelando um desejo universal de ganho pessoal, propriedade e controle. Além disso, aqueles que se opõem a estes desejos são frequentemente vistos como alvos de aniquilação.

De natureza intrusiva – conversando por vezes com o leitor –, o narrador machadiano cadencia o desenvolvimento da trama de forma fabulosa, suspendendo a conclusão dos capítulos e nos deixando ansiosos por novas revelações. O leitor mais perspicaz perceberá que a sucessão dos acontecimentos revela a perspectiva de Machado sobre as questões do mundo, ainda que por vezes persista a sensação de que o narrador está apenas contando a história sem fazer julgamentos. Diversos momentos da trama estabelecem paralelos entre as experiências das personagens e os dias atuais, incluindo e trabalhando temas como a exibição ostensiva de riqueza apesar da insolvência financeira, a corrupção, o racismo, o papel das mulheres, a instituição do casamento como pilar do patriarcado, o processo de envelhecimento etc. Assim, com sutileza ou firmeza, a obra aborda diversos assuntos do macrocosmo e microcosmo do Brasil, explorando suas interconexões. Nota-se que a escolha por esse tipo de narrador, portanto, é adequada, pois fornece um retrato abrangente da nossa sociedade.

Tudo o que vive busca a eternidade. Satirizando a noção de um mundo ideal e investigando a ideia de que o universo é uma vontade irracional e incompreensível que impulsiona a vida, percebe-se como a filosofia de Arthur Schopenhauer (1788-1860) está presente na obra. A manifestação da vontade não é racional, mas impulsiva, cujo objetivo é garantir a continuação da espécie em um mundo onde suas estruturas são apenas representações. Neste quadro, existem dois aspectos que não podem ser separados: o objeto – que existe dentro dos limites do tempo e do espaço – e o sujeito – que se forma através da consciência do mundo. Contudo, tendo em vista que a vontade nunca pode ser plenamente satisfeita, o mundo torna-se sofrimento, e o prazer acontece quando a dor cessa, mas isso é sempre temporário. Para Schopenhauer, os indivíduos autoconscientes percebem que são moldados e definidos pela sua própria vontade, que por sua vez é influenciada pela arquitetura de suas paixões e interesses. Abraçar os próprios desejos é inerente ao ser humano, mas Schopenhauer sugere que rejeitar a vontade seria um gesto de santidade, pois vai contra as nossas inclinações naturais. Sua filosofia investiga a oscilação entre a dor e o tédio que todos experimentamos. Sob a superfície da obra, percebe-se o descontentamento com a sociedade e seu pessimismo.

Sem dúvida, Machado de Assis é um escritor que merece múltiplas leituras. Embora a conclusão de Quincas Borba seja profundamente triste, sem qualquer vislumbre de esperança, o autor tem o poder de nos encantar, e isso não se deve apenas à natureza duradoura de suas histórias, mas também ao fato de ele nos ligar a acontecimentos que parecem totalmente afastados de nossas vidas, criticando, de forma contundente e irônica, as ideologias otimistas predominantes em sua época. Assim como na era de Diógenes, a sociedade também busca, em meio a um mar de corrupção e de enganadores, alguém que incorpore a integridade moral. Porém, após a leitura, parece-nos evidente que uma única lanterna não será suficiente para descobrir indivíduos honestos no meio dessa escuridão que encobre a ética e a moralidade.


Quando Rubião voltava do delírio, toda aquela fantasmagoria palavrosa tornava-se, por instantes, uma tristeza calada. A consciência, onde ficavam rastos do estado anterior, forcejava por despegá-los de si. Era como a ascensão dolorosa que um homem fizesse do abismo, trepando pelas paredes, arrancando a pele, deixando as unhas, para chegar acima, para não tombar outra vez e perder-se.

quarta-feira, 5 de junho de 2024

Do mar — 3

Nas portas, há frio. Abre-se o mistério. Tem pavor que não se arrepia. Recusas fundas. A loucura sobe em um ponto que desce. Dor abandonada do gosto. O crime janta na mesa. Sou o tempo, passando no frio. Razões furiosas junto às ânsias do crime. Sou a maldade na inquisição marítima. A respiração dos medos na nuca. Fútil tortura da passageira pobre. Chacina em alto-mar, roçando. Olhos que se enchem. A canção alinhada. Que mal os traços e as retas! A face ilumina o reler inútil. A um desabamento enorme acima da imaginação. Turbilhão lento. Sensação sem batidas! Dos lados, o frio. As lanternas de esquina. Um olho é janela de jardim. Fraturadas lunares. Uma carícia desbotaria o sonho. Certas pranchas aguçam a loucura: todas as escoltas sombreiam. Hoje, o hipocampo ultramarino das marretadas e o funil dos tremores. Sonha o tecelão, azul firmamento antigo. Uma ave dispara na ilha áurea. Aurora dolente. Chore depois. Torpores lentos. A fria luz erguida das tardes. Pendões orgulhosos! O menino – a tristeza oscila! O barquinho continha borboletas violetas em olhos e algodões. Nenhum entretom de espuma ou sequer de mato. As folhas das algas. Agora, a maré momentaneamente percorre em sonora milha, quebra perfilada. Se navegasses por aqui, palmilhando a similitude que antigamente palmilharias, desde a ilha de que sem dúvida partirias, se navegasses por aqui nos caminhos, encontrarias os avisos elétricos que é a tipográfica busca. O mesmo ocorreria ao fim do lamento. Punhado arenoso. E aquilo porque supunhas morrer ao cumprir-se areia. Um homem construiu um cais nas pedras. O mundo foi exteriorizado na porta da alteração. Revelação diversa. Guindastes, chegadas, comboios, mercadoria por cima desses negrumes. Ocasiões fundas e chaminés, fábrica e sombra. Esquinas mundanas. Uma vez extasiado, o vento justo manteve o curso através. Há primaveras sem árvores. E, sobre as plantas, animais... O mundo deixou-se em afetuoso silêncio. Abre-se a concha. Balançante cavalo-marinho. Agora, o redondo polvo no desalinho dançante. Arenoso, o tempo ressurge. A dor é o monstro pousado: as imagens são as despedidas de movimentos embalados. A ave é a estrangeira. O frio é o nó que surge. Sonorizada fúria, ébrias flautas, a cor do gesto. Os horrores. Ali, o cavaleiro e o santo. Erro das cores, artes de ventos, salões de almas, caverna e marés. Sonha a caravana de histriões, a chuva, o ouro, a hora, o assombro, o escombro. O choro da viúva. Céu pesado, acessível, de alguma chegada. De início, foi apenas chuva. Os silêncios! As cegueiras! Ela velará por desprezo. Sim! Este leque: perdição e desprezo! Os leques! As horas! As catedrais! O ar uiva sob a grande porta, cuspindo os belos sorrisos da tecedeira. Um toque tão vermelho, tão azul na pedra. Prometeu.

segunda-feira, 3 de junho de 2024

Quando as portas da percepção se abrirem, tudo surgirá como é, infinito


O caminho do excesso leva ao palácio da sabedoria.


William Blake (1757-1827) foi criado por um pai que seguia as ideias do visionário Emanuel Swedenborg (1688-1772) e que optou por não lhe proporcionar uma educação convencional. Em vez disso, o poeta embarcou em um caminho de aprendizado místico, mergulhando no estudo de ocultistas. Romântico convicto, Blake foi um homem dotado de perspectiva singular. Em um cenário cuja paisagem literária prosperava com base na influência dos clássicos “augustanos” – que proporcionavam uma utopia àqueles que aderissem às normas sociais –, Blake atentou aos que viviam na miséria, em uma sociedade marcada sobretudo pela injustiça, sob a influência opressiva que a igreja e o estado exerciam nas pessoas.

O casamento do céu e do inferno (1970) é uma obra basilar de Blake  que compreende uma série de aforismos escritos por meio de paradoxos. Neles, Blake examina a moralidade convencional e afirma que a humanidade não se limita à dicotomia alma/céu e corpo/inferno. Em vez disso, segundo o poeta, o corpo humano não é separado da alma, pois as energias, que são a essência que sustenta a vida, emanam de todas as estruturas corporais. Visionário à Swedenborg, o poeta teve vislumbres do reino dos espíritos. Em vez de confiar em doutrinas ou regulamentos pautados pela religião, o seu conhecimento foi adquirido com base na análise. Sendo assim, valendo-se de sua iniciação druida, Blake critica a falácia dos conceitos religiosos contemporâneos que insistem em colocar o céu contra o inferno dentro de uma estrutura binária simplista.

Originalmente impressa em vinte e sete placas de cobre, O casamento do céu e do inferno prova o método de impressão de Blake, que uniu textos e desenhos nas placas antes de imprimi-las e pintá-las à mão. Incorporando vários gêneros e estilos (prosa, provérbios, poesia em verso livre e ilustrações), a obra celebra o alvorecer de uma nova era de libertação política e de emancipação espiritual após a Revolução Francesa. 

Ao mesmo tempo em que desafia as noções tradicionais de bem e mal, Blake critica as crenças teológicas de seu antigo mentor, Emanuel Swedenborg. Abrindo mão da razão e da moderação, que são defendidas pelos anjos ortodoxos, o poeta condena as moralidades impostas pela Igreja e pelo Estado e enaltece a energia e o desejo. Com isso, a intenção de Blake é reparar injustiças, encorajar a autoexpressão e revelar a essência ilimitada da existência.

A obra inicia com um poema em verso livre cujo título é “O Argumento”. Nele, o poeta apresenta Rintrah, símbolo da fúria justa e arauto da revolução, e prossegue desvendando o seu tema, desafiando as perspectivas religiosas tradicionais. Ele enfatiza a necessidade de opostos na estrutura da existência, especificamente nos campos da energia e da razão. Os virtuosos, que são os Anjos, proclamam a virtude da razão, alinhando-a com o céu e com a alma, enquanto denunciam o vício da energia, alinhando-o com o inferno e com o corpo físico.

O trecho "A Voz do Demônio" desafia o equívoco que cerca os anjos tradicionais, atestando que a felicidade genuína deriva das forças de afirmação da vida que surgem do desejo natural e imaginativo. Além disso, enfatiza a ligação inseparável que há entre o corpo e a alma e defende que o desejo não deve ser represado pela racionalidade.

A partir desse ponto, Blake estende a sua ideia, dividindo-a em cinco seções, todas escritas em prosa, sob o título de "Uma Visão Memorável”. Na primeira parte, mergulha nas profundezas da paixão criativa e compila setenta "Provérbios do Inferno". Esses aforismos celebram a vitalidade da vida e a supremacia do instinto sobre a racionalidade. Na segunda parte, Blake inicia uma conversa com os antigos profetas Isaías e Ezequiel. Durante este encontro, ambos os profetas validam a perspectiva de que a essência ilimitada da existência só pode ser verdadeiramente compreendida por meio do aprimoramento dos sentidos humanos. Na terceira parte, vimos como a transmissão do conhecimento é retratada, geração após geração, por meio da arte da criação. Blake diferencia os Devoradores, representados pela razão, dos Prolíficos, representados pelos artistas. Na quarta parte, Blake embarca em uma expedição com um representante da fé tradicional. Ambos atravessam os reinos da imaginação e, nessa odisseia, cada um revela ao outro o seu verdadeiro destino. Aqui, é a perspectiva visionária de Blake quem vence. Ele tece críticas à racionalidade e aqueles que negligenciam o reconhecimento das forças opostas. Na quinta e última parte, o Diabo e o Anjo se envolvem em mais uma batalha de perspectivas. O Anjo sucumbe ao ponto de vista do Diabo, e ambos criam uma amizade inesperada. Juntos, mergulham nas páginas da Bíblia, desvendando os seus conhecimentos.

Por fim, “Uma Canção de Liberdade" é uma coleção de vinte versos que anunciam a iluminação espiritual do mundo provocada por medidas políticas revolucionárias. A obra termina com um Coro que declara a sacralidade de todos os seres vivos.

O casamento do céu e do inferno é um labirinto de insanidade, uma dança entre extremos levada ao limite como uma forma poética de expressar visões transcendentes para o mundo humano, rompendo com as amarras das teorias áridas da era iluminista. Nessa toada, Blake celebra a liberdade, e isso significa romper com os grilhões das crenças religiosas e das amarras materialistas impostas pelos filósofos. Para o poeta, a poesia é a união de luz e sombra, de loucura e sabedoria, de suavidade e vigor, de racionalidade e energia, uma mescla destinada a desafiar o eu interior, culminando em uma fusão de opostos que revela o absoluto. Assim, os versos de Blake são a encarnação dessa união mística, uma ruptura dos valores obsoletos ou superficialmente modernos. Por meio de suas palavras, o autor desafia as normas, clamando para que a sociedade persiga o desejo sem amarras, mesmo que isso signifique mergulhar no inferno. De fato, Blake, para dar vida às suas ideias, não hesita em recorrer a uma infinidade de aforismos, demonstrando assim que o inferno é o ponto de partida para a virtude.

Segundo Jorge Luis Borges (1899-1986), William Blake ocupa uma posição peculiar na literatura, visto que ele é um poeta verdadeiramente único e indescritível, profundamente religioso, mas com uma cosmogonia própria e distinta que às vezes se volta para o paganismo. Por meio da linguagem, Blake acreditava na potência imagética da humanidade, enfatizando a sua natureza sensorial. Sucessor poético de John Milton (1608-1674), a influência do poeta se estende a figuras ​​como Rimbaud (1854-1891), Artaud (1896-1948) e Huxley (1894-1963).


Que os Sacerdotes do Corvo da aurora, não mais em negro mortal, maldigam com sua rouca voz os filhos da alegria. Nem que seus aceitos irmãos – a quem, enquanto tirano, denomina livres – fixem parâmetros ou construam telhados. Ou que a pálida luxúria religiosa chame aquela virgindade que deseja mas não age! Pois tudo que vive é Sagrado!