quarta-feira, 29 de outubro de 2025

Noite nanquim — 38

    Não surpreende. A ignorância é sua mais conhecida novidade. A voz exige que o labor não tenha igual. Pois o labor é todo potência, a lembrança da potência. A força não é senão sua mão fria em busca do alto píncaro. Enquanto o próprio uno do mistério aspira àquilo que parece ser o Nada ou a Noite, reafirma cada grito bêbado da tinta, cada poro da alma. Relembra a pressão atmosférica sob a qual se comprime, se ergue, se empilha um mundo feito de imagens. Isto.

segunda-feira, 27 de outubro de 2025

Noite nanquim — 37

    Reavivo as cinzas secretas da Vida Eterna. Frieza e crime. Sinto alguma coisa chegar além do que penso. Sombreia-se palavra a palavra uma devastadora ideia de inteligência. Cada parcela desse horror é nascimento. Com as ideias que chegam, crio um conflito de desejos. Alguém se ignora e se afoga no ponto vil da besta. Volto. Douro o alto monte das horas inevitáveis, os infinitos degraus do mundo. Esses efeitos misteriosos transformam-se em débeis palavras ao pé dos inevitáveis. Transformo o mundo, o ser, o sistema do universo em obras e horror perante o pensamento. Os dedos espirituais tecem a união das linhas que foram partidas, e partimos, agora, oscilantes.

quarta-feira, 22 de outubro de 2025

Noite nanquim — 36

    Compreendo o que é, e isto é o que é. Interpreto toda a expansão e a transfusão como aqueles que vieram antes de nós. Faço com os sonhos os olhos do olhar. Digo que nada significa e quais recantos propõem tantas mágoas. Que não te reconheçam. Nunca. Há, pois, na terra de um ser humano, uma virtude de queda sobre si. Apagamento sem o qual um único Deus consumiria, supriria, esgotaria o atrativo do transcender-se que Deus é. Um único mistério no universo anularia o espírito?

segunda-feira, 20 de outubro de 2025

Noite nanquim — 35

     Alguém impõe, de súbito, o desespero daquelas sombras aos meus olhos. As palavras colorem profunda e bruscamente o mistério maior. Inspira-me de repente a sensação incognoscível. Boca beijando o abismo do universo sem paredes. Estendido, pinta-me no frio âmago um ser de agilidades e de recursos elásticos. Mostram a alma e a mente. Existência do tempo informe. Indefinição excitada sobre o desespero da razão, sob o qual o futuro do pressentimento me faz dormir ao lado das florestas de sonhos virgens. Apalpo, almas, erro, revolvo cego as instintivas inocências sombrias num ganho que me farta.

quarta-feira, 15 de outubro de 2025


Não sei por qual via do silêncio retornaste nem que passagem secreta existe entre o vazio e a lembrança. Contudo, reapareces, suspensa, no espaço onde o tempo vela a sua respiração. Tuas mãos repousam sobre os anos; teus olhos observam o crepúsculo das flores que ainda enfrentam o sopro da tarde. Há algo que te captura, um som talvez, não sei se vindo do mundo ou de tua própria ausência. Será o murmúrio vegetal da memória sem corpo, o reflexo das águas que deslizam sem destino ou o resquício de uma música interior, antiga, que insiste em não morrer dentro de ti?

Eu queria apenas romper o intervalo e dizer-te que estou aqui. Mas detenho-me, temendo que a palavra, ao nascer, extinga o tênue fio que te envolve. Há uma delicadeza terrível no sossego que te protege. Se o toco, desfaço-o; se o ignoro, perpetuo-o. Como se convoca quem já cruzou para lá da margem de nós? Que forma uma voz pode assumir para não ultrajar o repouso de quem habita o plano entre o ser e o esquecimento? Que gesto, ou lágrima, ou pensamento, alcança aquele que partiu de nós sem violar sua paz?

Fico, então, estático diante de tua distância. És o sonho, a ausência e a respiração alada. Permanece assim, hoje, com o corpo imóvel de uma ideia que não cessa, com as mãos serenas, com os olhos cheios de algo que já foi rosa, mas que agora é tão somente a lembrança da cor. Deixa que o mundo te contemple como quem olha a sombra de si. Deixa que eu te observe sem que me notes, para que a tua quietude permaneça intacta, e o silêncio não se desfaça em som.

Noite nanquim — 34

     Ele, sem me ver, fixa-me rigidamente, esmagando-me. O ofuscamento de tudo devora todas as formas de pensar. Através do ferro e do fogo contínuos de uma dolorosa consciência que escorre e se precipita não sei onde, ouço o pensamento enlouquecido, apavorado. A vida espalha-se indistintamente pelas cavernas da alma, pelas vias da loucura. Esse tempo atravessa céus e corações. Enquanto o segredo encontra seu caminho na inconsciência do trajeto, sinto a mente ausente e as trevas no centro de tudo. Aproximo-me do mais alto monte.

segunda-feira, 13 de outubro de 2025

Noite nanquim — 33

    Confundo tudo. Separo-me — não sei em qual caminho — da causa e dos efeitos do infinito. Quando pairo, Voz, certamente não sou senão o erro maior. Quando caio e giro, não sou senão vacuidade, sem passado, sem futuro — intérprete inconsciente. Voz e Não Voz, engendro uma possível, uma irrealidade transparente de sonho aberto. A vida salta de voz em voz. O ser antigo e o ser profundo não podem, no momento, suportar a íntima parte de alguma terra desconhecida. Abro os lares perdidos, o berçário frio das almas e o bom interior escuro.

quarta-feira, 8 de outubro de 2025

Noite nanquim — 32

    Assim, dessa maneira, a Voz se desprega da morte fugidia. Faísca. Não existe mais. Renasce na minha alma estéril. A preguiça aumenta isso! Este livro vivo, livro negro vivamente consumido, recriado, mudou. Livro de horror. És tu, Voz, a mesma Voz, a mesmíssima Voz que existia. Quem juraria por tua alma? Posso pensar que esse cansaço — essa nudez da consciência dissolvida — transmitiu a alma morta sem pudor ou cautelas. O ser humano, ínfimo certamente, consta por injúrias na incompreensão de todos os seres. Quanto a mim, aqui, confesso que confundo a Voz com qualquer voz que vier, qualquer coisa horrenda. Pensar é mesmo isto: destruir-se.

segunda-feira, 6 de outubro de 2025

Noite nanquim — 31

     Fixa-me e impõe-me o esplendor na alma da improbação. Alguns instantes, bojos de terror, são focos vagos e apavorantes. A oliveira seca se protege da irradiação das luzes. Num estertor dormem quatro goles: penso vagamente na escuridão daquela face, na cruz ígnea pousada na monstruosidade dos sofrimentos. Que importa este ser? Que importa esta extensão? Que importa também tudo o que chega ao seio, tudo o que nasce e morre no seio? Sou eu a coisa de outra coisa? Sou eu o joguete do eterno erro de um grande prédio em chamas?

quarta-feira, 1 de outubro de 2025

Noite nanquim — 30

     Em vão, ele me obceca com uma consciência maravilhosamente incolor e me propõe todos os cantos do real e do humano. Canto neste bosque de sangue ao grito de Agamemnon. O punhal é meu. A gota impura de sua voz suja aquele sudário sem honra. Há certamente outras expressões que não são da terra nem dos feitiços. Este tempo ornamentado sem nitidez delimita os sentimentos por razões vãs de sentimentos. O horror pleno fecha no fundo a forma que não passa de uma consciência cheia de dúvidas. Dou aqui mais um passo na imensidão profunda. Adianto-me cansado à inconsciência de tudo.