domingo, 18 de maio de 2025

A escrita navegante (o sonho das águas) — I

Se escrever é a arte de narrar ao abandono dos fios da razão imediata, submerso em nevoeiro que não obedece à rigidez do tempo nem ao cárcere da lógica, então escrever transforma-se naquilo que não pode ser previsto, naquilo que se expande em movimentos inesperados, insurgindo-se contra a dor da cronologia. Espectro sem nome, a palavra-pensamento mergulha nos abismos da linguagem, busca seu limite impossível e escapa da geografia deserta do pensamento coletivo. Lá onde se perde a voz, onde tudo é indiscernível e dissoluto, o homem-animal, preso entre a necessidade de se criar e a angústia de sua busca, tenta alcançar o interminável — o imenso do incerto que insiste em se transfigurar.

Palavra a palavra, o corpo da linguagem avança. A escrita torna-se um animal que atravessa a linha tênue entre mundo e imagem. Exigido a encontrar morada no efêmero, o homem arrebenta com as convenções da linguagem e suas fronteiras, buscando descer à profunda tempestade de si, o eterno tumulto das sombras e das claridades onde tudo se confunde e se renova em mutações. O gesto criador irrompe nas entranhas da existência, surgindo como resposta à imposição daquilo que não se pode nomear, não se pode tocar. E o impensável ressurge em cada hiato do mundo, em cada rachadura do que se acreditava estável.

A mente humana se refaz ao subir pelas montanhas da distorção e do impensável. Não é mais ideia, mas expressão contínua, fluida e concreta. Nada é fixo, tudo é movimento, como o gesto de quem arranca do mundo uma nova vida. Aqui, o homem não observa mais, faz parte do que observa, transformando-se no grafismo vivo da realidade, escrevendo sua própria história antes de seu corpo ser tocado pelo tempo.

A escrita, pois, não é só raciocínio, mas terreno de explosões internas, palco de ruínas que se erguem e que se constroem pelo grito visceral do mundo em fragmentos. A palavra é ação, é ruído, é aceno que sonda as bordas inominável. O homem, então, já não é quem foi, mas quem cria incessantemente, removendo da existência os resquícios de uma ordem já ultrapassada. O olhar da alma é o movimento da mão que escreve, mas, antes disso, é a memória da tempestade que pressente a sua própria reconstrução.

Quem é capaz de encontrar o caminho entre as ruínas da razão e as geometrias do sentimento senão aquele que se afasta da superfície do ser com a febre do inatingível? Estala o desejo de penetrar o inviolável. O caos de ser é o espaço onde todas as escritas se encontram e se desfazem, transformando-se em ícones de um mundo onde se criam novas origens, onde tudo se ressignifica. A escrita não é mais o que é, mas o que se destila no avesso das coisas. O homem, enfim, não escreve, vira escritura.

Assim como Ulisses que não sabe para onde navega, o homem se perde em sua própria amplitude, não mais com o medo de encontrar o fim, mas com a esperança de reiniciar o ciclo, porque não há fim para o ato de criar, não há fim para o gesto que ressurge e desmorona sobre si, como os ruídos ancestrais que se agitam nas marés do silêncio, como a palavra que vem de longe e nos reconcilia com o que restou de nós.


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