domingo, 25 de maio de 2025

A escrita navegante (o sonho das águas) — II

Decifrar a escrita como quem percorre com os olhos o mapa astrolábico, o diagrama cifrado onde se entrelaçam a vertigem da fera e o desnorteio do navegante. Eis diante da visão o continente das palavras em colisão, a cordilheira erguida sobre pilares de argumentos fossilizados, o delta onde deságuam interrogações sem foz e sombras sem origem. Território sem cartografia, verbo mineralizado, escombro da sílaba inicial onde a matéria desmemoriada gesta o arquipélago dos astros feridos pela ignição do indizível.

Não se trata do tempo que recorda, mas do tempo que se enrosca no agora, como o rio que escapa da própria nascente e desemboca no vazio sem nunca ter existido. Entre ruínas, ergue-se o bestiário: os nervos da dúvida desenhados sobre os papiros incinerados, os músculos da incerteza destilando o óleo sobre a pele da noite. Nos escombros de um calendário incendiado, permanece a presença do verbo sem repouso: tremor órfico que não conduz a mito algum, apenas à combustão do iminente.

É a reconfiguração da linguagem na argila da dúvida, vaso que não contém, mas verte. Aqui, os olhos da medusa não petrificam: extinguem. O que persiste é a escrita inscrita na página como o relâmpago sobre o mar revolto, convocando um deus sem rosto, um nome sem boca, um acontecimento sem antes nem depois.

É a hesitação do mundo diante do seu próprio abismo, a oscilação do cosmo esboçado na fuligem de um astro morto. No que sobra do verso queimado, no que sangra do livro ilegível, reside o chamado de um deus que não habita os templos, mas as cissuras do nada.

Nenhum comentário:

Postar um comentário