quinta-feira, 28 de novembro de 2024

Do mar — 28

Dores quebradas. Viveste no movimento do mar. No tom dos salmos, ainda a eternidade das tuas pedras. O dedilhar das matas. Com voltas, traçaste, na tua caverna, parasitas imortais. Foste o bosque, a selva, o caule! No mundo derivam pontos e traços. Aqui, onde há um ar voltado para o aposento, brilha o tempo. Rebrilhares completaram o ondear dos terraços. Uma lâmpada deixada cair. Aqui, ante o mosaico, interrogas desde sempre o riso das artes que fizestes do túmulo. Quem te cercou de cais e manhãs? Quem derramou os verões nas barras? Os volantes de névoa encantando o cais com navios da hora. Pudesse o absoluto romper a madrugada. Eterno erro da eterna viagem. Singre liberto do oxigênio da tarde. Ônix, sombras. Sem pensar na sombra da torre, sobre o convés de ferro, na linha do lago das vítimas, eterno redemoinho. Um filho aos pés do silêncio. À luz de um vapor, mares altos, plagas. Os vapores da chaminé ajuntando na roda do leme. Todas as hélices nesse chão de avarezas. O acaso ninou os rios e um apito alou o instante. Das coisas. A forma dos olhos cobria a planura, e as trajetórias encurtavam o horizonte. Os transeuntes eram sombras. Amigos e algumas estrelas. As formas ao lado do sono. Repouso de cristais. O coração de lua. Os navios de uma noite só. Os saltos das águas e a quilha do barco. Uma filomela. Praia elemental. A solidão dos albatrozes. Os tetos de azul. Antes, debaixo da praia. Ouvir o mar chorar. Um marujo, dizia para si. Recita agruras em danças. Lembra-se do pequeno porto. A voz e um momento ao lado. Nos dias, o dia. A paisagem desalinhada nas encostas. A palidez. O soluço. Atraca e larga. Os medos no medo tantas vezes. O barco já não chega. Alongadas muralhas do horizonte. As idas na chapa da câmara. A casa não se mostra longe da raiz. Lá vem a costa. Ínsula. As extensões cochicham. O chão de sombras de hulha. Faísca, o pânico navegante.

domingo, 24 de novembro de 2024

Tudo isso é o rio dos destinos, é a música da vida


Um único objetivo surgia diante de Sidarta; o objetivo de tornar-se vazio, vazio de sede, vazio de desejos, vazio de sonhos, vazio de alegria e de pesar. Exterminar-se distanciando-se de si mesmo; cessar de ser um eu; encontrar sossego, após ter evacuado o coração; abrir-se ao milagre, com o pensamento desindividualizado — eis o que era o seu propósito.


Alemão naturalizado suíço, Hermann Hesse (1877-1962) se tornou uma grande descoberta literária, com obras como Demian (1919) e O lobo da estepe (1927), onde a obstinação e a rebelião se manifestam contundentemente. O vínculo gerado tanto pelo jovem turbulento da primeira obra quanto pelo adulto determinado da segunda era inegável. Nossa própria natureza indomesticável se via refletida nas personagens. Porém, Hesse também contribuiu para a maturidade por meio de obras como O jogo das contas de vidro (1943), que explora a procura pelo saber até a ancianidade de seus personagens, destacando-a como o verdadeiro traço da orientação do homem. Assim, Hermann Hesse ganhou notoriedade entre os adeptos da contracultura, sendo visto como um dos seus mentores. Com uma natureza insubmissa e um forte espírito contestador, o autor mostrava também um profundo interesse por experiências esotéricas, sobretudo após sua jornada à Índia em 1911, que o levou a se aprofundar na mística hindu. Sua influência se estendeu por todo um período, com suas obras sendo frequentemente encontradas nas mochilas de viajantes nos anos 60 e 70.

Sidarta (1922) é uma obra extraordinária que atrai diversos leitores, mas desperta uma curiosidade particular em dois grupos. Primeiro, é claro, entre os fãs de seu criador, Hermann Hesse. Em segundo lugar, aqueles que se interessam pelas ideias do oriente ou pela crescente influência dessas maneiras de vivência no mundo do ocidente contemporâneo. Hesse tem uma sensibilidade poética e é profundamente atravessado pelos temas que aborda. O seu vínculo com a filosofia indiana é repleta de ternura, porém ele não se subordina a seus pensamentos. O seu propósito não é afirmar a superioridade de um pensamento sobre o outro, mas explorar as lições que cada campo do conhecimento consegue oferecer.

Sidarta narra a jornada de um jovem indomesticável que alcança o saber na idade avançada. Quando, entre os pensadores ocidentais, possivelmente apenas Arthur Schopenhauer (1788-1860) atentara à reflexão clássica indiana, a obra descreve a busca da protagonista pela consumação completa na qualidade de indivíduo — aquilo que os hindus conhecem como Irradiação, a experimentação da união do sujeito com o Todo. Essa foi a grande proeza de Siddharta Gautama, o verdadeiro Buda, que renunciou às questões mundanas, atingiu a Luz e ofereceu o restante de sua vida a mostrar o curso da existência àqueles que o seguiram. No entanto, o Sidarta de Hermann Hesse não narra a vida do verdadeiro Buda, que aqui aparece simplesmente como um personagem acessório. Esse herói é um Sidarta diferente, cujo caminho apresenta algumas similaridades com o de Gotama, mas também divergências intensas e importantes.

Ambos os Sidartas descendem de famílias privilegiadas e compartilham idêntico propósito: alcançar a Luz. Entretanto, suas inspirações e caminhos são distintos. Gotama é filho de um monarca que o envolve em júbilos, tentando protegê-lo do tormento inerente à vida humana. No entanto, o jovem acaba encontrando a enfermidade, a passagem do tempo e o perecimento da matéria, decidindo deixar o lar para uma jornada transcendental. Por outro lado, o pai de Sidarta de Hesse, um brâmane, oferece-lhe uma educação religiosa já na infância. Sidarta, porém, percebe que a transcendência não está em acumular saber, mas em vivenciar plenamente a experimentação — assim, também deixa o seu lar em busca de significado. Para Buda, o ponto central é a suplantação da dor; para Sidarta, a problemática está na insuficiência das doutrinas religiosas, incluindo a do próprio Buda. 

Como Buda, Sidarta vira um samana, um abdicante que leva uma existência itinerante, dependendo da caridade para se sustentar. Enquanto Buda reconhece a futilidade da ascese clássica, que envolve jejuns e punições corporais, e compreende que a transcendência é alcançada por meio da meditação apropriada, Sidarta chega à conclusão de que as doutrinas são inúteis, incluindo as de Buda. Aqui, fica evidente que o autor não planeja apresentar ou simplificar a filosofia indiana; ao contrário, ele busca um diálogo crítico com essa tradição. Essa ênfase na vivência direta, em contraste com o ensino acadêmico, reflete o espírito do movimento hippie, que, influenciado por essa ideia, originou a contracultura. Esse embate é evidente em uma conversa entre Sidarta e Buda, onde o primeiro atesta as conquistas do segundo, porém contesta a eficácia de seus ensinos, afirmando que ninguém alcança a salvação por meio da doutrina.

Sidarta afirma a Buda que nenhuma pessoa pode expressar em palavra ou doutrina o que acontece consigo durante sua transcendência. Depois, ele questiona, de forma desafiante, que existe uma lacuna neste ensinamento, por mais distinto que ele se apresente. Não podemos compreender o mistério daquela experimentação vivida por Augusto, que foi única entre todos. Se a doutrina não proporciona essa compreensão, o que poderá oferecer? Sidarta intui que essa compreensão é alcançada por meio da experiência real. Seu objetivo é eliminar o ego. Ao longo de sua jornada, ele absorve diversas experiências novas. No entanto, percebe que, quanto mais se esforça para se desvincular do Eu, mais acaba retornando a ele. Surge, então, a dúvida sobre estar realmente avançando ou se apenas se ilude ao buscar o fundamental, a Verdadeira Senda. Assim, conclui que não há aprendizagem, só conhecimento. 


Sidarta acabava de abandonar o último mestre que surgira no curso da sua jornada; abandonara também a ele, o mestre supremo, o mais sábio de todos, o Santíssimo, o Buda. Fizera-se necessário distanciar-se dele. Já não fora possível aceitar os preceitos de Gotama.


[…]


“Era meu desejo conhecer o sentido e a essência do eu, para desprender-me dele e para superá-lo. Porém não pude superá-lo. Apenas logrei iludi-lo. Consegui, sim, fugir dele e furtar-me às suas vistas. Realmente, nada neste mundo preocupou-me tanto quanto esse eu, esse mistério de estar vivo, de ser um indivíduo, de achar-me separado e isolado de todos os demais, de ser Sidarta! E de coisa alguma sei menos do que sei quanto a mim, Sidarta!”


Após seu diálogo com Buda, ele decide deixar a busca pelos samanas e retorna à vida comum, proporcionando a si mesmo uma forma de transcendência inversa, um levantar para o universo palpável, apreciando o encantamento e os prazeres físicos. Seus novos mentores — um negociante chamado Kamasvami e uma cortesã chamada Kamala — o instruem sobre como adquirir riqueza e desfrutá-la em busca do prazer contínuo. Com o passar dos anos, a visão de negócios de Sidarta se torna cada vez mais aguçada. Em pouco tempo, ele acumula uma grande fortuna e se entrega aos prazeres da vida, como jogos, bebidas e festas, tendo ao seu alcance tudo o que o universo corpóreo pode oferecer. Contudo, Sidarta se sente desvinculado dessa realidade, ciente de que tudo não passa de uma ilusão. À medida que ele se aprofunda em bens materiais, a insatisfação cresce, e ele se vê preso em uma roda de descontentamentos, tentando se libertar por meio de jogos de azar, excessos de bebidas e relacionamentos efêmeros.

Embora tenha atingido a riqueza e se sinta afortunado, logo cai em prostração. Vagar no Sansara, na quimera do universo sensório, é, no entanto, uma fase basilar para o conhecimento existencial, longe das ilusões das filosofias. Sozinha, a busca mística não é capaz de sobrepujar o domínio dos sentidos. Esse é um mote presente em toda a produção de Hesse. Ele busca a pureza da alma, porém sua lealdade primordial é à progenitora, à corporalidade com a qual a alma mantém um vínculo inviolável. Compreender a uniformidade deste dualismo e dessa contradição intransigente é a maior provocação enfrentada por cada buscador — e a contribuição a esse entendimento é a herança central deixada pelo autor.

Subsiste em nós uma desordem, subsistem os vácuos que, por vezes, nos levam para os perigosos percursos do vazio. A potência do Despertar, entretanto, restitui nossas potências. O verbo do Despertar é mais amplo: é centro de força. O verbo do Despertar é uma tempestade prestes a se formar. Temos, no excerto em alusão, uma ideia de que o pensamento é um procedimento sempre tortuoso e confuso. Hesse, nesse sentido, questiona, ao longo da obra, em que proporção a linguagem e o pensamento estão entretecidos. Subsiste um pensar antes da linguagem? De largada, é praticamente unânime sustentarmos a ideia de que não existiria linguagem sem pensamento (e vice-versa). Mas o que nos declara Hesse? Quais seriam as especulações que poderiam ser empreendidas? Haveria um pensamento antes do pensamento? Qual seria o compasso disso? Todas as reflexões e mais algumas estão em pauta. 


Sei amar uma pedra, ó Govinda, e também uma árvore ou um pedacinho de sua casca. São coisas, e coisas podem ser amadas. Mas não posso amar palavras. Por isso não me servem as doutrinas. Não têm nem dureza nem maciez, não têm cores nem arestas, nem cheiro nem sabor. Não têm nada a não ser palavras. Talvez seja esta a razão por que não encontres a paz: o excesso de palavras. Pois, Govinda, também a redenção e a virtude, o Sansara e o Nirvana são meras palavras. Não existe coisa alguma que seja Nirvana. O que existe é apenas a palavra Nirvana.


[…]


Uma ideia. Pois não. Confesso-te meu caro, que não faço muita distinção entre palavras e ideias.


Hesse não faz concessões quando se trata de raciocínio. Não existem saídas rápidas, como afirmam os respeitáveis filósofos. A urgência consiste na ação do pensamento em si. Quem organiza a desordem? De acordo com Theodor Adorno (1903-1969), se analisarmos a influência crucial do inconsciente na criação — que por muitas vezes é mais eloquente do que o pensar consciente —, podemos arrematar que é o inconsciente que confere coesão ao material ainda não verbalizado. A estrutura física capta sensações dispersas, a inteligência gera cortes de visões tumultuárias, e é o inconsciente que harmoniza cada um desses componentes tangíveis. A linguagem, contudo, estrutura a ação mesma do inconsciente.

Em Sidarta, Hesse explora temas como a busca pela iluminação espiritual e o autoconhecimento. Ele experimenta o ascetismo, o prazer material e até a vida de um homem comum, plasmando a ideia de que o caminho para a sabedoria é individual e ultrapassa doutrinas fixas. A jornada de Sidarta sugere que o entendimento verdadeiro e a paz interior não vêm de seguir regras ou gurus, mas de se abrir à experiência direta da vida e encontrar a harmonia entre o espírito e o mundo material. Para isso, há um só percurso: a sensibilidade conectada, imersa em profundezas de uma memória emocional. É preciso captar e administrar elementos sensíveis, mesmo sem utilizar linguagens, independentemente de quais sejam, pois, no princípio de tudo, há um deserto absoluto, um abismo total. Trata-se do isolamento fundamental da criação, como mencionaria Maurice Blanchot (1907-2003). Um isolamento cardeal para o autor e para o leitor.

Assim, Sidarta se aventura em profundezas insondáveis, nas nuances ciclônicas, nas amplas indagações iniciáticas, nos labirintos da sedução dramática, no venerável criador do cosmos, nas naturezas vitais da ruína, na hélice persistente da recomposição, nas proscrições estelares, nas forças e intensidades materiais, nas manifestações do que é sutil, no diálogo pleno entre o espiritual e o material, nas sequências sensoriais, na voluptuosidade primordial do clamor do livro. Sidarta imerge, galopeia e drapeja em liberdade, criando nas escritas sistemas geográficos, paisagens da natureza, intempéries narrativas, ecos de desordem e giros pluricelulares.


Em nenhum outro momento se lhe haviam comunicado de modo tão claro e lindo a voz e o símbolo do curso das águas. Parecia-lhe que o rio lhe revelava algum segredo especial, alguma coisa ignota, que ainda o aguardasse. Nesse rio, quisera afogar-se. Nesse rio, submergia o velho, o exausto, o desesperado Sidarta. Mas o novo Sidarta, tomado de profundo amor a essas águas que lá corriam, resolvia não se separar delas por muito tempo.


[…]


Não, o verdadeiro buscador, aquele que realmente se empenhasse em achar algo, jamais poderia submeter-se a nenhuma doutrina. Mas, quem tivesse encontrado alguma solução, seria capaz de aprovar toda e qualquer doutrina, todos os caminhos e objetivos, já que nada mais o distanciaria dos milhares de outros homens que viviam na Eternidade e impregnavam-se do Divino.


Para alcançar a finalidade máxima, os mentores se mostram dispensáveis. Sidarta decide não seguir o amigo Govinda e não se torna seguidor do Buda. Contudo, assim como Buda em sua jornada, ele alcança a Iluminação. Sua lealdade inabalável à própria vivência o leva à mesma conquista, sem dogmas, sem guias. O real mentor de Sidarta, além do apoio do navegante Vasudeva, é o próprio rio. Esse é o ponto central que Hesse quer destacar: tudo ao nosso redor pode nos ensinar, desde que saibamos escutar. Sidarta passa anos observando o rio, enquanto Vasudeva o orienta a desvendar os inúmeros mistérios que essa correnteza sussurra. Durante suas reflexões à beira d'água, Sidarta é assaltado por uma visão: da mesma maneira que o fluxo do rio segue seu caminho até o mar e retorna na forma de chuva, cada estrutura de existência está trançada em um curso eterno, sem um início ou um final definidos. O nascimento e a morte são aspectos de uma totalidade que ultrapassa o tempo. Vida e morte, felicidade e amargura, bondade e maldade — todos esses elementos são segmentos de um todo e elementares para a compreensão do verdadeiro sentido da existência. Após Sidarta absorver os ensinamentos do rio, Vasudeva revela que sua missão à beira do rio chegou ao fim. Ele se retira para a mata e deixa Sidarta encarregado de guiar o barco ao longo do rio.

A narrativa se encerra com o encontro de Sidarta e Govinda. Sidarta percebe que a verdadeira sabedoria não pode ser ensinada, uma vez que as palavras têm suas limitações e não conseguem veicular a totalidade da irradiação. A ironia é que Govinda, que se aplica inteiramente a ser aluno do Buda, não chega à mesma conclusão. Ele acaba se limitando a assumir a vida monástica, sem alcançar a santidade. Para Govinda, o mais gratificante é testemunhar a felicidade de Sidarta, ao ver o sorriso do amigo e entender que o sorriso do todo que transcende a superficialidade das ilusões — o sorriso do sincronismo que ultrapassa os ciclos eternos de vida e morte — era o mesmo sorriso sereno, sutil, talvez gentil, talvez sarcástico, que o Buda exibiu e que ele havia observado com grande respeito por diversas vezes. Govinda entendia que era dessa maneira que as criaturas divinas sorririam.


Certamente refleti sobre muita coisa, mas seria difícil para mim transmitir-te os meus pensamentos. Olha, meu querido Govinda, entre as ideias que se me descortinaram encontra-se esta: a sabedoria não pode ser comunicada. A sabedoria que um sábio quiser transmitir sempre cheirará a tolice.


Reconhecendo que todos precisam fundar seu percurso individual rumo à transcendência, Sidarta, depois de atingi-la, não tenta professar aos demais ou auxiliar seus pares a alcançarem a mesma redenção, como realizaram Cristo, Buda etc. Ele simplesmente promove seu modesto trabalho como navegante, levando pessoas de um lado ao outro do rio. A real natureza das criaturas magistrais, conforme sugere Hermann Hesse, é a extrema simplicidade. Os ideais do oriente não se configuram como doutrina, que, na verdade, é uma criação grega, ou seja, do ocidente. Muito desse pensamento não valoriza a razão da mesma maneira e não busca compreender e explicar a realidade como fazem os ocidentais desde os tradicionais helenos. Este modo de pensar — especialmente o Budismo — funciona mais como uma prática psicoterapêutica. Sua abordagem é mais voltada para a experiência do que para a teoria. O intuito é curar ou salvar o sujeito; deseja-se remover do espírito a flecha da escuridão e o tormento que o restringe. De fato, a desconfiança quanto à questionável potência das disciplinas é também um hábito budista, ao menos a partir de quando Nāgārjuna refutou coerentemente a viabilidade de uma abstração lógica, num movimento frequentemente comparado ao realizado por Immanuel Kant (1724-1804) em Crítica da razão pura.

Para realizarmos uma introspecção, é necessário ir além do ego, ultrapassando a individualidade e as predisposições genéticas, mergulhando nas profundezas do mundo arquetípico. Hesse acreditava convictamente que conseguimos transformar o mundo ao mudarmos nossa maneira de percebê-lo. A aflição, a desgraça e a deterioração individual surgem da maneira como vivemos a vida, influenciados por nossas posturas e perspectivas deturpadas do mundo. Semelhante aos existencialistas, Hermann Hesse observava o ser humano como refém de suas próprias criações. No entanto, ao contrário de Albert Camus (1913-1960) e Jean-Paul Sartre (1905-1980), ele propunha que a resolução das dificuldades do ser humano poderia ser alcançada por intermédio de um despertar espiritual, que exige uma busca interior. No caso de Sidarta, ele não visa seguir um ensinamento específico. A verdadeira realidade não pode ser aprisionada em conceitos ou ideias, destacando a distinção entre o puro conhecimento e o anseio de aprender. O caminho para a iluminação, em sua visão, é uma trilha solitária e não acessível a transportes públicos. A jornada precisa ser perpetrada individualmente e sem obstáculos, já que a verdadeira ciência não pode ser transmitida.

Os hippies receberam Hermann Hesse com entusiasmo, com sua metodologia de existência que mesclava a ousadia sexual a prazeres sensoriais, bailantes, melodiosos e o enlevo proporcionado por matérias psicotrópicas — tudo isso amalgamado em uma dimensão de reflexão espiritual. Para o movimento hippie, não existia conflito entre desfrutar o mundo material e desenvolver o mundo espiritual. O acento do autor na importância única da vivência pessoal expõe uma perspectiva centrada no indivíduo. O que realmente importa não é o dito, mas o experienciado; do mesmo modo, a importância não está em uma irmandade religiosa, mas em todo o indivíduo. O sentido da vida é uma demanda que tem importância apenas para cada sujeito, como seres únicos que somos; é, portanto, uma busca pessoal, e nem mesmo a figura de Deus é suficiente para englobar a totalidade. Hermann Hesse se mantém inflexível e destemido nessa postura. A salvação é viável, mas é responsabilidade de cada um descobrir seu próprio curso. E esse curso é exclusivo, não podendo ser compartilhado com nenhuma pessoa. 

A valorização da experimentação direta é um dos pilares do Zen. Da mesma forma, os costumes tântricos também reconhecem a importância de diversas vivências, até mesmo as que a religião tradicional poderia rotular como profanas. Portanto, não podemos afirmar que a perspectiva de Hesse seja inteiramente inédita. Na verdade, não é. No entanto, o verdadeiro encantamento de seu Sidarta brilha. Aquilo que nos impressiona é essa natureza sobrenatural, que não existe nas doutrinas e nos tratamentos psicológicos, o encantamento presente nas artes poéticas e literárias. Em última análise, é o encantador entusiasmo de Sidarta que evidencia a real profundidade desta obra brilhante e verdadeiramente extraordinária.


— Não brinco, não. Digo apenas o que percebi. Os conhecimentos podem ser transmitidos, mas nunca a sabedoria. Podemos achá-la; podemos vivê-la; podemos consentir em que ela nos norteie; podemos fazer milagres através dela. Mas não nos é dado pronunciá-la e ensiná-la. Esse fato, já o vislumbrei às vezes na minha juventude. Foi ele que me afastou dos meus mestres. Uma percepção me veio, ó Govinda, que talvez se te afigure novamente como uma brincadeira ou uma bobagem. Reza ela: “O oposto de cada verdade é igualmente verdade.” Isso significa: uma verdade só poderá ser comunicada e formulada por meio de palavras quando for unilateral. Ora de unilateral é tudo quanto possamos apanhar pelo pensamento e exprimir pela palavra. Tudo aquilo é apenas um lado das coisas, não passa de parte, carece de totalidade, está incompleto, não tem unidade.


quarta-feira, 20 de novembro de 2024

Do mar — 27

A rajada cruza ao largo. Olhos cultivam prantos. Retorno da primavera. Da filha, a recordação dos ventos. Berços rodeados. A manhã nas fendas. Os frios do lago. As plumas flanqueiam. As luzes da aurora. No rosto da terra, as palavras nos lábios. Sopros do outono. Ruínas aladas, as folhas. Sementes no túmulo do bruxo. O inverno se reparte. O espírito de um mestre anima os discípulos. Joga vestígios no lugar do pasto. Perfume dos rebanhos. Os botões de par em par. O cântico goteja nas fontes. As vagas se iluminam. Madeixas fervilham na superfície. Pelos domos, a noite vai se edificar. Vapor de chuvas e fogos. Granizo enorme. O rumor do Mediterrâneo, correntes clássicas. Sob o espinho da flor, a fuga tem sido. Sua hora está aberta. Voos da forma. Ignorantes sobre terra, esgotados de caminhos. A madrugada sonhada. Clarinada de novos terremotos neste chão de vila, de luz a luz, do escravo ao senhor, de vapor a vapor, luar.

quarta-feira, 13 de novembro de 2024

Do mar — 26

A angústia seguia. A janela das madrugadas. Navio perdido. Erguia-se a essencialidade do sentido como nascido. Revelações morrem na hora. Bulício atento ao erro dos navios. Instabilidade erguida. Um propósito abre projetos no dia, embaralha a tormenta dos marinheiros, dispersa a tábua dos oceanos, eclipsa-se. Num frio de pampeiro, giram barris, óleos, verdes. A embarcação dispersa as coisas do espaço. Os portos com tripulações e construtores. As aventuras de prata espalmam espíritos. Esgarçam luzes de ordem. O imediato do paquete. O estranho canta atrás dos alojamentos. Partidas se prolongam. Os mares e as manhãs a bordo. Nexo das horas. Homens de proa! Dia de partida! Tripulação a bordo! Previsão de tempestade! Que as vergas da embarcação e os molinetes do nada sejam vultos! Os tremores que se escondiam e as eternidades que já olhavam. A paisagem correu as encostas, nas barbas, os olhares, empalidecidas mãos. No mar de rubores, menestréis admiram faróis cintilantes. Uma asa bate, o menestrel gira os mastros, compreendidos os gritos. A vela foi erguida. Marinheiro, role sobre a terra: reminiscências e afinidades. Do vento noroeste ao vento sudoeste, sobre o convés e a direção do vazio que banhou o lugar. Levanta o manto: a previsão de dias. Velas tricotadas de ossos e dentes. As portas! As janelas! Os potes! As panelas! O fogão! As portas! As janelas! Os potes! As panelas! O fogão! As peças! Os beliches! Os jornais! E lá os homens, as embarcações, os mares e os dias flutuando. A lã do suéter e o tecido, uma jaqueta, a ilha da agrura. A voz dispara a sotavento, entre dias e noites. Golfinhos desfalecem ao meio-dia. Marinheiros sufocam momentos na proa dos barcos. Sobe o Cabo Horn. Um torpor de olhares, de lugares noturnos. Em tuas terras, fluirão sacos de café e de chá. Teu biscoito e tuas roupas serão as únicas coisas em tua caixa. Em todo o pélago, nada desses traveses. Brigues que giram nos livros. A quilha já falecida desce a espuma. A alcíone da ilha grita. A calmaria está à venda. Os ministros estão caindo. Só pode ser o rouxinol da ilha avançando. Esta mansão com odor de limão em flores. Pálpebras na chuva. Musgos se enraízam, setas e dardos se reúnem. Que estrelas! Branco salpicado de pés. Os tetos dos pombos. O túmulo dos pinheiros! Os ferros ardem, cinturas se dilatam, escorrem balas e chumbos. A alma se atira das tochas.

quarta-feira, 6 de novembro de 2024

Do mar — 25

O navio levará. E há de voltar às cabines. Só então o viajar. No éter germina a faísca. Quando a terra apodrecer, continuará o dia e bailarão os marinheiros diante das espumas. Viajante perdido. O líquido das sílabas vem ao mundo. Os livros, os destinos, as reminiscências passam em redor. Apagai a canção de mar. Todos os oceanos dos livros foram reproduzidos. Uma rua conduz a mesmice logo abaixo da calçada. Para o caminho do mundo, o porto é impossível. Voam nos olhos dos navios. Nos portos, a mão do mar repete. Um farol usurpa faustos. Veio com o rubor do sol. Sacode as brisas que pousam nas velas. Sacode as flâmulas que levam o sorriso. Sacode as escadas mais altas. Fumo nos salões, nas marés das cavernas. Veja as ondas nascerem sem que o mar as levantasse. Veja como os alvedrios se esculpem em adágios. Veja como as vagas se tornam sinais. A brisa irrompe. Veja como pairam os cetros cheios de repouso. E todo o ânimo jaz turbulento, cheio de fruição e orgia. E os dias ficam abertos para as terras por onde os sonos fogem. Algumas palavras dirigem-se ao navio de ar. Alguns cantos de sereia. Então era esse? O pirata volta. Feras se juntam. O Sabbah de sangue e as carnes. A espinha das mães é pisada por crianças. Dar andor, escarcéu de explorador, rastro rude, enervado. Os inimigos gemem no passar da esperança. O horror bate e os seios ardem. E a vida é tomada nas cabeças. E esta ilha que implora sem que a sorte lhe responda? Todos os relatos ainda se movem em lares flutuantes. Incógnitos ventos semeados. Cada névoa, cada pendão, cada império na manhã do cais desaparecia. Nesta barra só há fumo. A hora da náusea. Como é estranho o cais. Ele navegava.