quarta-feira, 25 de setembro de 2024

Do mar — 19

Criança, não navegando, navega. Relíquia nascente, ainda navega. Dentro da gruta navega outras relíquias mais. Há sempre, dentro do rio, outros rios. Nenhum está sozinho quando navega. Não há lua. Não vá crer (como poderia?) o oceano feito de olhos, ilhotas e manacás. Lascivo mergulho das mãos. Dorso do homem de cristal. No espelho, o grito cumpre o gemido. Aqui, a linguagem anda entre mares, mais ardente na ardência. A imagem escuta imagem: estrangula o beijo. Tu sobes com os mares até os pilares. Aí olhas o abismo. Vento da tua terra. E mostras aos acasos. Escuta, as coisas abrolham no elementar mar, e a lua crê na agonia dentro da fogueira.

quarta-feira, 18 de setembro de 2024

Do mar — 18

A marítima cabine, por oceânica cabine, os infinitos azuis, expandir a partida. Vento cantante a musicalizar a onda. Ondular com o brigue,  solidão animada, adensar marinhas na vela. Se você soubesse quantos fervores içam-se, quantos fervuras se rompem, o éter a faiscar! Espumas viajantes de cada dia. As noites pelos marinheiros. Ondulado convés, pés e latejo difuso. No fluxo do refluxo fervilha o tom de vagas ocultas dos mundos. De sais, todas as sílabas. Um ranger ritmado se instala: cordame melancólico. Destinado livro, veleiro da inclusão, folhas e velas içadas. A queda é ramo firme. O anjo dos relâmpagos na chuva. Madeixas, tempestades, fímbrias da grande sombra. Bravo, fúnebre. O cântico, noturnamente, passa. A fronte volve à Zênite e à Mênade. No domo sepulcral, as abóbadas giram. Na força, a atmosfera vaporiza, fumaça, o fogo saltado e crepitado do sonho. O embalo rumoroso e corrente de todos os cristais agitados. E alguma pronta angra encontra uma só torre recoberta. Recoberto palácio, no qual viajam os desmaios. A planície atlântica das flores submarinas que, mais do que célere, mais do que afogado na voz seivada, empalidece já perto. Todo o despojo das escutas: as folhas. O companheiro e a fuga nunca logram. Cada súplica se ergue de espinhos. Túmulo da queda. Aquele que naufraga nos lábios. Aquele, professa. A trombeta que esmaga. Enjoos se prolongam. As horas e mares do sentido. Manhãs de distância, entrada do primeiro paquete. Almas vagas, brisas de porto. Oh, barcos, vida, manhã, fumo! Maiores do que orlas e ares. Desertos do cais progressivo na solidão absoluta do mais além de um dia.

quarta-feira, 11 de setembro de 2024

Do mar — 17

De um navio, entre flutuações de água, almas vivas, vozes partidas e tremulações. Acorda o dia no porto. Paisagens de encostas e cabos. Solidões de bulício. Cais de negrume feito, refletindo a água de espumas, navios de símbolos errantes. A hora e a cor. Embaralha o cais dos cais anteriores. Disperso o porto dos portos. Chaminés fabris e proximidades. Carvão preto no chão, pequenino, visibilidade absoluta: cais, portos. Este som como o dardo de vidas tão mortas. Aquiles do passo imóvel. Perdeu de vista as almas surgidas. É esse o pé mesmo. Perda da hora. A onda! Ímpeto. O delírio e a grandeza são postos à pele: o manto do sol com os rasgos da pantera, azuladas carnes, devoradas por hidras na absoluta luz como caudas. Traspassavam os livros, liam a vaga. Aos apagamentos. O gosto das formas sucessivas. Tropeçar do metro. O reduzido exílio da separação. O vivido homem das colunas erguidas. As dores numa arca puseram. Em sobressalto e desespero, os luares vetustos do fundo. Numa carta datada e mofada, o conhecimento de pé, a espingarda estendida na quinta. O país e seus vidros nos outros corações, cada um segundo na memória, dilúvios libertos. A pausa, ao subir e descer estas vagas, fica quase branca. Acaso o nome não é água? Nas velas do navio, sonham as flores. E todos os vultos caem em duplo no arpão. Arde a paisagem por dentro, e os organismos transbordantes agem e agarram delírios que em saias andam sobre as rendas. Das profundezas do cruel fardo, abominável coragem, retirado em franzidas almas, reservadas para as ânsias loucas, a relíquia ilegal: o corpo vazio. E entre os fundos, que se abandonam, levanta-se a nau. E a sombra de portos desdobrados arde na alma sem tempo e com todos os dele, indevidamente.

quarta-feira, 4 de setembro de 2024

Do mar — 16

As linhas giram as extensões da vigia. Criaturas de carne e pele. A manhã de verão pisa. Sacolejos do ar traçam algo. Aceleração dos paquetes, das entradas. Doenças inexplicáveis e ocas. As saciedades espiam: vagas de vácuos. Tédio já cheio de dores partidas e repartidas. Na nitidez do navio, o perto é gente de outras fugas. Desejais que eu fie? Os olhos confortam dentes. Defendidos dedos, retornos! É a cilada. O perturbador passo. Uma madrugada luzente se tais aparecimentos se ausentam. A âncora não desce. A veemência anda muito visível. Tateada bússola! O frescor dos palmares cai aos pés de outros brilhos. Muito além da nudez, estes banhos espraiados. A água voa e o cabo explode. O vazio rolava apartado. O limite dos entes insinuava-se entre as bordas imponderáveis do mundo onde, por instantes, vagava. Não teria ele zombado do reino? Não existe medida aceitável que possa arrombar as colunas dessas salgadas balanças? O tempo navegará quer queira, quer não, em nós, sem nós.