quarta-feira, 28 de agosto de 2024

Do mar — 15

As hélices. As gáveas indeterminadas totalizam algumas linhas de costas. As flâmulas. Os gualdropes se perdem achatadamente no horizonte. As escotilhas rasgadas de cabos e ilhas areentas. É o vapor iluminado. A árvore. O laço. O canto e a veia. Barco de ar. Dos dois remos, quaisquer ânsias, redes distantes. O roçar de cordas, de perto, ao longo das muralhas e ao redor das câmaras. As chapas das salas. A barra negra da passagem, navios vistos dos portos. Ramagem. Engula o ócio do corpo. A fronte, o osso, a terra, a centelha sobre as ausências, a lembrança toca o terreno. Áurea pedra! Sombra da árvore. Preguiças e futuros arranhariam securas. Diadema, perfeição, segredos selvagens. A noite caminha sobre os mármores pesados. O diadema grandioso mostrou defeito. O povo e as errâncias partidas sobre uma raiz de árvore. A rosa simbólica. Há curvas cintilantes e espumas, as democráticas gargantas. Mandava ao longe os luzires dos amontoados corpos. O nome das colinas, o meandro dos espantos. Até parece intriga de máscaras coniventes. Sonolência longínqua, imobilidade de ventos brancos. Os pingos erguidos acima do convés, carminando lentamente o frio Capitão. Os finados jazendo no alto, todo cheio de uma fremente flâmula. Trompas trinadas estalando como se fossem sinos. Estava ali o levante das guirlandas e, em torno delas, os laços mais tensos. As massas de rostos mais clamantes, magnetizando tudo. Roubaram de repente o sonho caído do braço do finado, desfraldando a nuca erguida acima do convés. As praias chamadas derrubam os nomes. Arrojam as ausências. Guardar numa fuga criada o caminho da mão a colher as ervas.

quarta-feira, 21 de agosto de 2024

Do mar — 14

A modernidade lenta, engenhada no beijo maquinal. Estrangeiro de madeira, sem educação, estende os pés de vida oca nos mares antigos. Um puro peso conduz a liberdade abaixo das lembranças. Sabedoria viajante: alguns pés das ilhas de morte e os afogamentos contornam as andanças e as falas. Para a vastidão da beleza, a perdição é inconcebível. O barco profundo é travessia só de ida. Águas nos pulmões. Não soam mais os acasos. O apito no rio tremido. Alguns psiquismos, vida de brinquedos. Quilhas velhas. Na ânsia de procurar velas nos mastros. As cordagens devem conter as confusões mais febris. O leme. A roda deve ser tão imaginária que desiste. Queimam os sóis, latejam os tempos! Ao segredo? Os véus, as chamas, os sonos! É a boca, a forma extinta! Eram belezas de céus transfigurados, estranho orgulho impuro, o abandono e o espaço, as nuviosas mortes. E é ainda a tocha! Mais tarde, os olhos da criatura serão menos piedosos. Os sóis, os mares aguardam só a subida, mas a estátua vive de gestos. Certa é a cor do barro. Lá se foi a liberdade – o vosso fundo é. Quê? O coral abafado nos búzios. Sob os lisos dias emerge a surdez do desastre. Ao longe, no mar azul, aos brancos das pedras, já se agitam. Soar o começo, salgo. Abandono das sílabas. Os rios da cidade abrem o nome das coisas. Batidas de palmas. Enfunado navio de palavras. A voragem dos sinos. O carpinteiro em forma de morcego flameja na viga, soltando a gaiola. Em frente, segue a badalada, arrojando a edificação recém-exposta no ombro batido.

quarta-feira, 14 de agosto de 2024

Do mar — 13

Dilatação consciente! Quantos êxtases crescentes se deve! Avança o boato. Da cegueira à arruaça, giro. Achava um marinheiro a amizade antiquíssima demais. Alma venenosa, chamando águas. Depois da travessia ligeiramente longínqua, a caverna. A abóbada celeste e as narrações sinistras. Arrasta-se a escuna, uivando a mão curtida. A escuridão da boca. Absurdo marulho, nitidamente sonhado, o volante sacudido e a corrente transmissível do cais. As velas clássicas da literatura. Álvaro de Campos. Que navegação! O teto do pombo, tumba fremida coberta de tombados pinhos. Prolongado o mar. O diamante foi sempre furtiva espuma. Aff! O rio corredio das cavernas: rito solar. Escolheste-me entre mistérios. Mancha rara. As danças sinuosas abandonaram. Ancestral voz. Cautela para sondar milagres. Os saltérios! Os cantos! Os montes! Havia sido cantado pelo mau tempo. Este vento criou o sussurro dos búzios e o silêncio o dispersou nos cabos. Os balanços, os pressentimentos! O barco quando menos se espera; os poemas surgem vermelhos num só teto. Um fado de mesmices acima das ruas, as calçadas e casas apartando o sótão, caindo feito terra da embarcação. Outros júbilos nas novas. Atracar! Atracar! Retorna o erro da cisma. Vai, naval evocação, amplia a crônica. As camonianas lutas e a sulina ressurreição. Livro ocidental. As linhas da pauta, correnteza dupla, enquanto a flauta orna os trinados da infausta nota. Fachadas longínquas, libertando os ardentes nômades. Refúgios do livro. E agora terá fim e maré!

quarta-feira, 7 de agosto de 2024

Do mar — 12

O capitão dos navios concentra os cachimbos dos ventos onde escuros sóis avançam na chuva. Acima do peito das mais tatuadas âncoras, um homem bordado pelo imenso rosto da fúria. Nos mares, safras de vidas vastas rompem em estrídulos e cios. Silvos em volantes. Lá em cima (onde?), os assobios nas carnes. O chamamento de canções ferve. Que vento desperto, que manhã estremecida vai devolver os olhos mais corados? Via no bote o movimento brusco, e o som encosta o navio. Nas baías, nos cortes de horror, sem alcance, sem chumbo, sem altura, a inundação oprimia a profundidade aturdida. Oceano ou céu, repara? Pelo som, o medo sacudido, o sonho afogado. Fragor no monte! Repetida exceção, o movimento de lábios, um milhar de rezas. Histórias e relatos. A maior incerteza é prover de histórias os contos tétricos. Lugares, homens, escutas, casos, clamores, portas! Ao desembarcarem os comensais, núpcias, almas, vazios, bordas, velas! Recebe o branco a vastidão da barba. Enfim, o desenho. A cada coluna, outros sais circulam. A baía de nomes. Já não era o caniço a ondulação de fins, antes o caniço grande girando célere numa coberta e ao toque de Hera. Vivas jornadas, tenebrosas selvas, verdadeira estrada, a memória. Panteras de pele de malhas cambiantes. Astro rodeado que foi adormecendo. E, quando a alma lhe beija a dor, cai-lhe da hora a infusão do pavor no peito dos leões. Precipitou-se vogando em vão os escaleres, os querubins flutuantes. Arlequins de graves andas, tonitruantes arsenais, oficiais trôpegos, as portas, os lares e cabelos. Em ruínas, as obras nos cardumes dos rios. Então, as hercúleas corridas sombrias emergem em torno da sacudida anca. Com embalo e opulência, conduzindo pilastras na pele podre, em profunda e soturna infecção, a terra.