Estou em abstinência. Sou tomado pelo sono do princípio. Há dias que não leio, e todos os meus sonhos são cercados. Animal adormecido, morno e sereno urso recluso no próprio silêncio. Para muitos — sei —, isso nada significa. Mas sou um baú trancado, cheio de manuscritos, tentando atirar para a vida alguma narrativa, os meus mundos impossíveis. Eu, que abro livros atrás de livros, buscando toques, atritos, fricções no corpo, sinto-me ignorado, proscrito, pela impermanência brutal das palavras. No pensamento, em todos os sentidos, tudo é muito, e os tesouros que os livros guardam são o meu segredo. Eu, que sempre durmo com a palavra impressa no silêncio, meu silêncio, desviando-me e trilhando outros caminhos, consciente de que tudo é caminho, não consigo ruminar e sofrer em palavras nos últimos dias. Ausência, minha abstinência, forma fechada, renunciaria a todo o pensamento para te ver com todo o corpo — palavra.
Mas são dias impossíveis.
Tudo se iniciou abruptamente, como sempre se iniciam os espantos, como quando a luz amarelece lentamente, exabundante, baço de brancura. Criei uma ilha de tempo, assim é o imprevisto, tempo desligado do Tempo onde a existência instável continua e se prolonga qual anel de fumo, à espreita, como quem nada deseja — e depois avança. Nesse segundo, a lacuna entre as coisas ganha outras dimensões, e os sons, mais ampliados, dilatados, avançam desligadamente. Não há nada mais estranho, piedoso pensamento, assombro mais próximo que deixe chance ou tempo para a nossa defesa quando tudo se inicia abruptamente. O amor diante disso é sem fim.
Eu estava num evento, contra a minha vontade, mas desejoso de me inclinar sobre qualquer inteligência, sincera, qualquer coisa que não fosse eu mesmo. Mas, até aquele momento, não havia nenhuma troca. Reconheço-me culpado. Mesmo quando ouvia algum poema, mesmo de poetas que admiro, os versos me chegavam cortados, incompletos e distantes. Todos liam os textos de todos, atirando, de quando em quando, falsos elogios, entre a verdadeira timidez e a transtornada presunção que assola todos os escritores. Esperava-me o texto que desconhecia, enquanto, sem saber, fazia-me ausente para que ele me desejasse. O calor, que parecia crescer, parecia estar, enquanto calor, gélido.
E tudo seguia assim, até que algumas palavras me chamaram a atenção. Para isso, nesses momentos, não há defesa. Pela pequena fenda das portas encostadas, ouviam-se as palavras que entravam, que não eram boas nem ruins, mas que me despertavam um desejo absurdo de sofrer, uma intensa angústia pontilhada na palma das mãos. Quanta angústia me causava o barulho daquela respiração ao tiro das palavras! O seu som era outro. Esperei o término da leitura, de longe, mas me sentindo tão perto daquilo tudo, daquelas palavras, prisioneiro da incerteza daquele suspiro. Era um silêncio que entrava com o som, onde cada sílaba era uma pequena ignição por entre as máscaras que exalam o sussurro da vida estacionária, fechando toda a atmosfera em pétalas, causando uma incógnita inquietação a cada página virada. Ouvi a minha fragilidade, e a minha ignorância estava diante de mim, na própria configuração do espaço, como uma interrelação divergente de todas as coisas, como planos que mudam e cingem a maneira das luzes, dos sons e das cores.
Quando acabou, perguntei a quem pertencia aquele texto de homem perdido na própria jornada, fantasma na própria casa, municiado de mãos outras que aprisionavam os seus movimentos. À minha pergunta, todos gargalharam, como se aquilo fosse algo do reino do inesperado. Preso por membros que me seguravam os movimentos, não conhecia sequer o número das mãos que me atavam e me perdia para lá delas, a cada frase, numa inteligência capaz de sustentar linhas de forças opostas, ideias dissonantes, e, mesmo assim, fazer tudo funcionar. O absurdo, então, despencou sem preparo ao saber, por vozes amigas, que aquele texto pertencia a Bernardo Soares.
Soares? Teceram aquelas mãos as próprias sombras onde se mudam o vazio pelo vazio e, nele, a madrugada rasga a madrugada? Soares…
Mas… Não somos corpos fadados a tragédias; somos tão somente escritores, canetas com tinta neste mundo, corpos de palavras, algo de Hemingway para Fitzgerald — rasgado por Ruy Belo?
Como eu não reconheci aquele texto de Soares? Como? Logo eu, que também me julgo escritor, não um corpo trágico, detentor de desertos e covardias, substâncias e conformidades. Como não reconheci aquele texto?
Entendam ou não entendam: aquele texto me expôs a uma fraqueza tão ingenua, apresentando o meu rosto de pequena resistência, sobretudo porque eu não o lia há tempo. Que estupendo o mundo da arte, que faz de nós o acaso, a cisão, a cicatriz e o signo! Alguém tinha o livro e resolveu ler aquela passagem de supetão, e, por ela, senti-me andar por entre livros, buscando o caminho de volta à casa, livrando-me da abstinência.
Quando não reconhecemos um texto, ele pode pertencer a qualquer um. Suas palavras são finas camadas de gelo sobre um mar de escuridão e caos. Sua emanação, o texto — o anjo de pé no sol ou o demônio de pé na lua. E, pior, ao ouvi-lo, ele não me soou conhecido, nem levemente. Houve um abismo entre nós, ali, mas éramos nada um sem o outro. Ele me despertou uma estranha impressão, dispersando em mim todo o seu vigor, toda a esperança da esperança, numa espécie de percepção anônima, numa sequência de modulações que suscitou a minha presença pela sua presença. Veio-me uma vontade de agarrar tudo aquilo com força e, ao mesmo tempo, de dar as costas e sair.
Agarrei com tremor o texto rebelde e o virei do verso e do avesso, numa fúria de inércia e num ímpeto de vontade de plenitude, equilíbrio e abatimento. E tudo surgiu como surge um prodígio. Estavam naquelas linhas a sombra de múltiplas vozes, Amiel, Milton, Chateaubriand, numa combinação estranhíssima, expulsando de mim, da minha terra, toda e qualquer impotência. Era um ser sem forma, tudo e nada, sem a distinção de seu criador, vivendo, entre espasmos de luz, em alheadas florestas, esperando o ribombar do trovão em nosso ouvido labiríntico, o estrondo-Babel, o silêncio.
E Soares? Procurei-o em cada frase, o seu passo, enterrado sob o céu cingido que sustenta a sua intacta distância. E Soares? Examinei entre as vírgulas aquilo que nele se alarga na boca da terra cindida. Soares? Procurei-o nas entrelinhas, onde se veem os astros caídos, rastejando em volta de mim, arrastando as heranças do inferno. Soares? Desenrolei a trama. Não será o término de sua errância o que se vai ouvir? A trama. As suas extremidades. O ângulo pelo qual entramos audaciosamente no reino dos olhos, como diria Valéry, o argumento que repousa ainda, repousando-me. Os personagens? Quais? Ainda é cedo para renascer. A linguagem? Na linguagem? Mas temo regressar aos pensamentos nefastos. E Soares?
Não. Ele não estava ali. Aguardemos que o trabalho ingênuo e monótono da vida deteriore ou destrua, grão a grão, o instante que nos divide ainda. Aguardemos um silêncio de leitura. Nela, fui, sou, serei, sozinho na noite fria, esmagado pela sensação de impotência.
Falam que ando roendo os dedos. O que será deduz-se do que não é, e a noite avança velozmente. Tudo é mentira. Eis porque a minha ternura paira sobre as brancas margens, desérticas. Tudo é mentira. Essa coisa se mexe. Essa forma muda de forma. Desenham os lábios o gesto do discurso que cada homem tem para dar. Entrei em jejum de livros. Ninguém a ninguém o pronuncia. Ando me arrastando pelos corredores. Há um chamado, um amor, um chilreio isolado no universo. Olho espantado as estantes. Sem laços e sem alguém ou algum outro. Rumino um silêncio de leitura. Um cenário de territórios bombardeados.
Cresci pensando que a leitura me ajudaria na escrita. Que tristeza tão inútil essas mãos que avançam unidas e separadas. Busquei estilos, imagens, frases, flores, as palavras mordidas uma a uma, todas. Mas para que me serviu esse empenho de leitura? Abertos, os livros são o esquecimento; fechados, são pálpebras de sono, taciturnas, flamejantes, zodíacos de névoa, labirinto de linguagens. As mãos e os ombros dos braços inflexíveis. Há experimentos de luz e sombra, devastadores ataques de ressurreição para escrever um texto sem dono, voz ou assinatura, um texto que será abandonado, recordado, recontado nos lábios dos que se tocam. Eis o grande cansaço, a dádiva, os corpos concretos, os desassossegos, os projetos e o grande dia.
Quanto exagero e pessimismo! Ser pessimista é tomar tudo como tragédia. E esse gesto é de um excesso e de uma inquietação. Sério, mas prefiro ser levado a sério como aquilo que não sou, excluído humanamente, com honestidade e simplicidade, do que ser compreendido. Eu lia, pensando que me alimentava, pensando que pensar fosse existir e que sentir não fosse mais que o alimento do pensar. Nessa voragem, assimilava sensibilidades, apreciava estéticas, criava referências, descrevendo a semente da alma como a consciência da consciência, sentindo nisso uma correspondência direta com o espírito.
Não! Sim! Sim e não!
Elas, todas elas, me absorveram e me tragaram. Fitei os traços de absorção e dispersão que nelas estavam manchadas. Era uma absorção no canto do incógnito que embalava o que em mim sonha e não consegue sonhar. As estéticas e as referências me sequestraram, sabendo da imperfeição que paira sobre toda a obra, e que a menos segura das contemplações estéticas é aquela que produzimos. Caso simples: crise criativa. Como invejo os que escrevem romances, que os iniciam, seguem e finalizam; os romancistas de verdade, aqueles humanos realmente simples, capazes de dar largas à imaginação até ao infinito. Talvez eu só precise processar tudo isso. É uma impressão de abismo, um apetite sem desejo de comer, tão pobre como estas percepções do raciocínio, do estômago, surgidas de não digerir bem.
Sozinho com os livros, notei que minha inquietação era, de fato, decorrente de indigestão — do mundo exterior e de todos os outros, um desespero inestético, como um efeito nos sonhos de uma má digestão de trasgos, duendes, ninfas, demônios e anjos.
Estava cheio de leituras dos pés à cabeça, múltiplas assinaturas, às avessas e ao invés. Todas as páginas dobradas em diversas partes, as quais correspondem a toda a minha vida, juntam-se nos nomes traçados nos papéis. Mas não existia entre eles uma lacuna para que alguma palavra nascesse, o vazio onde me deixo cair quando estou sozinho, a frase que, como um navio bêbado, rasga o espaço e se estende. Enjoo. À tarde, no rubro poente, flamejante, dum reflexo de chamas, ganham os navios grandes adornos sobre as ondas e vão seguindo a flutuar, ora através do rubro, ora através do verde. Muito enjoo, mas no espírito, cheio de imagens imaginadas.
Vomitei para aliviar o ímpeto de vomitar. Vomitei palavras, muitas, palavras, palavras e palavras, observando a maneira como galopavam, como ondulavam as caudas e as crinas, desejoso de alçar voo com elas, num fluxo incessante, furibundo, fluxo e refluxo de um mar vasto, pontilhado de constelações, ignições, fosforescentes e rútilas, movendo o seu dorso glauco. Escrevi de tudo, ouvindo soar em mim uma cadência familiar, sentindo passar pelas minhas mãos todos os poetas, suas palavras que estavam adormecidas em mim, elevando-se, aos poucos, subindo e descendo, e voltando a subir e a descer, dando passividade a todos, enquanto lá longe os sinos dobravam (pelos mortos?), sim, os signos, e, quando soar para mim o sino silencioso do declínio e da partida, eu também serei o que aqui falta, plagiador ancestral lançado ao fundo de qualquer armário, fingidor, é certo, mas tão verdadeiro, ao som dessas campainhas que são antes uma afirmação à vida. Repetia o existente como se o criasse, como as paisagens, que são repetições, meditações abstratas onde nos perdemos, onde enxergamos, sem enxergar, os cenários aquáticos que eu me entusiasmava ver.
Será que é isso? Será que a minha mania de me colocar no espírito dos outros fez-me enxergar-me como os demais me enxergam? Será que é a ideia de realizar algo já realizado que nos faz sentir como se não estivéssemos de fato realizando? Mas o que temos é somente a convicção da nossa péssima escrita, no instante em que escrevemos, e a única obra verdadeiramente grandiosa é aquela que jamais pensamos executar. Todo o nosso trabalho inventivo não passa de uma imitação? A imitação de uma ideia dos clássicos onde tentamos desenhar, numa matemática gráfica, as impressões artísticas da nossa alma cambiada? E todo esse espetáculo não passa de uma simplória imitação deformada do que eu deveria sonhar? Será que é justamente dessa consciência da imitação, dessa atmosfera nebulosa em consciência de si mesma, dessa inquietação fragmentada de não escutar a própria voz, desse vazio que tem a sua pátria e a sua voz no silêncio e na solidão das águas, que surge lá no fundo alguma coisa verdadeira, alguma coisa de real, digna dos olhos abertos que conferem a tudo à existência? Um pequeno risco de autenticidade que plasma, na página, uma trilha? Os seres autênticos só se mostram por inteiro na imensidão das sombras, numa riqueza verdadeira de se estar vivendo sem notar, enquanto andam e pensam em várias coisas. É algo que só quem está pleno pode fazer, desfrutando não ser nada com a totalidade da tranquilidade espiritual, deitando-se no colo cobalto das próprias aspirações. Será que essa consciência que nos traz a impressão de que alguma coisa é autêntica só nasce porque conhecemos outras coisas, outras palavras, que surgem de nós num processo que não é mental? A cópia é mais sofisticada que a autenticidade em condições primitivas.
No labirinto de palavras, entre livros que não me pertencem, escrevo-me e ocorre-me que sentir, pensar, desejar também podem ser marasmos, monotonias, diante de um sentir mais meu, de um pensar mais particular, de um desejo esquecido no emaranhado do que verdadeiramente sou. E tudo se me desorienta neste labirinto onde, comigo, me perco de mim, no mesmo segundo em que me desloco por veredas, transformando minha alma num intrincado enredo de sensações e todo o impreciso dos parques na noite imensa, tombada em enigmas de carvalhos, desaparecidos na distância, entre emaranhamentos sucessivos, labirintos ambientais da treva. Nunca senti que deitava no papel, em poucos pedaços de papel, algo tão meu. Todo escritor é de fato um ator; melhor, não o ator, mas seus gestos de sombras, que aguardamos, com um sobressalto infantil, tão logo esquecida, com o olhar, a plateia sem forma. Não tem nome entre nós a projeção agora caminhante à orla das águas medonhas; o nome é projeção também. Como o andarilho que só vê a própria trilha porque se perdeu em tantos outras e que termina com náusea de si, já que o relacionamento consigo mesmo é extenso demais.
Foi preciso regressar aos mortos para buscar neles a confidência lida em todo o mundo. E toda ela se tornou o enigma da noite e do sigilo do precipício, a mais vil de todas as carências, a do enigma e a do sigilo. Buscar a própria voz é o sossego de angústia e a paz de resignação de todo escritor, esses que não se curvam à linguagem. Nessa busca, atravessa-se o jejum, como um sonambulo que no frio da noite tira os lençóis do leito materno e vai arrumar livros numa estante, à espreita, em falta de si, para identificar e capturar a sequência de sombras que existem dentro de cada frase. Foi preciso apenas que tudo viesse ao meu socorro, retirasse o meu peso e o meu desassossego — o mundo vazio, a mente oca — para abraçar a imaginação.