Os dois pensamentos tinham certamente isso, pois cada um me atormentava com seu sussurro ácido. Ora, o dia inteiro isso. Vê como ele surpreende! Seu laboratório é só. Alguém foi restituído às poeiras. Arrepio delimitado sem lugar. Se ele adivinhou seus momentos ocos, ele a considera como um engenho sem nexo, sem propósito, sem comércio. Conheço mais obscuramente do que esse céu todo estrelado tão alto e tão profundo. Por algum tempo, houve, neste mundo, um som. Errava-se nas veias, na alma e no sangue. Dos dois lados do palácio, falava-se a mesma coisa. Dois horrores ignorantes batiam quase igual. Agora dirijo o poema como um sonho. Habitam-me aqui labirintos e expressões de pesadelos. Já leio tudo de memória. E transformo.
quarta-feira, 26 de novembro de 2025
segunda-feira, 24 de novembro de 2025
Noite nanquim — 45
Não, não saberá nada. Esvaziou-se o que não se deve esvaziar. Em vão, tenta-se a surpresa. Oponho o assombro. Mandaremos queimar o livro que lhe é caro se falar mais dele. Palavras vãs: é suficiente durar apenas um pouco de angústia — a voz diz. Falando, apanhando, dando-me palavras frias. Feito o movimento, fragmenta-se o gesto derretido. Distancia-se. Silencio-me e passo seguindo o uivo brutal.
quarta-feira, 19 de novembro de 2025
Noite nanquim — 44
Invoca. Convoca o livro de horror que existe. É o eixo de um mistério maior que se irradia pela carne e pelo sangue. Sinto aprofundar até o infinito a ideia fixa da loucura. Sustenta em toda a extensão a política e a literatura que se tornam o fundo deste mundo. Corresponde à pequenez, desenvolvendo-se e sucedendo-se na antecâmara da alma. Canto à meia voz as manchas passadas no silêncio inquieto. Livro, o livro! Pelo fluxo violento dos dedos, pela língua larga e fluida do desespero, por aquilo que arde lá no alto píncaro, sou convocado à manipulação misteriosa — atravesso os impulsos do poema, regresso ao poema, dissolvo o poema. As palavras que são a base concreta da criação não escapam do poder da loucura.
segunda-feira, 17 de novembro de 2025
Noite nanquim — 43
Porque, se eu me esquecesse e não dissesse senão o meu regozijo, pressinto que irritaria isso. Que me importam todos esses vultos do meu pensamento, esses pequenos deuses no esqueleto? Não sei prezar maravilhas tão íntimas, tão falsas e tão só como hoje estou. Você ama as manchas, e eu amo os livros. Manchas são coisas, e os livros são seres. Aprecia comigo esse abismo que existe, esse grandioso livro, portador de ramos e de manchas, esse grande livro isolado e completo. Odeio-te, gostaria de odiar como tu, ser odiado como tu odeias, vibrar, crescer, perecer…
quarta-feira, 12 de novembro de 2025
Noite nanquim — 42
Sou minhas mãos. Esvazio-me na escuridão. Encontro-me nas palavras. Ascendo como uma flor ao verão. Respiro as palavras que, clamando suas manchas (experiência madre de todas as coisas), não são suficientes para o espírito. Elas me fazem pensar e me concedem o tempo da condolência. A embriaguez verte aqui suas forças flutuantes. Encontro a bruxa que lisonjeia o corpo das palavras por suas manchas.
segunda-feira, 10 de novembro de 2025
Noite nanquim — 41
Tudo o que é preciso está tão concentrado quanto possível. Seria preciso inventar esse grito para seguir. Vai e vem, olhando e bocejando. Quebra o pavor e golpeia a alma. Ocorrerá da mesma maneira que a própria alma desenvolve o murmúrio – que da queda se faça o nó e se solidifique o mistério eterno. O horror é a palavra que ascende do abismo. Encontro-a esvaziando a escuridão com minhas mãos.
quarta-feira, 5 de novembro de 2025
Noite nanquim — 40
Faço-me com o que não preciso. Durmo. Ele não percebe todos esses degraus que não lhe faltam. Grito pela estrada ou pela terra (flor sem repuxo) — e ninguém nota. As variações do sonho e do real são enganadoras. Tomo a perfeição dos horrores em que vivo por um negrume no vazio. Encarno a dissonância e faço meus tempos de ruínas e meus bosques de almas. Estou entregue às chamas da ilusão que vibram nos cimos da terra.
segunda-feira, 3 de novembro de 2025
Noite nanquim — 39
Eis-me aqui, banhando-me neste campo solitário que parece tão desabrigado e fresco. Sinto-o. Ele me faz viver e adormecer. A palavra vazia, alma, que se pronuncia aqui, invade céu e terra. Eis que não ignoro tampouco a presença da morte. Fito-a, e ela me entrega com negrumes o pavor. Ando. Deito-me sobre as cinzas dos astros. Isso é admirável. Sou rodeado pelo Nada verdadeiramente longínquo. Encanto-me com todas essas palavras nas quais nunca penso.
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