Flores de Lídia. Rastros longos, atrapalhados. As mãos unidas. Mortal e ilusória força. Olha-te! A angra cristalina. Opiofágico andar.
quinta-feira, 29 de maio de 2025
domingo, 25 de maio de 2025
A escrita navegante (o sonho das águas) — II
Decifrar a escrita como quem percorre com os olhos o mapa astrolábico, o diagrama cifrado onde se entrelaçam a vertigem da fera e o desnorteio do navegante. Eis diante da visão o continente das palavras em colisão, a cordilheira erguida sobre pilares de argumentos fossilizados, o delta onde deságuam interrogações sem foz e sombras sem origem. Território sem cartografia, verbo mineralizado, escombro da sílaba inicial onde a matéria desmemoriada gesta o arquipélago dos astros feridos pela ignição do indizível.
Não se trata do tempo que recorda, mas do tempo que se enrosca no agora, como o rio que escapa da própria nascente e desemboca no vazio sem nunca ter existido. Entre ruínas, ergue-se o bestiário: os nervos da dúvida desenhados sobre os papiros incinerados, os músculos da incerteza destilando o óleo sobre a pele da noite. Nos escombros de um calendário incendiado, permanece a presença do verbo sem repouso: tremor órfico que não conduz a mito algum, apenas à combustão do iminente.
É a reconfiguração da linguagem na argila da dúvida, vaso que não contém, mas verte. Aqui, os olhos da medusa não petrificam: extinguem. O que persiste é a escrita inscrita na página como o relâmpago sobre o mar revolto, convocando um deus sem rosto, um nome sem boca, um acontecimento sem antes nem depois.
É a hesitação do mundo diante do seu próprio abismo, a oscilação do cosmo esboçado na fuligem de um astro morto. No que sobra do verso queimado, no que sangra do livro ilegível, reside o chamado de um deus que não habita os templos, mas as cissuras do nada.
De uma explosão sem relógio nem direção, vieram os átomos, vieram as marés, vieram os nomes. Surgimos frágeis e cantantes sobre um chão recém-inventado, com o espanto da existência ainda preso à pele. Inventamos vozes, sinais, gramáticas só para que eu pudesse dizer, por entre ruínas e constelações, que ao teu lado tudo dança. Há graça na gravidade, festa no silêncio, abrigo no absurdo. Viver contigo é descobrir que o universo valeu a pena.
quinta-feira, 22 de maio de 2025
Do mar — 48
Vazios pátios. A abertura de olhos. Veemências vermelhas. Sussurro dos búzios. Minoica dança. Tu és o braço que se desloca. Perfume de partidas. As popas e as pétalas. A gruta, ferimentos, ingenuidades abertas. Caeiro depressa sentado. Erras o destino. Arfados ritos. O sal nas conchas.
domingo, 18 de maio de 2025
A escrita navegante (o sonho das águas) — I
Se escrever é a arte de narrar ao abandono dos fios da razão imediata, submerso em nevoeiro que não obedece à rigidez do tempo nem ao cárcere da lógica, então escrever transforma-se naquilo que não pode ser previsto, naquilo que se expande em movimentos inesperados, insurgindo-se contra a dor da cronologia. Espectro sem nome, a palavra-pensamento mergulha nos abismos da linguagem, busca seu limite impossível e escapa da geografia deserta do pensamento coletivo. Lá onde se perde a voz, onde tudo é indiscernível e dissoluto, o homem-animal, preso entre a necessidade de se criar e a angústia de sua busca, tenta alcançar o interminável — o imenso do incerto que insiste em se transfigurar.
Palavra a palavra, o corpo da linguagem avança. A escrita torna-se um animal que atravessa a linha tênue entre mundo e imagem. Exigido a encontrar morada no efêmero, o homem arrebenta com as convenções da linguagem e suas fronteiras, buscando descer à profunda tempestade de si, o eterno tumulto das sombras e das claridades onde tudo se confunde e se renova em mutações. O gesto criador irrompe nas entranhas da existência, surgindo como resposta à imposição daquilo que não se pode nomear, não se pode tocar. E o impensável ressurge em cada hiato do mundo, em cada rachadura do que se acreditava estável.
A mente humana se refaz ao subir pelas montanhas da distorção e do impensável. Não é mais ideia, mas expressão contínua, fluida e concreta. Nada é fixo, tudo é movimento, como o gesto de quem arranca do mundo uma nova vida. Aqui, o homem não observa mais, faz parte do que observa, transformando-se no grafismo vivo da realidade, escrevendo sua própria história antes de seu corpo ser tocado pelo tempo.
A escrita, pois, não é só raciocínio, mas terreno de explosões internas, palco de ruínas que se erguem e que se constroem pelo grito visceral do mundo em fragmentos. A palavra é ação, é ruído, é aceno que sonda as bordas inominável. O homem, então, já não é quem foi, mas quem cria incessantemente, removendo da existência os resquícios de uma ordem já ultrapassada. O olhar da alma é o movimento da mão que escreve, mas, antes disso, é a memória da tempestade que pressente a sua própria reconstrução.
Quem é capaz de encontrar o caminho entre as ruínas da razão e as geometrias do sentimento senão aquele que se afasta da superfície do ser com a febre do inatingível? Estala o desejo de penetrar o inviolável. O caos de ser é o espaço onde todas as escritas se encontram e se desfazem, transformando-se em ícones de um mundo onde se criam novas origens, onde tudo se ressignifica. A escrita não é mais o que é, mas o que se destila no avesso das coisas. O homem, enfim, não escreve, vira escritura.
Assim como Ulisses que não sabe para onde navega, o homem se perde em sua própria amplitude, não mais com o medo de encontrar o fim, mas com a esperança de reiniciar o ciclo, porque não há fim para o ato de criar, não há fim para o gesto que ressurge e desmorona sobre si, como os ruídos ancestrais que se agitam nas marés do silêncio, como a palavra que vem de longe e nos reconcilia com o que restou de nós.
quinta-feira, 15 de maio de 2025
Do mar — 47
Vil, cativa mofando. Há ondas que procuras. Cheio de febres. Coincidentemente, os cabelos de Penélope. És viúvo! Navega cordas.
quinta-feira, 8 de maio de 2025
Do mar — 46
Balançar na erguida vaga. As âncoras. O lábio triunfal do rosto necromante. A ave vela o arbusto. Irá atrás dos fios. Ondula a rocha. Rijo o mar. Queimam as florestas. Sonoriza o rio. Tu bebes um punhado de ervas no caminho.
quinta-feira, 1 de maio de 2025
Do mar — 45
Coração, ouvido infindável. O mundo recai mundos. Bocas de abismos. Olhos ao longe tombaram. Naus flutuantes, debaixo da janela. Desdém e distância. O vento em vela. Em cada noite ergue-se um alto eco de tumultos das sombras. Chamas do quarto.
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