quarta-feira, 29 de maio de 2024

Do mar — 2

O desejo se inquieta, torturante e elementar. Nem as ideias, nem as gravitações, ondas verdes. Os movimentos chiam. Em movimento vagaroso. Rasgo sem espaço na natureza do dia. Foram tempos que a alma pôs. Fluxo e refluxo, as noites encostadas da colina. Num sonho esquecido, insondável na campina. Agitados os peregrinos. Prostrada estupidez. Abre-se a praia. O mar mais antigo. Cesário Verde, de escritas alinhadas, independência amorosa, sem ódios nem paixões, mais criminoso do que o crime. A vida marítima: destinos vaporosos. Belas assinaturas modernas na fantasmal cidade. Nos confins do navio, rigores de comandantes. Cartas de escritórios endereçadas, cruzando as épocas na operação branca dos carimbos. Da hora vestida de ar. Respira. A bordo passageiros e vapores. Ulisses de ancoramentos e separações homéricas. Tédio: a cor do porto e do navio. A forte alma já imaginada desce a sacada. O navio de carga grita sobre os passageiros. A alegria de corpos dourados rodeia. Eles estão na hora. O espaço está ao lado, os tempos estão caindo. O grito deve ter levado. Vozes zumbem. Marinheiros circulam sobre, com velhas correntes. Bem depois, Marias oceânicas. Longe das folhadas abrigadas. Flóridas? Os pauis chovendo em rajadas de lameiros. Leviatã! As podridões nos juncais de fúrias. Gelos e sóis. Céus argênteos. Piolhos, serpentes, corcundas! E lá os gigantes, os tombamentos, as galhadas e os perfumes. Ondas! O azul cantante. Relíquias do marinheiro morto. Pelo vento conspiraram os instantes exaustos. Peixes áureos. Fuga soluçante. A sombra das flores foi confiada a faustos joelhos. Pedido de uma mulher sombria. As ilhas de gritos mortos de bordas tênues. O estrume do sono das aves, a corda dos afogados, as tranças de barco, o ermo dos tufões e o éter. Pelo casco, veleiros e águas. Arrepios. Violetas e perfurações. Desusados poetas. Quando a breve onda mais sibila, com coragem e choro, uma mãe antiga naufraga. Ao Sul, sem vento. Entre joio e palha. Uma nau cedeu entre símbolos e se fez ameaça à metafísica. Perturbação de pedras. As saudades largadas. Cidades crescidas. E o velho olhar tem boa parte. Às horas feitas, um mármore, um negrume. Dores. Os caminhos, as beiras. Um pendão de vitória, relíquia saqueada. In-fólios nas pedras da barricada! Velha, erva de acabrunhante hora, o cabo dos mortos, os restos, a vela ao longe. Brilha a faca de degolados precursores. Todos os olhos têm o rastro da veste. A alameda é um ocaso d’alma. Esse frescor é uma frieza de secas. Aqui e ali, a sorte cigana. Por aqui, ou por lá, o dia em escândalo. Para cá, ou para lá, a linha de escrita. A vida das quinas é a morte e vice-versa. A leitura do livro, a esteira oriental. A força honesta do ópio vivo. 

segunda-feira, 27 de maio de 2024

A mão que sulca a terra é a mesma que escreve o poema

 

O outono. Nossa barca elevada nas brumas imóveis navega em direção ao porto da miséria, a cidade enorme de céu sujo de fogo e lodo. Ah! Os farrapos podres, o pão ensopado de chuva, a embriaguez, os mil amores que me trazem crucificado! Não acabará um dia este vampiro, tirano de milhões de almas e de corpos mortos que serão julgados! Revejo-me de pele corroída pelo lodo e pela peste, cabelos e axilas cheios de piolhos, e piolhos mais gordos ainda no coração, estendido entre desconhecidos sem idade, sem sentimento... Bem poderia acabar aí... A horrenda evocação!


Arthur Rimbaud (1854-1891) fez uma entrada surpreendente em Paris, transformando completamente a percepção da poesia e erradicando o parnasianismo predominante da época. Reconhecido como o maior poeta rebelde, Rimbaud revolucionou a literatura, conseguindo tudo isso antes dos vinte anos. Dizemos, portanto, que Rimbaud simboliza a própria juventude, uma vez que os seus poemas funcionam como expressões inaugurais e finais da arte.

A obra Uma temporada no inferno (1873) é o único livro lançado pelo poeta, que, após uma passagem tumultuada pelo mundo literário, abandonou a poesia em busca de riqueza. Posteriormente, uma seleção de suas obras foi impressa, e ele apareceu em uma compilação com curadoria do poeta Paul Verlaine (1844-1896), com foco no grupo conhecido como "poetas malditos". Essa classificação não era injustificada, já que Rimbaud era considerado um gênio e um encrenqueiro. Com espírito visionário e pouco convencional, rejeitou veementemente qualquer forma de trabalho burocrático, afirmando que a única vocação do poeta deveria ser a poesia.

O impacto de Rimbaud no mundo literário foi ofuscado pelo fascínio que rodeava a sua vida pessoal, particularmente o seu caso com o renomado poeta francês Paul Verlaine, que era mais velho que Rimbaud. O jovem poeta possuía uma força tão revolucionária que influenciou profundamente Verlaine, fazendo com que este abandonasse a esposa para embarcar numa viagem com Rimbaud, chocando a sociedade francesa. Alimentado por haxixe e absinto, o relacionamento deles tomou um rumo tumultuado em 1872, quando Verlaine, consumido pela melancolia, feriu Rimbaud com um tiro no pulso durante uma discussão. Desesperado, Rimbaud procurou consolo no nordeste da França, onde escreveu sua famosa obra: Uma temporada no inferno.

Tudo se iniciou em um pequeno vilarejo nas Ardenas, em 1873. Residindo com sua família numa casa em ruínas herdada por seu avô, Rimbaud acabara de voltar de Londres e estava viciado em haxixe, tabaco e álcool, o que o levava a ter febres e alucinações. Este é o cenário em que escreveu o seu último livro, considerado um verdadeiro testemunho de uma batalha entre um homem e sua consciência. Mas ele continuou seguindo: partindo em direção às suas próprias sombras, também questionou o mundo e suas convenções. Uma temporada no inferno é um clássico da poesia simbolista que mistura ideias e conceitos associados à morte, à paixão, ao inferno, ao cristianismo e à história francesa no final do século XIX. Tendo a ira da juventude em si e a revolta contra a hipocrisia derivada da figura de sua mãe, Rimbaud aprendeu a condensar a raiva em versos, tornando-se o maior entre os “poetas malditos”. Nesse sentido, nenhum título poderia ser mais apropriado para um poeta que tinha uma reputação tão destrutiva.


Vou desvendar todos os mistérios: mistérios religiosos ou naturais, morte, nascimento, futuro, passado, cosmogonia, o nada. Sou mestre em fantasmagorias. Escutai! Possuo todos os talentos. Aqui não há nada e há alguém. [...] Estou escondido e ao mesmo tempo não o estou.


Em Uma temporada no inferno, ele apresenta o território de sua luta, revela a sua narrativa e fala que o "sangue ruim" que corre em suas veias, proveniente de sua herança gaulesa, definirá a dramaticidade da sua vida, pois ele limita a sua mente, o seu corpo e o seu espírito. No entanto, o poeta sofre com dois passados: os valores gauleses e os valores burgueses derivados do pai. Desse ponto em diante, Rimbaud profetiza como um místico os aspectos que ordenam e racionalizam uma sociedade governada majoritariamente pelos valores do catolicismo. Além disso, expõe a sua falta de esperança na felicidade. Ainda que as experiências vividas pelo poeta durante esse percurso infernal o façam ultrapassar diversos limites, no fim, Rimbaud regressa à vida campestre e rústica. E o que sobra desse conflito travado por Rimbaud é apenas a desesperança. 

Pouco importa se somos avessos ou favoráveis ao que nos diz Rimbaud. O que realmente importa durante a leitura é atentar àquilo que funda as estruturas humanas, buscando a compreensão da linguagem que supera e enriquece todo o livro. Nesse sentido, a escrita de Rimbaud é o vazio, alcança o limite da existência, troveja, relampeja e naufraga nas lacunas da loucura. De nada adianta buscar sentido para o que não tem sentido, pois os poemas são seres orgânicos em constante respiração, seres que ultrapassam os limites do certo e do errado, chamando para junto de si uma pluralidade de vozes – e a verdade da obra está alinhada com tudo isso. São os golpes intuitivos e sensíveis que compassam os traços verdadeiros da obra. O real significado disso nos diz que Rimbaud abriu mão de tudo, radicalmente, e o que escreve não é matéria de seu interesse, pois é a escrita quem o move. Expondo os contrários que lutam na arena da axiologia e que fundam os pilares humanos, o poeta nos deixa aqui uma estrutura da existência e caminhos possíveis para a existência. Assim, entranha-se em si e vive-se enquanto linguagem. 

Nesse caso, é crucial reconhecer uma abordagem de compreensão para Uma temporada no inferno que não pretenda ser um método definitivo de leitura ou uma quantidade de informação que atribua proficiência artística às críticas produzidas sob a obra. Ao expressar isso, destaca-se a necessidade de lembrar que ler poesia exige correr riscos para compreender e diferenciar os princípios que governam o domínio independente da compreensão poética. Durante a leitura, o leitor mergulha na artisticidade da linguagem de Rimbaud, servindo como testemunho da objetividade integral da arte. Assim, Uma temporada no inferno desafia as expectativas da crítica ao perdurar e exigir uma abordagem única para a compreensão da sua verdadeira essência. 

A obra rejeita qualquer tentativa de reduzi-la a um mero fato, afirmando antes a sua dignidade artística e ordenando uma leitura que procura a verdade que ele encarna enquanto risco de linguagem. A própria natureza da obra faz com que os leitores se envolvam com a sua verdade contundente, uma vez que adere às leis do rigor artístico, que se apresentam constantemente em novas formas. É precisamente porque a literatura de Rimbaud carrega consigo uma verdade inerente e duradoura que resiste aos golpes do tempo. Ao interagir com essas obras, os leitores são confrontados com elementos reais que ressoam no mundo, exigindo serem reconhecidos por meio de uma compreensão independente.

Uma temporada no inferno coloca o leitor como um devedor moderno, consumido pelo mistério da vida dentro da palavra escrita, linguagem. Como resultado, é preciso mergulhar na verdade – aquela produzida na obra enquanto obra de risco e rasura –, acendendo-a no vasto vazio que existe além da literatura. Esta revelação permite compreender que a independência do conhecimento poético se manifesta nas páginas da obra como uma experiência em si, encarnando a essência da vitalidade. Serve como a personificação da experiência estética, um arquétipo incorporado. O autor levanta questões metafísicas fundamentais em relação à expressão artística, afirmando que a sua consciência é o aspecto definidor da sua humanidade. 

 Aqueles que leem Rimbaud pela primeira vez talvez sejam assaltados pelo inteligível. Para alcançar a compreensão, ou uma fração dela, deve-se tornar parte de seu mundo, incorporando as suas visões e as suas sensações. Rimbaud escreve o desespero, a dor e a pobreza com genialidade e lucidez. Registra-se que o poeta era visionário. Teria ele enlouquecido ou seria apenas consequência de uma mente fértil? Não há resposta. O certo é que, em Uma temporada no inferno, Rimbaud fundou uma nova linguagem. Com a desconstrução da métrica alexandrina, levou a prosa poética ao panteão das grandes poesias, causando uma significativa mudança no mundo literário.


A vida floresce pelo trabalho, velha verdade: quanto a mim, minha vida não é suficientemente pesada, voa e flutua distante, por cima da ação, esse adorado eixo do mundo.

quarta-feira, 22 de maio de 2024

Do mar — 1

Assim que o silêncio da alma serenou, um semicírculo se deteve entre emoções e giros lentos. Fez-se compasso na hora de navios. Arco-íris. Os cais solares se abrigaram. As tristezas já vagam. No horizonte sujo, moscas de sombra se abrem. Angústias nas barras do caminho. Lá no alto, a telha. O navio escorreu no rio, nas cidades, nos brilhos. O ouro e o destino andaram. Brumas armadas. No lento volante de vapores ainda ligeiros, a afeição ainda admira aberturas matutinas. A viagem golpeou. A febre contornou sonhos. Prumo natural das tristezas e das saídas dos portos. A vida celebrada nas passagens da nau. Lugar erguido. Desde então, ouvia-se a pobreza no chorar. Depois, no traje cosmopolita, transatlântico, o infinito se disse eterno. Liberte-se até pregar. Do ranger de marés à surdez, um outro se banha em marinhos despertares. Nada de atóis. A cortiça! Gira e ilumina, feito boca: vinhos, lemes, arpões, lenhos. O mar! O mar! O mar! Sonhos de purpurinas sob o azul absorto. Afogamento frio. Golpes de luzes azul-safira, no dia do ritmo. Delírios arrastados na embriaguez das liras. Ah! Amores amargos de martírios e céus. Trombas correntes. Monções na boca da noite e exultações de pombos. Criatura: manchas, horrores; iluminação das urnas. As ondas na distância mais próxima. O cantar áureo do poema marítimo. E as espumas. A taça brinda as sereias em tropa. Já não era popa nem proa, nem empenho, nem voragem. Na solicitude estalar do recife, os pés se inquietam, e a vela alva se desvela. Um jovem! Um jovem! Um jovem! Está gasta a solidão. Orla, fumo! Na vida de mar, o avanço se fez pequeno. Manes da distância. A náusea ao longe. Paquete livre. Afastado momento! Criatura livre, entre oceanos de espelhos, dorso agitado, cristais duros e contemplações de retratos. O outono e o mar atraem as janelas do jardim. Rodopiantes e velhas. A folha afasta desconfortos amarelos. Pelos mares, apoiando a morte inabitada, as velas acenam. Portos abandonados. Canto aquático desmanchado. Flanco de riso de espuma. Mar alçado. As vozes e as rouquidões e os ventos e os voos pensados e as buscas. Os lamentos das saídas. Cala o sonho: os palácios (arruinados), os parques (abandonados), as dores repuxadas. A manuscrita paisagem em tuas frases cortadas. As rasgadas cartas! Oxidadas ânsias. Aziagos de aflições fortuitas. O enfermo deitado no luar das ninfas, atraído. Enfim, o silêncio. Soa a voz de lira. Apolo fingido. Cauda negra dos rastros. Na pedra, durante dias raros. O sino além. Os nortes, delicados ao sul. A inveja nervosa, a morte náutica. Pregamento de cabos. Lebre artística, o tocar de corneta. A veste ornada de saídas. Como o desassossego? O Maelstrom implementado. Mostra-se agora! Desprezo outro.

segunda-feira, 20 de maio de 2024

A morte que nos faz manusear a vida por baixo dos panos

 

Este livro é como um livro qualquer. Mas eu ficaria contente se fosse lido apenas por pessoas de alma já formada. Aquelas que sabem que a aproximação, do que quer que seja, se faz gradualmente e penosamente – atravessando inclusive o oposto daquilo que se vai aproximar. Aquelas pessoas que, só elas, entenderão bem devagar que este livro nada tira de ninguém. A mim, por exemplo, o personagem G.H. foi dando pouco a pouco uma alegria difícil; mas chama-se alegria.


Considerada figura de destaque na literatura brasileira, as obras de Clarice Lispector (1920-1977) têm significativa importância, e o livro A paixão segundo G.H. (1964) é considerado um dos trabalhos mais importantes da autora. Muitas vezes vista como uma escritora movida pela paixão, ela atribui à sua voz uma força que cadencia o ritmo das suas frases e que origina diversas ideias filosóficas. Clarice, inclusive, chega a sugerir que o conceito de infinito é arquitetado a partir de elementos finitos, entrelaçando, assim, os domínios mental e físico.

A sua escrita é movida pela diferenciação entre uma noção de eu e uma avassaladora torrente de sensações, que quase sempre nos deixa tontos. Ao captar as diversas vozes que sussurram ao pé de seu ouvido e manifestá-las na linguagem, compreendendo os seus mistérios, podemos dizer que Clarice Lispector tem essência de poeta, pois o que ela faz é uma espécie de alquimia com as palavras, transformando-as em algo encantador, atestando que “um mundo todo vivo tem a força de um Inferno”.

Por meio da dedicatória do livro, Clarice Lispector nos indica que embarcará em uma jornada com o leitor, assumindo a perspectiva de outro indivíduo, outra voz (ou vozes). Ao longo da narrativa, esse indivíduo a acompanha na busca pela transcendência, e o leitor se torna o pilar de apoio e consolo para G.H., que se vê isolada e desanimada, sem qualquer assistência.

A obra narra a vida mundana de uma mulher abastada de classe média alta que, em meio à sua rotina doméstica, se surpreende com a presença de uma barata dentro do quarto de Janair, sua ex-empregada. No entanto, ao percorrer o caminho até o cômodo, G.H. passa por um profundo conflito interior, suficiente para desconstruir a sua própria identidade. A partir desse ponto, ela embarca em uma viagem íntima, refazendo os passos de sua educação passada e investigando os aspectos de sua história presente. Nesse giro vertiginoso, desvenda ruínas de civilizações esquecidas, revelando o intrincado mosaico de vida que dela floresceu. É imperativo que G.H. confie em alguém. Para que ela cumpra o seu objetivo de dar movimento à sua existência, é urgente que ela encontre alguém que possa ajudá-la a compreender e a racionalizar a experiência que viveu e que ainda vive em si. Apesar de todas as tentativas, ela acha impossível guardar esse encontro com o seu eu mais íntimo. 

O livro se desenrola no interior de um apartamento que funciona como um espécie de metáfora para a jornada interna da personagem G.H.. Nesse sentido, a presença de múltiplos significados fica evidente na obra, sobretudo as referências ao tempo e ao espaço, que assumem diversas interpretações, pois aqui “tudo olha para tudo, tudo vive o outro; neste deserto as coisas sabem as coisas”. Enquanto caminha em direção ao aposento de sua ex-empregada, a área de serviço transborda energias insólitas por todos os cantos do condomínio, e G.H. percebe que o ambiente é uma paisagem sem vida. Funcionando como uma espécie de rito de passagem, G.H. percorre toda a extensão do corredor para chegar ao aposento da ex-empregada. O corredor, nesse sentido, funciona como o caminho que conduzirá a protagonista para o interior de si mesma.

Quando chega ao aposento, G.H. experimenta uma profunda sensação de desapego e abandono. A atmosfera torna-se inquietante, levando G.H. a buscar a ordem em meio ao ambiente já organizado. Ela examina cada canto do pequeno aposento, que, apesar de também ser parte de sua casa, soa-lhe estranho. É durante esta exploração que G.H. descobre três esboços a carvão adornando as paredes, cada um representando um homem, uma mulher e um cachorro. Ao abrir o guarda-roupa, a barata surge na narrativa. O inseto olha para G.H., que a esmaga contra a porta da mobília. A partir desse momento, elas se veem presas. A barata perturba o psicológico da narradora, fazendo com que as suas emoções e os seus pensamentos desmoronem diante do inseto que não se cansa de perscrutá-la.


Era uma cara sem contorno. As antenas saíam em bigodes dos lados da boca. A boca marrom era bem delineada. Os finos e longos bigodes mexiam-se lentos e secos. Seus olhos pretos facetados olhavam. Era uma barata tão velha como um peixe fossilizado. Era uma barata tão velha como salamandras e quimeras e grifos e leviatãs. Ela era antiga como uma lenda.


Ao ultrapassar os limites da compreensão, G.H. desafia a própria essência da linguagem, chegando a um ponto em que as palavras não conseguem mais alcançá-la. No encontro entre G.H. e a barata, a sedução surge como força dominante. A natureza repulsiva do inseto se transforma em algo sagrado, criando uma linguagem que nos permite experienciar todas as nuances em seu mais profundo absurdo. Porém, como menciona a dedicatória, só quem tem a “alma formada” é capaz de decifrar o furacão dessa linguagem, indicando-nos que a vida deve ser sentida pelo poder que as palavras emanam. Libertando-se das fronteiras das normas, ela embarca numa busca aterrorizante, sem retorno. A substância que escorre da barata traz profundas revelações e expõe o seu lado mais oculto. Aquilo que se esvai do inseto é o que se esvai da narradora: a sua humanidade em uma explanação vívida que envolve todos os sentidos. 

Quando G.H. descobre o oposto da linguagem como canal para outros significados, o seu próprio nome já não é capaz de defini-la. Ela percebe que as iniciais G.H. marcadas nas malas estão desbotadas. Não há como voltar mais ao seu estado anterior, quando o seu nome era suficiente. A urgência de compartimentar as experiências do mundo a faz perder a verdadeira compreensão das coisas, e a substância branca que vibra dentro da barata intervém nos instantes mais comuns para resgatá-la desse abismo.

Estabelecer um diálogo entre A metamorfose (1915), de Franz Kafka (1883-1924), e A paixão segundo G.H. é inevitável. Apesar das diferenças, ambas exploram o tema da metamorfose, embora a natureza das transformações vividas pelos personagens seja muito diferente. Gregor Samsa sofre uma transformação física que foge ao seu controle, enquanto G.H. sofre uma transformação interna voluntária. Os estilos de escrita empregados nessas obras também divergem significativamente. Narrada na terceira pessoa, a obra de Kafka é concisa e objetiva. Por outro lado, A paixão segundo G.H é introspectivo e subjetivo, escrito na primeira pessoa. As conexões livres e o fluxo de consciência da obra criam uma sensação de angústia e deslocamento. Em síntese, ambas as obras apresentam baratas, mas com propósitos contrastantes: a de Kafka simboliza a desumanização de Gregor Samsa, enquanto a de Clarice simboliza a humanização de G.H.

A Paixão Segundo G.H. é uma obra que explora os aspectos da condição humana, buscando a espiritualidade e a autenticidade. Embora o livro aborde temas profundos, Clarice Lispector entrelaça as trivialidades da vida cotidiana com muita habilidade, usando detalhes aparentemente mundanos como catalisadores para as profundas revelações que se desenrolam ao longo da narrativa. Segundo Clarice, inclusive, a maioria das pessoas permanece alheia à verdadeira essência da existência, contentando-se em viver num estado de confortável ignorância, evitando a terrível revelação que as espera. 

A potência que existe na linguagem surge como uma ferramenta para explorar esses temas profundos e complexos. A paixão segundo G.H. desvenda as nossas verdades mais secretas ao desvendar as diferentes facetas que compõem a nossa existência. É uma obra que embarca o leitor numa viagem turbulenta em direção às nossas regiões mais densas. Com o apoio dele, ela descobre que abraçar a alteridade é uma jornada emocionante. O texto literário é crucial para refletir a autopercepção, servindo como canal para que o autor rascunhe a imagem daquilo que é ou finge ser. É por meio da linguagem que o leitor e o autor convergem e constroem os seus próprios mundos.


Mas, se eu não forçar a palavra, a mudez me engolfará para sempre em ondas. A palavra e a forma serão a tábua onde boiarei sobre vagalhões de mudez.


quarta-feira, 15 de maio de 2024

Uma odisseia de loucura e mitologia

 


Há diversos caminhos para mergulhar o público em uma experiência profunda e envolvente, e um dos mais eficazes reside na fusão entre forma e conteúdo. Nesse sentido, o diretor norte-americano Robert Neil Eggers tem demonstrado imensa habilidade criativa. O filme O Farol (2019) é uma porta de entrada para uma época passada de inúmeros espaços. Em vez de depender de truques cansativos, ele prioriza encantar o público por meio de uma narrativa envolvente, atuações excepcionais e design diferenciado. Transporta-nos não só para a década de 1890, cenário da história, mas também para os primeiros anos do próprio cinema, quando serviu como canal para a experiência partilhada de imaginação e sonhos. 

A essência do filme é envolta em um fascínio enigmático. Inicialmente, o espectador só tem conhecimento de que dois marinheiros, o experiente Thomas Wake, interpretado por Willem Dafoe, e o jovem enigmático Ephraim Winslow, encarnado por Robert Pattinson, são despachados para uma ilha deserta para cuidar da manutenção de um farol. A partir desse ponto, o filme cria um sentimento de claustrofobia, preparando o terreno para o surgimento dos instintos primordiais dos personagens. Não demora muito para que o forte contraste entre suas posições, a solidão avassaladora e a natureza monótona de seus deveres se infiltrem em sua psique. Assim, fica evidente que o local serve como terreno fértil para o florescimento das facetas mais sombrias do comportamento humano. A maior parte do filme desenrola-se na complexa interação entre esses dois indivíduos. Winslow se vê sobrecarregado com uma enorme quantidade de responsabilidades, enquanto seu mentor dorme durante o dia e se retira para os limites da torre do farol durante a noite.

A dupla está isolada e fadada a lidar com seus demônios interiores. Escapar dessa situação é inútil, pois ambos estão cercados por mares tempestuosos, clima severo e rochas traiçoeiras. Ephraim, que permanece calado sobre seu passado e todos os outros assuntos, se esforça para manter uma postura neutra, mas gradualmente se vê envolvido no conflito crescente. Thomas, o guardião experiente, estabelece seu domínio atacando os sentidos: ele contamina o penico aninhado entre suas camas estreitas, contamina a residência com sua flatulência nociva, prepara comidas nojentas, coage seu subordinado a consumir álcool e tagarela incessantemente. Apesar de serem completamente estranhos, as sementes de uma luta por poder são plantadas entre os dois homens. 

Em sua busca incessante, o diretor Robert Eggers não poupa esforços na criação de um filme que é sórdido, horripilante e cacofônico, capturando a atenção ao traçar o caminho desses dois homens solitários em um espaço que gradualmente os leva à loucura. Esse ambiente nostálgico é elaborado por meio da cinematografia em preto e branco, alternando entre uma clareza nítida e uma nebulosidade perturbadora. No entanto, a sua verdadeira potência repousa na capacidade de Robert Eggers de conjurar atmosferas enigmáticas e desestabilizadoras a partir de elementos intangíveis. Nesse sentido, a escolha da lente e o processo de desenvolvimento contribuem para a experiência imersiva do filme, onde o público é envolvido por uma sensação de perigo iminente e pela presença avassaladora do mal na ilha isolada. Aliás, Eggers leva tempo para desenrolar a história, permitindo que o espectador experimente a mesma sensação de frustração que o jovem Ephraim Winslow. As tarefas, as condições desafiadoras, a rotina monótona e as idiossincrasias do veterano contribuem. À medida que o conflito se intensifica, segredos começam a ser escondidos entre os dois.

Muito material é fornecido para os atores desenvolverem. Inspirados em documentos históricos, os diálogos são escritos em inglês antigo, capturando a linguagem dos marinheiros e acrescentando um toque encantador à produção, enquanto alusões literárias ao cenário da ilha e à relação do indivíduo com o farol e a vida isolada — derivadas das obras de Herman Melville e Robert Louis Stevenson — enriquecem ainda mais o filme. O texto serve como força orientadora, abrangendo uma ampla gama de tons ao longo da obra, sejam os monólogos ameaçadores de Wake, a rebelião de Winslow ou a mistura peculiar de humor que permeia muitas conversas. O Farol se destaca por retratar os aspectos desagradáveis ​​das relações humanas quando confrontados com circunstâncias extraordinárias. No entanto, isso não nega a existência de um elemento sobrenatural.

Para mergulhar no simbolismo e nas alusões mitológicas presentes no filme, é crucial compreender que a obra explora a solidão e seus efeitos. Esse estado na narrativa significa uma desconexão de si que leva ao desenvolvimento de uma mentalidade perturbada e primitiva. A verdadeira natureza das visões de Thomas e Ephraim permanece incerta, pois pode ser mera alucinação. No entanto, o isolamento amplifica os conflitos e a desintegração do domínio da realidade.

O Farol tem uma qualidade extraordinária que está longe de ser comum. Evocando uma sensação intemporal de ameaça, a mitologia entrelaça-se às ações práticas, como exemplificado pela árdua subida e descida da imponente escadaria do farol, pela natureza enigmática da luz e pela ligação simbólica entre gaivotas e divindades antigas. Além disso, explora mudanças inexplicáveis ​​no tempo e na perspectiva, confundindo as fronteiras entre a realidade e o sobrenatural. Aqui, a tempestade ocupa o centro do palco, mostrando a jornada de uma normalidade sombria até o declínio físico e mental dos faroleiros. Curiosamente, o ambiente também manipula a percepção dos eventos pelo espectador. Em meio a conflitos internos, há uma presença constante que macula o frágil cotidiano. Essa força assombrosa permeia a ilha, infiltrando-se principalmente nos sonhos de Winslow. 

A obra é recheada de referências artísticas. Eggers desenvolve a malevolência por meio de imagens enigmáticas, restos mortais em decomposição e alusões artísticas, como a pintura Hipnose, de Sascha Schneider. Ainda que esses elementos contribuam para a estética surreal do filme, o que realmente diferencia O Farol é a sua essência como narrativa de terror cósmico. Este gênero literário, popularizado por H. P. Lovecraft e Robert W. Chambers, é caracterizado por intenso suspense e ameaças inimagináveis ​​que levam qualquer um às profundezas da insanidade. Aliás, o autor H.P. Lovecraft justapôs a insignificância do homem à grandeza das incontroláveis ​​forças celestes, terrestres e aquáticas, levando a humanidade à loucura quando essas forças são encontradas. Essa ideia serve de catalisadora para o desenvolvimento do enredo e dos personagens, apoiado visual e tematicamente pelas obras do escritor americano. É através dessa lente que fica nítida a transformação dos indivíduos isolados — um sendo humilhado enquanto o outro desempenha o papel de humilhador. Dia a dia, a câmera explora meticulosamente até as atividades mais mundanas, transformando-as em atos de martírio.

Tanto os personagens quanto o público ficam imersos neste complexo jogo, vivenciando uma jornada guiada pela loucura. O Farol regressa ao primitivismo, e suas razões são de natureza mística, não sociológicas. Poder-se-ia interpretar isso como a libertação da nossa essência supostamente domesticada, já não vinculada às construções sociais, mas antes impulsionada pela sua ausência. Nesse sentido, ao longo desse processo, fluidos humanos, gases, gritos e agressões físicas ocupam o centro das atenções, substituindo a fachada da civilização por manifestações primitivas. Enquanto a trilha sonora assustadora de Mark Korven atua como presença etérea, intensificando as cenas, os sons do vento, das gaivotas e do mar cada vez mais turbulento se misturam à buzina estridente e a maquinaria do farol, criando um forte contraste entre a luz intensa e a escuridão envolvente. 

Na cena culminante, Thomas direciona sua raiva para Winslow, desencadeando uma maldição que traz à tona o poder dos sete mares e até convoca o próprio Poseidon. Isso se torna realidade quando os dois faroleiros se encontram num conflito feroz. Thomas passa por transformações, e muitos o percebem como Proteus, filho de Poseidon, conhecido na mitologia por sua natureza violenta e imprevisível. Essa representação captura a essência do filme, enquanto Thomas e Ephraim enlouquecem. Com o passar do tempo, suas ações tornam-se cada vez mais inesperadas e mortais. Assim, não é exagero pensar O Farol como uma alegoria profunda que explora a perda de controle e a deterioração da humanidade pelas lentes da mitologia grega.

Outro aspecto a ser explorado na narrativa é o significado do farol, que estará para sempre associado a algo parcialmente abstrato, enredado numa relação tumultuada repleta de conflitos, paranoia, desejos e violência, tudo em uma atmosfera que acena à loucura. Para muitos, serve como origem da vida na ilha, pois é onde Thomas mantém o controle sobre todas as criaturas. Isso explica por que Winslow é constantemente proibido de se aproximar do farol. Por outro lado, podemos pensar uma interpretação psicanalítica, vendo o farol como representação da consciência absoluta. Dadas as evidências que sugerem que Thomas e Winslow são a mesma pessoa, o farol poderia simbolizar a destruição das ilusões. Quando Winslow finalmente consegue acesso ao farol, ele é consumido por sua luz ofuscante. O estado mental que o farol oferece é avassalador para o protagonista, que declina numa profunda perda de si.

Os momentos mais encantadores do filme ocorrem durante as trocas dinâmicas entre os dois atores, tornando as interpretações um verdadeiro deleite. Pattinson e Dafoe mergulham totalmente em seus papéis, abraçando a montanha-russa emocional da história. Seja em um jantar à luz de velas, onde Wake revela o declínio do protagonista à loucura, ou em uma conversa sobre como sair de uma situação difícil, suas atuações oscilam entre momentos de intensidade silenciosa e talento dramático, resultando em visões sublimes. Pattinson transmite tons sutis de malevolência por meio de seu olhar, explosões emocionais em suas interações com seu companheiro mais velho. Percebe-se que ele tem um personagem mais desafiador, que o exige que permaneça tímido e silencioso diante da loucura invasora. Willem Dafoe, por outro lado, age como se estivesse revivendo algo, incorporando uma persona que oscila entre a submissão tranquila e a carranca de alguém sobrecarregado com conhecimentos proibidos, sem vontade de divulgar qualquer informação. Sua transformação se desenrola pontuada por comportamentos explosivos. Ele tem uma infinidade de histórias encantadoras, mas suas atitudes em relação ao novo zelador estão longe de ser amigável. Neste lugar desolado, Dafoe assume o papel de guia, um homem mais velho que parece exercer controle sobre todos os aspectos do ambiente, evitando e provocando o seu companheiro mais jovem. 

Estas referências refinadas contribuem, sem dúvida, para a qualidade geral do filme, que leva o espectador a uma jornada complexa e desafiadora, repleta de símbolos e metáforas que podem ser difíceis de compreender à primeira vista. No entanto, à medida que nos aprofundamos na trama e tentamos desvendar alguns enigmas, a obra nos encanta.

Os irmãos Eggers fazem com que a narrativa do filme assuma gradualmente uma perspectiva mais surreal e fantástica. Não é de hoje que ignoramos que a malevolência também pode residir na iluminação. Nesse sentido, encontrar respostas é tarefa difícil, pois elas são escassas e fornecidas por narradores sem credibilidade. Aqui é revelado, num outro estrato de intenções, que até mesmo os iluminados, quer desejem ou não, podem evocar uma série de horrores. É por isso que a noção de proteção e orientação que simbolicamente conferimos a um farol está abalada na obra.

No final, não conseguimos concretizar a elipse que o filme nos enreda, pois permanece intacta a sensação de horror de alguém que ousou zombar de uma força maior do que ele mesmo. O mito de Prometeu e o castigo sofrido por Winslow nos dão boas perspectivas de leitura, já que ambos enfrentaram consequências por mergulharem em reinos proibidos. Winslow sofre uma queda escadaria abaixo, e seu corpo se torna alvo de gaivotas. Apesar das várias interpretações, o verdadeiro significado do filme permanece indefinido — e essa é a sua maior força. 

Sem dúvida, Robert Eggers criou uma obra-prima que sempre nos convida a novas interpretações. Cada vez que assistimos, surge algum detalhe que se soma a essa riqueza audiovisual raramente vista no reino do terror. Adaptar esse gênero não é tarefa fácil, e é por isso que a equipe de produção merece elogios por elaborar uma história cheia de enigma e suspense, com uma cadência singular que culmina em uma conclusão inexplicável.


segunda-feira, 13 de maio de 2024

Unindo a emoção e a razão num incrível amálgama de ­alquimista


[...] bestas paridas de um mesmíssimo ventre imundo, éramos todos portadores das mais escrotas contradições.


Narrado em primeira pessoa, Um copo de cólera (1978), de Raduan Nassar (1935-), deflagra a vida cotidiana de um casal, oferecendo vislumbres da dinâmica comum, porém complexa, de seu relacionamento. A obra mergulha nos pensamentos, nas impressões e nas emoções do protagonista, pontuando uma noite apaixonada de amor – descrita com ricos detalhes – e a rotina matinal do casal – especificamente o café da manhã.

A narrativa abre focando na conexão emocional e sexual entre o narrador e a sua companheira. Por meio de descrições, o leitor tem um panorama da vida e da rotina do protagonista, apesar dos acontecimentos da história se desenrolarem em poucos dias. Inquieto e intenso, cada capítulo tem um único parágrafo, marcado por muitas vírgulas e um ponto final. Ainda que isso possa soar estranho, acrescenta um senso de urgência e intensidade à narrativa, preparando o cenário para os momentos culminantes da obra.


[...] atrelado à cólera – eu cavalo só precisava naquele instante dum tiro de partida.


O dia avança normalmente até chegar ao capítulo “Esporro” – ápice da trama, tiro de partida. Desencadeado por um incidente trivial, que se transforma em uma explosão de raiva, um cálice de ódio, desenvolve-se um confronto verbal, fervoroso e combativo entre os dois. No entanto, é fundamental ressaltar que o que acontece aqui não se trata de uma mera altercação entre casais. A forma como se desenrolam as trocas de provocações e de insultos entre o casal é eloquente, evocando uma sensação de orgasmo por meio de um texto arquitetado em fluxo musical. O domínio da linguagem e a maneira como as ideias são expressas são a verdadeira tônica da narrativa. A habilidade lexical de Raduan Nassar dimensiona a intimidade do casal de forma espantosa. As descrições expõem ao mesmo tempo detalhes provocativos e belos. Embora seja extenso, com mais de cinquenta páginas em único parágrafo, é praticamente impossível pausar a leitura, pois a prosa potente e o estilo da narrativa ditam o ritmo para a discussão frenética do casal. Transitando com velocidade entre diversos assuntos, a obra combina com maestria uma infinidade de ideias. O conflito que se segue é fabuloso, com insultos que vão do pessoal ao ideológico, onde colapsa da boca do protagonista a sua criação arquitetônica-metafórica.

Para compreender o livro e a profunda expressão artística que ele incorpora, é necessário aprofundar o problema da linguagem à própria obra. Não se trata do criador ou do destinatário, mas do seu poder para lançar a verdade. Embora aparentemente subjetiva, a voz narrativa serve como uma máscara que esconde o problema mais profundo do livro. Essa linguagem, que varia dependendo do meio, reflete metafisicamente o mundo, as emoções e as sensações humanas. Por meio da arquitetura da linguagem, a obra capta um momento da realidade que não difere de nenhuma outra experiência. A força da verdade exposta reside na capacidade da obra exteriorizar o seu eu interior, que a sociedade muitas vezes marginaliza, testemunhando assim o caráter irreconciliável da sua existência.

A obra não tem como finalidade a comunicação. Em vez disso, evolui por um meio de linguagem que rejeita a ideia de transmitir qualquer mensagem específica. Enquanto fenômeno de linguagem e obra de arte, Um copo de cólera é essencial e afirma a sua independência, primando por uma estrutura original que a diferencie das demais obras. Além disso, expõe um cenário inesquecível, ainda que esquecido por muitos escritores. Este cenário é a existência de uma linguagem distinta que estabelece uma ligação profunda entre a expressão poética no mundo e a linguagem da humanidade. O compromisso poético de Um copo de cólera para com essas duas linguagens não procura estabelecer um modelo ou equivalência, pois a linguagem poética não envolve diretamente finalidades práticas ou assuntos vivos. Em vez disso, simplesmente nomeia e capta a essência da sua própria existência.

Agarrando-nos às maravilhas que têm nomes, atravessamos Um copo de cólera como quem atravessa a névoa da existência, como quem atravessa o mundo à medida que as palavras partem. É um problema de linguagem. Em busca de alguma distração que nos proteja da compulsão da palavra, enredamo-nos na essência das folhas, inflamadas por corpos que declinam para o esquecimento, para o vazio, com destino a ninguém. Os ciclos dos corpos ganham forma e são revitalizados em línguas alternativas, adornadas com diferentes denominações. A tinta ressecada nos lábios da fera deixa um sabor acre. Ao ler Um copo de cólera – o sonho das águas –, transpiramos linguagem, arranjando a antologia da nossa raiva. Transborda, por fim, a palavra, ressoando a musicalidade silenciosa dos abismos. 

 A sua conclusão acena à imprevisibilidade. Um copo de cólera vai além de um simples delineamento prático de pontos geográficos para uma navegação segura. A expedição incorpora algo muito mais grandioso, e é preciso audácia e coragem para nos aventurarmos no território desconhecido da nossa existência. Para compreender a profundidade e a essência do seu rico vocabulário e para enfrentar a complexidade que acompanha a sua leitura, deve-se ler a obra lenta e atentamente, pois, embora breve, trata-se de um livro denso. É só por meio desse gesto que podemos compreender o profundo impacto de Um copo de cólera e prestar homenagem ao legado artístico de Raduan Nassar e às possibilidades incalculáveis ​​que se desenrolam sob a sua linguagem. É uma experiência literária verdadeiramente magnífica.

Durante a década de 1970, Raduan Nassar escreveu dois livros renomados. No entanto, a sua insatisfação com o mundo literário o levou a abandoná-lo. Após isso, mergulhou na vida rural, mudando-se para a sua fazenda. Depois de algum tempo, doou a sua propriedade para a universidade (UFSCAR). Aos 88 anos de vida, Raduan Nassar permanece avesso aos holofotes, nunca se acostumando com a atenção e com a popularidade que surgem em seu caminho.


confesso que em certos momentos viro um fascista, viro e sei que virei, mas você também vira fascista, exatamente como eu, só que você vira e não sabe que virou; essa é a única diferença, apenas essa; e você só não sabe que virou porque – sem ser propriamente uma novidade – não há nada que esteja mais em moda hoje em dia do que ser fascista em nome da razão.

segunda-feira, 6 de maio de 2024

Que o teu eco ressoe em ti



Sonhava-se com um novo alfabeto, com uma nova linguagem figurada em que fosse possível fixar e transmitir as novas vivências espirituais.


Ambientado no ano 2200, século XXIII, O jogo das contas de vidro (1943), de Hermann Hesse (1877-1962), se desenrola na sociedade de Castália, onde reside uma comunidade de intelectuais que abdicou da vida mundana. Fundindo as sabedorias ocidental e oriental, a obra guia os leitores a uma jornada surpreendente que se baseia nos ensinamentos de diversos sábios. 

A narrativa acompanha a vida de José Servo, que explora diferentes caminhos em sua busca do autoconhecimento. No cargo de Magister Ludi, que é o mestre do jogo das contas de vidro (ou o Jogo de Avelórios), ele embarca em uma viagem que desvenda o profundo significado da história, e isso o leva a questionar as estruturas da própria existência e, em última análise, acaba provocando uma grande mudança interior. O livro termina com a história de Tito, seu último discípulo, e a conclusão sombria, que nos causa profundas reflexões.

Em Castália – sociedade que se assemelha a uma comunidade monástica –, os intelectuais vivem isolados em uma cidade cuja estrutura é dividida em vários grupos, cada um dedicado ao estudo de uma disciplina específica. Há, no entanto, o grupo dos jogadores de Avelórios, que funciona como força unificadora, abrangendo todas as áreas do conhecimento. O verdadeiro significado do jogo reside na sua capacidade de integrar com perfeição os múltiplos campos do intelecto, permitindo, por exemplo, a experiência dos saberes matemáticos por meio de estruturas musicais.

No entanto, é crucial reconhecer que a apresentação do mundo castálico funciona apenas como pano de fundo da obra, pois a verdadeira essência do livro está na narrativa de José Servo, o habilidoso mestre do Jogo de Avelórios. Sua vida serve de reflexão para os leitores, levando-os a pensar sobre suas próprias vidas. Embora seja um homem sereno, o percurso de José Servo rumo à transcendência é marcado por momentos de incerteza, pois o protagonista faz da dúvida um catalisador da fé. 

Um aspecto fascinante do livro é como José Servo vivencia momentos de alegria e de tristeza ao longo da narrativa. Ao invés de o protagonista se concentrar na busca de sua felicidade, o seu caminho rumo à transcendência o leva a procurar a serenidade e a harmonia, que são menos vulneráveis ​​ao impacto da tristeza. O que mais nos intriga durante a leitura é que essas emoções não são alcançadas por meio da entrega aos prazeres, mas por meio do ato de contemplação de uma música, de um poema, da beleza da natureza ou da vastidão do universo. Nesse sentido, José Servo se realiza na contemplação da amizade, do amor e das artes.

O percurso do Magister e a sua insatisfação com os privilégios que observa é verdadeiramente notável. Ele é um personagem de grande complexidade, característica frequentemente encontrada nas obras de Hermann Hesse. No livro, o autor explora fortes amizades, como a entre José Servo e Fritz Tegularius, grande jogador de Avelórios. A relação que Servo cria com Plínio Designori oscila entre a amizade e o confronto ideológico e funciona como catalisador para as decisões transformadoras do personagem. Embora a narrativa se desenrole de forma lenta, ela é consistente.


O mundo estava cheio de devir, cheio de história, cheio de tentativas e de um começo eternamente novo. Talvez caótico, mas era a pátria onde nascem e o solo onde germinam todos os destinos, todos os enaltecimentos, todas as artes, toda a humanidade.


Sem ação, a obra sustenta mais um sentido de contemplação e de introspecção. Até mesmo os conflitos centrais são lutas internas do protagonista. Mesmo assim, a obra não deixa de criticar a sociedade utópica e aquela que vigorava em sua época. Enquanto Castália se abstém de interferências políticas no mundo, o livro denuncia os intelectuais do seu tempo pela sua falta de envolvimento político e critica aqueles que esquecem o quão importante é a história, a ilusão de liberdade que o liberalismo vende e a natureza opressiva que existe em regimes marcados pelo totalitarismo e pela hierarquização.

O trabalho literário deixado por José Servo é fabuloso. Mesmo depois de uma leitura longa, continua a ser um desafio mergulhar nos domínios metafísicos e envolver-se com as “Três Existências”. Essas narrativas cativam pela sua potência, seu fluxo rítmico e suas mudanças repentinas de circunstância. Nessas obras, vislumbramos José Servo como se a sua consciência se manifestasse a cada linha. É evidente que Hermann Hesse, no auge de sua maturidade, procurou criar contos que atestassem as suas afinidades com as crenças hindu.

O capítulo “O Conjurador de Chuva” explora a ideia de que, embora os primeiros humanos não possuíssem a sofisticação da racionalidade, os seus sentidos e a sua intuição eram altamente avançados. Investiga o significado do medo que eles sentiam em relação à natureza, aos elementos, aos animais e às doenças, e como isso contribuiu para o seu crescimento espiritual. Em contraste, na nossa era moderna marcada pelo excesso tecnológico, a humanidade perdeu de vista o propósito e o significado da vida.

“O Confessor” centra-se na segunda manifestação de José Servo, especificamente na forma do arrependido Josephus Famulus. Este capítulo investiga o tema do serviço altruísta, um princípio cristão fundamental que permeia toda a narrativa. Dion Pugil transmite sabedorias a Josefo Famulus, enfatizando a importância de não tentar converter pagãos satisfeitos, mas focar naqueles que são infelizes e que precisam de assistência. Pugil observa astutamente que, mais cedo ou mais tarde, a natureza passageira de sua felicidade os levará a buscar consolo em Deus.

“A Encarnação Hindu” enfatiza a prática da ioga, especificamente da disciplina seguida pelos iogues ascéticos. Aqui, o autor mergulha no reino da filosofia e da espiritualidade orientais, inspirando-se no taoísmo e no budismo, para apresentar uma narrativa cativante da vida de Dasa e um retrato vívido da natureza ilusória da existência, conhecida como maia.

O jogo das contas de vidro é uma ode ao indivíduo, enfatizando a importância da autodeterminação, do serviço e da busca por um espírito nobre. Aqueles que aspiram ao crescimento pessoal contribuem positivamente para o mundo ao seu redor. Por meio da vida de José Servo, assistimos a um percurso caracterizado por momentos de incerteza, mas também por momentos de profundo crescimento e iluminação. Assim como São Cristóvão, José dedicou-se a servir quem ocupava posições de poder, buscando transcender as próprias limitações e despertar para novas possibilidades. Nesse sentido, o livro investiga o conceito de uma aristocracia espiritual, que tem o poder de elevar um indivíduo comum a um nobre em uma única vida. 

As seções do livro se entrelaçam, e cada parte ilumina as outras. Este é um livro que necessita de um consumo lento, apreciando sua complexidade e beleza. O jogo das contas de vidro está longe de ser uma leitura simples e certamente é uma obra que não tem como objetivo entreter; em vez disso, Hermann Hesse investiga domínios mais profundos. Nesse sentido, a vida de José Servo espelha grandes transformações, e aquele que decidir enfrentar a obra não passará indiferente ao poderoso universo criado por Hermann Hesse, universo que é ao mesmo tempo sereno e harmônico, agressivo e caótico. 


E logo em seguida se despertava de novo, devia-se deixar penetrar de novo no coração as torrentes da vida, e nos olhos o terrível, belo e atroz fluxo de imagens sem fim, inelutável, até ao próximo desfalecer, até à próxima morte. A morte era talvez uma pausa, um curto e ínfimo repouso, o tempo de se retomar alento, mas depois tudo continuava, e éramos de novo uma das milhares de figuras na dança selvagem, embriagante e desesperada da vida. Ah! Não havia extinção, não havia fim.