segunda-feira, 29 de abril de 2024

Onde o silêncio é mais assombroso que o estrondo



Esse jovem e insignificante estrangeiro, Brigge, terá de se sentar no quinto andar e escrever, dia e noite: ele terá de escrever, é assim que isso acaba.


Em Os cadernos de Malte Laurids Brigge (1910), do escritor Rainer Maria Rilke (1875-1926), os pensamentos afiados do protagonista Brigge, aliados a andamentos musicais, estruturam um livro plural e complexo. A obra é uma construção burilada a partir de uma linguagem onde as palavras, como força de criação, realçam as potências da prosa e da poesia. Trabalhando a solidão na cidade de Paris, repensando aspectos de quando criança, refinando o silêncio e refletindo sobre familiares misteriosos, Rainer Maria Rilke incorpora à sua escrita traços de autobiografia. No princípio é um pouco confuso diferenciar os aspectos de uma escrita cheia de símbolos que oscila entre o sonho e a música, pois Brigge é um ser consciente que está constantemente em movimento e que nunca repousa, mesmo quando se silencia. 

Os cadernos de Malte Laurids Brigge ergue pelo próprio sopro um mundo existente antes da linguagem que o chama. Nesse espaço, a atenção de Brigge se detém no mais incógnito dos mundos, e a narrativa busca desvendar o enigma do real, mas sempre impregnado pelo dúbio e pelo obscuro. Não se trata, portanto, de um mundo cadenciado e equilibrado, mas de um mundo criado em códigos, infinito em sua transitoriedade. O leitor – que se depara com uma obra tão densa e suave como um universo que já existe antes mesmo do olhar, mas que o solicita com atenção para ser revelado – se perde na obra como alguém que se perde num labirinto de mistérios, tomado pela curiosidade e pela tensão. De fato, ninguém explora com facilidade os horizontes de Rilke.


Pois em sua solidão ele amou e amou; a cada vez ele amou com a dissipação de toda a sua natureza e com um medo indizível pela liberdade do outro.


Se o que pulsa na obra é o cansaço sensível das palavras, que da sua potência imagética extingue todas as maneiras de senti-las, compreende-se que não há qualquer universo antes da obra, apenas ela durante o seu sopro. Ou seja, o que há e o que nunca deixa de haver acenam sempre o seu último fôlego. Há sensações demais. Enquanto a noite se ergue, tudo o que vive sob a luz vive de instabilidade, buscando nos tocar – e esse primeiro toque ainda acontece quando a consciência da obra atravessa a inconsciência do leitor.

Lá ou cá, Os cadernos de Malte Laurids Brigge evidencia o impacto da sua presença e a sutileza a cada linha. A obra segue um fluxo sem se assentar sobre um tema específico. Nessa cadência, aborda aspectos inerentes a Brigge, que discorre sobre a infância, a vida, o amor e a morte – tudo isso trabalhado sob o rigor da poesia e da filosofia, fato que confere ainda mais grandiosidade à obra. O ponto de confluência de todos os desdobramentos é a própria linguagem que, sempre revolucionária, insufla vida numa paisagem existente antes do homem e do corpo. E, nesse cenário de sensações articuladas pela linguagem, que não consegue mais modelar qualquer resquício de afeto, é a extrema solidão que conduz Brigge pelas ruas de Paris. 

Em solo parisiense, Brigge é um principiante em suas próprias circunstâncias. Tudo para ele é complexo porque tudo transborda novidade. Ele vive uma vida cheia de acontecimentos, num mundo que passou por grandes mudanças. Sendo influenciado por diversos aspectos, cria na alma uma ideia completamente distante de tudo. É preciso dizer que Brigge também é tomado pelas seduções que Paris suscita, e isso transforma a maneira como ele vê o mundo e a vida. Paris é uma cidade cheia de seduções. No aniquilamento das vozes que se acumulam em todos os cantos da cidade, todas as sensações que a obra sustenta são arquitetadas pelo abismo, sem qualquer proteção ou blindagem elucidativa prévia. 


Pois sabia que lá fora as coisas prosseguiam com a mesma indiferença de sempre, que também lá fora não havia nada a não ser minha solidão. A solidão à qual me resolvera e cujo tamanho não guardava mais qualquer proporção com o meu coração.


Nota-se a cada sentença que Brigge é um Hamlet que luta com os fantasmas de outro tempo numa madrugada sem amanhecer. Abismo fora das fronteiras lógicas, a obra plasma um pensamento que procura o labirinto oculto de Dédalo. Ao fazer isso, revela a sua grande força, que é a de sustentar o instinto de morte que paira a cada frase. Revela-se, mas digo que nunca por completo, pois suas reflexões sempre se fragmentam – e cada reflexão é um encontro improvável, um vitral sinfônico. Serenos e graves, os sons se encontram e partem, percorrendo brandos e bravos as chagas mais íntimas, por cima dos abismos da idade e da fragilidade, transformando, dentro da noite, todos os cantos do espaço em algo suntuoso. Assim, a cidade, as ruas, as artes, o hospital, a morte, as folhas de papéis – em suas narrações prováveis – alinhavam, em última instância, os leitores para sobreviverem a si mesmos. 

Obra sem enredo predefinido, Os cadernos de Malte Laurids Brigge busca compreender a vida em sua essência, conduzindo o leitor em uma jornada onde os desdobramentos são pensados e sentidos a partir de uma visão repleta de singularidade e subjetividade. Assim, a obra oferece uma reflexão profunda que combina poesia e ação. O resultado é uma narrativa que dissipa tudo, emana abstrações, fabulação de um sonho qualquer, sendo mãos que avançam no escuro sem deixar reflexos, reflexão que se desdobra, estranhando o porquê de desdobrar os seus estremecimentos.

Quando recitamos uma leitura, fazemos valer a sua maior potência, pois alocamos no espaço aquilo que antes morava nos olhos. O que nos resta depois é navegar à orla dos sentidos, testemunhando o que não pode ser testemunhado, nunca esquecendo que os destroços do naufrágio sempre fluem, refluem, girando, incessantemente. E assim é a escrita de todos, a arte de todos, porque, sendo de ninguém, nunca se apresenta, mas sempre revela as suas verdades ocultas, muitas vezes obscurecidas mesmo quando vistas de diferentes perspectivas. Mas, se ainda insistimos na leitura, é porque a obra acena para algo além de nós: arte. Os cadernos de Malte Laurids Brigge solicita atenção, pois é o destino imobilizante que fragmenta, que gera grande cansaço, deixando fugir os cacos do que é e oscilando quando se sopra a linguagem que o habita. Leiamos, portanto.


É para cá, então, que as pessoas vêm para viver; eu diria, antes, que aqui se morre.


segunda-feira, 22 de abril de 2024

A vida, a vida recomeçando sempre

 

No escuro o velho sentia a manhã que vinha, e remando ouvia o som trêmulo dos peixes-voadores a sair da água e o silvo que as asas tesas faziam quando eles cortavam as trevas.


Ernest Hemingway (1899-1961), renomado escritor que recebeu o Pulitzer em 1953 e o Nobel em 1954, é o autor da obra-prima O velho e o mar (1952). O livro narra a extraordinária jornada de Santiago, um velho pescador, durante a sua expedição mais notável no oceano.

Diante de circunstâncias desafiadoras, Santiago, um pescador habilidoso, se vê às voltas com uma prolongada onda de infortúnios – por mais de oitenta dias, a sorte o escapou, deixando-o à míngua sem qualquer peixe. No entanto, com o auxílio do seu aprendiz, o jovem Manolin, Santiago prepara os seus escassos equipamentos para aquela que será a jornada mais significativa da sua vida.

O velho e o mar embarca o leitor na viagem solitária de Santiago, narrando sua heróica busca para capturar o maior peixe que já encontrou e reconquistar o respeito de seus colegas pescadores. Capturando a essência das lutas, das amizades, dos triunfos e dos reveses da vida – tanto em águas abertas quanto nos campos mais amplos da existência –, a obra se estende para além da superfície e investiga necessidades humanas fundamentais, apresentando uma narrativa carregada de emoções que se aprofundam na introspecção da personagem.

Apesar de enfrentar imensos desafios, vivendo em profunda solidão, Santiago mantém-se inabalável e busca abraçar a felicidade que habita o coração dos virtuosos. Encantador, O velho e o mar é uma viagem através das reflexões de um indivíduo como outro qualquer, mas incrivelmente resiliente. É o simples com potência. Em poucas páginas, notamos como a precisão linguística de Hemingway brilha ao retratar a bravura, a paciência e a superação de Santiago.

O livro transcende a sua premissa inicial de uma pescaria e mergulha na complexa luta interna de um indivíduo solitário e despretensioso. Em termos de narrativa, o autor evoca habilmente múltiplas emoções dentro de cada cena. Assim, transportando o leitor para um reino mítico, onde uma batalha extraordinária se desenrola, mostrando sutilmente a força indomável da determinação e bravura humanas, a obra abre vários caminhos interpretativos.

Santiago dedica-se ao ofício da pesca diariamente, levantando-se cedo e aventurando-se no mar em busca de sustento. Esta perspectiva ilustra como a pescaria é parte integrante do destino do protagonista. É o mar quem lhe proporciona o alimento, e são os peixes que se sacrificam para garantir a sua sobrevivência. Sendo assim, é sempre com grande admiração e reverência que Santiago fala da natureza, do oceano e dos animais. Ele nutre profundo respeito pela fonte que sustenta a sua existência.

O velho e o mar realça a coragem necessária para sobreviver e navegar pela vida até o último instante. Embora a sua viagem seja um embate com o incógnito, onde a imensidão marítima o lembre constantemente a sua insignificância e a sua vulnerabilidade, é justamente no mar que Santiago descobre a sua própria força ao confrontar os demônios que o assombram. A solidão da jornada representa um submergir nas profundezas do próprio inconsciente, transformando o mar em uma metáfora para a autorreflexão, pois o tempo que passa nele também representa uma viagem para dentro de si.

Aquele que deseja obter algo do mar deve abordá-lo com reverência e respeito, como se abordaria uma mãe. Santiago lembra do mar como uma mulher cheia de feminilidade e traça um paralelo entre a influência da lua no mar e o seu impacto nas mulheres. Para ele, o mar é mãe nutridora, fonte de sustento e de vida. Essa sua reverência, que reflete o respeito que ele tem pela essência feminina de sua própria mãe, é um traço alegórico comovente e destaca a sua subordinação a algo que o transcende. Assim como sua mãe o deu à luz e lhe deu de comer, a imensidão marítima tem o poder de gerar e sustentar todas as formas de vida.

À medida que Santiago vivencia os efeitos do envelhecimento, Manolin aprende com ele e gradualmente vai tomando o seu lugar para dar continuidade ao trabalho iniciado. Esse é um paralelo que a obra desenha e que também pode ser evidenciado nos sonhos de Santiago. O velho sonha constantemente com leões, que são ligados a figuras de pais e mestres e são reconhecidos por serem animais sábios, justos e corajosos. Nesse sentido, Santiago desempenha a função de orientador de Manolin, ensinando-lhe sobre a vida e suas circunstâncias.

Reconhecendo a sua limitação e compreendendo que necessitava da sabedoria do velho para enfrentar a vastidão marítima, ele se posiciona como um discípulo, pois, embora tivesse a vitalidade da juventude, a sua falta de sabedoria o tornava vulnerável perante às provações da vida. Manolin considerava Santiago uma pessoa extraordinária, compreendendo bem que o processo de envelhecimento, embora trouxesse a fragilidade física, também trazia no seu bojo uma antologia de experiências. Nesse sentido, Manolin sempre reverenciou as marcas que Santiago levava consigo, pois o seu mentor personifica a ideia de que precisamos cultivar a coragem de perseverar.

Não é todo dia que se encontra um livro tão emocionante. O velho e o mar é uma obra de arte elaborada com uma trama simples, mas grave, que requer tempo para ser totalmente apreciada. Nela, exploramos as limitações e as vulnerabilidades humanas, a conquista do conhecimento adquirido ao longo do tempo, os valores da caridade, do respeito e da humildade com os nossos antecessores. De certo, pertence à categoria das pinturas excepcionais que nos cativam profundamente, criando uma delicada ligação entre o texto e as nossas emoções.

Por fim, compreendemos que a vida segue o ciclo de semeadura e colheita, e O velho e o mar nos ensina que essa construção é diária, onde iniciamos primeiro como novatos e terminamos como especialistas. Para atingir esse nível de domínio, porém, é fundamental cultivar a importância do aprendizado empático e humilde.

segunda-feira, 15 de abril de 2024

O sopro prateado: o impulso fantasma



Senta-te sultanicamente entre as luas de Saturno, e imagina um solitário homem abstrato; e ele te parecerá um prodígio, uma grandeza, um sofrimento.


Quando nos aprofundamos em algum livro, certamente ele perturbará o equilíbrio da nossa bússola interna. As vantagens que uma leitura potente nos confere sempre são capazes de nos surpreender. A capacidade de embarcar em grandes literaturas é um privilégio, e aquele que se dedica a esta expedição tão solitária invariavelmente é um sujeito que respeita os seus semelhantes. Cada escritor nos revela como o universo pode ser visto a partir de outros ângulos.

Em 1820, após ser golpeado por um cachalote, o navio baleeiro “Essex”, que era comandado pelo capitão George Pollard, naufragou em alto mar, e toda a tripulação ficou à deriva por três meses. Sem qualquer tipo de suprimento, os homens tiveram de recorrer ao canibalismo para sobreviver. A obra-prima Moby Dick (1851), do autor norte-americano Herman Melville (1819-1891), é um livro influenciado não só pelas experiências do escritor – que também foi marujo em navios baleeiros e mercantes –, mas também por histórias que marcaram épocas, como a mencionada, que também inspirou Nathaniel Philbrick (1956-) a escrever o livro No coração do mar (2000).

Após ver as suas finanças em declínio, O jovem narrador Ismael decide ir à cidade de Nantucket, localizada em Massachusetts, para embarcar em um navio baleeiro, mesmo tendo experiência apenas com a marinha mercante. Naquela época, a caça às baleias era abundante e rendia bons lucros. Antes de embarcar no “Pequod”, baleeiro cujo capitão era o autoritário e enigmático Ahab, que teve a sua perna arrancada por um cachalote, Ismael inicia uma grande amizade com o arpoador Queequeg. A bordo do “Pequod”, a tripulação foi apresentada a Starbuck, Flask, Stubb, pilotos responsáveis pelo comando dos botes do navio. Seus arpoadores eram Queequeg, Daggoo e Tashtego. Sem pendências, o “Pequod” estava pronto para seguir sua jornada de três anos em alto mar.

O real motivo da viagem vem à tona. Movido pela vingança, o capitão Ahab surge no convés após dias sumido de sua tripulação e diz que o principal objetivo da expedição é, na verdade, caçar a baleia branca Moby Dick, a besta marinha responsável por desgraçar vários navios e por arrancar a sua perna. Com esta ideia obsessiva em mente, Ahab persegue os rastros da baleia que o mutilou e que continua nadando livremente.


[...] com as cartas de todos os quatro oceanos diante de si, Ahab tecia um labirinto de correntes e sorvedouros, almejando uma realização mais segura daquele pensamento monomaníaco de sua alma.


Antes de encontrarem Moby Dick no oceano Pacífico, a expedição atravessa rotas sinuosas dos oceanos Índico e Atlântico. Assim, somos atirados em um maelstrom narrativo que desbrava os cantos do mundo. Se a narrativa começa carmesim, evocando imagens de fúria, fervor e sangue, à medida que a história se desenrola, o tom muda gradualmente, imbuindo a atmosfera da expedição com uma sensação de melancolia. Ismael retrata vividamente o terror que experimenta ao testemunhar a transformação de seu capitão na perseguição incansável de seu inimigo.

Para um escritor, a loucura serve como uma purificação da essência. Alguns artistas alcançaram com sucesso este estado e hoje ocupam posições relevantes em nossa sociedade. Poderíamos argumentar que em geral os escritores travam diálogos com a loucura e se esforçam para abraçá-la, naufragando ao canto das sereias. No âmbito da narrativa de Melville, a ausência de qualquer possibilidade de redenção para Ahab faz com que persista apenas o ódio. Embora haja uma presença de heroísmo trágico no capitão, ela é ofuscada pela dura realidade da história. O mote vingativo que Ahab sustenta ao longo de toda a narrativa é sem romantismo e calma.

A tarefa de compreender a simbologia da baleia cabe ao leitor. Moby Dick, quando se sente coagido, ataca de forma estratégica e inteligente, mas, no geral, é uma baleia que apenas segue o seu fluxo, ignorando aqueles que se aproximam dela, levando ao longo de seu corpo as cicatrizes e os arpões de todos os marinheiros que nunca conseguiram subjugá-la. As opiniões de Starbuck e Ahab não se encontram, pois, segundo este, Moby Dick é um assassino que age com perspicácia e astúcia. 


[...] e o navio silencioso, como que tripulado por marinheiros de cera pintada, prosseguiu, dia após dia, através da loucura e alegria veloz das ondas demoníacas. De noite, a mesma mudez da humanidade diante dos gritos do oceano prevalecia; ainda em silêncio, os homens balançavam nas bolinas; ainda sem palavras, Ahab enfrentou a tormenta.


É o animal que detém o domínio. Parece-nos que existe uma batalha constante entre humanos e animais, onde o intelecto se revela impotente contra a força instintiva. Enquanto a obsessão continua a crescer, o vibrante mundo marinho gradualmente perece. 

Moby Dick é uma história que exige ser contada em voz alta. Envolve cansar-se da cadência da linguagem e deter o olhar na bruma de cada página. Este romance marca o cenário literário de forma ímpar, e um leitor atento pode notar aspectos mais densos na obra. Moby Dick aprofunda pontos importantes, como as questões de raça, de hierarquia dos tripulantes, de exploração econômica com a caça às baleias (para a extração de óleo), entre outras questões de relevância mundial. O navio, aliás, opera como um microcosmo do mundo. Aquele que mergulhar na obra sentirá, na ponta dos dedos, o cheiro persistente de óleo písceo e inalará a cada frase a brisa salgada do oceano.

Joia redescoberta no século XX por escritores influentes, Moby Dick é uma aventura épica que rompe com épocas e parâmetros. Misturando impasses filosóficos, relatos científicos, poesia, sermões religiosos e diálogos à altura de um teatro shakespereano, sob a destreza e a precisão de Melville, Moby Dick é uma aventura sublime com destino à imensidão marítima e às profundezas do ser. Ao contar a obsessiva caçada de Ahab por Moby Dick, o livro narra uma metáfora espantosa da condição humana, transformando-se em um símbolo daqueles que caem nas profundezas insondáveis da loucura e da vingança. De certo, um grande feito da literatura mundial.


No instante seguinte, o pesado nó corredio da ponta final da linha voou da selha vazia, derrubou um remador e, batendo no mar, desapareceu nas profundezas.


segunda-feira, 8 de abril de 2024

Um incêndio na caverna da alma



Nós nunca nos realizamos. Somos dois abismos – um poço fitando o Céu.


O Livro do desassossego (1982), de Bernardo Soares, que é tido como um “semi-heterônimo” de Fernando Pessoa (1988-1935), dita um andamento íntimo que jamais descansa, pois a obra trata das inquietudes do sujeito dentro do espaço-tempo que frequenta. Embora os temas abordados na obra se assemelhem a um diário, o livro – que reúne aproximadamente quinhentos trechos em prosa e que foi publicado mais ou menos cinco décadas após a morte de Pessoa – é o que mais se parece com um romance.

Trabalhando como auxiliar de guarda-livros em Lisboa, Bernardo Soares produz uma narrativa onde – pode-se dizer – não há fatos, sequências lógicas e noção temporal clara. Desilusão, melancolia e tédio são os tons que prevalecem na obra, que transita entre a dimensão do mundo concreto que é vivido na rua dos Douradores à dimensão do mundo abstrato que é sonhado na folha de papel. Assim, entre o múltiplo e o uno, Bernardo Soares empunha sua caneta para explorar as ideias do que é irreal e real, do tudo e do nada.

O Livro do desassossego é uma antologia de reflexões profundas sobre a vida e seus desdobramentos. Nele, há diversas passagens que colocarão em xeque as nossas condutas e a nossa visão de mundo. A inquietação que o meio social e suas opiniões suscitam, a singularidade de Bernardo Soares contra a pluralidade do que o rodeia, as mudanças e os movimentos literários e políticos portugueses, a inquietação das palavras – entre outros aspectos fundamentais – são alguns temas abordados e que, certamente, também nos despertam profunda inquietação. 


Vivo de impressões que me não pertencem, perdulário de renúncias, outro no modo como sou eu.


É uma obra que reúne tudo o que pertence a todos ao abrir caminho na densa floresta de si. Sonhando, mas sonhando com o intelecto, Bernardo Soares avança contra as estruturas do próprio corpo para flexionar sensações e pensamentos tão comuns a todos, ou seja, sublime arte, que se escora no mais escuro de nós, no mais complexo, dentro da neblina oscilante, o particular transformado em universal. Aqui, tudo testemunha tudo, e todo o testemunho se apresenta para tirar dessa banalidade da vida a transcendência que pulsa no mais íntimo do humano. Compreende-se que é uma obra basilar onde tudo se encontra e nada se perde (ou nada se encontra e tudo se perde), onde se busca no espaço a metafísica da vida.

Cintila a cada palavra e em todo o fragmento a astúcia daquele que durante toda a vida atentou a si e às circunstâncias do mundo. Embora julgue o homem de ação e o de sonho, Bernardo Soares sustenta uma vontade velada de se equiparar a eles, pois a aflição de não saber como é a real aparência da vida é gatilho de profundo desassossego. Os traços existencialistas ao longo dos fragmentos são bem perceptíveis, fazendo com que a obra também possa ser lida como um tratado de filosofia.

O Livro do desassossego provoca uma constante inquietação física. A angústia se materializa num asco que transborda pelos campos da sensação, do corpo e do intelecto para revelar a cada trecho os múltiplos lados do ser humano e dimensionar a busca do sujeito pela compreensão de si e da vida. Para isso, a obra explora sentimentos de isolamento, inquietude, abstração e alheamento, operando em uma frequência de intensa introspecção. 


Repudiei sempre que me compreendessem. Ser compreendido é prostituir-se. Prefiro ser tomado a sério como o que não sou, ignorado humanamente, com decência e naturalidade.


Ao pensar os aspectos incompreensíveis da vida num estilo de escrita tão fragmentário e único, notamos que a precisão linguística de Fernando Pessoa é tão assombrosa que é capaz de transformar a sua prosa em poesia. Minerador de gemas, a sua astúcia é a de um genuíno alquimista da palavra – e o Livro do desassossego revela isso com contundência, transformando-se em uma referência da literatura mundial. Grandeza transformada em princípio, incorporada de todos em si, Pessoa é um arquiteto de labirintos, traçando a quantidade de mistérios que em sua época desperta o espírito universal de todas as épocas – linguagem do espírito para o espírito, sintetizando matizes, sons, ecos, fragrâncias, pensamentos e sensações que puxam sensações e se multiplicam. Fernando Pessoa é, de fato, o gatuno do fogo.

É um livro que nos marca de forma tão singular que levamos a sua filosofia e a sua literatura para a vida. Mas cabe ressaltar que a profundidade dos pensamentos de Pessoa demanda o amadurecimento do leitor, que certamente precisará enfrentar a obra diversas vezes, pois uma única leitura é insuficiente. Não compreendemos o que fazemos de nós. Transformamo-nos em nossas sensações à medida que sentimos profundamente. Se intuímos que aquele que pensa de forma racional não é um ser liberto, mas um ser que habita outro tipo de prisão, o Livro do desassossego faz desabar as estruturas que sustentam a nossa vida.

Na verdade, o desassossego, que oscila de uma leitura para a outra, de um tempo para o outro, é tão imenso e suficiente que sem ele o mundo não seria o mesmo. É um desassossego complexo e profundo. O motivo real disso tudo permanece incompreensível: a leitura nos desassossega e nos incendeia. E esse é com precisão o sentido das chamas. Não seremos mais os mesmos ao ressurgirmos do outro lado daquilo que nos incendeia. Na verdade, quando isso acontecer, ainda desconfiaremos. Certamente será complexo compreender como sobrevivemos às chamas ao transpô-la.

Viver é desassossegante. Nota-se nos trechos da obra que Bernardo Soares foi um observador ativo dos movimentos humanos. Navegador da palavra. Burilador da vida. Ele abre veredas para que vivamos além de nossos pensamentos, além de nossas sensações e, sobretudo, além de nós mesmos, visto que é capaz de revelar as zonas mais incógnitas de nós, com consciência ímpar. Lentamente, até perceber que se viveu todo um ciclo existencial em algumas páginas, assim devemos ler o Livro do desassossego. Com a sua sublime linguagem, faltam-nos palavras para dimensionar a potência dessa obra.

 

Como um espetáculo na bruma aprendi nos sonhos a coroar de imagens as caras do quotidiano, a dizer o comum com estranheza, o simples com derivação, a dourar, com um sol de artifício, os recantos e os móveis mortos e a dar música, como para me embalar, quando as escrevo, às frases fluidas da minha fixação.

 

segunda-feira, 1 de abril de 2024

Minha palavra estala no espaço do dia. O que saberás de mim é a sombra da flecha que se fincou no alvo

 

E neste instante-já vejo estátuas brancas espraiadas na perspectiva das distâncias longas do longe – cada vez mais longe no deserto onde me perco com olhar vazio, eu mesma estátua a ser vista de longe, eu que estou sempre me perdendo.


Água viva (1973), de Clarice Lispector (1920-1977), ressalta e aprofunda traços de uma escrita fragmentada, com poucas descrições e contaminada pela musicalidade – características menos presentes em outros trabalhos da autora. Sem divisões, a obra é uma sequência de pensamentos e sensações que estabelece um profundo diálogo com questões existenciais, sob uma ótica tão singular. 

Água viva é uma potência que nos arrebata pelo seu ardor, pela sua chama, pela sua violência e, sobretudo, pela sua vida, cadenciado numa linguagem que se aventura em um emaranhado espesso de palavras. O livro convoca imagens para experienciar o contato com o mundo e com a essência primordial da vida. Água viva, aliás, sugere fluxo contínuo, deslocamento, energia e o pensamento de que tudo está em constante movimento e em profunda mutação. 

Na obra, alguém escreve para alguém, mas, como não sabemos quem são os portadores das vozes, cabe-nos supor que é um livro de ninguém para ninguém, ou seja, uma obra endereçada a nós, leitores. Em uma corrente de consciência contínua que nos suspende o fôlego, ressoa a voz que transita em diversos planos, revelando as suas inquietações, as suas buscas, os seus desejos, incorporando aspectos da natureza e movimentos animais. Com um enredo sutil (ou nenhum), é uma obra que não contém os elementos que normalmente estruturam e compõem um romance.


Em redor da sombra faz calor de suor abundante. Estou viva. Mas sinto que ainda não alcancei os meus limites, fronteiras com o quê? Sem fronteiras, a aventura da liberdade perigosa. Mas arrisco, vivo arriscando.


Sabe-se agora, neste “instante-já”: nós e a nossa liberdade, prisioneira e angustiante. Água viva é, de forma paradoxal, uma obra que transborda sensações presentes, trançando e transformando, ao mesmo tempo, o estado de inércia das coisas às coisas que são mutáveis. Nesse campo mágico, com água e fogo, rimbomba a voz que sussurra e grita o “instante-já” dentro da noite. No desenrolar de cada segundo que arquiteta o tempo presente – onde as fronteiras do “cá dentro” e do “lá fora” são cada vez mais nebulosas e imperceptíveis –, essa voz que nos atravessa ao longo da narrativa busca compreender, de forma obstinada, a sua solidão e a solidão daqueles que habitam esse tempo-espaço fragmentado de relações.

Assim, Água viva expõe a inquietude metafísica e o declínio psicológico, celebrando o núcleo da natureza mais íntima. E essa frequência narrativa que atravessa todas as instâncias da obra fragmenta e embaralha os parâmetros da escrita, desestabilizando a linguagem, mostrando o seu outro lado, que é o silêncio. Compreende-se, portanto, que não é uma obra feita para ser entendida, mas sentida (como a música), visto que transborda experiências profundas de vida, que solicita a cada frase um olhar atento e sensível. Espiral, Água viva é um livro que nunca termina, porque nunca começa.


O que sou neste instante? Sou uma máquina de escrever fazendo ecoar as teclas secas na úmida e escura madrugada.


Nos instantes em que a obra parece soar ilogicidade, prevalece a força da linguagem, sempre intensa e sensorial – aspectos marcantes nas obras da autora. É notável a maneira como essa voz narrativa transita entre assuntos, partindo quase sempre de aspectos triviais. Jogando com as palavras, fundando pensamentos e sensações, sopramos uma leitura que nos faz ultrapassar os limites do corpo e que nos conduz a outras zonas, mais sutis e místicas.

Aqui, trançando as palavras para erigir o tempo, fundimo-nos ao presente, lâmina afiada, e sentimos (não compreendemos) a correnteza que funda a alma e a arrasta. Sim, Água viva é uma correnteza que nos funda a alma, abrindo diálogo com todas as dimensões do tempo que nos lapidou, que nos lapida e que ainda nos lapidará. Para isso, basta mergulhar nessa correnteza, de peito aberto e mão cerrada, sem querer silenciar os fantasmas que espreitam na sombra, sem querer represar as sensações que pulsam na boca.


Evola-se de minha pintura e destas minhas palavras acotoveladas um silêncio que também é como o substrato dos olhos. Há uma coisa que me escapa o tempo todo. Quando não escapa, ganho uma certeza: a vida é outra. Tem um estilo subjacente.


Durante a leitura, somos capturados por essa centelha temporal que brilha de quando em quando: o “instante-já”. É uma voz tão íntima do mundo que está se distanciando, partindo, mas que antes nos deixará na garganta o sabor amargo das coisas que tentamos esquecer, revivendo aquilo que tentamos silenciar. Água viva é uma obra que solicita a nossa intervenção. 

Se ainda nos é complexo desvendar Clarice Lispector nos dias de hoje, o que nos fica claro aqui é que não há qualquer chave de leitura que nos faculte uma compreensão correta dessa obra enigmática e inquietante. Entre a prosa e a poesia, Água viva é um livro brilhante e desafiador que celebra, com uma alegria intensa, com uma tal aleluia, a existência de tudo o que existe – profundamente.


Sim, o que te escrevo não é de ninguém.