segunda-feira, 25 de março de 2024

A intimidade como princípio de violência

 

– Já disse que não acredito na discussão dos meus problemas, estou convencido também de que é muito perigoso quebrar a intimidade, a larva só me parece sábia enquanto se guarda no seu núcleo, e não descubro de onde tira a sua força quando rompe a resistência do casulo; contorce-se com certeza, passa por metamorfoses, e tanto esforço só para expor ao mundo sua fragilidade.


Lavoura Arcaica (1975), de Raduan Nassar (1935-), é um romance que narra em primeira pessoa os desdobramentos da fuga de André, depois de abandonar a sua casa na fazenda e a sua família. Pedro, o irmão mais velho, que fica incumbido de procurar André e levá-lo de volta para a casa, encontra o irmão em uma antiga pensão do interior. Aqui, mergulhamos nas memórias do jovem sobre a sua rotina na fazenda e conhecemos os motivos sombrios que corroboraram para a sua desobediência.

A sua descrença em relação aos discursos do pai – que pregam a resiliência, a tranquilidade e a organização –, a sua rotina de trabalho árduo na fazenda da família, a sua relação incestuosa com a irmã foram determinantes para que o jovem tramasse a sua fuga. Na fazenda, era aplacando o seu desassossego junto à terra que André se refugiava das vistas familiares; era se entregando ao silêncio desse gesto que procurava esvaziar os discursos inflexíveis e infecundos do pai. O silêncio, aliás, é um aspecto significativo na obra. Jogando com as palavras, subvertendo os parâmetros da linguagem, André narra todos esses acontecimentos com muita potência – e é esse o seu grito contra a austeridade da família e, sobretudo, contra a presença do pai que o assombra.

Se o silêncio era a regra do pai, era no silêncio que André fermentava a sua transgressão. No convívio da fazenda, era sempre a voz do pai a primeira e a última a se manifestar, inviabilizando a decisão dos demais membros da família. Antes de cada refeição, cada um dos seus discursos – cheios de simbolismos, imagens e moralismo – tinha os seus motivos de existir. Nele, o que realmente importa não é a palavra dita, mas a força da ação e do exemplo. Assim, a figura paterna na obra acredita que a felicidade de um homem necessita da total devoção à tradição familiar, aos seus membros e ao trabalho.


[...] e mal saindo da água do meu sono, mas já sentindo as patas de um animal forte galopando no meu peito, eu disse cegado por tanta luz tenho dezessete anos e minha saúde é perfeita e sobre esta pedra fundarei minha igreja particular, a igreja para o meu uso, a igreja que frequentarei de pés descalços e corpo desnudo, despido como vim ao mundo, e muita coisa estava acontecendo comigo pois me senti num momento profeta da minha própria história, não aquele que alça os olhos pro alto, antes o profeta que tomba o olhar com segurança sobre os frutos da terra.


Defensor e modelo legítimo dos velhos hábitos, Pedro cumpria o seu objetivo de levar de volta para o seio da família a ovelha tresloucada. As palavras que saiam da boca do irmão mais velho ressoavam, por todas as paredes daquela pensão interiorana, os mesmos sermões do pai. Ainda assim, aceitando os argumentos de Pedro, André decide voltar para a casa, e essa atitude faz com que muitos comparem o livro à parábola do filho pródigo. Diferentemente do que acontece no livro de Lucas, onde o filho mais jovem da família volta ao lar depois de gastar toda a sua parte da herança e submete-se às leis da casa, em Lavoura Arcaica, o regresso provoca uma grande instabilidade e termina em tragédia.

A ideia central do livro é fragmentar as engrenagens dessa máquina programada para repetir os mesmos ciclos geracionais. Jogando com o divino e com o mundano, com a harmonia e com o caos, com o velho e com o novo, Lavoura Arcaica apresenta o duplo em diversos momentos da narrativa, e André é a personagem que aperta junto ao peito todas essas sensações contrastantes que estruturam a psique humana. Repleta de alegorias, parábolas, conflitos psicológicos, a intensidade e a profundidade da narrativa suspende-nos a respiração, fazendo com que nos sintamos impotentes diante das circunstâncias.

Lavoura Arcaica é uma obra onde tudo nos atravessa, o sublime e o grotesco. Profunda e densa, a sua leitura busca jogar luz sobre os fantasmas que assombram André. Ainda que o livro seja conhecido por sua prosa poética de alta qualidade, é preciso ressaltar que Raduan Nassar consegue não só conferir complexidade a todas as personagens, mas também situar de forma clara o tempo e o espaço onde as ações se desenvolvem – muito embora o livro não siga as estruturas lineares que a maioria dos livros tradicionais seguem. Com isso, o leitor consegue atravessar e ser atravessado por todas as nuances que compõem a trama.


[...] eu só estava pensando nos desenganados sem remédio, nos que gritam de ardência, sede e solidão, nos que não são supérfluos nos seus gemidos; era só neles que eu pensava.


Vencedor do prêmio Camões 2016, Raduan Nassar é um mago da palavra. Durante a leitura, compreende-se que a potência da obra reside na linguagem que dança e na gravidade do silêncio que habita em cada pausa. A maneira como ele trabalha a linguagem, ligando vidas, sensações, fluxos e todos os elementos que compõem o corpo humano, seguem um curso sem fim, uma correnteza de energias. Todos os hiatos pulsam, sem dar brechas para os exageros, sem dar trégua para as sensações. Essa precisão léxico-sintática, tão rica ao longo de todo o livro, certamente eleva Raduan Nassar ao panteão dos autores nacionais.

Considerando a sua riqueza e a sua complexidade linguísticas, com estruturas tensas, densas e musicais, é possível compreender Lavoura Arcaica como uma obra que transita entre a prosa e a poesia. Operando nessa frequência, a obra debate questões profundas, onde é impossível encontrar culpados.

Vencedor do prêmio Jabuti em 1976, Lavoura Arcaica é tido como um dos livros mais importantes da literatura nacional. Alguns anos depois, Raduan Nassar deixou de lado a carreira literária para se dedicar às tarefas rurais. Embora a sua passagem pelo cenário literário tenha sido curta, escrevendo somente três livros, Lavoura Arcaica tem fôlego inesgotável. Contundente e iluminada, é uma obra que arrasta consigo profundos pensamentos e desdobramentos, chamando sempre o leitor para novas aventuras nesse campo lavrado de palavras.


[...] O amor que aprendemos aqui, pai, só muito tarde fui descobrir que ele não sabe o que quer; essa indecisão fez dele um valor ambíguo, não passando hoje de uma pedra de tropeço; ao contrário do que se supõe, o amor nem sempre aproxima, o amor também desune; e não seria nenhum disparate eu concluir que o amor na família pode não ter a grandeza que se imagina.


– Em parte alguma, menos ainda na família; apesar de tudo, nossa convivência sempre foi precária, nunca permitiu ultrapassar certos limites; foi o senhor mesmo que disse há pouco que toda palavra é uma semente: traz vida, energia, pode trazer inclusive uma carga explosiva no seu bojo: corremos graves riscos quando falamos.

segunda-feira, 18 de março de 2024

O conflito silencioso das marés, onde tudo reverbera em um estrondo oco


E também dentro de mim a onda se ergue. Cresce; arqueia o dorso. [...] Que inimigo percebemos agora a avançar contra nós, você a quem cavalgo agora, parados aqui, escarvando este trecho do calçamento?


Nunca suportei a ideia de terminar uma obra magnífica, então, sempre que leio uma passagem sublime, tenho o hábito de fechar o livro e sair um pouco para respirar. Com isso, tento suspender o inadiável ao máximo, fazendo o livro durar de todas as maneiras. A potência de outras vozes me enche tanto que quase me fragmento. É assombroso! Imagino que seja uma experiência comum a todos os leitores. Então, repito, quando me deparo com uma passagem linda, cesso imediatamente a leitura e saio, de qualquer forma, para respirar, para refletir os golpes que um livro potente me desfere.


Quero arrancar-me dessas águas. Mas elas se amontoam sobre mim; arrastam-me por entre seus ombros enormes; reviram-me; sacodem-me; fico estendida entre essas longas luzes, essas longas ondas, essas veredas intermináveis, com gente que me persegue, persegue.


As ondas (1931), de Virginia Woolf (1882–1941), é certamente uma obra-prima complexa. Diferentemente de publicações anteriores, que seguem uma estrutura mais “lógica”, onde conseguimos compreender com mais precisão o tempo e os lugares onde as personagens atuam, em As ondas isso não acontece, visto que o romance é dirigido por vozes de personagens praticamente incorpóreos.

Começando na infância e terminando na velhice, o livro narra – por meio de monólogos interiores – as vidas e os pensamentos de Bernard, Louis, Rhoda, Jinny, Neville e Susan em um fluxo de consciência altamente literário e elíptico – e talvez essa seja uma das grandes complexidades do livro, pois cabe ao leitor o trabalho de inferir e preencher os vazios do não dito.

Aqui, de ponta a ponta, cada acontecimento é mais súbito do que constante, ainda que a obra seja atravessada por uma linha condutora tênue. Nesse sentido, os conflitos que surgem ao longo da trama são psicológicos e internos. As personagens são as ondas da narrativa que colidem em fluxos e refluxos incessantes, que questionam a cada encontro, a cada contato com a morte e com o amor, a essência da existência humana.


O som do coro vinha através das águas, e senti brotar aquele antigo impulso que me empurrou a vida inteira, o de ser lançado acima e abaixo no bramido das vozes de outras pessoas,cantando a mesma canção; jogado acima e abaixo no bramido de uma quase insensata alegria, sentimentos, triunfos,desejos.


A maneira como as repetições são usadas na narrativa, ecoando sensações, pensamentos e passagens temporais, é sublime. Danças rítmicas, como os avanços e os recuos do ondular marítimo, as personagens falam a partir de suas perspectivas e se retiram de cena, traçando um panorama impressionante e singular da vida, pintando uma paisagem complexa e sensível da natureza. Pouco a pouco, trazendo à tona o incógnito que habita o mais profundo e escuro do humano, Virginia Woolf tece particularidades para as personagens, mas sem desmanchar a teia comum que as liga. Nesse compasso, o livro se desenvolve num redemoinho de vozes que se encontram e se complementam.

Não há cisão entre as personagens. Conforme os amigos amadurecem, passam naturalmente a ter outras visões de mundo, mas os elos que constroem não se partem, pois são conectados a um ponto em comum. Embora distintos, todos são os mesmos, isto é, os seis são um, e o um é Percival, o único amigo que não tem voz na narrativa. Percival realiza esse papel fundamental ao longo do livro. Expostas simbolicamente, a sua presença e a sua ausência são sentidas por todos os amigos, fato que colabora para a profundidade da história e dita as experiências e as reflexões das demais vozes durante as fases de suas vidas.

Além das vozes das personagens, a natureza está sempre presente, como a praia que é descrita no início da narrativa e que se prolonga por todo o livro. Também vozes incorpóreas, esses interlúdios – marcados sobretudo por movimentos sensoriais de águas, aves, sombras e luzes – narram a passagem do tempo como se fossem o próprio tempo que habita todo o espaço. O desenvolvimento dessa paisagem, que expõe o curso completo de um dia, ressalta simbolicamente os ciclos que as personagens atravessam ao longo da vida até chegarem à velhice, onde a solidão se manifesta mais ostensiva com a chegada da noite.


O sol ergueu-se mais. Ondas azuis, ondas verdes derramam um rápido leque sobre a praia, circundando as pontas dos cardos-marinhos, depositando poças rasas de luz aqui e ali na areia. Atrás de si, as ondas deixaram uma tênue orla negra. As rochas, antes nevoentas e macias, endureceram, vincadas por fissuras rubras.


Conforme as fases da vida avançam, os pensamentos ficam mais profundos, e as correntes de consciência das personagens submergem em uma imensa introspecção. Assim, os temas da noite e da solidão, que se tornam assuntos constantes, representam a chegada da morte e uma tentativa de união à brevidade da vida. Como devemos nomear a morte? Vemos as palavras se enlaçando como espirais de fumo e somos tragados pela noite. Os verdadeiros têm mais sucesso nas sombras da solidão, espaço onde as grandes frases nascem. Somos o nada, mas seguimos ribombando.

Se a maior relevância da obra é o estrondo de cada palavra, compreende-se que os princípios clássicos do romance foram deixados de lado para se buscar aquilo que existe antes da forma. A infância, a juventude e a maturidade: do mar, somos a potência da maré, a grandeza do inexplorado e a solidão da profundeza. Fragmentando o tempo e o espaço, a força da sua linguagem é uma agitação sísmica que sulca e estabelece outras conexões. A água, que é sobretudo indivisível, sustenta a complexidade do mundo antes do nosso surgimento. Atravessamos o tempo e a história ao longo da vida, mas tudo isso acontece em um único instante. 


As árvores, dispersas, ordenavam as coisas; o denso verde das folhas atenuava-se sob uma luz dançarina. Eu os recobri com uma frase súbita. Com palavras, salvei-os da condição amarga.


Aqui, em diversos monólogos, as reflexões mais complexas que envolvem a existência durante a fase adulta ganham corpo como alguma coisa que sempre escapa ao manejo humano e que nunca cessa o seu curso. Na fímbria dos sentidos, compreende-se que também somos a água que ondula pelo tempo, a água que avança e se derrama na areia da praia, a água que avança e se choca contra o rosto da rocha, mesclando, embaralhando e marcando todas as fases de nossa vida, reconfigurando a cada segundo o que em nós é eterno.


Saciado e repleto, sólido na satisfação da meia-noite, eu, a quem a solidão destrói, deixo que o silêncio tombe gota a gota.


Tido por muitos como uma obra basilar do século XX, As ondas é um livro sofisticado que solicita a sua dedicação e a sua persistência. Percorrendo temas como a solidão, a amizade, a espiritualidade, o autoconhecimento etc., Virginia Woolf cria uma obra potente, sensível e inquietante. Quando compreendemos o seu ritmo, a sua belíssima prosa e a sua autenticidade, a leitura começa a fluir e a ganhar outros contornos. Virginia Woolf tem a capacidade de nos surpreender a cada livro – e As ondas é um maremoto.

E que maremoto! Estende-se a obra ao fechar o livro. E esse gesto representa sempre um diálogo com todas as formas que se manifestam ao longo da narrativa. Sem muros. Sem amarras. Sozinho, no cais deserto, vê-se mais íntimo do mundo. Com ele. Dentro dele. De súbito, fica óbvio que, quando Virginia Woolf escreveu As ondas, ela não se afastou do livro para admirá-lo de algum canto distante. Virginia Woolf escreveu As ondas e mergulhou em sua obra – essa partida que é, por fim, um excesso de intimidade com o mundo, não uma fuga; partida que não tem volta, como são todos os últimos encontros, extremos. Essa é a potência da criação.


É a morte. A morte é o inimigo. É contra a morte que cavalgo com minha lança erguida e meu cabelo voando atrás de mim, como o de um jovem, como o de Percival, quando galopava na Índia. Cravo as esporas em meu cavalo. Vou lançar-me contra ti, imbatível e inflexível, ó Morte!


segunda-feira, 11 de março de 2024

Aqui, onde o destino real de cada indivíduo é buscar-se


A ave sai do ovo. O ovo é o mundo. Quem quiser nascer tem de destruir um mundo. A ave voa para Deus. E o deus se chama Abraxas.


A obra “Demian” (1919), do alemão Hermann Hesse (1877–1962), é um romance de formação (Bildungsroman) que narra a história de Emil Sinclair, protagonista que transita entre as vidas profana e pura, experienciando as suas sombras e luzes. Parece-me que nunca é fácil falar sobre algum livro de Hermann Hesse, pois as suas obras são sempre marcadas por passagens que nos convidam a grandes reflexões. A fuga da banalidade humana para encontrar dentro de si a transcendência da vida, núcleo do pensamento de Hesse, também está presente em “Demian”, que, aliás, é visto por muitos como uma espécie de O Lobo da Estepe (1927) adolescente.


Todos proviemos do mesmo abismo, mas cada um – resultado de uma tentativa ou de um impulso desde o fundo – tende a seu próprio fim.


O começo do livro conta a infância de Emil Sinclair e a descoberta dos mundos ideal e real. Ainda que os seus familiares, que retratam o mundo ideal, tentem defender o filho das adversidades da vida, afastando-o de zonas sombrias, o livro nos diz que é por meio da experimentação que evoluímos e expandimos o nosso discernimento sobre aquilo que realmente nos convém. É a partir desses embates que se alcança o ponto nevrálgico do nosso destino.


Mas creio que devemos adorar e santificar o mundo inteiro em sua plenitude total e não apenas essa metade oficial, artificialmente dissociada.


Nesse ponto, o sofrimento de Sinclair começa a partir de uma mentira. Tentando impressionar um grupo de colegas, o garoto se gaba de ter furtado alguns objetos que, na verdade, não furtara. Franz Kromer, o garoto mais arrojado do bando, querendo se beneficiar do ocorrido, começa a assediar e a extorquir Sinclair, exigindo do menino dinheiro e outras coisas absurdas, como um encontro com a sua irmã mais velha.

Atormentado por Kromer, surge na escola um novo aluno: Max Demian, um rapaz que representa um ponto de equilíbrio, aquele que já experienciou ambos os mundos e que já alcançou uma consciência maior das circunstâncias da vida. Diferentemente de Sinclair, que hesita e se amedronta perante às adversidades, Demian age com firmeza e coragem, atitudes que despertam a admiração do protagonista. Embora não seja muito mais velho que Sinclair, Demian assume uma postura de orientador do amigo, ajudando-o a solucionar alguns problemas, inclusive o seu impasse com Kromer – o que talvez possa ser lido como a inteligência atravessando e vencendo os mares da irracionalidade e do medo.


– Falamos em demasia – disse ele com gravidade desacostumada. – As palavras engenhosas não têm qualquer valor, absolutamente nenhum. Só conseguem afastar-nos de nós mesmos. E afastar-se de si mesmo é um pecado. É preciso que se saiba encerrar-se em si mesmo, como a tartaruga.


Assim como outros livros de Hesse, “Demian” também apresenta diversos elementos místicos e alquímicos. Após uma aula sobre Caim e Abel, Demian desenvolve uma outra chave de leitura para o tema abordado em classe, dizendo que Caim fora, na verdade, um homem ousado e inigualável, pois, à medida em que os demais seguiam um comportamento de gado, Caim tinha uma marca que fazia dele um ser ímpar e corajoso. Aqui, Demian explica para Sinclair que aqueles que carregam consigo o símbolo de Caim conseguem se identificar e conversar espiritualmente, usando habilidades telepáticas. Tomado pela aflição e pela inquietação, Sinclair atravessa conflitos existenciais e, por vezes, também quer fazer parte da massa, mas gradativamente vai tomando consciência da sua singularidade e percebendo que também é um portador do sinal de Caim.


Nenhuma outra prática nos revela tão singelamente quanto esta até que ponto também somos criadores e como nossa alma participa sempre de uma contínua criação do mundo.


Outros personagens também são introduzidos à narrativa para ajudar Sinclair em sua fase adolescente. O organista Pistorius, com os seus pensamentos e as suas máximas, é uma figura intrigante que nos leva constantemente à reflexão. Pode-se dizer que, de alguma maneira, ele produz o mesmo efeito que Demian produziu em Sinclair durante a sua infância. Porém, no instante em que Sinclair percebe as limitações de Pistorius e que este não é capaz de guiá-lo integralmente em sua jornada, o livro reforça a filosofia de que cada um é senhor de si e que o trajeto em busca do autoconhecimento precisa ser percorrido por conta própria. 


Desprendeu-se de mim, fugindo às perguntas com que eu o martelava, e sua estranha personalidade continuou inspirando-me os mesmos sentimentos confusos, mescla de gratidão e de receio, de admiração e temor, de simpatia e de íntima repulsa.

No último terço do livro, a personagem Eva, que é a mãe de seu amigo Demian, contribui para o amadurecimento de Sinclair, como alguém que também carrega consigo o sinal de Caim. Aliás, essa citação a Caim não é a única que faz alusão a trechos da bíblia. Além de ser uma experiência de transcendência, “Demian” critica a tradição judaico-cristã, sugerindo que essa doutrina de vida subtrai do sujeito a capacidade reflexiva e formata as suas condutas. O que fica exposto ao longo da narrativa é a ideia de que nenhuma religião ou doutrina filosófica deve ser seguida cegamente, mas deve ser usada na medida em que se configura como ferramenta para a transcendência pessoal.


– Sempre é difícil nascer. A ave tem de sofrer para sair do ovo, isso você já sabe. Mas volte o olhar para trás e pergunte a si mesmo se foi de fato tão penoso o caminho. Difícil apenas? Não terá sido belo também? Podia imaginar outro tão belo e tão fácil?

 

Com influências de Friedrich Nietzsche e Carl Jung, “Demian” é uma jornada potente em busca de nós mesmos que influencia e provoca leitores do mundo inteiro. Conforme mencionei no início do texto, é sempre complexo escrever sobre alguma obra de Hermann Hesse. Acredito que “Demian” tem muito a contribuir e que todos deveriam lê-lo ao menos uma vez para criar as suas próprias percepções, sobretudo os mais jovens, que ainda estão lapidando os traços de sua personalidade; no entanto, é preciso compreender que o ponto de vista ético de Hermann Hesse, que é o de  questionar o status quo das coisas, não significa simplesmente agir ao sabor de suas vontades, sem considerar a perspectiva do outro.   


Por tanto tempo antes solitário, conheci então aquela comunidade que se faz possível entre homens que experimentaram a mais absoluta solidão.


Como “Demian” é uma obra cheia de simbolismos, é sempre possível encontrar alguma coisa nova em leituras futuras, pois o desdobramento de seus compassos é sempre profundo e um tanto assombroso. Nesse sentido, não podemos perder de vista, por exemplo, que Caim é aquele que carrega consigo o sinal sanguinário de um homicida. Dinamitar o mundo para se reerguer – uma das ideias sustentadas ao longo da narrativa – não significa meramente abalar e destruir as estruturas que se habita, mas, antes, trabalhar sob as suas ruínas para erigir-se como sujeito, um outro, renascido fora das fronteiras da coletividade. “Demian” é um livro iniciático. 


Uma mesma divindade indivisível atua sobre nós e a Natureza, e se o mundo exterior desaparecesse, qualquer um de nós seria capaz de reconstruí-lo, pois a montanha e o rio, a árvore e a folha, a raiz e a flor, todas as criaturas da Natureza estão previamente criadas em nós mesmos, provêm de nossa alma, cuja essência é a eternidade, essência que escapa ao nosso conhecimento, mas que se faz sentir em nós como força amorosa e criadora.

segunda-feira, 4 de março de 2024

Àquele que procura o sentido flutuante das coisas entre as ruínas da vida


Imersa nas sombras e nos brilhos da alma, a crítica pintou por incontáveis ciclos o nome de Hermann Hesse (1877–1962) com tintas de delírio e clarividência, separando-o entre o que é e o que poderia ser, como se sua escrita fosse o espelho quebrado de um cosmos que se desfaz em partículas invisíveis, que se dispersam nas mãos do tempo. Ali, no entremeio das névoas e da multiplicidade das formas que giram entre as dimensões, surge O Lobo da Estepe (1927), não como um livro, mas como uma sinfonia que se derrama nas brechas do surreal e do psíquico, expandindo-se como uma serpente que se enrosca nas ranhuras da consciência. Hesse se torna o arquétipo, a sombra que caminha à margem do ser, tocando as desventuras daqueles que não encontram mais abrigo em um mundo que se desfaz sob os pés, enquanto eles, na sua errância, buscam o sentido perdido em meio ao caos da existência.

Harry Haller, o homem sem raízes, fragmentado por dentro e por fora, despojado de sua identidade e, ainda assim, impregnado de sua natureza, vê-se enredado nas teias de um destino que não lhe pertence e, paradoxalmente, se inscreve nele com uma força irreprimível. É como se ele fosse um fantasma que percorre o vazio de uma casa que não é sua, mas que, ao caminhar por seus corredores, acaba fazendo dela a morada da sua alma. Nesse labirinto, o fio que o guia não é senão o próprio abismo — aquele espaço onde a ascensão e a queda se encontram, onde a luz e a escuridão se entretecem em um contínuo movimento, onde o ser se dilui e se reconstrói, sem nunca alcançar a plenitude, sem nunca alcançar a dissolução.

Ele, o homem sem morada, o espectro que se desmancha nas bordas da existência, rasteja entre os territórios do saber e da ignorância, como uma sombra sem corpo que busca e escapa da luz. Harry vive condenado a um ritmo implacável que pulsa em dois tempos, em duas camadas de realidade que se entrelaçam como se fossem danças antagônicas de um cosmos que, distante e implacável, o observa de longe, com um olhar de sedução que é tanto sedativo quanto revelador. A sua vida se torna um vórtice, um redemoinho que gira entre o sol e as trevas — uma batalha ancestral de opostos que, ao se diluírem no movimento do tempo, formam uma sinfonia dissonante de incertezas, onde o som do caos e o sussurro da ordem se confundem, criando uma melodia inefável, que se perde na grandeza do ser.

Em seu “eu” solar, Harry se sabe distante, elevado, imune às trivialidades do mundo que o cerca, um ser que exala um saber ancestral, uma sabedoria que se impõe não como um presente, mas como um fardo — um legado que carrega o peso de todas as expectativas, de todos os olhares que tentam se aprisionar ao seu espírito. Mas, no momento em que seu “eu” sombrio se revela, ele se vê diante do Lobo da Estepe — o corpo primitivo, o instinto que habita as sombras e que se alimenta das pulsões animalescas que ultrapassam a razão. Ali, nesse abismo de si mesmo, ele encontra a brutalidade que reside nas profundezas do ser, onde a racionalidade se dissolve como bruma, e os impulsos se tornam os deuses de um mundo sem leis, sem regras, sem limitações. É nesse espaço, no escuro e no pulsante, que Harry se vê sem controle, entregue ao fluxo incontrolável de forças que não pode mais negar, mas que, de alguma forma, o definem e o transformam.

O conflito que se desenrola no âmago de Harry Haller, entre o solar e o sombrio, não é somente uma batalha interna, mas uma tela viva onde as sombras da psique se estendem, desbordando, enquanto as angústias de um ser que se dilui e se reconstrói, como um rio que se desfaz e refaz em seu próprio curso, se tornam as tintas que desenham a paisagem do seu ser. A dualidade que ele acredita sustentar a sua substância, o seu destino inevitável, não passa de uma máscara — uma construção que se ergue, sólida e enganosa, como um muro que o aprisiona em sua própria incompletude, uma limitação imposta pela necessidade de encontrar sentido no que não pode ser compreendido. Ao se deparar com o folheto — o tratado que desvela as palavras do lobo e do homem — Harry se vê diante de uma miragem que, de tão próxima, se torna mais real do que a própria verdade que ele carregava até então, um reflexo do que ele nunca ousou tocar, mas que, agora, se ergue diante dele como um espelho que lhe devolve um rosto que ele não reconhece, mas que sente, com um arrepio, como sendo o seu.

É nesse instante que Harry é engolido por essa revelação: ele também se desloca, se perde em sua própria percepção, absorvido por uma força que o faz desaparecer, dissolvendo-se nas palavras que já não podem mais contê-lo. O texto se desmancha como neblina, como se a própria palavra fosse a chave que abre o portal para outro lado — um lado onde a realidade se desfaz, onde o “eu” se dilui e onde o caos da transcendência se estende como horizonte infinito. Ao ser puxado por essa força incontrolável, o narrador percebe que o que antes era uma descrição, um relato, agora se torna um movimento — uma oscilação que ultrapassa os limites da compreensão, onde ele, como qualquer outro ser, é apenas uma partícula que se perde no fluxo do todo. Nesse desvio do texto, a própria ideia de “verdade” se desintegra, tornando-se não mais uma conquista, mas um precipício que engole a própria existência, um espaço onde todas as certezas se desfazem e onde o ser se torna puro fluxo, pura transgressão, um espectro que não mais pertence ao mundo das formas, mas ao tremendo e insondável reino daquilo que não pode ser nomeado.

Com a chegada de Hermínia, o elo perdido que, como um relâmpago, ilumina a prisão oculta em que Harry Haller habita — a prisão de uma existência que se esconde nas dobras da ilusão, disfarçada sob camadas de sabedoria aparente —, o enredo se desdobra como um fio que se estica ao longo do infinito, dobrando-se em formas que desafiam a lógica e a linearidade, trazendo à tona figuras que são simultaneamente fragmentos de um quebra-cabeça e sombras que giram em um sonho coletivo. Hermínia, com seu olhar penetrante e seu corpo que é mais um reflexo do que uma forma concreta, não é somente a chave para o entendimento: ela é o espectro de uma possibilidade não considerada, o fantasma de um mundo que se esconde atrás do véu da razão, onde o real se dissolve e se refaz, fugindo das garras da compreensão humana. Ela aparece como uma entidade que ultrapassa o racional, uma porta que se abre para o além do visível, para as profundezas de um ser que não se deixa aprisionar pela moralidade ou pela lógica do mundo exterior.

Hermínia revela a Harry o que ele nunca soubera, o que ele nunca imaginara: que a sua vida, tão densa, tão saturada de angústia e de sofrimento, é, na verdade, uma ficção, uma criação que se mantém aprisionada pela necessidade humana de encontrar ordem em um caos infinito. Ela mostra-lhe que todas as suas tentativas de encaixar-se em categorias rígidas, de buscar respostas em caminhos preestabelecidos, são, na realidade, os grilhões que o aprisionam em uma existência limitada. O ser, ela o ensina, não é uma construção rígida, não é um edifício que se edifica em alicerces fixos; o ser é, antes de tudo, um jogo de sombras, de ecos que flamejam no vazio, de reflexos que se multiplicam em espelhos quebrados. É uma ressonância que se dissolve nas camadas infinitas, onde o que é nunca é totalmente reconhecido, onde o que se mostra é apenas uma parte do todo — uma parte que se perde, se transforma, se dissolve no tecido vibrante de um universo em constante movimento. A verdade que Hermínia lhe revela não é uma verdade definitiva, mas uma verdade fluida, que escapa pelas mãos, como a água que se perde nas pedras, como o vento que não pode ser tocado, como o próprio ser que se dissolve e se reconstrói a cada instante.

A história, como um espelho quebrado, espalha-se em mil pedaços, refletindo cada fração da verdade, cada fragmento da alma. Harry, agora perdido em seu próprio interior, se vê diluído, dividido, como um ser que se fragmenta ao ser tocado pela luz de uma realidade que se contorce. Cada fragmento é uma faceta, um reflexo que se estende infinitamente, uma multiplicidade que se expande para além dos limites de sua mente, transcendendo a racionalidade e se espalhando nos confins do impossível. A narrativa, agora, não mais se prende a uma linha, a um fio condutor – ela se torna uma viagem surreal, uma espiral de movimento líquido e indeterminado, onde o tempo não se organiza mais de forma linear, mas se enrola sobre si mesmo, se distorce, criando uma babel ordenada de imagens que se fundem com as palavras e se dissolvem nas lacunas do entendimento.

O tempo e o espaço, antes domados pela lógica do pensamento, se desvanecem. O relógio perde seu compasso, e os marcos do espaço se tornam formas fluidas, que se esticam e se contorcem, desafiando toda tentativa de compreensão. Harry, sem mapa, sem bússola, se entrega a um movimento que não é mais uma jornada com destino, mas um deslizar em direção ao vazio. Ele se lança para o abismo da experiência humana, onde as verdades se tornam inconstantes e as certezas se desfazem como névoa. Cada passo dado é um mergulho no desconhecido, uma travessia pelas vertentes do ser que se revelam em todas as suas incertezas, em todas as suas contradições. O Lobo da Estepe, antes visto como um monstro a ser domado, agora se revela não como uma fera a ser vencida, mas como uma figura que dança nas sombras, uma presença que se alimenta das paradoxais verdades da existência – uma criatura que não se contenta com respostas, que se alimenta da multiplicidade, da fragmentação e da ambiguidade. Ele não é mais uma ameaça, mas um guia, o reflexo de uma verdade que se faz por meio da desordem e que, ao mesmo tempo, abre as portas para a revelação do eu.

À medida que a narrativa se desvia de sua estrutura, a fluidez, com sua sedução sutil e inevitável, se torna o novo ritmo, o novo compasso da história. As palavras, antes rígidas, encarcadas nos limites de um entendimento convencional, começam a se dissolver, a suavizar-se, como se buscassem escorregar pela superfície do pensamento, seguindo um movimento hipnótico que nos conduz cada vez mais fundo nas camadas da existência. O leitor, agora absorvido por essa névoa que se estende como um manto espesso, sente-se como se estivesse sendo consumido por uma loucura invisível, uma presença que se aproxima de maneira insidiosa, não mais de fora para dentro, mas de dentro para fora – sempre mais próxima, sempre mais invasiva, como se a própria escrita fosse um portal não para o entendimento, mas para o esquecimento, um chamado irresistível para o precipício daquilo que está além da compreensão.

O livro, então, se torna mais do que uma mera obra literária; ele se transfigura na voz de uma inquietude que nunca cessa, uma desrazão que pulsa e vibra em cada palavra, como se Hesse, ao escrever, não tivesse apenas dado forma a uma narrativa, mas invocado algo — algo que habita nas margens do entendimento humano, que escapa ao controle das convenções e se insinua nas fissuras da mente. Ele não escreveu apenas uma história, mas uma chave, uma senha que abre as portas para o que está além das palavras, além das categorias do raciocínio, para um reino onde o homem, em sua totalidade, se dissolve. Cada página, em sua intensidade e incerteza, é um convite para adentrar esse outro lugar – um lugar onde a ordem do mundo se desfaz, e onde o ser, ao invés de se encontrar, se perde, se dissolve em fragmentos que são, simultaneamente, o todo e o nada. É nessa fusão, nesse precipício de não ser, que o livro se torna a verdadeira invocação: uma chamada para o infinito que reside além das palavras e que nunca poderá ser nomeado.