segunda-feira, 26 de fevereiro de 2024

Com o ímpeto daquele que avança em direção a uma muralha de névoa, o seu ritmo não compassa a mansidão, mas o temporal



Lúcio Cardoso (1912 – 1968) foi um escritor corajoso que percorreu uma trajetória literária liberto de idiotismos e tendências, e o livro Crônica da Casa Assassinada, publicado em 1959, atesta isso com bravura.


De longe ainda, através da ramagem, distingui as luzes da Chácara. A fachada, que se ia descobrindo aos poucos ao jogo dessa claridade esbatida — mantida pelo esforço de um gerador deficiente, as luzes esmoreciam com frequência — adquiria um aspecto mortuário.


O magnum opus do escritor descreve a ruína da família Meneses, que, tomada pela ganância, pela ambição, pela inveja e pelo ciúme, termina se devastando. Com uma linguagem metafórica e simbólica, o livro é um romance que, narrado por diversas vozes, anotações, depoimentos e passagens de diários (projeto ousado para o seu tempo), cria, ante os olhos do leitor, uma atmosfera inquietante, intensa, sombria e profundamente psicológica. Com isso, Lúcio Cardoso desbrava o íntimo da psique humana, refletindo o ambiente opressivo da mansão e as sombras que compassam as sensações de cada membro da família.


E eu sou desses que não sabem viver sem exaltação: foi consciente que eu me degradei, porque sentindo-me menor do que os outros, era pelo caminho do martírio que conseguiria elevar-me acima deles, e tornar-me o maior do que todos.


O livro expõe as hipocrisias de uma sociedade que vive de aparências. O interesse é o que sempre está em jogo. Dinheiro, extravagância, controle, influência são algumas armas usadas para se alcançar benefícios próprios, mesmo que isso signifique passar por cima do outro.

Remando contra a maré, Lúcio Cardoso inverte todas as polaridades e sugere ao longo da narrativa que o maior pecado é não experienciar a vida em sua totalidade, furtando-se da possibilidade de compreendê-la em todas as suas dimensões e contrastes. É justamente nesse sentido que desperta grande interesse episódios que se desenrolam em um círculo onde a ideia do pecado é arraigada à moral e ao pensamento religioso.


André, não renegue, assuma o seu pecado, envolva-se nele. Não deixe que os outros o transformem num tormento, não deixe que o destruam pela suposição de que é um pusilânime, um homem que não sabe viver por si próprio. Nada existe de mais autêntico na sua pessoa do que o pecado — sem ele, você seria um morto. Jure, André, jure, como assumirá inteiramente a responsabilidade do mal que está praticando.


A narrativa é recheada de figuras complexas, cada uma arrastando consigo os seus segredos soturnos e os seus pesadelos. Esse ponto de vista desenha o panorama exato da carioca Nina, personagem ambiciosa que foi ludibriada pela aparente fortuna de Valdo Meneses. Assim que toma ciência da real condição do esposo ao chegar à mansão da família em Minas Gerais, Nina resolve abandonar tudo e voltar para o Rio de Janeiro; a sua presença, no entanto, ainda que breve, foi suficiente para abalar todas as estruturas da mansão.


Um dia, no jardim, disse-me que o pecado é quase sempre uma coisa ínfima, um grão de areia, um nada — mas que pode destruir a alma inteira. Ah, Betty, a alma é uma coisa forte, uma força que não se vê, indestrutível. Se uma minúscula parcela de pecado — um nada, um sonho, um desejo mau — pode destruí-la, que não fará uma dose maciça de veneno, uma culpa instilada gota a gota no coração que se quer destruir?


Angustiante, lancinante e encantadora, a leitura de Crônica da Casa Assassinada é uma experiência literária de claustrofobia. À medida em que a Chácara se esfacela ao longo da narrativa, seus cheiros e barulhos submergem com violência. Talvez seja justamente ela, a Chácara – sempre mencionada com inicial maiúscula –, a grande personagem do livro, a matriarca, que, página após página, é encarnada como o ser que concentra e espelha todas as desgraças que acontecem dentro de seus limites. 


A casa é a mesma, mas a ação do tempo é bem mais visível: há outras janelas que não se abrem mais, a pintura passou do verde ao tom escuro, as paredes gretaram-se pelo esforço da chuva e, no jardim, o mato misturou-se as flores.


Desafiador, sensível e cheio de entretons, Crônica da Casa Assassinada é um livro que reivindica dedicação e concentração. É uma experiência que praticamente nos leva à paranoia, fazendo-nos suspeitar de todas as personagens, inclusive daquilo que lemos. É impossível sair ileso dessa jornada, pois, de alguma forma – quer gostemos ou não –, é um livro com o qual estabelecemos diálogos profundos.


Só eu poderia ali penetrar, e tocar o desenho daquela mancha, continente preto alargando-se na cal, abrindo-se como uma teia num dos seus extremos, alongando-se, subindo mais num único traço agudo e rebentando, afinal, como um fogo de artifício que se desfizesse mudo e sem luz.