quinta-feira, 13 de abril de 2023

Bem-vinda ao continente dos frágeis: podes parar de nadar


Na fenda do instante onde a luz se petrifica e o tempo desaba sobre si mesmo, fui varrido para fora do que se poderia chamar de antes. Não houve aviso, não houve prenúncio, apenas o desfiar súbito do tecido invisível que separa o que se espera do que se é. Não foi rito, pois ritos pressupõem consciência, e o que me coube foi o rapto de um desígnio sem escolha. Despertei outro, não porque me tornei, mas porque sempre fora sem saber. Ali, entre o silêncio metálico dos aparelhos e a penumbra que sustém o intervalo entre a súplica e o milagre, meu corpo tocou o teu. Corpo sobre corpo, substância sobre substância, verbo antes de voz, sopro antes de nome — e o mundo se retraiu até caber no exato contorno de um abraço.

Se existe nome para aquilo que escapa a todos os nomes, se há imagem capaz de apreender o informe, que seja esta: eu sustentava o inexprimível entre os braços. O que não se reduz, o que não se dissolve, o que, sendo Um, multiplica-se em Ti. Pequena divindade, espelho lapidado em miniatura, cifra visível do que já era sagrado antes mesmo de haver boca para pronunciá-lo. O ar não me pertenceu, pois já te habitava; o mundo se dissolveu ao redor, pois o centro pulsava em ti. Restamos somente nós num universo que se extinguia para inaugurar-se novo, exato, redimido na justeza de um milagre que não pede testemunhas.

Mas toda luz, ao revelar, fere, e todo saber, ao instaurar-se, esmaga. O terror não veio de fora, mas de dentro — lucidez afiada que atravessa e refaz. Nenhuma mão sustenta este peso senão a que o recebe. Não há como repartir o vértice desta montanha, não há terceiras vozes, não há alívios. Serei eu, apenas eu, e para sempre eu, o nome irreversível que, ao ser pronunciado, chama-te filha. E, se o abismo do compromisso assusta, o amor é vertigem que paira sem medo da queda. Ele não se aprende, não se escolhe, não se dosa; ele é anterior a mim, além de mim, desmedido e inevitável.

Agora, tu, filha — que redesenhas meu rosto no espelho do tempo, que refazes meu ânimo no fôlego de cada amanhecer, que me ensinaste a fé de quem crê sem garantias —, és a órbita onde gravitam todas as esferas da minha substância. És prova de que o amor, em sua natureza última, não é oferta, mas destino; que doar-se não é virtude, mas sentença; que certos vínculos não se extinguem, pois existem antes da matéria e para além dela.

Serás sempre a prioridade. Antes das hesitações, antes das buscas, antes mesmo do eu que um dia fui. És a lei que ordena todas as leis, o eixo invisível que determina o giro das minhas escolhas. Mas há gênese, e dela não se aparta quem sabe que toda colheita pertence ao campo que a gerou. Antes de ti, havia nós, e esse nós precisa ser cultivado como se cultiva a terra: com mãos abertas, com tempo, com a paciência da seiva que sabe que só cresce quem primeiro se afunda. À tua mãe, Priscilla Morandi, raiz e fundamento deste milagre, minha gratidão sem nome. O amor que em nós brotou fez-se constelação, e nos cabe agora mantê-lo vivo para que dele sigamos colhendo eternidades.

Que a bênção recaia sobre aqueles que ouviram o chamado e seguem, com a reverência que o mistério exige, na honra inominável de ser pai.